sexta-feira, 17 de março de 2017

Somadas à prova proustiniana as perguntas realizadas (e lisonjeadas) aleatoriamente

Qual lugar mais seguro do mundo?
- Qualquer tempo em qu’eu esteja lendo Fernando Pessoa.

Qual celebridade você gostaria de passar o dia?
- Antônio Abujamra.

Você sempre soube?
- Que a felicidade é uma ideia velha.

Quando você disse “eu te amo” pela última vez?
- Eu nunca disse “eu te amo” pela última vez.

Quais são suas bebidas favoritas?
- Justamente as que causam hipertensão. Cicuta é uma delas.

Qual foi o pior lugar que você já esteve?
- Colégio Santa Maria.

Qual seu famoso bordão na sala de aula?
- “Dúvida, angústia, depressão, estresse?”

Você acredita de cada um tem sua alma gêmea?
- Depende do número dado pela expressão “cada um”.

Você tem tatuagem?
- Uso apenas henna, pois as figuras me entediam rapidamente. 

Quando foi a última vez que você chorou muito, copiosamente, durante todo o dia ou por vários dias?
- No velório do meu pai, há quase vinte anos.

Qual foi seu brinquedo favorito na infância?
- Um radinho a pilha.

Quem foi a última pessoa com quem você falou ao telefone?
- Com uma affair paulistana.

Você já se relacionou com mulheres (heterossexualmente) casadas?
- Sim, e ainda sim. Elas me procuram, eu as adoro. Aprendo muito com elas, aprendo isso de como a heterossexualidade é um palco para a hipocrisia.  

Mulheres jovens ou mais velhas?
- Mulheres de 40, adiante! Elas querem a sorte de um amor tranquilo, como aquela música, enquanto estou no tédio afanoso da rotina. Já se transformaram em melodia, enquanto aos trinta e poucos recém aprendi a compor.

Cite algo que você coma todos os dias?
- Doces. E em todas as refeições.

Qual sua missão de vida?
- Voar como um pombo, pois cagar e andar eu já sei. 

Qual o principal aspecto de sua personalidade?
- Fluir com a certeza.

Qual a qualidade favorita num homem?
- Morrer.

Qual a qualidade favorita numa mulher?
- O substantivo beleza.

O que mais aprecia nos amigos:
- Descontração suficiente para predicar valiosamente a confiança.

Qual seu principal defeito?
- Atingir a serenidade.

Qual seu passatempo favorito?
- Namorar.

Qual sua noção de felicidade?
- Que isso pode ser uma ideia velha.

Qual sua noção de infelicidade?
- Desequilibrar-se tropeçando no idealismo ou pisando fundo nos buracos do realismo.

Se você não fosse você mesma, quem seria?
- Aquela que as pessoas atingem idealmente com sua admiração ao me conhecerem.

Onde gostaria de morar?
- Já realizei este sonho.

Qual sua cor favorita?
- Todo branco-e-preto espaço para o diverso.

Qual seu escritor favorito?
- Depende do entusiasmo no qual me encontro.

Qual seu poeta favorito?
- Idem.

Qual seu herói favorito na ficção?
- Policarpo Quaresma.

Qual sua heroína favorita na ficção?
- Diadorim.

Quais seus pintores e compositores favoritos?
- Dali, Caravaggio, Gullar, Chopin, Korsakov e os que já fizeram de mim musa.

Quais seus heróis na vida real?
- Meus alunos.

Qual sua figura feminina favorita na história?
- Bolena.

Quais seus nomes favoritos?
- Aqueles dos quais me lembro do sorriso.

O que você mais odeia?
- Dificuldade em ser calma. Cheguei à hipertensão por isso.

Quais as figuras históricas que você mais odeia?
- Fálaris de Agrigento, Delphine LaLaurie, Carlos Lacerda.

Qual evento militar que você mais admira?
- O da banda marcial nas escolas.

Qual o talento natural que você gostaria de ter?
- Capacidade de acordar sem xingar o despertador.

Como você gostaria de morrer?
- Ida e sem despedida. Já sendo hipertensa, tenho grande chance!

