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O homem que insultava o mar

Enquanto eu passava temporada numa praia gaúcha, há mais de dez anos, deparei-me com aquele jovem senhor situado numa rocha costeira, a proferir insultos ao mar. Xingava-o, blasfemava-o. Suas palavras de baixo calão tinham peso de elegia. Uma rima perfeita entre seu corpo fraco cobiçado com a impotência do maldizer. Atirava-lhe restos de pedregulhos quando as ofensas se repetiam, pisava em seus marulhos a cada encontro com seus pés, a cada falta de como humilhar aquele gigantismo do mar. Com uma amiga, eu realizava minha caminhada matinal pelo mesmo trajeto. E lá estava ele contra o mar. Estaria ele embriagado? Indagou a moça ao meu lado. O jovem senhor percebia já na sua esqualidez a despreocupação com a própria sobrevivência, a vitamina era absorvida na energia de seus insultos ao mar. Comida perdera-lhe até então o significado. Porém, de onde incidia a fortaleza de seus insultos? Completei com mais dúvida. Era como se um ódio débil e triste socorresse-lhe a própria vingança. Ele e…
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E

Extenuada, exacerbo emoções. Escrevo, exprimo, expresso. Efeito: espasmos, ecos espirituais estrondosos. Educo elogios elegendo esperança. Elimino embaraços elevando ensinamentos. Eternizo efemeridades excluindo edições. Exercito estímulos explorando experiências. Economizo energia efetuando estabilidade. Elaboro enredos executando expertise. Engulo egos e entrelinhas. Emulo edificada egressa em ebriedade. Ejeto exílio existindo êxito excitado. Excluída, existente, exequível. Extrema, exultada, exaurida, exumada. Encaderno encalistrada estranhamente encaminhada. Encargo encaixado esbanjando erotomania. Ela. Erradicada escansão escanifrada em esquálida epopéia. Escada. Encruzilhada extinta: estilhaçada, emudeço, enfim. Espero esquecimento. Emudeço extinção. Esquizofrênica, eu?! Engraçada e excelente. Encerro espetáculos enganando espectadores. Escapo escondida espiando especulações. Espiando encontro. Espetacular, especular e esquisita. Especialmente enaltecida, eloquente, estendida e…

Qual minha dor, Afrodite? O teu medo.

Enquanto Safo descrevia a vicissitude das linhas corpóreas d’um deus grego frente a sua amada dele (e dela), a poeta se incompreendia entre o desejo e o ciúme. Ora, moça, desejo e ciúme são irmãos.  Foi o que observei dos dois naquela passagem festiva que vivi. Para ela, o marido, um deus grego no qual ela apoiava uma busca-amostra de amor e carinho aos olhos de todos com seus frágeis braços morenos em volta d’um pescoço velho e flácido, aos meus olhos. Pela primeira vez meu segundo corpo, o de dentro, entrou em consonância com o primeiro, o do ambiente.  Meu segundo corpo, apenas uma voz que conta toda sua escuridão, antes esquecido como oco, mas nada é oco, é deslizante como óleo e inconfundível guia que acha o fim do labirinto entre paredes moles. Do avesso é medicina, lugar escuro como a noite da festa. Boa noite, coração danadinho. Então és tu que reages repetindo o som surdo de suas partes moles e orgânicas com frenético sangue corrente, rápido, epidêmico, furioso, maquinal. Qu…

Ontem asas, agora, garras.

