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Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (III)

- Qualquer um sabe que D’us não interfere no livre arbítrio das pessoas. “Fazer” alguém amar está fora de cogitação. Basta, aliás, assistir ao Aladin para saber disso. - Cê é cruel, sabia? - Sim e estou terminando a pipoca sozinha. Cruel. Anda, responde, o que tu mudarias no mundo? - Eu inventaria um mundo novo para você, onde o dia e a noite coexistiriam. A chuva e o sol também, em que cada casamento é de viúva, de alguém capaz de valorizar o amor por já havê-lo visto morrer um dia. Um mundo à luz branda, como você gosta. Nada de raios ofuscantes em um calor indigno. Temperatura outonal, um nublado constante, sempre na expectativa da nitidez, que sabemos, desde Sócrates, nunca se alcança. Constelações com miúdas estrelas em gotas que descem cadentes e, quando pesadas pelas superfícies, explode a multiplicidade ampla dos desejos fáceis. Ah, e uma trilha sonora de saxofone que nunca cessa, somente para você ter esse semblante que gosta de ser feliz na tristeza, na introspecção mais ge…
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Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (II)

- Vamos! - A melhor pergunta da noite: no meu ou no seu? - Engraçadinha. No carro, com uma verdadeira tempestade primaveril. - Você realmente relaxou aqui... - A melhor forma de lidar com o medo: racionalizar. - Nisso cê é boa. - Grata. - Não foi um elogio. - Não sou tão austera como tu pensas. - Eu não penso. Eu sinto. - Desculpa, senhora sensível. - Convença-me do contrário. - Já cheguei a poetizar os raios. Numa legenda de rede social questionei o que as pessoas mudariam no mundo se fossem D’us. Pensei em eliminar os raios, no entanto, numa conversa despretensiosa, eu cheguei a concluir que seria anti-poético aniquilar a única coisa que une céu e terra com contínua fortaleza de energia. Quase uma metáfora do amor. Isso não é racionalizar. - O que você mudaria, então, transformaria no mundo? - Na época falei de nuvens coloridas porque o registro tinha um rastro colorido no céu. Mas, pensando bem, ficaria um tanto como um horrendo quadro do Britto. - Hahahaha... - O que tu mudarias, …

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento

- Que houve, você parece nervosa. - Temo raios. - Teme ou odeia? - Uma ação leva a outra. - A velha conversa do desconhecido e de sua consequência, etc... - Estou demasiadamente tensa para filosoficamente problematizar raios. - Mas aqui é seguro. - Descargas elétricas matam vinte por cento em casa, perde apenas para desacampados.  - Bom, eles não morrem do nada... Ou é porque estão usando aparelhos eletrônicos, ou porque talvez estejam, como vocês fazem, tomando “mate”, com a “bomba” metálica na frente da janela. Cê não está fazendo nada disso. - O medo tende a ser um costume irracional. - Parecia-me que você tinha pavor de vespas. - Tenho pavor de tudo que tenha e coloque ferrão. Um asco!  - Hahaha...  - Não há restrição de pavor por homens. - Cê quer um abraço para se sentir segura? - Se tu fosses feita de borracha... - Não é o caso... - Carros são lugares seguros, sabias? Sinto-me protegida neles. - Ué, descemos então?! - Para onde? - Para o carro. - Por que o faríamos? - Para cê …

As aspas de amamos

Para quem desejamos é dedicada a felicidade final do artista, do poeta. Sempre encontramos um ipsis litteris para a pessoa em questão, que parece que o artista a pariu, a profetizou naquele poema, naquela música, no incômodo sublime da composição. “Quando Deus te desenhou”: entrega-se ao trabalho do artista a projeção onírica da qual se emancipou as melhores submissões inspiradas “para ti”.  Bordões, citações, expressões, frases, máximas, parágrafos. Seja intimamente ou com rabiscos e grifos, sempre guardamos em nossas leituras alguns trechos que nos despertam e ficam, de forma única, impregnados em nossas mentes. Alguns levamos para toda vida, outras servem especialmente para um momento específico, mas todas importam quando as lemos, as dedicamos, ou quando ganhamos voz através do outro. Abrir aspas é deixar o outro se comunicar por si. E ela abriu as de Vinícius de Moraes na sua carta. Sem coragem de dizer quem é, a anônima que já amo confiou no poetinha para grifar, em todas as pá…

Vulto e clarividência

- Meu lugar preferido para vê-la. Remete alguma experiência pós-morte. - Como assim?! Tu tiveste alguma experiência dessa? - Não, mas imagino assim alguma forma de paraíso. A visão um pouco turva com uma imagem serena como passa nos filmes. - Tu tens sido uma boa menina? - Ah, não me faça pensar nisso, Lari, não faça do meu paraíso o purgatório com suas perguntas filosóficas que causam crise existencial até em uma criança.  - Eu sei ser o inferno, “Margarida”, através de um ponto de interrogação. - Eu também não duvido que o diabo tenha essa aura celestial. As pessoas o deixam muito caricato, mas creio que ele seja bem sedutor. - Estás sentindo este cheiro de fogo e ar abafado? - Hahahaha... Sempre grata à companhia de plantão, de chão, de colchão, de boas conversas despretensiosas e ecumênicas. Entre pesquisas e textos, nossos intervalos de criação foram recheados de boas risadas.

Sobre o amor de (se) silenciar (retificado)

- Não sei se devo me orgulhar por ser a mulher que te cala.  - Tu não me calas. Tu me silencias. E, em um mundo em que milhares de vozes querendo ser ouvidas tornam todas inaudíveis, não há nada mais sublime. *** Ser é presenciar. Presença é segurança. Impublicáveis e amáveis. Amém! Paixão deve ser essa overdose de si mesma, apenas porque sou tão bela ao olhar dela... Ao silêncio dela. Maturidade: a chance de ter um romance tórrido sem se queimar. Atraio dela passos mudos num salto caqui, olhar de reticências e jogadas linguísticas desnudas. Eu, mais jovem, mais inexperiente. Bobinha aproveitável Lolita dos sonhos das aproveitáveis narrativas femininas. Minha postura profissional inevitavelmente se tomba ao seu beijo soprado quando fica só comigo, seja por marca do seu território ou por brincadeira, por descaso ou cansaço. Glamour das reuniões – ela feliz na ponta da mesa, e eu na outra. Monte de gente entre nós... Aquela piscadinha cúmplice e o mundo é apenas nós duas. O silêncio é …

Sobre o amor de (se) calar

Os símbolos da construção de uma relação são interessantes. Disse-me ela, olhando para A Força do Querer: - Se um dia casarmos, em vez de arroz, vamos pedir uma chuva de mignon sobre nós. Continuou: - Eu seria muito feliz comendo mignon todo sábado de manhã contigo. Continuou: - Eu odeio mignon com cerveja ou durante uma cena interessante de final de trama, mas, cotigo, tudo que eu odeio fica bem. As frases que eu escutei, enquanto dialogava grunhidos com bocadas de mignon mastigadas, me parecem inevitáveis que, para o resto da vida, os biscoitinhos mignon me lembrem dela. Mesmo que nossos caminhos se tornem diferentes um dia, já há eternidade em tudo que complete o coração, tome outra forma quando aberto e aquecido com as mãos, enchendo-as e ficando liquefeito e mais gostoso. Ressignificamos a vida por quem passa por nós. É bom que seja assim – Meu silêncio digeriu. Ela continuou: - Amo tudo o que a tua pele diz. Arrepiou minha liberdade, me esfarelando toda. Continuou: - Sempre ach…