sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Com as roupas de papai - Yahrzeit

Acendi a vela da memória; e dentro de casa, a flama esguia se espichava como criança ascendendo ao encontro d’alma lembrada. O jejum comum a todas as suas filhas, hoje dispersas, talvez fosse lembrado, mas o perdão da correria, quebrado por motivos de energia sobrevivente de salário.
No entanto, cumpri mais uma data de lembrança – já com o dobro da idade – no ritual encanto nostálgico trazido das palavras e sermões durante os anos que traduziram a alçada da existência. Após isto, um estudo complementar unindo força física, agitação e Sêneca... Meu El Malê Rachamin encontrado no descanso da alma que me deu a educação ideal.
Recitar a oração frente a lamparina d’alma lembrada ainda trouxe o olhar para o corpo que já envelhece em mim na cera da pele, porém no pensamento ilumina a curiosidade antes de derreter; é dizer, devo mérito à alma que criou... Medito a filha de suas ações – às vezes falhas, pois toda casa tem sua privada mas as famílias não se dão conta disso –, fecho os olhos me separando do mundo e refletindo na conduta humana as carências que determinam as mazelas entre a fé e a inteligência, relativas também ao próximo.
Boas decisões foram a sua alma lembrada. O cosmo superior, responsável também pela alegria, ampara os destinos deixados aqui e a sua emancipação. Cada destino por si num todo que tal alma ensinou: o verdadeiro ensino é a lembrança.

Permitiu-me o bom gosto da alma lembrada uma coletânea de boa solidão...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sobre amor e prêmios

"Feito avarenta conto meus minutos... Cada segundo que se esvai cuidando dela que anda noutro mundo; Ela que esbanja suas horas ao vento, aí... Às vezes ela pinta a boca e sai. Fique à vontade, eu digo, take your time!" (Recado da pessoa amada de cabelo cinza que imagina as suas cinzas-das-horas efêmeras... Respondo-lhe: você é um blues que vale a pena)
N’alguma hora da noite de sábado... Eram duas...
- Ei, espera! Uma chamada está passando na tevê. É sobre o prêmio!
- ... - A outra suspira impaciência.
- Tenho de anotar. O prazo encerra logo.
- Estávamos fazendo amor!
- Já, já eu volto... Fui menção honrosa num concurso famosíssimo. Logo, não vou perder a chance de conseguir uma classificação neste também.
- Bem disseste tu que não lecionas Literatura, mas faz amor com ela...
- Ô, meu mimo! – abraçou-a enquanto seus olhos vagos na parede branca projetavam os passos da sequência didática – Não cries em teus pensamentos um dilema como a música Boemia, que não há. Tu estás sempre à altura de uma grande poesia.
- Não é isso, amor... – escorreu nua e miúda entre os lençóis – Temo tua distância.
- Pronto! – concluindo suas anotações – Agora basta criar o relato e a avaliação.
- Não tens ambição de nós!
- Tenho ambição de ser. Não quero esperar a morte para saber que o “céu é o limite”...
- Tão linda e tão compromissada. Eu, aqui, aposentada, encontro sem limite um céu a minha frente...
- Compreende-me com tua maturidade – amontoa-se em seu colo – e confia meu repouso na aliança do teu carinho.
- Queres aquela música, minha menina?
- Por favor, minha pequena.
- “Acho que nem sei direito o que ela fala, mas não canso de contemplá-la...” – E parou – Queres algo mais importante para duas amantes? – Completou beijando-lhe as costas...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Com as roupas de papai

Tenho delas uma coleção de heróis. (Foto: Larissa Pujol)

As cores delas têm o mesmo coração posto nas estampas. São retas, geométricas de ponto ensolarado, ou palatáveis ao perfume exalado. O tecido desliza, mas transpira no abraço. O abraço deixado por ele bem para sempre me serve, me acolhe, me adorna. Tão bem me molda que até participa dos demais abraços que nele repousam.
Com tais vestes estive depois em tantos lugares, calando-me como ele em muitas músicas, exaltando rimas em noites altas e esféricas. Fiz um nó com sua camisa em minha cintura e ajo dentro de mim com todos admirando a pele e o tecido nobre. Mas agora estou sozinha e com sua lembrança converso.
Acredito que vestindo-o aprendi a assumir o através de mim... Questionei a preciosidade do vício que da verdade nunca é esperado nada. Encaro hoje o sol com a mesma ambição que ele me enxerga. O poder é pouco para quem faz da tempestade a sua educação...
Sinto-me confortável vestindo e adornando a criação de papai com palavras e suas roupas. O lugar daqui não há espaço, não há tempo. Há vida inteira para ir de frente e diferente. Pela minha porta já me acompanha o melhor vício – a mulher. Mas, eu estava sozinha, e resolvi vesti-lo.
Encarnei as mais lindas cores de anjo pela sua gravata! Papai tinha bom e artístico gosto como o meu. Tinha a mesma solidão. Tinha a mesma parada da ira de um rio escuro e profundo como o sofrimento verdadeiro do ser humano.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fulano de Tal e Sua Senhora (minha)