Numa dessas raras vezes que a sobrevivência não é algo contado, enfim, abro a janela, e não foi o dia que clareou mais uma manhã para ser. Foi o olor de infância que se adiantava concorrente com a velocidade que trespassei quase quatro décadas existindo. Era uma velocidade silenciosa daquela ser pequena incipiente de deveres e consequências. O Cheiro da Terra do Meu Quintal. Faz tempo, ignorante cresci sem dar-lhe espaço de inspirá-lo. Coube em mim compromissos de ar. Coube engrandecimento das asas. Coube, hoje, o pouso entre-quedas nesta mesma terra que cheira tão gostoso em meu quintal, quando ainda engatinhava. Possíveis retratos que desafiam o conceito de Nietzsche ao referir-me à História: a esperança não olha para trás, mas a atrai para qu’eu troque as asas pelas garras em total símbolo (de luta) pela liberdade. A própria casa, o olor do quintal. A brincadeira perene, o perfume da roupa em dias de bonança. O cheiro é o impulso do outro. Aquela coisa mansa, de casa, de ficar à v…

Um tato

Dizem que, quando transbordamos imageticamente do outro, devemos fechar os olhos para retirar essa personalização de dentro de si, colocando a pessoa sonhada em nossa frente para realizar com ela aquilo que sua angústia pede. Eu assim a abracei tão forte. Uma coisa sua que ficou em mim, sem fim, sem apelo a vida. Assim, a saudade é um tempo de dói. Um tempo que voa... Entre aeroportos. Um tempo que suspende o sofrimento sorrindo escapismos orgulhosos. Um tempo com essa vontade de voltar para ontem que se cura com o amanhã. Tenho sido gentil com quem me abre caminhos. Em todos os lugares do mundo que eu for, eu fotografo a paisagem mais bela se tu estiveres junto (pelo menos, o meu pensamento em ti). Num retrato, Amor é sombra em calor escaldante, enquanto o inverno, aqui-externo, é a preguiça do sol. Ela é um tato cego. De um lado a pose, d’outro o ensaio: jamais saberia ser bela, atraente e sensual se me pedisse que fosse. Eu, talvez, tornar-me-ia algo bizarro fidedigno d’uma risada…

Antes do voo

Mais vale a rapidez eficiente do artificial ou a lentidão bela do natural? Qual foi a última vez que tu choraste por algo que realmente te arrebatasse sem consentimento ou controle?  Aconteceu comigo. Eu me despediria da querida que muito amo. Iria onde encontrá-la. Abraçar-lhe-ia. Seria um final de manhã de sábado dela. E não consegui. Tive de cancelar por causa de uma correria, uma reunião, uma hora e outra. Passei sem olhar para os lados. E eu tive medo... Logo mais haveria eu de estar no aeroporto de Santa Maria. E mais medo. Muito medo de o tempo não ser algo qu’eu possuísse para abraçá-la. Para o tanto que quero lhe dizer o quanto a amo e sou-lhe grata por tudo qu’ela faz, fez e quer fazer por mim.  Eu chorei de tanto amor, de tanto sentimento arrebentando o meu peito, o coração acelerado de tanto medo qu’ela nunca saiba o quanto. É a única coisa em que não posso falhar na vida. A única.  Tempo, por favor, para ela, por ela, passa devagar.

A calma despida

Ela pediu a minha calma emprestada, “essa serenidade de quem sabe muito bem o que fazer, sempre”. Eu não sou capaz de negar nada a ela. Sorrio com consentimento e visto pacientemente, enlaçando faixa a faixa, seu robe jogado no chão, tirado às pressas por algum motivo torpe... Estou certa de que quando ela vesti-lo novamente e se aninhar nos problemas do dia, qualquer resquício do meu olor despertará nela a tranqüilidade de me saber efêmera, mas marcante. Invasiva em qualquer detalhe cotidiano, persistente nas memórias e no laço da cintura, nas linhas entreabertas das pernas e dos seios, nas palavras. Observadora no brilho acetinado das luzes compostas de colo. A paz daquela que nunca parte, nunca esquece, nunca deixa de.
Veste a minha calma, querida. 
Então eu descobri o quanto ela me ama quando percebi qu’ela sabia – sem que eu dissesse ou exigisse – como eu adoro o lado mais álgido da cama. Apenas de observar a maneira como eu me ajeitava encolhida, muito mais prazerosamente entre…