sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sobre aliança e acrobacia

Casamento: uma comédia de costumes. Imagem: Larissa Pujol

A: E aí, Larissa?! Que achou do espetáculo?
L: Metafórico. Principalmente a parte do anel de noivado e a acrobacia.
A: ... (o olhar dela pedia uma aula)
L: Aquelas inveteradas acrobacias dentro, ao redor do grande anel suspenso no palco, o véu vermelho despindo a artista e despedindo a mulher, que por obrigação do costume, acostuma seus sonhos nas acrobacias para ter um casamento. Os rodopios, então... Metáfora de um conservadorismo interpretado por uma mulher capaz pelo casamento. 
A: Nossa, Larissa! Fe-no-me-nal. Me arrepiou! Sério, meu! Ninguém que eu tenha conversado me disse isso. É apenas um “gostei” e basta.
L: O banquete, título do espetáculo, seria o alimento do antes e do depois do casamento, mas nunca do seu presente. Percebe, meu bem, que o presente dos noivos é se alimentarem um do outro. Enquanto ambos se dizimam da sobrevivência do outro, cansam a ilusão de que não há melhor alimento que eles, apenas, até que sua realidade recorra cada verdade de indivíduo ao banquete. 
A: Por isso que chegamos à conclusão de que o indivíduo é do tamanho de sua fome.
L: Banquete não revela a fome, revela o apetite do convidado. Fome é sobrevivência. Apetite é vicio! Num banquete aproveitamos tudo de saboroso, de gordo, de fetiche, de maquiagem, de escondido mal-estar na cultura (como afirmaria Freud). Nada de sobrevivência. 
A: Aquelas artistas: a beleza, a solidão, a inveja.
L: Pormenores de avanço, caso as saibamos usar. Aceitas um cigarro?
A: (com os olhos e os lábios brilhando) Seu sotaque é fascinante...
L: E olha que moro aqui há quase dez anos... Mas como trabalho no Rio Grande do Sul, passo o restante do ano lá.
A: Você tem de mim uma distância de banquete.
L: Casamento, banquete, alimento de peles. Não confies em mulher que assina o sobrenome do marido!
A: Acrobacias conservadoras, nunca!
Rumamos ela e eu pela Baixa Augusta... 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Àquela que me espera

"Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro. Todo novo da manhã, vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada. Vem amada, vem urgente, vem irmã. Benvinda, benvinda, benvinda, que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo, que eu estou sozinho, certo de estar perto da alegria, comunico finalmente que há lugar na poesia! Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar... Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda..."

A tristeza, minha querida, testa a veracidade das nossas noites insones. Dá voz e som ao que de mais nele – e aqui dentro – existe de intenso. Mesmo em escuridão compõe o primaveril florescer de canções encharcadas (de bebida e de lágrimas).
Mas, quem disse que não é belo tudo isso? Os bocejos são melodias e os cochilos, as letras. Se possível, renunciamos aos sonhos porque viver é preciso.
Conecto-me com quem me amplia para dentro e para o mundo. No entanto, amada minha, durante este longo espaço que nos espera, quem nunca se dissipou diante dos teus olhos? Quem permanece intacto ao poder do teu tempo? E do teu movimento? Quem nunca se desvanece na tua memória?
Por aqui, apenas entendo sobre saudade antecipada ao ouvir de ti “telefona-me assim que chegares”, enquanto minhas mãos insistem em te pedir que entres no primeiro voo para cá sem se desgrudarem do caderno.
Por aí, tu tens o privilégio de poder olhar a chuva daqui sem se molhar. E para quem telefonarei quando o segundo sol chegar?
Enquanto isso, namorada, emendo viagens, remendo amores. Coleciono memórias e leciono liberdade. Solicito caminhos, licito apego. Arremato corações, remato dores. Brinco com palavras e com o destino.
Eis minha notícia. 
Em breve retorno com mais te amo que de costume...    

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Coincidências outras

Quanto de mim ela ainda possui? E ainda encontra respostas em braços alheios: amiga-abriga; amiga-ouvida. Sempre ela... E lá vamos nós nos embriagarmos de cumplicidade.
Quando quero parar o mundo para descer, chego perto daquela que me coloca novamente na melhor poltrona, na janela. O vento e a paisagem redimem a velocidade acachapante de um mundo apressado e ocupado demais para sentir e ouvir.
Quero-quero! Assisto na paisagem a esse passarinho que apenas sabe ser livre em par... Pois é, querida, depois de João de Barro e Sabiá, um novo canto para nós duas. Nostalgia: esse romântico tanto de passado em uma palavra voltada para o futuro.
Copos vazios, ela se aconchega ao meu lado com a trêmula voz e confessa que racionalizou que não seria uma boa ideia, já que eu me sentiria obrigada, que seria mais a vontade dela de ser amada por mim do que me fazer “sentir em casa”. Bobinha... Então fiz de mim a casa para recepcioná-la. Com todo prazer do mundo...
Às vezes o desejo é a melhor etiqueta. 
E o que sobrevive aos finais das festas é sempre mais bonito, embora pareça, assim, quase destruído.  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Talhados na aparência (com amor?!)

"A beleza se define portanto como a manifestação sensível da (própria) ideia..."

São Paulo, Rua Augusta GLS, numa roda boêmia de conversa sobre política aplicada, abre-se a discussão sobre a aparência da ministra – até então reprovada por todos, menos por mim:
- Gente, ela não é feia! Eu não consigo vê-la feia. Eu não a acho feia.
- Larissa, das duas, uma: ou você tem um coração muito bondoso, ou você tá numa carência amorosa trágica!
Gargalhamos...
- Pega o celular dela e liga pra namorada dela do Rio Grande do Sul. Diz que ela tem que pegar o primeiro voo para São Paulo... – brincou outro.
- Hahahaha... Ai, ai... Prefiro acreditar que tenho um coração bondoso. – afirmei – Minha namorada e eu estamos cumprindo bem nosso destino.
- É a primeira pessoa que afirma que ela é bonita.
- Sério, cê tá bem? Tem controlado a hipertensão? Verificou se a erva-mate que você bebe todos os dias está dentro da validade?
- Hahahaha... Gente, mas o que os faz achá-la feia?
- Ela é esquisita! Aquele rosto caído, aquele cabelo caído, aquela boca caída!
- Bento Carneiro!
- Hahahahaha, é mesmo...
- Ai, ai... – entristeci a cara – o critério de beleza ainda ligada à aparência. Jamais estaremos aptos a enxergar a maravilha do outro em sua totalidade (e realidade) se tivermos nos afogando dentro dessa redoma chamada “padrão”, e desse “padrão”, acharmos um caminho para relacionamentos saudáveis.
- Hegeliana legítima!
- Não vou negar que ela é assustadora – revelei –, mas isso não a define como feia. Não sei para vocês, mas, para mim, o feio me causa uma reação de nojo, de asco. 
- Talvez você consiga ver o caráter da pessoa.
- Pode ser. Só sei que ao meu parecer ela não é feia!
- Você a namoraria?
- Ela não. Mas uma mulher como ela, sim. Totalmente! Já observaram como ela acalenta um olhar sóbrio ao mesmo tempo mitigando um aspecto sombrio? Sim, observem também que ela carrega aquela tristeza requisitada por Vinícius, e isso, deveras, aliada à sua reserva (ou timidez), me a faz notável.  
Um dos amigos volta-se para a mesa vizinha e me faz perceber que uma moça olhava para mim atentamente:
- Já aprendeu né, colega! – Disse ele a moça - Agora é só pintar o cabelo de branco!
- Hahahahaha... – Tornei a voz mais audível – Deixa para lá, não lhe dês atenção. 
Nem para ele, nem para mim... Ela continuou me olhando como se o redor não existisse... Abaixei a voz, dedicando somente à mesa:
- Manteremos nossa prosa somente aqui. Não quero problema lá no Rio Grande do Sul.
- Hehehehe...
- Tranquilo.
- Mas voltando, vou pegar o gancho do que tu disseste para a moça: “é só pintar o cabelo de branco”. Observemos que o amor é uma metáfora da aparência! O relacionamento saudável se tornou um reino absoluto da aparência. Uma bela roupa, jantares sofisticados, regalos carinhosos, ciúmes, maquiagem, sobrenome de marido (sentido trágico da existência de uma mulher!)... Infelizmente, Amar, via de regra, é aparência! 
- A questão da beleza ser fundamental... Voltando ao Vininha.
- Mas a questão é: o que é ser beleza? O fundamental tem de ser voltado ao individual para enfim encontrar o que completa um outro. Se eu a acho bonita, tem algo dela que fundamenta em mim...
- Por isso, como nos surpreendêssemos assim, tipo, “ah, como ela fica com uma pessoa daquela”, enfim... 
- Exato. É ligado ao fundamental de cada um. E isso cabe respeito somente ao que a ti te parece fundamental. Traduzindo: cada um que cuide de si.
- Achei um vídeo da ministra na internet. – disse outro amigo.
- É mesmo. Ela tem um caminho suave de fala. Uma beleza serena até.
- Viram, pessoal! Ela não é anormal. – Tranquilizei-os.
- Gente, só a Larissa para transformar noventa e nove porcento de um achismo...
- Hehehehe, para isso basta, primeiro, prestar atenção no que a pessoa pode nos oferecer. A beleza chega depois.
- Certo. Gente, paguemos um uísque a Larissa.
- Vamos lá! – correu um deles.
- Garçom!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Homenagem