Qual é seu estado mental atual?
- Ansiosa por ter pensado em mim durante as perguntas.

Por qual o defeito você tem menos tolerância?
- Aqueles que não me compreendo.

Qual seu lema favorito?
- “A letra não mata, a letra dá vida”.

Já que você admira Abujamra, responda, Larissa, o que é a vida?
- Uma imitação mal feita da morte.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Enigma e comentário

Quando aprendi que a felicidade é uma outra oração. (Foto: Larissa Pujol)

Sobre a primeira semana de aula nas turmas de primeiro ano: literatura jesuítica.
A tradição espiritual ocidental é baseada no sofrimento, disse-lhes. Ensina que D’us se deleita quando vê os homens sofrendo e se prostrando. E é por isso que as pessoas religiosas, quando prometem a D’us, prometem - e poderiam prometer: Senhor, se me concederes a benção, eu Te prometo que vou ler, todos os dias, às seis da tarde, um poema de Fernando Pessoa -, mas ninguém oferece coisa boa para D’us! Oferecem, pois, subir mais de quatrocentos degraus, de joelhos, oferecem sangrar seus calcanhares sobre cascalhos, oferecem deixar seu organismo fragilizado pelo jejum... 
A ideia de um D’us sádico, que fica feliz com o sofrimento de Seus filhos, é horrível! Nunca leram nas escrituras sagradas que D’us criou um jardim de delícias. Assim fomos criados para a felicidade. Uma coisa de Bachelard: o Universo tem de encontrar o seu destino de felicidade.
Afinal, como resolver com a literatura, os conflitos entre idealismo e realismo? – desafiei-os.
Todos responderam com pausa thecoviana...
A ideologia é frágil, comecei. Ela precisa de poder, e para ter poder é preciso realismo, preciso saber como as coisas são. Mas, se eu tiver apenas realismo... as coisas não alçarão voo. A ideologia cria o voo. Logo, há de se manter essa combinação dos dois. A ideologia aliena a todos nós do medíocre da vida. Coloca-nos para fora a fim de saber sobre as condições para fazer transformações na realidade e resultá-la como resposta ao desejo.
Afinal, desse conflito colonizador-jesuítico entre fé e pecadismo podemos extrair a diferença gritante entre otimismo e esperança: a primeira procura sorrir para o futuro por causa de; a última, a despeito de.
O sinal já havia se anunciado há dez minutos. Não percebemos.  

sexta-feira, 3 de março de 2017

Escrevendo e cantando com minha “bebé”: uma proposta de estudos comparados com diversão

"Volto pra casa abatida, desenganada da vida... Nos sonhos eu vou descansar, nele você está" (Ronda, Inezita Barroso)

