sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mon amour – Caio Fernando Abreu, o caso dela e meu...

Que sorte a nossa, né, Caio?

Por um fio de memória lembrar-me-ei dela naquela exposição no Museu da Diversidade. Como de costume, após o ano de trabalho, permito-me continuar eterna numa cidade que não tem mais fim. Eternamente concreta em Sampa, fui diretamente ao encontro do meu conterrâneo Caio. Estava belo e realizando o seu desejo de apaixonar alguém pelo que escreveu...
Era uma sala com mimeógrafo. Nostalgia de um álcool purificador das tintas pingadas em cada letra dos seus versos que estávamos livres para rodar. Então, eis que o sorriso dela declamava com as pálpebras a rima de qualquer coisa maravilhosa e tirava minhas palavras sobreviventes desta boca com gosto podre de fracasso. O sorriso dela declamava com as pálpebras o fato de nascer e viver no bairro da Liberdade. Esse nome entregue ao ser do tempo com “cantos de alívio pelo que se foi; cantos de espera pelo que há de vir”. Ela, aberta ao tempo, se desculpava com Abreu e não escapava de mim deixando uma lembrança qualquer.
Mas, eu não fiquei! Tampouco me foi um tempo perdido. Moça oriunda da Liberdade! De temperamento zen-budista e lugar onde constantemente amanhece. Curiosa de vida agora, vivi! Não fiz uso da fatalidade da resistência, nem me suicidei com a grandiloqüência do “nunca” e do “sempre”. Foi cômodo, sem decisões. Um colo e um cafuné. Contidamente, continuamos. Que sorte a nossa, Caio! – comemorei em silêncio lembrando-me do sorriso dela. Ah, mas o sorriso...
Permiti-a: “levai-me por onde quiserdes, aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Sou toda minha saudade e amor de sempre”.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tratamento

Não que fosse apenas um Narciso frente ao espelho da realidade... 

Resolveu experimentar a beleza da solidão. Um paladar egocêntrico cujas gotículas breves de um suor e outro trabalho não são aparadas pelo sintético tecido de censura. Muito pelo contrário: seguiria caminhos das reações vividas, bem como a lágrima que pode surgir e escorrer pela pele que sobra ao chão do qual ela também emerge. Emerge com o gelo por onde pisa, põe-se à ponta dos pés, cuidadosa – não com os passos – mas com a assistência de sua liberdade nos seus passes de bailarina.
Salta lá, um passo à margem! A casa, simples descanso do social, tem berço de concreto, escuro, escuso e singelo de cortinas deste espetáculo estirado num sofá frente à brisa mecânica do circundante vendaval que a livra da alta temperatura adquirida na rua.
 Jogou-se suicidamente naquele abraço que desiste da existência sobre um conforto solícito e tenro da cama. Não havia fala, tampouco atenção. Apenas as artérias cumpriam o papel passado.  Futuro, um desleixo profundo de se imaginar.
Ao teto, os olhos miravam a brancura de não poder atravessar as duras partes, ao lado, a permanência do esquivo ordenado de uma cor qualquer definindo o dia ou o que quisesse.
Com preocupações não há solidão que vença! Pena! Não soube ainda qual é o melhor de si. Percebeu sua fome. Culpa do organismo. Do fragilismo de estar desperta e atendida. Do salário do qual sobrevive, da casa para manter, da roupa para vestir e atender as tarefas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Estive certa de que...

"É o ciclo sem fim que nos guiará, a dor e a emoção, pela fé e o amor até encontrar o nosso caminho, neste ciclo, neste ciclo sem fim..."


Na minha versão:

Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha. 
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro país. Era o choro mais belo de assistir. O amor mais belo de assistir. Estive certa de me manter a deriva sabendo que o seu sentimento não podia ser parecido com ninguém que ela ousasse sentir. Isso fazia com que estivesse certa de amá-la assim mesmo. E por isso mesmo, ver aquela mulher machucada, totalmente vulnerável à insegurança de um suposto esquecimento da filha que substituiu o sonho pelas asas, da saudade que nascia prematura, como fosse ontem, ela nascia prematura!, da perda do seu todo pedaço, fez-me amá-la real e instantaneamente. Eu sabia que por qualquer palavra daquela adolescente que, por agora, cabia no colo nostálgico da mãe, eu seria abandonada, desmerecida. Era daquela adolescente, acima de todas as coisas, todas as pessoas. Entre minhas crises hepáticas e o dia mais feliz dela, qual seria a escolha da presença. A mão de quem ela estaria a segurar. Não seria a minha. Eu estaria pronta a deixá-la ir por ela, sem questionar. Estava apta a cada choro, queda, vitória, melancolia. Porque eu sabia que ela iria, mesmo quando aquele projeto de adulto dobrasse de tamanho e fosse maior que sua própria mãe. Mesmo quando eu estivesse a duas quadras e ela distante a milhares de quilômetros.  
Os passos seriam na direção dela. Estive certa de que era amor quando entendi porque o “amorcentrismo” não foi criado por nenhuma mente brilhante, pois já tinha o nome claro e irrefutável: chama-se Filha! Uma mulher capaz de em pleno lugar público se entregar daquela maneira, com destemida vergonha, a dor de ver uma filha ir embora era a maior certeza de amor. Abracei calada sua menina enquanto esta murmurava no meu ouvido para eu cuidar de sua mãezinha e que torcia pela nossa felicidade. Atravessou o portão de embarque. Então olhei para a mulher enquanto ela caminhava ao meu encontro e não tentava enxugar as lágrimas que lavavam sua perfeita maquiagem. Tão ferida, tão digna de amor, tão menos minha.

Na versão dela:

Estive certa de que era amor quando ela não disse nada. Qualquer palavra dela naquele momento talvez a repelisse para sempre da minha vida. Mas ela não disse nada. Fez o silêncio que eu precisava.
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, eu estava me despedindo da minha filha que optou pela nacionalidade alemã e ia morar lá com seus planos de recém concluinte do Ensino Médio. A minha namorada nos acompanhou, mas observou tudo a pouca distância. Enquanto eu sentia a dor mais cruel de uma mãe, ela estava lá, mas não quis roubar para si o protagonismo do meu sofrimento. Não quis ser o consolo que eu jamais seria capaz de ter. Ela me olhava como nunca. Era um olhar avassalador. Não pedi nada a ela. Não foi preciso. É uma coisa que só nós, mulheres, temos e compartilhamos sem ao menos precisar parir, o sentimento de mãe. Ela abraçou minha filha com este carinho. Ela me deu a única coisa que eu precisava: o respeito ao meu sentimento, o maior do mundo.   
Após minha filha atravessar o portão de embarque, lembro-me de ter segurado forte a mão dela enquanto caminhávamos pelo saguão do aeroporto em direção ao carro. Lembro-me que segurei tão forte que estive certa de que a machucava. Mesmo assim, ela não disse nada. Continuou segurando capaz de suportar minha dor interna que involuntariamente transmitia aos ossos dela, da minha namorada. Estive certa de que era amor naquele momento quando ela não quis ser o que não poderia. Quando não cabia ninguém na minha solidão, e ela me assistiu perder. Quando não diminuiu meus sentimentos de mãe, e tampouco usou a ocasião para se fortalecer como centro da minha vida. Uma mulher forte, centrada, real é minha namorada. E tão jovem... Ali eu passei a ser tão mais dela, tão menos minha.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós IV

Compromisso era entre essas duas pessoas. Relacionamentos? Boa notícia: estavam livres de mensagens detetivescas para saber onde estava e a que horas voltaria. Decidiram mais tarde ir à casa dela para arrumarem um jantar com a rapidez de uma pizza pois logo sairiam para uma noite de MPB.
Marisa Monte, Ana Carolina, Maria Gadú, tributo a Gonzaguinha, Nei Matogrosso no Anhembi... Quantos passos em São Paulo! – Refletiram sorrindo estrelas de Olavo Bilac ao ler a programação na Folha. Optaram estar e espiar à margem de uma música e outra.
Foram se arrumando. O préstimo das cores adornavam o riso frouxo de batom vermelho. Dos lábios dela se assoviava Elis Regina. Outra interpretação para o “atrás da porta”, sendo o assovio uma escusa para atrair e dar o bote.
Frente ao espelho, a miudeza daquele corpo era pingada por um short, uma camiseta desbotada de banda, pingentes simbólicos de paz e maquiagem assombreada. Um conjunto de boneca, deveras, que descarta os preceitos e os preconceitos de princesa. Muito rápida como um poema marginal, ela se transmitiu a verve das meias três-quartos, intercalou rima do colar dourado que escorria pelo seu tronco encontrando nela a luz em que a outra moça, ao fundo, na porta do dormitório, era sombra observante. A outra moça observava inebriada e cantarolava o pensamento para a sua pequena: “És fascinação. Amor...”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós III

A liberdade quando amada torna-se intimidade.

- Nossa! Se aquele dissílabo sorridente gerou tal argumento dela, quem ousaria entender? Apenas sentiria o começo de uma música que faria um castelo erguer-se na sofreguidão de mil venturas (previstas).
***
Caminharam sobre a extensão de diversos assuntos. O Ibirapuera não cometeria com esmero a volta das horas como a haste horizontal do sorriso amigável da conversa.
- Sabia que – olhava para o minúsculo relógio de pulso – já nos conhecemos há três horas?
- Será que é fácil contar os sorrisos mostrados em cento e oitenta e cinco minutos? – Indagou ela.
- Quando nos vestimos com o nosso melhor, a obra é um cálculo aberto da Eternidade.
- Conceito: sorria sempre. – Ordenou a pequena.
- A fantasia é um clássico significado.
- É o que cabe no conceito.
- E diversa. O que sabe?
- Você tem poesia.
- Descrita, ordinária e métrica. 
Não houve tarde mais esquecida em São Paulo. Pinacoteca, Avenida Paulista, café na Casa das Rosas. A pequena paulistana explicava desde o concreto dos prédios à poesia de Haroldo de Campos. Pelo tempo que juntava, percebeu que este era o seu único compromisso: uma liberdade assistida de amar. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós II

"Deve ser louca, deve ser animal. Hálito de gim, vai fingir, vai gemer e dizer: Ai de mim! E de repente deve ter um engenho, um poder que é pra menina fraquejar, alucinar, derreter..."

- Esta manhã colaborou com você. Verdade? – Perguntou a ela.
Ela suspira resultando aquele risinho final malicioso.
- Passei toda noite na Virada Cultural e amanheci com as buzinas da Brigadeiro. Fingi estar com amnésia e ainda não voltei para casa... Nem fui ao trabalho. Até estou mascando chiclete para dar o efeito de limpeza dental. Olhe. – ela bafora lentamente próxima a boca da pessoa ao seu lado. – Disfarça bem, não é?
- Aroma de tutti-frutti. – respondeu – Tem um para mim?
- Ah, aham! – ela abre a bolsinha tira-colo e acha um envelope de gomas em tabletes. – Pode pegar... à vontade! – frisou.
E esta adverbial vontade foi mastigada junto com o intuito de saber mais sobre a menina, aliás, moça, aliás, mulher jovem que confiava suas artimanhas jocosas. A esguia matéria contida na sua figurada breve idade atraia os olhos daquela pessoa ao seu lado, que a assiste esperando aquilo que o cinema americano tem de melhor. Tomou coragem:
- Eu ainda não acompanhei a Virada este ano.
- Pô, está lin-da! Cê curte MPB?
- Claro! – Disse com o claro contentamento de enfim estar compartilhando um bom gosto.
- Parabéns, seus olhos brilharam! – Surpreende-se. – Não é comum encontrar alguém que afirme com tanto entusiasmo seus interesses. Quando pergunto, geralmente um marasmo inaudível mostra a incompleta capacidade de amar o que se acredita. Não sei se você me entende, mas tenha certeza de que sua resposta me emocionou!  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós

A arte é um organismo livre...

- Não, eu sou solteira.
Imediatamente sentiu que lhe fora dada a melhor notícia. Quem sabe a amizade, nesta hora, seja percebida por dentro? – Felizmente a megalópole não deixa a pessoa só. – pensou assim que a conheceu.
E ela? Sua idade, tal qual o tamanho “p” de suas vestes, traduzia um formato balzaquiano nas cruzadas pernas de Aline, de Iturrusgarai. Caminhava pelo Ibirapuera alternando a apatia, ora na rósea bola do chiclete, ora naqueles passos que indagam o porquê de nascermos compromissados com o sustento. Apoderou-se do banco do parque estirando suas pernas num aviso de pouca amizade... Não notou que ao seu lado havia alguém que bem a observava.
- Sol do meio-dia. – disse ela na pretensão de ser porta-voz de suas pernas abafadas pela meia-calça acrílica. No princípio, quem a reparava receou responder com algum monossílabo grunhido. Talvez ela estivesse pensando alto ou, na pior das hipóteses, realmente falava privadamente consigo e cortaria de vez dizendo “não estou falando com você”, ou... Até que ela se virou para a pessoa ao lado e sorriu um “e aí?!”
O fato é que o sorriso, mesmo sem a graça dada ao vocábulo, vem a ser o divisor de águas entre o encontro de duas pessoas desconhecidas. Num cantinho tímido da boca concordaram logo os primeiros cumprimentos e as trocas ensaiadas de conversa sobre o clima de São Paulo. Entretanto, ficar no “vai ou não vai chover” fá-la-ia desistir do contato.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os ciclos se cumprem e se dissolvem no amanhecer que consola a pedra. Esses ciclos medem a vida, a pedra acompanha com testemunho cego, mudo e agourento dos segredos.
Tranca a porta e o tempo. É casa, é jazigo, é o caminho. Fez poeta, fez morte. Iludiu-se, educou. Esmaga, apóia. É a justiça enquanto tudo pede passagem.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

E se enfim

E se enfim o sangue pudesse ter seu valor reconhecido por pintar o interior da capela? Logo também pelo seu rito genético dado no primeiro pedido em Genesis ao que o nascimento também pode ter seu significado de paz reprimido em um tiro...
Do crucifixo à cruz, a antítese de Pessoa confere o que Hegel entende de nós sobre a consciência. Dói, realmente sente. Mas prova da própria máscara para ver como será. Corre os olhos metaforizando a liberdade assistida. Exagera enquanto há corpo e oração, santificado seja enquanto homem!
Ainda haverá quem se dobre para forçar sua alma ao incólume final que lhe impõe. O perdão não convida à ceia, mas agrada na mudança. A fartura significa nova atitude. O ouro, a metáfora do bom-dia.
Como ser sangue se o tratado já foi assinado com a lança perfurante em nossa pele de alma cativa? E nós, lançados ao espaço, da palavra restou o gemido. Ah! O otimismo dos céus! Daquele otimismo que contamos carneirinhos buscando o sono e sem mais bocejamos incansáveis. O otimismo que muito reza. O otimismo que, do amor cego, qualquer lampejo de visão é um pretexto para se apaixonar... Ainda gozamos dos gemidos!
Por ainda que tenhamos fé, a energia se desdobra no presente entre ela e a inteligência. Por mais científico que seja, escorre o sangue pelas rachaduras do próprio templo. De humano, o infinito concede o pensamento. De volta ao primitivo, a conquista ainda envolve brutalidade.