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Benzedura

Toda superstição leva teu nome. O amor é o único argumento capaz de transformar saudade em fé. Numa música de Marisa Monte para aqueles cinco minutinhos a mais na cama (assim dizer que foi te amando). Enigmas que salvam com um tanto de poesia quando fico inábil para perceber a tua forma, mas te encontro ao meu redor.
Presença que enche meus olhos e alegra-me porque estás em todos os lugares. Amo porque és sólida e impressionas o sol que gosta da curva do teu colo. Uma responsabilidade afetiva: não lavar as mãos quando temos, entre elas, corações alheios.
Que olor tem o teu silêncio?
Olho para cima na condição de inventar estrelas como qualquer poeta. Questão de amparo para sustentar a leveza do ser, mais arfar: verbo este que liga minha boca à tua nuca.
Mulher que me bagunça e ainda assim me põe em síntese.

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À

Quero contigo o silêncio de quem se despe sem ressalvas, sem pudor, sem escolhas. Quero a nudez do envelhecimento. Quero a beleza da velhice, a força da rendição e a franqueza da saudade. Sobre amores de outono, os meus preferidos enredos. Tudo me é casa se tem teu cheiro. Respeito o tempo e o peso do meu mundo. Sabiá: a privacidade da casa e da legenda. O luxo de ser duas. Tocar as persianas e ouvir a canção do tempo. Aquela que inventei para te esquecer, tal qual Chico à Luiza. Exorcizo-me em composição de sombras. De poesias do próprio esquecimento. Quando o mar quer nadar em mim, eu o permito. Deixo-o calçar meus rastros porque há de ter muito de mim no desaguar.  Simplesmente preferir ter toque à memória por assim revisar toda experiência em um esforço concentrado e irrestrito de paz.

Eu dona, ela domina

A arte que tu dominas há que te dominar. Um romance, uma música, uma pintura, um pensamento e todo tempo, estudo e preparação necessários para fazê-lo nascer.  A vida segue exigindo ter pele dura e anestésica. Rocha metamórfica que se molda sobre pressões químicas, físicas e poéticas. Será que alguma vez fui a poesia pisoteada do teu dia? Por vezes, tudo que tu precisas é muito de nada. Fecha os olhos para me ler: - O que tu queres fazer no final de semana? - Quero viver em tons pasteis. - Não tem como não se apaixonar por tua habilidade em torná-los reais. E o mundo inteiro a levitar “a nossa velha infância”... O mar dentro da concha tem um tanto de ti. Coleções singulares e confessionais.  Reino: do verbo ser dona do próprio mundo.

Sobre o aleijamento da coincidência

Eis que descubro mais um diz-que-disse sobre o significado para o amor: a coincidência pelo aleijamento. Os semelhantes pareceres sobre o passar dos danos, os conselhos para outrem sem sequer melhora para nós mesmos.  “Pois é, eu também”, dizia eu a cada poesia de felicidade passageira e tristeza – mendicante de carinho – eterna escrita por Vininha. No entanto ele buscava assim como eu. Ah, tanto consolo saber que sua experiência também era sentir colo. Pronto, a paz do amor consiste em amar a parte machucada do outro e nos servirmos de muletas, um ajudando o outro a caminhar. Significa e conceitua também, longe das vistas, e perto dos conselhos. Há um carinho a ser feito adulando a tristeza: a da soma das compaixões assistidas e também compartidas. Dentro do tema possuo um legado no mundo que são umas namoradas por pedaço de chão que passei. Uma mais querida que a outra e que eu me ufano das conquistas. Melhor: mantenho contato com todas elas! Um intercâmbio sentimental ideal.  Um i…

Os fortes transmitem

Eu me apaixonei quando contei minha história e ela me olhou com qualquer coisa de coragem. Disse para eu vir ver o mundo, pois já teve tempo demais no lado de dentro da janela. Eu dei voltas, ela rezou, ela fez falta, eu voltei. Ela deu o nome. Oi, amor! Mulher que ama aos detalhe, nos retalhos, nos percalços, no cansaço, no pós-urbano, no pós-colégio, no deitar, no ombro, pescoço, pés... Que me enfeita com beijos, rastros de maquiagem e despejo de suas jóias pelo meu corpo e que com isso me arrepia, arrepia com palavras e dedos delicados passeando pelo corpo quente, que fotografa, revive, eterniza e ama mulher que... “Hoje eu vivo p’ra dizer – ou digo p’ra viver – Você é meu lugar. Se o amor não nos quiser, então azar dele: não soube nos amar.” A paciência de me ver tentar e errar, de lutar contra o que não é dom, suportar os ruídos e lamentos e ainda assim beijar a ponta dos meus dedos machucados como quem sabe que o amor cura qualquer imperfeição. O meu futuro cria raiz nela por i…

Talvez isso seja cinema

Preocupa-te com: a qualidade do som, da trilha, do diálogo, do silêncio, do cenário, da luz, do ângulo e, até, do fim. Assim disse que aprendi com ela a ter uma vida de cinema. Levei bronca! E das boas. Disse-me então que eu já sabia, sempre soube (e sozinha), inclusive melhor que ela. Exigiu que eu trocasse o elogio, pois não queria méritos que não eram seus. Há qualquer coisa de grande e boa e generosa quando a companhia não me deixa esquecer quem sou, independente de. A velha vaidade “eu sou mais eu” que ela reforça com o prêmio de não me deixar subjugar a mim mesma.  Talvez isso seja amar. Enquanto eu grifo o livro, ela repara a sutil pincelada do sol e me lê, também, com suas partes (do meu corpo) favoritas destacadas. Arranca-me um sorriso com a brincadeira indecorosa, mas não a atenção. Leitura, um privilégio sério como nós duas. E recuso-me a aceitar que nossa diversão dependa da falta da liberdade alheia.

Rio Avon à Lygia Fagundes Telles

- Vou fazer de ti uma boa lembrança no aquário. - Duvido. - Prende o cabelo, fica desse lado. Ela me beija apressada os lábios enquanto tira o celular da bolsa e dá a volta, rumo ao outro lado do vidro. Entoa “Kissing you” em seu aplicativo de música e me olha como uma Julieta, com os olhos cinzas lúcidos, confundidos com a água. Sorrio-lhe contrariada... - Sabia que entenderias... – Ela diz enquanto revivemos a cena clássica. Eu entendo. Vocês entendem? O corpo adoeceu, a alma invejou. Deu saudade... “Somente abras esse envelope quando tiveres muita saudade. Mais que puderes aguentar. Tu prometes?” Assim como a porta de Tóquio em La Casa de Papel, mas não levado a sério. Concordei, porém levo. Não abri, ainda. Namorada que vai para longe e me faz aprender a diferença entre curiosidade, falta, amor e saudade. O que me contará o interior deste envelope. Algo me diz que um dia vou descobrir. Não hoje.