"Quando estou só reconheço que existo entre outros que são como eu sós. "

Gente que me busca no pão e no tom. Busca-me pela mão e pelo som. Busca-me pelo corpo até a cama. Busca-me no tempo e no silêncio. Busca-me pela casa e pelas companhias. Busca-me no travesseiro e no cafuné. Busca-me pela certeza e pela fé. Busca-me pelos ouvidos e pelo chão. Busca-me na segurança e no colchão. 
Gente que me busca na calma e na faca, na toalha e na água, na memória e na sala, pela máquina e pela tomada.
Gente que me busca na alma e na palavra. Busca-me na risada e no relógio. Busca-me no livro, na confiança, na sapiência e na balança. Busca-me no espaço e no oxigênio. Busca-me na roupa e no apoio, no teto e no tapete, no colo e nas senhas.
Gente que me busca pelo ombro e pelo lenço. Busca-me na solidão e no argumento. Busca-me pelo lar e pela energia, no instrumento e na inspiração, na cadeira e nos pés, na liberdade e na decisão. Busca-me nos fios e nas opções, na janela e na sanidade. Busca-me pelo piso frio e no cigarro quente. 
Essa gente que me busca pela vida quando sabe que a minha não é suficiente...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mon amour – Caio Fernando Abreu: o caso dela e meu...

Que sorte a nossa, né, Caio?

Por um fio de memória lembrar-me-ei dela naquela exposição no Museu da Diversidade. Como de costume, após o ano de trabalho, permito-me continuar eterna numa cidade que não tem mais fim. Eternamente concreta em Sampa, fui diretamente ao encontro do meu conterrâneo Caio. Estava belo e realizando o seu desejo de apaixonar alguém pelo que escreveu...
Era uma sala com mimeógrafo. Nostalgia de um álcool purificador das tintas pingadas em cada letra dos seus versos que estávamos livres para rodar. Então, eis que o sorriso dela declamava com as pálpebras a rima de qualquer coisa maravilhosa e tirava minhas palavras sobreviventes desta boca com gosto podre de fracasso. O sorriso dela declamava com as pálpebras o fato de nascer e viver no bairro da Liberdade. Esse nome entregue ao ser do tempo com “cantos de alívio pelo que se foi; cantos de espera pelo que há de vir”. Ela, aberta ao tempo, se desculpava com Abreu e não escapava de mim deixando uma lembrança qualquer.
Mas, eu não fiquei! Tampouco me foi um tempo perdido. Moça oriunda da Liberdade! De temperamento zen-budista e lugar onde constantemente amanhece. Curiosa de vida agora, vivi! Não fiz uso da fatalidade da resistência, nem me suicidei com a grandiloqüência do “nunca” e do “sempre”. Foi cômodo, sem decisões. Um colo e um cafuné. Contidamente, continuamos. Que sorte a nossa, Caio! – comemorei em silêncio lembrando-me do sorriso dela. Ah, mas o sorriso...
Permiti-a: “levai-me por onde quiserdes, aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Sou toda minha saudade e amor de sempre”.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tratamento