- Amor, tomei partido das leituras na tua estante enquanto estavas no costumeiro “exílio” em São Paulo. Ficas irritada por isso?
- Claro que não, meu bem, desde que os meus livros não saiam de casa.
- Estou concluindo as cartas de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz.
- Hahahaha... Espero que esteja eu te correspondendo melhor.
- Aham... Chega a ser ridícula! – brincou encostando a sua cabecinha no meu rosto – Mas um ridículo gostoso e bem aproveitado, diferente deles. Se tu criasses heterônimos, não terias nada de “Álvaro”.
- Nem Pessoa o tinha. Álvaro de Campos era um retrato enfadonho do entrave masculino. Como todo homem da época, existido para esbanjar fortaleza e secura, Fernando fez-se de Álvaro para conseguir objetificar a sua realização (literária).
- Os relatos de Ofélia dizem que ele se portava extremamente carinhoso, romântico, cheio de piegas para com ela.
- Sertanejo...
- Hahaha, o quê?!
- Tive uma ideia: vamos continuar a leitura juntas e eu te digo quais as músicas sertanejas me lembrava cada momento ou carta.
- Hã?! Sertaneja, o quê?! Tu, Larissa?! – Riu copiosamente.
- Sertanejo antigo, minha pequena. Modão. Dos 90 para antes...
- Guria, quero só ver! Vamos lá: qual o “melô” para esse trecho aqui ó “Há três dias que não me apareces sem eu saber a que atribuir tal ausência [...] Antigamente eras mais atencioso para mim, mais carinhoso, mudaste imenso!”
- “Cada dia que se passa, mais distante...” – cantarolei – “o rosto tão bonito se perdeu na indiferença...”
- “É pena qu’este amor não teve consciência dos sonhos que sonhamos em segredo” – continuou.
- Hahaha... Isso! Olha que Pessoa nunca quis que ela revelasse algo sobre o namoro deles.
- “Vá com Deus!” – cantamos numa só voz aos risos – “o amor ainda está aqui, vá com Deus!”
- Puta merda, Larissa – continuou inflando aqueles dentes maravilhosos –, tu tens o dom de achar trilha sonora literária.
- Ah, é! Lê então João Mineiro e Marciano nesse trecho “como o Fernando não tem motivos para acabar, procede então da forma que procede. Pois bem eu assim não estou resolvida a continuar. [...] Está a sua vontade feita. [...]”
- “Você me pede na carta qu’eu desapareça; qu’eu nunca mais te procure, pra sempre te esqueça...”
- Agora olha esta foto.
- Ah... Hahahahahaha. Vamos lá, uníssonas! – ordenou.
- “Ainda ontem chorei de saudade...” – nunca choramos de tanto rir...
- Ninguém tira do meu coração que, na hora do “flagrante delitro”, o Fernando estivesse profeticamente ouvindo João Mineiro e Marciano.
- Eu não paro de rir, Larissa, com tuas análises! Agora este: “Então uma sombra bêbada ocupa lugar nas lembranças”
- Por favor, este trecho merece orquestra. Por favor, maestro, Vicente Celestino – pigarreei e embarguei a voz de vitimismo e virilidade – “Torneeei-me um ébrio na bebida, busco esquecer...”  
- Hahahahahaha... Puta música foda para esse momento do Fernandinho! Já temos aqui três para o Fantástico. Qual delas ele escolheria?
- Aos momentos que ele se localizava na Baixa, “doente de amor, procurei remédio na vida noturna...”
- Acho que não, amor. Falhaste nessa, bebé gânde.
- Mas me refiro à época que o Abel ainda tinha fachada azul.
- Hahahaha... Que tu sabes da fachada do Abel, Lari... Hahaha... 
- Vida noturna também é essa parte: “É uma hora e dez minutos (da noite) e antes de deitar venho deixar mais um jinho para o meu preto”. Lembra-me muito a minha infância essa frase da Ofélia. Alan e Aladim. “Já é tarde, é quase madrugada e eu não dormi...”
- “Com você no pensamento a insistir... Que eu não durma sem falar contigo.” – continuou com voz melíflua.
- Hehehe... Otimista, hein!
- Como toda sagitariana que tu também és, Larissa! Será que o Álvaro profetizou as músicas bregas naquele poema sobre as cartas de amor serem “ridículas”? 
- Quem sabe até compôs o arranjo dos modões.
- Imagina se alguém tivesse musicalizado o poema...
- Não faria sucesso. “Todas as cartas de amor” são uma tentativa de passar sobriedade quanto a possível maturidade de poder emparelhar, embora de maneira surreal, a razão e a força, a secura e a indiferença, pendurados na linha tênue do amorfismo. Já no sertanejo antigo é na linha tênue do romantismo caridoso. 
- “Mas afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.”
- A adjetivação aí assume outro significante... Poético Fernandinho. Coisas da gramática. E também, na mesma linha, são ridículas as que nunca leram com seu amor.
- Uma trilha para esse final “sua amiga dedicada”.
- Prefiro te oferecer um trecho: “Na hora que a noite desce, lembra-te daquela que nunca te esquece.”
- “Cá um jinho”. - Bicou um beicinho.
- Ah, esse não precisa de fala.  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chance para o amor ser antigo e inútil

"Moonshine, take us to the stars tonight... Take us to that special place, that place we went the last time, the last time..."