- Caros amigos, vejam quem sobe a Rio Branco cheios de pose: Fulano de Tal e a Sua Senhora (minha).
Como um casal moderno da música do Ney, eles tentam convencer que o prazer da foda está na procissão do sobrenome; mas os saltos dela embaixo da mesa já descobriram imediata e naturalmente a barra por onde se invade no meu vestido...
Hoje terá sessão única no Treze. Eles cumprimentam os amigos – aqueles que Machado de Assis já nos traduziu – e de braços dados se dirigem à saleta junto aos convidados de honra. A Sua Senhora (minha) exerce a mesma mecânica conversadora, conservadora cabisbaixa, armada e sorridente concordata, que entre os biombos me abraça fugidia confessando-se sem modos... Ensaiam pose para a coluna social, Fulano de Tal e Sua Senhora (minha).
Para o público hipócrita que não beija, ela bem disfarça com batom nude o cinismo de antes ter mordido meu hálito de uísque – com batom vermelho à Bakunin – se jogando sem governo em borrões de nudez...
Somente nós duas sabemos da imoralidade escondidas nas suas intenções. Que ela desce do carro de luxo e se deleita a pé na chuva para depois eu lhe recitar os Andrades, Anaïs, Telles, Gilka, Sand (ou Aurore)...
- Estimada poeta!
- Caro senhor, permita-me, pois, um aperto de mão...
Penso, ah, se o Fulano soubesse que com a mesma força eu aperto os quadris de Sua Senhora (minha)... A ela dirijo um cumprimento leve de bochecha, sussurrando-lhe no ouvido com o mesmo ar quente do cigarro: - a cor do batom é inspirada na cor dos teus mamilos, verdade?! – A Sua Senhora (minha) desequilibrou a pose do olhar, mas ainda se manteve firme no salto da boa-vida...
- Desejo tudo de bom aos senhores, Fulano de Tal e Sua Senhora (minha)... E que D’us os acompanhe, senhor Fulano de Tal e a Sua Senhora (minha!) 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Sincronia

E no cigarro que acendo para expirar lembrança, te trago – em vício – comigo... Assim que a promessa curta se quebra anuviada, te trago – em vício – comigo... Quando aquela mulher se esvai da minha boca rápida-inalcançável, ou quando tenho da sua foto o melhor ninho. Envolvida num abraço fantasma de nicotina, te trago – em vício – comigo...
Quando resolvo despir os sentimentos escusos, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho... Assim que deles recebo o colapso da minha existência, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho.
De mim mesma os passos não serão encontrados; pois o vento profundo já derrotou os teus desmanches carbonizados... Eu te deixo assoprando lábios de beijo – em nuvens perdidas – pelo meu destino...
A covardia me faz traduzir a namorada numa simples inspiração: te expiro – em resignado destino – pelo meu vício. Toda tua lembrança denigre a boa-noite: em lençóis de nicotina te expiro – em resignado destino – pelo meu vício...
No fim das contas, querida, esta minha inútil expectativa ridicularizada à invisibilidade expirada, pela atmosfera que te vejo ir embora, retorna exasperada: te trago – em vício – comigo... 

Why does it always have
To end with humiliation for me?
[...]
I'm in a love with the girl, I am...
Who's smaller and stronger and brave
Than I'll ever be...
(Yoñlu)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Crônica-imagem de Fidelidade

Cotidiano que me faz sorrir até perder a pose...
Já contei os homens que fui para a cama. Daqueles que bastava ordenar "leve", e com engenho leve me conduziam dispensando qualquer bebida. Contei também os homens que fiz chorar. Sorrio agora e penso, melhor ainda, que contei única a mulher que gosta de me fotografar. Essa sim, sei que conquistei...
Minha namorada me despe para os outros e às outras, esquece-se do zoom e vem se aproximando cada vez mais da minha pele. A única câmera a criar de mim sua Lilly Braun, me comendo com os olhos, eternizando o desejo alheio. Zombando da imaginação e do tesão alheio... Eu a conto única. Ela conta vantagem sobre todos os demais.
De lentes para conseguir ler, namorada que zela pelo meu corpo, esconde meus segredos efêmeros de henna, ameniza meus defeitos, receita-me apetitosa com a fôrma da minha silhueta que não a ilude.
Mulher de breves cabelos cinzas desvendando as minhas obscenidades disciplinadas de professora, desde os meus pés, minhas pernas, minhas saboneteiras, meu pescoço... Revela quando tudo o que inunda vem de dentro! Disfarça com sombra a rigidez dos meus seios recém-saídos das suas mãos! Namorada com câmera que enfatiza com luz as próprias partes carentes dela, as que ainda não tocou hoje...
Naturalidade dispensa correções. Ama-me ela sem filtros na minha pele branquinha, sem máculas e marcas de bronzeamento que envelhecem. Ela não perde o instante da minha boca entreaberta, da mão displicentemente jogada, do cabelo ruivo como véu... Escurece minhas pernas a esperá-la, clareia minhas costas com liberdade. Ela se fez única dentre todos os muitos! E, soberba, faz esses muitos que foram e os que desejam se moerem e triturarem seus corações e inflarem fantasias impossíveis comigo... Minha dona solitária do make-off com gozo! Desdenha minha vaidade e é insolente com minhas poses. Namorada-além! Pega-me desavisada, planejando aula, molhada, desprevenida. Capta o arrepio tateando meus ângulos numa óptica sua! Rima imagem com minha legenda... São palavras dela a serem colhidas em pixels para compor poesia. Possui-me de novo a cada par de olhos castanhos dela a me admirar. Ela me grafa nas retinas mecânicas ganhando todas as páginas do meu álbum. Fotografa-me, pois, a fidelidade.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Silêncio em linha reta

Um pedido que amo à Quintana. Sem telhado, sem risco. Num céu sussurrado me declaro amando baixinho – minha baixinha – dentro da minha casa e dos meus tecidos.
Os pássaros somente em paz eu os deixo nos códigos de sua voz, que a mim deixam-me só nesse estômago seu para levar uma vida a me devorar como Cazuza amou num segundo.
Não há devagar, nem amada. Há um conjunto de breves, de ainda, de limite e de múltiplo. O paradoxo este que querer! Antes suave que tudo... Suave, consoante Drummond, como um anjo torto que vive nas sombras. Mas ao invés de dizer “vai...”, diz “vem...”
Por favor, sem perguntas sobre por que haveríamos de dançar. Se não, arrisco-te entre os meus braços provando o perigo de colocar o caos em movimento! Logo exprimo do meu corpo o nascer do sol mais lindo apenas para que aprecies despertar todo dia em mim...
Hum, namorada... Eu não ladro. Mas à Quintana te mordo baixinho rezando para um dia te encontrares e perceberes que o que falta em ti sou eu... Por enquanto desenho no vidro do banheiro embaçado um coração com nossas iniciais. Desenho conformada em ver um amor platônico se dissolver em cálidas lágrimas...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

De uma história

Com o estado d’espírito já lúcido para morrer, um caro esquecido busca a lealdade na tabacaria de Pessoa... Não nos apresentamos, fugimos da característica humana da palavra para alegrar o desconhecido que não nos alcunha.
O caro, esquecido de seu presente anoso, já revela seu infinito sensível... Compartilha ideias, trabalha seus fatos hoje desfalecendo na sua lenta linguagem afogada os pigarros por ser homem. Aproveitei-o ouvindo “a voz de Deus num poço tapado” e entendi que a ideia de felicidade é ir direto para o nada! Ainda que não haja escolha física ou honesta, sempre transitarei na rua que coloca defronte da outra a verdade e a realidade.
O caro esquecido pelos filhos também comentou que enfim fica só num canto para pensar e desvincular-se da pressa da ordem existencial. Suspirei o cigarro numa condição eterna de ser gente... E ele corrompeu a saudade num lapso esfumaçado de creditar no abandono uma melodia instrumental do vento que lhe acha a pele.
Então metade, um quarto, um sexto, um inteiro. Todas as fases são opacas. Fora da cama, a nossa verdade apenas tem sonhado para si mesmo. No entanto, tentamos conquistar o mundo sob a realidade. Ao menos, fumamos com tanta verdade extirpando do vício a acolhida das nossas filosofias. Na mesma tabacaria o caro esquecido e eu naquela mesa à Nelson Gonçalves, defronte “sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície.” Assim para que não haja metafísica que conheça a esperança de um caro esquecido. Dada a hora, tive de acenar-lhe um adeus. E ele sorriu leal ao poema de Pessoa com o mesmo universo sem ideal e vencido, “como se soubesse a verdade”...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Crônica epistolar: Um beijo no escuro

Foto: Larissa Pujol

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

                         Florbela Espanca

O fato de dizer que te amo é para mim um sofrimento, uma traição comigo mesma. Não apenas por ti, pelo amor que tu sentes por aquele outro. Uma traição minha.
Ah, como poderia eu te contar que te amo, se prometi a mim mesma este silêncio? É como se o medo fosse a cláusula presente no pacto comigo mesma, logo sucumbindo a conclusão que a esperança é um empréstimo que a felicidade nos faz.
Agora já escrevi, já me abri. O medo que eu tinha, eu não tenho mais. Não tenho! Dá-me a chance de te mostrar, minha querida. De te fazer esquecer, entre outras coisas, esse indivíduo que, mesmo vivendo sob o teu mesmo teto, nunca teve olhos para ti. Desculpa se sou egoísta, mas é que estou precisando ser para, enfim, te provar que meu amor é verdadeiro.
Desculpa... Aliás, também não tenho que te ficar pedindo desculpas! Amar é jamais ter que pedir perdão, como dizia o velho O’Neal. Eu não quero te pedir nada, quero te dar. Oferecer-te o que tem de mais puro em mim. Quero te oferece alguma coisa, muita coisa, porque dentro do meu coração sozinho apenas existe o dom de ser teu.
Eu te amo.
L.P.