Não que fosse apenas um Narciso frente ao espelho da realidade... 

Resolveu experimentar a beleza da solidão. Um paladar egocêntrico cujas gotículas breves de um suor e outro trabalho não são aparadas pelo sintético tecido de censura. Muito pelo contrário: seguiria caminhos das reações vividas, bem como a lágrima que pode surgir e escorrer pela pele que sobra ao chão do qual ela também emerge. Emerge com o gelo por onde pisa, põe-se à ponta dos pés, cuidadosa – não com os passos – mas com a assistência de sua liberdade nos seus passes de bailarina.
Salta lá, um passo à margem! A casa, simples descanso do social, tem berço de concreto, escuro, escuso e singelo de cortinas deste espetáculo estirado num sofá frente à brisa mecânica do circundante vendaval que a livra da alta temperatura adquirida na rua.
 Jogou-se suicidamente naquele abraço que desiste da existência sobre um conforto solícito e tenro da cama. Não havia fala, tampouco atenção. Apenas as artérias cumpriam o papel passado.  Futuro, um desleixo profundo de se imaginar.
Ao teto, os olhos miravam a brancura de não poder atravessar as duras partes, ao lado, a permanência do esquivo ordenado de uma cor qualquer definindo o dia ou o que quisesse.
Com preocupações não há solidão que vença! Pena! Não soube ainda qual é o melhor de si. Percebeu sua fome. Culpa do organismo. Do fragilismo de estar desperta e atendida. Do salário do qual sobrevive, da casa para manter, da roupa para vestir e atender as tarefas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Estive certa de que...

"É o ciclo sem fim que nos guiará, a dor e a emoção, pela fé e o amor até encontrar o nosso caminho, neste ciclo, neste ciclo sem fim..."


Na minha versão:

Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha. 
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro país. Era o choro mais belo de assistir. O amor mais belo de assistir. Estive certa de me manter a deriva sabendo que o seu sentimento não podia ser parecido com ninguém que ela ousasse sentir. Isso fazia com que estivesse certa de amá-la assim mesmo. E por isso mesmo, ver aquela mulher machucada, totalmente vulnerável à insegurança de um suposto esquecimento da filha que substituiu o sonho pelas asas, da saudade que nascia prematura, como fosse ontem, ela nascia prematura!, da perda do seu todo pedaço, fez-me amá-la real e instantaneamente. Eu sabia que por qualquer palavra daquela adolescente que, por agora, cabia no colo nostálgico da mãe, eu seria abandonada, desmerecida. Era daquela adolescente, acima de todas as coisas, todas as pessoas. Entre minhas crises hepáticas e o dia mais feliz dela, qual seria a escolha da presença. A mão de quem ela estaria a segurar. Não seria a minha. Eu estaria pronta a deixá-la ir por ela, sem questionar. Estava apta a cada choro, queda, vitória, melancolia. Porque eu sabia que ela iria, mesmo quando aquele projeto de adulto dobrasse de tamanho e fosse maior que sua própria mãe. Mesmo quando eu estivesse a duas quadras e ela distante a milhares de quilômetros.  
Os passos seriam na direção dela. Estive certa de que era amor quando entendi porque o “amorcentrismo” não foi criado por nenhuma mente brilhante, pois já tinha o nome claro e irrefutável: chama-se Filha! Uma mulher capaz de em pleno lugar público se entregar daquela maneira, com destemida vergonha, a dor de ver uma filha ir embora era a maior certeza de amor. Abracei calada sua menina enquanto esta murmurava no meu ouvido para eu cuidar de sua mãezinha e que torcia pela nossa felicidade. Atravessou o portão de embarque. Então olhei para a mulher enquanto ela caminhava ao meu encontro e não tentava enxugar as lágrimas que lavavam sua perfeita maquiagem. Tão ferida, tão digna de amor, tão menos minha.