A melhor demonstração de afeto e interesse é a despedida. As cartas também; pois são a expressão da distância. Principalmente as que ela me envia – por vezes endoidecida – com datas manuscritas entre uma lembrança e outra.
A solidão me leva para longe. As despedidas me alcançam com longa reticência e me abraçam como um novo parágrafo que se espero do outro. Confiam a percepção da boa-sorte e a percepção que se preocupa. Confinam oximoros. Compõem letras. 
São Chico, Amy, Leandro e Leonardo, Whitesnake, Tom, Vininha, Elis, Bruno Mars... Este último, lembrando-me os rastros que a lua já deixa nos cabelos dela. E ela ainda desafia: se compores uma música para mim, eu te componho uma vida inteira.
Despedida desafia!
Ah, a despedida é o amor que não dói. É o que Pessoa denominava uma qualidade de gente estúpida, julgando amar e se sentir amado, mas que permitia-se ser feliz no mundo. Não permite ilusão; crer que o amor perdure, tampouco no idílio de paz num progresso de anos paralelo ora à felicidade, ora à desilusão.
A despedida, assim como o sofrimento, passa. Assim como a vida passa e todas as coisas que fazem parte dela passam. Despedem-se.
“Outra coisa... Não, não é nada, boca doce...”. Portão de embarque.  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sobre aliança e acrobacia

Casamento: uma comédia de costumes. Imagem: Larissa Pujol

A: E aí, Larissa?! Que achou do espetáculo?
L: Metafórico. Principalmente a parte do anel de noivado e a acrobacia.
A: ... (o olhar dela pedia uma aula)
L: Aquelas inveteradas acrobacias dentro, ao redor do grande anel suspenso no palco, o véu vermelho despindo a artista e despedindo a mulher, que por obrigação do costume, acostuma seus sonhos nas acrobacias para ter um casamento. Os rodopios, então... Metáfora de um conservadorismo interpretado por uma mulher capaz pelo casamento. 
A: Nossa, Larissa! Fe-no-me-nal. Me arrepiou! Sério, meu! Ninguém que eu tenha conversado me disse isso. É apenas um “gostei” e basta.
L: O banquete, título do espetáculo, seria o alimento do antes e do depois do casamento, mas nunca do seu presente. Percebe, meu bem, que o presente dos noivos é se alimentarem um do outro. Enquanto ambos se dizimam da sobrevivência do outro, cansam a ilusão de que não há melhor alimento que eles, apenas, até que sua realidade recorra cada verdade de indivíduo ao banquete. 
A: Por isso que chegamos à conclusão de que o indivíduo é do tamanho de sua fome.
L: Banquete não revela a fome, revela o apetite do convidado. Fome é sobrevivência. Apetite é vicio! Num banquete aproveitamos tudo de saboroso, de gordo, de fetiche, de maquiagem, de escondido mal-estar na cultura (como afirmaria Freud). Nada de sobrevivência. 
A: Aquelas artistas: a beleza, a solidão, a inveja.
L: Pormenores de avanço, caso as saibamos usar. Aceitas um cigarro?
A: (com os olhos e os lábios brilhando) Seu sotaque é fascinante...
L: E olha que moro aqui há quase dez anos... Mas como trabalho no Rio Grande do Sul, passo o restante do ano lá.
A: Você tem de mim uma distância de banquete.
L: Casamento, banquete, alimento de peles. Não confies em mulher que assina o sobrenome do marido!
A: Acrobacias conservadoras, nunca!
Rumamos ela e eu pela Baixa Augusta... 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Àquela que me espera

"Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro. Todo novo da manhã, vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada. Vem amada, vem urgente, vem irmã. Benvinda, benvinda, benvinda, que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo, que eu estou sozinho, certo de estar perto da alegria, comunico finalmente que há lugar na poesia! Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar... Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda..."

A tristeza, minha querida, testa a veracidade das nossas noites insones. Dá voz e som ao que de mais nele – e aqui dentro – existe de intenso. Mesmo em escuridão compõe o primaveril florescer de canções encharcadas (de bebida e de lágrimas).
Mas, quem disse que não é belo tudo isso? Os bocejos são melodias e os cochilos, as letras. Se possível, renunciamos aos sonhos porque viver é preciso.
Conecto-me com quem me amplia para dentro e para o mundo. No entanto, amada minha, durante este longo espaço que nos espera, quem nunca se dissipou diante dos teus olhos? Quem permanece intacto ao poder do teu tempo? E do teu movimento? Quem nunca se desvanece na tua memória?
Por aqui, apenas entendo sobre saudade antecipada ao ouvir de ti “telefona-me assim que chegares”, enquanto minhas mãos insistem em te pedir que entres no primeiro voo para cá sem se desgrudarem do caderno.
Por aí, tu tens o privilégio de poder olhar a chuva daqui sem se molhar. E para quem telefonarei quando o segundo sol chegar?
Enquanto isso, namorada, emendo viagens, remendo amores. Coleciono memórias e leciono liberdade. Solicito caminhos, licito apego. Arremato corações, remato dores. Brinco com palavras e com o destino.
Eis minha notícia. 
Em breve retorno com mais te amo que de costume...    

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Coincidências outras

Quanto de mim ela ainda possui? E ainda encontra respostas em braços alheios: amiga-abriga; amiga-ouvida. Sempre ela... E lá vamos nós nos embriagarmos de cumplicidade.
Quando quero parar o mundo para descer, chego perto daquela que me coloca novamente na melhor poltrona, na janela. O vento e a paisagem redimem a velocidade acachapante de um mundo apressado e ocupado demais para sentir e ouvir.
Quero-quero! Assisto na paisagem a esse passarinho que apenas sabe ser livre em par... Pois é, querida, depois de João de Barro e Sabiá, um novo canto para nós duas. Nostalgia: esse romântico tanto de passado em uma palavra voltada para o futuro.
Copos vazios, ela se aconchega ao meu lado com a trêmula voz e confessa que racionalizou que não seria uma boa ideia, já que eu me sentiria obrigada, que seria mais a vontade dela de ser amada por mim do que me fazer “sentir em casa”. Bobinha... Então fiz de mim a casa para recepcioná-la. Com todo prazer do mundo...
Às vezes o desejo é a melhor etiqueta. 
E o que sobrevive aos finais das festas é sempre mais bonito, embora pareça, assim, quase destruído.  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Talhados na aparência (com amor?!)

"A beleza se define portanto como a manifestação sensível da (própria) ideia..."

