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Mitologia: ora fé, ora por que

Há uma legenda que afirma que a pergunta causa crise. Discordo, pois quão cansativa é a resposta. Perguntando para tudo e sobre tudo, o que é a resposta senão um instável desafiador de que a certeza inexiste (?). Uma vida que se faz de inteira de seus fragmentos porquês até o mistério após o seu término acumulam o que deve e o que pode com espaço mutável para acolhimento ou abandono. Antes de pensar, tudo é explicado pela mitologia. Ah, a explicação! Essa cômoda necessidade absurda para um lembrete de sobrevivência parada. Os povos explicam (e definem) a natureza através de seus deuses; e se D’us fez o homem à Sua semelhança, o homem criou os deuses também à sua semelhança, imperfeitos na sua condição liberta de serem bons e maus. Cada trejeito de povo contém seu nicho de deuses glorificados contando como surgiu a natureza, a diversidade, o mundo e seus gêneros, a divergência e a não-comodidade. O monoteísta não se acanha. O mito sobrepõe a fé à inteligência. Criado à semelhança do A…
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32!

Esse ano, tanto aprendi que resolvi criar cinco lições, cinco máximas minhas que representam a chegada de trinta e dois anos, trinta e dois anos de passado e presente confluindo para o futuro.  Obs.: Quando quero fazer uma retrospectiva, mas tem alguém me fazendo olhar incansável e lindamente para adiante, logo aprendo que os finais felizes têm mais a ver com auroras juntas que com castelos.  
1) Time grande não cai. E isso cabe mais à torcida que à equipe. E isso cabe mais à vida que ao jogo. Quando tentamos erguer alguém, puxar para cima, precisamos ter o imenso cuidado de não deixar nos puxar para baixo. Ajudar quem quer (e se) ajuda. Aprendi que, muitas vezes, não somos capazes de salvar uma pessoa de si mesma.
2) As pessoas temem o preço a pagar na busca pela realização e, assim, conformam-se com a mediocridade, sem se aperceberem que, no final, é esse o preço mais alto. 
3) Precisamos parar de nos apaixonar pelo potencial das pessoas em oposição a quem elas realmente são. Algum…

O perdão se tornou um louco

Reunem-se bandeiras e pisoteios. Palavras de ordem que propagam um falso respeito claro. Pupilas envoltas pelo amarelo como a flor de girassol da doença que me acolhe. Na sala de reuniões, o esbravejo da voz ganha mais significado que a palavra. É o ciúme e a posse nos quais te deleitas, minha querida, na confusão que ora me admiras, ora me invejas. O perdão se tornou um louco. E finalmente acontece. Ele se confunde com a tolerância. Ele pensa que é a tolerância. O perdão está louco! Pessoas próximas reunidas em torno das soluçadas últimas palavras. O arrependimento é a maior mendicância que qualquer ciclo findo de vida. Compaixão dentre os malefícios é o sonífero do ódio posterior. Álbuns, então, consolam a dor ao reduzir a pessoa a uma simples fotografia. Como a febre raivosa de quem ouve o pedido, a verdade que sua morte e seu sofrimento minha vingança vê. Entre a maçã e a Eva, o perdão está na mordida. Tudo o que tem de esquecer é humilhado por necessidade. Para qualquer paz proc…

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (III)

- Qualquer um sabe que D’us não interfere no livre arbítrio das pessoas. “Fazer” alguém amar está fora de cogitação. Basta, aliás, assistir ao Aladin para saber disso. - Cê é cruel, sabia? - Sim e estou terminando a pipoca sozinha. Cruel. Anda, responde, o que tu mudarias no mundo? - Eu inventaria um mundo novo para você, onde o dia e a noite coexistiriam. A chuva e o sol também, em que cada casamento é de viúva, de alguém capaz de valorizar o amor por já havê-lo visto morrer um dia. Um mundo à luz branda, como você gosta. Nada de raios ofuscantes em um calor indigno. Temperatura outonal, um nublado constante, sempre na expectativa da nitidez, que sabemos, desde Sócrates, nunca se alcança. Constelações com miúdas estrelas em gotas que descem cadentes e, quando pesadas pelas superfícies, explode a multiplicidade ampla dos desejos fáceis. Ah, e uma trilha sonora de saxofone que nunca cessa, somente para você ter esse semblante que gosta de ser feliz na tristeza, na introspecção mais ge…

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (II)

- Vamos! - A melhor pergunta da noite: no meu ou no seu? - Engraçadinha. No carro, com uma verdadeira tempestade primaveril. - Você realmente relaxou aqui... - A melhor forma de lidar com o medo: racionalizar. - Nisso cê é boa. - Grata. - Não foi um elogio. - Não sou tão austera como tu pensas. - Eu não penso. Eu sinto. - Desculpa, senhora sensível. - Convença-me do contrário. - Já cheguei a poetizar os raios. Numa legenda de rede social questionei o que as pessoas mudariam no mundo se fossem D’us. Pensei em eliminar os raios, no entanto, numa conversa despretensiosa, eu cheguei a concluir que seria anti-poético aniquilar a única coisa que une céu e terra com contínua fortaleza de energia. Quase uma metáfora do amor. Isso não é racionalizar. - O que você mudaria, então, transformaria no mundo? - Na época falei de nuvens coloridas porque o registro tinha um rastro colorido no céu. Mas, pensando bem, ficaria um tanto como um horrendo quadro do Britto. - Hahahaha... - O que tu mudarias, …

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento

- Que houve, você parece nervosa. - Temo raios. - Teme ou odeia? - Uma ação leva a outra. - A velha conversa do desconhecido e de sua consequência, etc... - Estou demasiadamente tensa para filosoficamente problematizar raios. - Mas aqui é seguro. - Descargas elétricas matam vinte por cento em casa, perde apenas para desacampados.  - Bom, eles não morrem do nada... Ou é porque estão usando aparelhos eletrônicos, ou porque talvez estejam, como vocês fazem, tomando “mate”, com a “bomba” metálica na frente da janela. Cê não está fazendo nada disso. - O medo tende a ser um costume irracional. - Parecia-me que você tinha pavor de vespas. - Tenho pavor de tudo que tenha e coloque ferrão. Um asco!  - Hahaha...  - Não há restrição de pavor por homens. - Cê quer um abraço para se sentir segura? - Se tu fosses feita de borracha... - Não é o caso... - Carros são lugares seguros, sabias? Sinto-me protegida neles. - Ué, descemos então?! - Para onde? - Para o carro. - Por que o faríamos? - Para cê …

As aspas de amamos

Para quem desejamos é dedicada a felicidade final do artista, do poeta. Sempre encontramos um ipsis litteris para a pessoa em questão, que parece que o artista a pariu, a profetizou naquele poema, naquela música, no incômodo sublime da composição. “Quando Deus te desenhou”: entrega-se ao trabalho do artista a projeção onírica da qual se emancipou as melhores submissões inspiradas “para ti”.  Bordões, citações, expressões, frases, máximas, parágrafos. Seja intimamente ou com rabiscos e grifos, sempre guardamos em nossas leituras alguns trechos que nos despertam e ficam, de forma única, impregnados em nossas mentes. Alguns levamos para toda vida, outras servem especialmente para um momento específico, mas todas importam quando as lemos, as dedicamos, ou quando ganhamos voz através do outro. Abrir aspas é deixar o outro se comunicar por si. E ela abriu as de Vinícius de Moraes na sua carta. Sem coragem de dizer quem é, a anônima que já amo confiou no poetinha para grifar, em todas as pá…