Na versão dela:

Estive certa de que era amor quando ela não disse nada. Qualquer palavra dela naquele momento talvez a repelisse para sempre da minha vida. Mas ela não disse nada. Fez o silêncio que eu precisava.
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, eu estava me despedindo da minha filha que optou pela nacionalidade alemã e ia morar lá com seus planos de recém concluinte do Ensino Médio. A minha namorada nos acompanhou, mas observou tudo a pouca distância. Enquanto eu sentia a dor mais cruel de uma mãe, ela estava lá, mas não quis roubar para si o protagonismo do meu sofrimento. Não quis ser o consolo que eu jamais seria capaz de ter. Ela me olhava como nunca. Era um olhar avassalador. Não pedi nada a ela. Não foi preciso. É uma coisa que só nós, mulheres, temos e compartilhamos sem ao menos precisar parir, o sentimento de mãe. Ela abraçou minha filha com este carinho. Ela me deu a única coisa que eu precisava: o respeito ao meu sentimento, o maior do mundo.   
Após minha filha atravessar o portão de embarque, lembro-me de ter segurado forte a mão dela enquanto caminhávamos pelo saguão do aeroporto em direção ao carro. Lembro-me que segurei tão forte que estive certa de que a machucava. Mesmo assim, ela não disse nada. Continuou segurando capaz de suportar minha dor interna que involuntariamente transmitia aos ossos dela, da minha namorada. Estive certa de que era amor naquele momento quando ela não quis ser o que não poderia. Quando não cabia ninguém na minha solidão, e ela me assistiu perder. Quando não diminuiu meus sentimentos de mãe, e tampouco usou a ocasião para se fortalecer como centro da minha vida. Uma mulher forte, centrada, real é minha namorada. E tão jovem... Ali eu passei a ser tão mais dela, tão menos minha.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós IV

Compromisso era entre essas duas pessoas. Relacionamentos? Boa notícia: estavam livres de mensagens detetivescas para saber onde estava e a que horas voltaria. Decidiram mais tarde ir à casa dela para arrumarem um jantar com a rapidez de uma pizza pois logo sairiam para uma noite de MPB.
Marisa Monte, Ana Carolina, Maria Gadú, tributo a Gonzaguinha, Nei Matogrosso no Anhembi... Quantos passos em São Paulo! – Refletiram sorrindo estrelas de Olavo Bilac ao ler a programação na Folha. Optaram estar e espiar à margem de uma música e outra.
Foram se arrumando. O préstimo das cores adornavam o riso frouxo de batom vermelho. Dos lábios dela se assoviava Elis Regina. Outra interpretação para o “atrás da porta”, sendo o assovio uma escusa para atrair e dar o bote.
Frente ao espelho, a miudeza daquele corpo era pingada por um short, uma camiseta desbotada de banda, pingentes simbólicos de paz e maquiagem assombreada. Um conjunto de boneca, deveras, que descarta os preceitos e os preconceitos de princesa. Muito rápida como um poema marginal, ela se transmitiu a verve das meias três-quartos, intercalou rima do colar dourado que escorria pelo seu tronco encontrando nela a luz em que a outra moça, ao fundo, na porta do dormitório, era sombra observante. A outra moça observava inebriada e cantarolava o pensamento para a sua pequena: “És fascinação. Amor...”