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Ética e espaço público: um breve ensaio

Em breve sairá meu voo, anunciou uma bela voz feminina no alto-falante. Entre quem se atrasa e quem caminha lento tentando igualar o significado de tempo com falta do que fazer entre as lojas e cantinas do aeroporto, analiso o espaço-mundo do “desculpe, com licença” e do “vamos sentar aqui” e “daqui a pouco” e fones de ouvido para concertos particulares de tédio... Sobre mim: Bons leitores desconhecem a espera. A concentração é o verdadeiro diluidor do tempo. Eis a interpretação: conceito não é lei.  O fazer individualista é ilusão. Embora haja vezes que a solidão nos acompanhe, sempre será imprescindível a companhia da outra pessoa, mesmo que seja para o pensamento. A ética suporta a indagação: com quem desejamos ou suportamos estar juntos? E disso oriunda contemplação empática e responsabilidade pessoal. Com quem desejamos ou suportamos estar juntos revela muito sobre os nossos exemplos de julgamento e consistência de ações. Na atividade do querer está implícita a afirmação do outr…
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Apocalipse de mim

Envolvidas pela luz da velha e fraca lâmpada fluorescente da biblioteca, no chão entre discos, livros e rascunhos de avaliações finais (porque toda poesia tem sua justificativa no fardo), jazz e paz, uma chuva fina, carinhosa finalmente, neste fim de mundo:
- Se você não existisse, Larissa, eu teria de inventá-la.
- Talvez isso te fizesse uma releitura de Mary Shelley, um bocado Dr. Henry Frankenstein.
- Não, isso me faria um Big Bang.
- Que escolha curiosa! Por que não D’us?
- D’us é muito homogeneizador para você. Toda criação divina vem impregnada de um discurso de amor fácil. O Big Bang é mais visceral, é imprescindível, mesmo que a gente não entenda, não aceite ou não ame. Prefiro pensar assim, Larissa, como a grande expansão de algo muito denso e quente e frio que acontece radiante, incontrolável, intenso, impulsivo, impassível e impossível, mas espetacular na sua frente e...
- Boom?!?
- Sim! Eis o universo você.
- Isso foi muito bonito.
- Claro que foi. Isso foi você, Larissa.…

Pó de compaixão

A fotografia que deu errado, mas que achei bonita mesmo assim. Por vezes há beleza no erro e errando tenho a possibilidade para sempre melhorar. Quando tudo dói, deseja-se o básico: “ar para respirar, chão para caminhar...”. Há quem diga que quando as pernas não funcionam a cabeça funciona; e eis que ando com os olhos relendo rascunhos e isso tem me rasurado o coração. Fora eu talvez tão concreta como as coisas de quem escreve dando-se conta que a saudade ficara guardada em gavetas mal trancadas... Passarinho? Que som é esse? Quem sabe o nome dele? Quintana voou por mim enquanto todos se foram. Com todo este meu tamanho, o que posso dizer sobre valentia? Talvez ali, naquele sol que tem rastro de rua, eu me ajude a caminhar; e logo o momento quando a lua faz caminho e forma de mim os passos para os meus sonhos guiar. Porque isso traz a resposta da alma... Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Pela narrativa dizem que ela é Espectro

Chamei Guimarães Rosa para me falar sobre coragem, ele preferiu falar-me sobre saudade. Pressinto no feriado a vereda pela qual farei intensa viagem para dentro de coisas adormecidas em mim. Que esteja aberta esta minha casa de relato.  Andava com uma saudade impecavelmente latente em mim. Custo emocional alto de quem busca equilíbrio na loucura da arte. Um pé no chão, o outro voa.  Procurei amigos perdidos, amores de olvido, paixões abandonadas. Permaneci indelével. Em meio a um turbilhão de novas pessoas, amigos, alunos, colegas, pesquisadores, universidades, viagens, artigos, ensaios, contatos, eu não a vi ali tão carente de mim a esperar a reciprocidade que sempre teve: Oi, Solidão! Solidão, que bom te rever. Como amo de ti o fecundo tempo comigo. Reaprendo limites, ângulos e formas de um monólogo cujo tema entrega à linguagem os óculos do direito. Sigo assim, quanto maior a flexibilidade, maior é a força. Aos fatos meu mais sincero: muito obrigada. Um te amo por toda paciência d…

“Mas o relógio te cobra o dia de amanhã”

Ela se vai, mas não sem antes e deixar um mundo nas mãos. Dia de despedida – ela diz. E que dia não é? – respondo. Mulheres maduras. Mulher com a qual eu converso e ela reflete o melhor de mim: nua e crua. Na flor do bem e do mal-me-quer somos quem não tem o tempo baudelaireano para descobrir o que o destino prepara para nós duas. Queremo-nos bem e é simples assim. De ambas, sou a que improvisa posições malucas para aliviar a dor e eis que é ela quem me diz: é tão belo o teu balé dramático. Nada melhor que ser poesia ao olhar apaixonado dela. Fico-lhe grata por amenizar minha existência torcida em dias ruins e pela casa, no denotativo e conotativo da palavra e pelos medicamentos e pelo livro e pela foto e por ser ela. Encolher: do verbo plantar saudade do meu corpo nela. Sou sua Lavínia do Marçal e eu sei como exatamente tenho que fazer morrer... Boas e más notícias dependem dos lábios que saem. Na despedida foram nossos anelares que se entrecruzaram na colombina intenção de moldar a…

Paz adjetivo

Cuida bem de mim... Então misture tudo dentro de nós...
Ela não cansa de criar eternidades em mim. Uma foto de paz conforta-me no leito. Com o poder de tornar substantivo em adjetivo. Paz adjetivo em um mosaico de mim de incontáveis formas de calor. A cidade, a febre, as roupas da cama, a impaciência. No entanto, ela vê somente uma forma de calor: eu. Meu lado notívago enciúma tantas janelas ensolaradas em meu quarto. Saudade engole a gente, saudade engole a gente, pequenina. Disfarço saudade dela com saudade de lugares. Mais quinze dias de laudo e todos os sonhos do mundo descansam em pernas para o ar. Expressão essa por motivos de saúde. Queria eu dar-lhe um até breve e fui me cuidar. Passado me liberta do medo, direto do túnel do tempo, os dias que assim acumulo de abraço para salvar meu coração. Cada leitura me alerta ao terminar. Atenção e paro o capítulo. Talvez seja ela pensando baixinho “eu cuido de ti”. A distração é tão frágil quando é a presença anímica dela que realmente m…

À cifra de Casinha Branca

Ache-nos onde não tem ninguém. Voei. Vem, ar! Meu réveillon particular: improvisado nos caiu muito bem. Grata pelo canto deserto e em paz que me aninham. Certo por linhas tortas que meus pés torcem... Nós brindamos com refresco e colo. Celebramos não querer estar em outro lugar, outro lugar senão um começo de ano sereno como foi a virada. A festa borbulhou dentro de nós. Paz para nós à felicidade íntima. O comprometimento com os outros pela empatia do que seria o nosso futuro mediando o presente. Contemplação: do verbo gratidão. Navegar por um rio qualquer até o seu encontro com mar. Afora toda poesia pronta da imagem, ouvir a morte do rio é de uma importante emoção. Posso crer na morte humana como influência de um silêncio realmente preciso do quão somos responsáveis ao mesmo tempo naturais.  Parar é bom para chegar. Aprendo agora no caminhar lento. Mais vida e a melhor companhia que verifica minha febre e me deixa dormitar até o bocejo se tornar beijo e desajustar a bolsa de gelo s…