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Todo dia (especialmente nesta semana)

Às pessoas que passavam por mim refutando o clima chuvoso com interjeição indagada de participação coletiva reclamante “ah, que horror, né?!” eu respondia “um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é”, bonitos à sua maneira, propícios a diversas tarefas para quem não se esconde na queixa. Logo, algo que me chamara atenção veio da paciência dessas pessoas ao pararem silenciadas ante a lógica pessoana. Encontraram a raridade e em mim o halo dos desaparecidos? O sinal da escola soava, os carros passavam, o pátio era um odeon de premissas e pressas até que o espaço concreto se tornava o próprio ar de langorosas difusões de olhares e palavras, como a água corrente de efeito apenas seu e intransferível. Não era coisa esperada. Tampouco suas caras! A matéria parou. A matéria reflexiva, o guarda-chuva que não fechava, a pressa que cessava. Eu queria realmente aquele gesto em seus olhos – a aura após a cegueira. Pareciam, cada um a seu tempo, enfim, na companhi…
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Maestria só

Viver o sentimento de abandono em lugares apropriados, como em grandes galpões vazios de luzes perfeitas. O abandono é isto: o esvaziar de emoções outrora armazenadas em locais peculiares e brilhantes – recônditos de carinhos capazes. Talvez seja melhor falar o que sente para ter o que precisa. No entanto, mares revoltos não apenas fazem um bom marinheiro, como o mar calmo fá-lo alcançar serenidade. No final de contas, provas de enfrentamento de tempo, de desafiar o amor próprio, de duvidar das escolhas, de ter saudade hábil que já não pode – ou deve – resgatar. São tantas entrelinhas que um dia essa teia te traz para perto de mim. Confiança tecida. Concentração do sonhar desperto cujos olhos se perdem em algum lugar, fixos e enormes. Eles sugam, eles sugam... Se tentar desviar, pelos lábios pode-se prever o olhar. Sim, na palavra sede, a boca cede. Depois de ti, eis-me aqui. Déjà vu, lembrança ou quimera? A saudade é este abaixar de olhos quando alguém resolve falar de amor.

Trocando em letras miúdas

Recostei-me desfazendo a postura ereta no sofá com a tranqüilidade dos olhos que descansavam da esmiuçada leitura. Letras miúdas já merecem uma atenção melhor de outras lentes. Um dia nublado, bom para uma visão jovem, abaixo dos trinta anos. Uma visão de gato, que no breu conhece o mapa para espreitar cada objeto ou pisada ou canto de móvel sem dor. Cada letra respirada com celeridade e com total interpretação sentinela de aprendizado recente. Contando com óculos, minha percepção das letras miúdas hoje tem de velar pela lentura de significante. Assim como amo. Assim como aproveito no exercício respiratório aquilo preenchido um pouco mais em meus alvéolos pulmonares. Pequenas letrinhas, como criancinhas vão se embaralhando se eu as anseio. Elas fogem peraltas entre uma linha e outra, apoquentando o esforço materno de reuni-las na mesma praça de histórias. Ao que depois entendo, bastou-me os olhos fechados e uma aproximação ameigada da página à minha face. A nostalgia não é deveras dis…

“Com os olhos de comer fotografia”

Pedi-lhe uma fotografia de instante. Um registro daquela singela desfaçatez vaidosa e despreparo de pose. Os cabelos encaracolados, presos em um coque-amélia de subserviência, divagavam o caminho elíptico de lenta tessitura rendida de seus olhos fechados – quase fechados – um feixe ainda entregue ao meu foco estático que ela soubera fazer imagem, fazer cinema de mim! Em uma rápida censura, a educação de sua alvura diáfana assinou o nome de Fragonard: a young woman reading. Sua pele à fresca da modernidade foi a imediata poesia àquela obnubilada essência triste antes em meus olhos. Estes endureceram junto às digitais na tela e minha língua rija na cala sôfrega da virtualidade. O rosto que ela me permitiu era todo um corpo, um nascido afinado de pequenos detalhes que compunham uma outra mulher de contornados seios que me olham através da Íris mensageira dos deuses – conectando o mundano e o celeste para um átimo de relação amorosa full-screen – e de intensa cor – eram seus lábios vagin…

É coisa nossa

Durante a semana a palavra saudade veio me acompanhando, passando próxima a minha casa, cantando em faixas aleatórias. Pertencendo-me a partida, esperando-me na chegada entre o que penso e meus garranchos que se acabam. Na definição da lírica. Na hora de arranjar alguém quando você sai.  Perdi o ônibus. Quando há perda a história nunca é contada de maneira completa. Por isso os detalhes se traduzem naquelas perguntas de fim de festa, à noite cansada para o ouvinte. Apenas estava longe, tal como a saudade, não falo nem se a ironia impeça o fogo cruzado.  A saudade ainda me faz ter medo de perder o silêncio. A saudade é o que se põe em inércia devido à indiferença de realização. Passo por isso há mais de sete dias, aprendo a focar em pleno desenvolvimento do que é realidade. Imagino a onipotência da saudade, espreitando como fotógrafo por trás do visor onírico de quem espera. Espera a véspera como olhar abstrato à invisibilidade de D’us: acreditando. Palavras escapando sem que nada daq…

Acredite que a sinto

Repare bem, amor. A saudade é a véspera do reencontro. “Agora as noites são tão longas; no escuro eu penso em te encontrar. Me deixe só, até a hora de voltar” – no momento em que eu transformo uma música de despedida em canção de ninar, devo saber um pouco mais sobre o amor do que nega a paixão na minha vã maturidade. Nela temos a história mais bonita da vida – um milagre antropológico na definição louca de pessoa enquanto ainda dormente em seus segredos. Um abajur de holofote com platéia que não bate palmas, faz cafuné. A minha fama me leva para a cama. Melhor que grito surdo do meu nome, antes me dado para ser sussurro em lábios molhados. Não fui feita para chorar de solidão em camarins. O que fazer com os amores que, embora tanto tempo passado, insistem em sangrar pela esferográfica? Houve excesso. Talvez fossem aqueles cinco minutos a mais na cama para mais de meia hora a fim de mudar uma vida. Uma ótima ouvinte de conselhos profundos, define-me ela. Ela amou meu silêncio. Um ens…

Cada quadra representa uma saudade...

Hoje São Paulo despertou nebulosa, fria como a canção de Tom Jobim que busca o amor pela metrópole. No aeroporto, a bandeira a meio mastro, uma manhã nervosa. Eu também não queria ir, minha Sampa, mas eu te dedico: vou voltar, vou voltar! Uma música sabiá de canto melancólico e exilado, dos mais lindos silvos de Jobim, para este nosso até logo de futuro próximo feliz. Te amo, São Paulo. Sigo com o Tom, Querida. Longa é a tarde, ah, a tarde... Essa melancolia do dia, segundo José de Alencar; e nela, longa é a estrada de quem se despede... Não há sobejo de abraço quando o pranto carrega em si o lugar mais fundo para mergulhar. A forma imersa define a intimidade. O tempo permanece enquanto se acredita, mesmo com olhos náufragos no embaço da confiança, aliás, do amor. Permito-me a Sabiá de livre canto mais belo com tristeza. Os passos lentos de uma mórbida reação de ódio, ou de despeito, talvez de birra adolescente que desacorda com o dia que passa, e eu, nessa lida.