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Ontem asas, agora, garras.

Numa dessas raras vezes que a sobrevivência não é algo contado, enfim, abro a janela, e não foi o dia que clareou mais uma manhã para ser. Foi o olor de infância que se adiantava concorrente com a velocidade que trespassei quase quatro décadas existindo. Era uma velocidade silenciosa daquela ser pequena incipiente de deveres e consequências. O Cheiro da Terra do Meu Quintal. Faz tempo, ignorante cresci sem dar-lhe espaço de inspirá-lo. Coube em mim compromissos de ar. Coube engrandecimento das asas. Coube, hoje, o pouso entre-quedas nesta mesma terra que cheira tão gostoso em meu quintal, quando ainda engatinhava. Possíveis retratos que desafiam o conceito de Nietzsche ao referir-me à História: a esperança não olha para trás, mas a atrai para qu’eu troque as asas pelas garras em total símbolo (de luta) pela liberdade. A própria casa, o olor do quintal. A brincadeira perene, o perfume da roupa em dias de bonança. O cheiro é o impulso do outro. Aquela coisa mansa, de casa, de ficar à v…
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Um tato

Dizem que, quando transbordamos imageticamente do outro, devemos fechar os olhos para retirar essa personalização de dentro de si, colocando a pessoa sonhada em nossa frente para realizar com ela aquilo que sua angústia pede. Eu assim a abracei tão forte. Uma coisa sua que ficou em mim, sem fim, sem apelo a vida. Assim, a saudade é um tempo de dói. Um tempo que voa... Entre aeroportos. Um tempo que suspende o sofrimento sorrindo escapismos orgulhosos. Um tempo com essa vontade de voltar para ontem que se cura com o amanhã. Tenho sido gentil com quem me abre caminhos. Em todos os lugares do mundo que eu for, eu fotografo a paisagem mais bela se tu estiveres junto (pelo menos, o meu pensamento em ti). Num retrato, Amor é sombra em calor escaldante, enquanto o inverno, aqui-externo, é a preguiça do sol. Ela é um tato cego. De um lado a pose, d’outro o ensaio: jamais saberia ser bela, atraente e sensual se me pedisse que fosse. Eu, talvez, tornar-me-ia algo bizarro fidedigno d’uma risada…

Antes do voo

Mais vale a rapidez eficiente do artificial ou a lentidão bela do natural? Qual foi a última vez que tu choraste por algo que realmente te arrebatasse sem consentimento ou controle?  Aconteceu comigo. Eu me despediria da querida que muito amo. Iria onde encontrá-la. Abraçar-lhe-ia. Seria um final de manhã de sábado dela. E não consegui. Tive de cancelar por causa de uma correria, uma reunião, uma hora e outra. Passei sem olhar para os lados. E eu tive medo... Logo mais haveria eu de estar no aeroporto de Santa Maria. E mais medo. Muito medo de o tempo não ser algo qu’eu possuísse para abraçá-la. Para o tanto que quero lhe dizer o quanto a amo e sou-lhe grata por tudo qu’ela faz, fez e quer fazer por mim.  Eu chorei de tanto amor, de tanto sentimento arrebentando o meu peito, o coração acelerado de tanto medo qu’ela nunca saiba o quanto. É a única coisa em que não posso falhar na vida. A única.  Tempo, por favor, para ela, por ela, passa devagar.

A calma despida

Ela pediu a minha calma emprestada, “essa serenidade de quem sabe muito bem o que fazer, sempre”. Eu não sou capaz de negar nada a ela. Sorrio com consentimento e visto pacientemente, enlaçando faixa a faixa, seu robe jogado no chão, tirado às pressas por algum motivo torpe... Estou certa de que quando ela vesti-lo novamente e se aninhar nos problemas do dia, qualquer resquício do meu olor despertará nela a tranqüilidade de me saber efêmera, mas marcante. Invasiva em qualquer detalhe cotidiano, persistente nas memórias e no laço da cintura, nas linhas entreabertas das pernas e dos seios, nas palavras. Observadora no brilho acetinado das luzes compostas de colo. A paz daquela que nunca parte, nunca esquece, nunca deixa de.
Veste a minha calma, querida. 
Então eu descobri o quanto ela me ama quando percebi qu’ela sabia – sem que eu dissesse ou exigisse – como eu adoro o lado mais álgido da cama. Apenas de observar a maneira como eu me ajeitava encolhida, muito mais prazerosamente entre…

Entre a saudade e o verbo ir, o Número

Quando o resultado de toda equação somada, multiplicada entre velocidade, distância, data e batimento cardíaco se resultará em nós duas? Quando a pressa deixará de ser inimiga e passará a ser a sabedoria que não se importa com a perfeição, com qualquer cara de cansaço assim que chega ao aeroporto, correspondendo com afã beijante ao sentimento sincero da espera? Saudade foi feita de cálculo. Mas, ao contrário, ela não é fria. Dias de numerosas contagens regressivas ou de resultados desistentes se a subtração das horas é também dividida com os decimais cotidianos da falta de tempo. É preço das passagens, é o acúmulo de novas frações para aproveitar cada segundo a espera de um lucro de afago. Foi distância de estrada e de meses. Qual das duas parece ou diz que é impossível? Por qual delas chego primeiro? Se a fórmula sintetiza os passos, por que a abstração da solução não se aplica no método para alcançá-la? É resultado poético da tristeza. Geometria apenas para ser holograma do sincero…

Crônica-epistolar: entre outras e todas

Sabes, pequena, alguns tesouros apenas reluzem no escuro, e, quando eu apaguei a luz, foi a tua voz que ouvi chamar. Sim, amada, a voz também reluz. Talvez seja uma premissa sábia assumir-se imensa em um segredo, embora triste. Falando de tristeza, deixa-me com ela. Falando disso, ponho aqui a palavra e na borda do copo qualquer clichê de amor mal-resolvido. Quando um amor que a gente inventa se transforma em piedade, crio um blues melodiando a minha ideologia: Senhor, dá-me coragem, porque esta carta seguirá cantando à Beija-Flor... O vocativo aqui és tu, em minha solitária confissão que te ilude, um dia. Confesso, sim, que quisera eu te ter entre as minhas mãos e a cama, entre o agora e o sempre. Entretanto te tenho entre o talvez e o quase, entre um gole e uma mordida. Sim, pequena, morena, tem pena, eu quisera te ter entre os meus desatinos e minhas faturas, entre meus livros e controles, entre o trabalho e o domingo. Entretanto te tenho entre minha voz e um segredo, entre o escu…

“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros. Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas. Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma…