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Postagens

Amigo-ombro

“O medo é o caminho para a desfeita do sucesso”, diz o amigo-ombro citando uma posição na escola em que hoje sou totalmente ignorante. Em casa peço uísque para ter coragem. Quem nunca? Para que assim nunca, num breve espaço temporal ébrio, me sinta impedida de criar legendas elaboradas por total desconhecimento, apenas descobrimento do universo da escola. Descobrimento em que amigo-ombro é um conceito, pois “ombro amigo” é colocar o membro acima da presença. Não falta apenas gasolina. Falta empatia, educação, gestão, cultura, leitura, sensibilidade, noção, proteção, sensatez, compaixão e respeito. Falta muito do que deveria nos mover. Falta muito. Abro o Livro do Desassossego porque algo em mim precisa se organizar ou curar. Como uma oração que beira Hilda Hilst à mecanização desafiadora da morte na audácia santificada. O caos brilhante é tão somente o que me interessa. “Quando algo te fere, eu duvido do mundo”, analisou o amigo-ombro numa intenção coletiva de oração. É gente que imp…
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Nostalgia sempre nos é sábia

E se a inteligência for a não comunicabilidade de por que estamos aqui nos sentindo superiores enquanto os outros nos olham com piedade porque estamos perdendo tanto tempo discutindo bobagens irrelevantes e eles permanecem quietos?
Quem sabe uma conversa bacana, a de ontem, que se tornava legenda num filme ideal. Quem sabe a volta daquela risada linda que vale mais que qualquer “papo cabeça” que se tornam legendas... Não tive a gratidão daquela que me tirava do salto, dos livros, das marcas – as do mercado, do corpo e da alma. Tirava-me da alma o tempo de quando os cabelos eram mais longos, os dias mais claros, as preocupações menos densas, as companhias mais certas e os caminhos menos sinuosos como uma distopia do Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa. Envelhecer cansa. Adoecer consola. E quando eu falo que preciso desabafar e os demais param a orquestra de seus afazeres para me ouvir: é quando eu me sinto alguém de verdade e, de repente, o desabafo não tem mais sentido e a gente vo…

Aprendiz

Tenho desejos aflitos por olhos que afagam. Uma velocidade aflita por olhos altivos. Tenho estudado muito sobre educação e a arte (não com mesmo intuito da palavra processo) da gestão escolar – o que me tem feito revisitar grandes pensadores e correntes filosóficas clássicas abordadas no ensino. É um – agora faço uso da palavra – processo de dosagem de autocrítica e autopiedade para não acabar em autossabotagem que me impediria de dirigir ou supervisionar uma escola para sempre. Preparo-me para tirar de mim algo digno do tempo e atenção de alguns. Jamais me permitiria a leviandade de me arriscar em algo que admiro tanto sem adquirir conhecimento envolvido. Quem sabe, daqui mais um pouco, eu me sinta pronta e, sim, habilitada com a vantagem da originalidade de retirar a escola do leito vegetativo de ser apenas um organismo saturado de mundo. Reinventar é difícil, no entanto algumas passagens específicas não deixam de ser a escola um alicerce clássico para a dialogicidade da mudança.

Entreaberta

Espreita-me. Espreita-me do verbo reduzir minha visão à tua descrição. Seja eu a foto que eu não vejo, mas que apareço com título artístico ou legenda pronta. Uma proposta indecente de voyurismo sobre o que mais amas nos meus. Capacidade de falar com convicção e complexidade, uma moradia para o cenário das questões. Troca-se impressões e esbraveja sobre mudanças de cabelo, de política, de sentimentos. À externa de diálogos com filmes noir à lucidez da Sessão da Tarde com uma ótima analogia sobre o poder do ódio em ti e em mim. Assim como podemos, portanto, amar qualquer personagem de culpabilidade vilã de nossa projeção. Absurdos do mundo nos alívios das horas. Tudo com a mesma urgência e relevância, que senta no chão e é sensato acomodando as pernas em posição cruzada de índio e é democrática principalmente no erro. A tua visão minha é cálculo, fato e instinto. Ferve a garganta, mas não os nervos. Amo tal mulher inteligente de ser meus olhos multidisciplinares, disciplinada por mim …

Do significado à poesia

- Queria ter a tua altivez. – Ela disse enquanto eu analisava se chovia, conferia a presença da carteira na bolsa, assim como a chave, a precaução, e tentava organizar de cabeça a agenda atribulada do dia, inquieta de um lado a outro da casa, como uma legítima professora, em um quase legítimo atraso. - Como? - Queria ter a tua altivez. - Altivez pode ser boa ou ruim. É um substantivo bem peculiar. – Respondi rindo enquanto jogava uns documentos da coordenadoria na bolsa.  - Ah, é boa. Eu não ia querer ter algo ruim. Altivez te define muito bem, Larissa. - Ah, é?! Então define “altivez”. – Desafiei-a enquanto programava o alerta do celular para alguma reunião importante. - Altivez é quando o mundo parece estar sempre à mercê das tuas vontades, seja de uma maneira muito doce, permissiva e devota. Parei e ri: - Isso não é altivez, guria! Vai-te ao dicionário! - Achei que tu eras mais o Augusto dos Anjos do que o Aurélio. - Mesmo assim não faz sentido em nenhum dos casos. - Queres aposta…

Benzedura

Toda superstição leva teu nome. O amor é o único argumento capaz de transformar saudade em fé. Numa música de Marisa Monte para aqueles cinco minutinhos a mais na cama (assim dizer que foi te amando). Enigmas que salvam com um tanto de poesia quando fico inábil para perceber a tua forma, mas te encontro ao meu redor.
Presença que enche meus olhos e alegra-me porque estás em todos os lugares. Amo porque és sólida e impressionas o sol que gosta da curva do teu colo. Uma responsabilidade afetiva: não lavar as mãos quando temos, entre elas, corações alheios.
Que olor tem o teu silêncio?
Olho para cima na condição de inventar estrelas como qualquer poeta. Questão de amparo para sustentar a leveza do ser, mais arfar: verbo este que liga minha boca à tua nuca.
Mulher que me bagunça e ainda assim me põe em síntese.

À

Quero contigo o silêncio de quem se despe sem ressalvas, sem pudor, sem escolhas. Quero a nudez do envelhecimento. Quero a beleza da velhice, a força da rendição e a franqueza da saudade. Sobre amores de outono, os meus preferidos enredos. Tudo me é casa se tem teu cheiro. Respeito o tempo e o peso do meu mundo. Sabiá: a privacidade da casa e da legenda. O luxo de ser duas. Tocar as persianas representadas pelas linhas da tua testa e ouvir a canção do tempo. Aquela que inventei para te esquecer, tal qual Chico à Luiza. Exorcizo-me em composição de sombras. De poesias do próprio esquecimento. Quando o mar quer nadar em mim, eu o permito. Deixo-o calçar meus rastros porque há de ter muito de mim no desaguar.  Simplesmente preferir ter toque à memória por assim revisar toda experiência em um esforço concentrado e irrestrito de paz.