São Paulo, Rua Augusta GLS, numa roda boêmia de conversa sobre política aplicada, abre-se a discussão sobre a aparência da ministra – até então reprovada por todos, menos por mim:
- Gente, ela não é feia! Eu não consigo vê-la feia. Eu não a acho feia.
- Larissa, das duas, uma: ou você tem um coração muito bondoso, ou você tá numa carência amorosa trágica!
Gargalhamos...
- Pega o celular dela e liga pra namorada dela do Rio Grande do Sul. Diz que ela tem que pegar o primeiro voo para São Paulo... – brincou outro.
- Hahahaha... Ai, ai... Prefiro acreditar que tenho um coração bondoso. – afirmei – Minha namorada e eu estamos cumprindo bem nosso destino.
- É a primeira pessoa que afirma que ela é bonita.
- Sério, cê tá bem? Tem controlado a hipertensão? Verificou se a erva-mate que você bebe todos os dias está dentro da validade?
- Hahahaha... Gente, mas o que os faz achá-la feia?
- Ela é esquisita! Aquele rosto caído, aquele cabelo caído, aquela boca caída!
- Bento Carneiro!
- Hahahahaha, é mesmo...
- Ai, ai... – entristeci a cara – o critério de beleza ainda ligada à aparência. Jamais estaremos aptos a enxergar a maravilha do outro em sua totalidade (e realidade) se tivermos nos afogando dentro dessa redoma chamada “padrão”, e desse “padrão”, acharmos um caminho para relacionamentos saudáveis.
- Hegeliana legítima!
- Não vou negar que ela é assustadora – revelei –, mas isso não a define como feia. Não sei para vocês, mas, para mim, o feio me causa uma reação de nojo, de asco. 
- Talvez você consiga ver o caráter da pessoa.
- Pode ser. Só sei que ao meu parecer ela não é feia!
- Você a namoraria?
- Ela não. Mas uma mulher como ela, sim. Totalmente! Já observaram como ela acalenta um olhar sóbrio ao mesmo tempo mitigando um aspecto sombrio? Sim, observem também que ela carrega aquela tristeza requisitada por Vinícius, e isso, deveras, aliada à sua reserva (ou timidez), me a faz notável.  
Um dos amigos volta-se para a mesa vizinha e me faz perceber que uma moça olhava para mim atentamente:
- Já aprendeu né, colega! – Disse ele a moça - Agora é só pintar o cabelo de branco!
- Hahahahaha... – Tornei a voz mais audível – Deixa para lá, não lhe dês atenção. 
Nem para ele, nem para mim... Ela continuou me olhando como se o redor não existisse... Abaixei a voz, dedicando somente à mesa:
- Manteremos nossa prosa somente aqui. Não quero problema lá no Rio Grande do Sul.
- Hehehehe...
- Tranquilo.
- Mas voltando, vou pegar o gancho do que tu disseste para a moça: “é só pintar o cabelo de branco”. Observemos que o amor é uma metáfora da aparência! O relacionamento saudável se tornou um reino absoluto da aparência. Uma bela roupa, jantares sofisticados, regalos carinhosos, ciúmes, maquiagem, sobrenome de marido (sentido trágico da existência de uma mulher!)... Infelizmente, Amar, via de regra, é aparência! 
- A questão da beleza ser fundamental... Voltando ao Vininha.
- Mas a questão é: o que é ser beleza? O fundamental tem de ser voltado ao individual para enfim encontrar o que completa um outro. Se eu a acho bonita, tem algo dela que fundamenta em mim...
- Por isso, como nos surpreendêssemos assim, tipo, “ah, como ela fica com uma pessoa daquela”, enfim... 
- Exato. É ligado ao fundamental de cada um. E isso cabe respeito somente ao que a ti te parece fundamental. Traduzindo: cada um que cuide de si.
- Achei um vídeo da ministra na internet. – disse outro amigo.
- É mesmo. Ela tem um caminho suave de fala. Uma beleza serena até.
- Viram, pessoal! Ela não é anormal. – Tranquilizei-os.
- Gente, só a Larissa para transformar noventa e nove porcento de um achismo...
- Hehehehe, para isso basta, primeiro, prestar atenção no que a pessoa pode nos oferecer. A beleza chega depois.
- Certo. Gente, paguemos um uísque a Larissa.
- Vamos lá! – correu um deles.
- Garçom!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Homenagem

"Quando estou só reconheço que existo entre outros que são como eu sós. "

Gente que me busca no pão e no tom. Busca-me pela mão e pelo som. Busca-me pelo corpo até a cama. Busca-me no tempo e no silêncio. Busca-me pela casa e pelas companhias. Busca-me no travesseiro e no cafuné. Busca-me pela certeza e pela fé. Busca-me pelos ouvidos e pelo chão. Busca-me na segurança e no colchão. 
Gente que me busca na calma e na faca, na toalha e na água, na memória e na sala, pela máquina e pela tomada.
Gente que me busca na alma e na palavra. Busca-me na risada e no relógio. Busca-me no livro, na confiança, na sapiência e na balança. Busca-me no espaço e no oxigênio. Busca-me na roupa e no apoio, no teto e no tapete, no colo e nas senhas.
Gente que me busca pelo ombro e pelo lenço. Busca-me na solidão e no argumento. Busca-me pelo lar e pela energia, no instrumento e na inspiração, na cadeira e nos pés, na liberdade e na decisão. Busca-me nos fios e nas opções, na janela e na sanidade. Busca-me pelo piso frio e no cigarro quente. 
Essa gente que me busca pela vida quando sabe que a minha não é suficiente...