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Protagonistas

As duas com os olhos fechados, mas ouvidos receptivos notaram que a chuva é a metáfora da salva de palmas. Notaram-na com a imagem audível do sucesso. A chuva as aplaudia no silêncio dos olhos na gratidão do abraço. O céu inteiro era seu público que clamava por intenção, desejo e realização. A chuva lhes derramava palmas sobre a cena. Um palco terráqueo cujas projeções são duas entre as multifórmicas posições no leito. Quando as nuvens carregam consigo o recolhimento álgido das premissas, a exigência é que recomecemos o que se precisa encantando o firmamento. Se elas estão felizes, agradam a origem frutífera e da enegrecida beleza do ambiente que abre as cortinas desta obra denominada nós, o céu, o meio, as partes. Aquietar, ouvir palmas de chuva na hipérbole onírica displicente de qualquer poesia curvada ao ritmo, ratificar o que de tristeza aos néscios ela significa, mas que traz aos sábios o que ela inspira. Seja texto. Seja sexo. O descanso entre elas tem sua história no berço estela…
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Significante e significados

"ajo com sensibilidade da esquerda e a razão da direita" - disse a idiota. A idiota para a qual O inimigo do Povo rir-se-ia dela que lá sobre o muro, o centro do mundo com demagogia unificada, a ruir-se no sorriso prolixo de mandíbula oprimida. A idiota para a qual Dostoiévski desferiria um tapa em sua cara por preguiceira de mudar o sexo do seu livro. A idiota no sentido exato do substantivo no sentido grego de significado. A idiota de doida. A idiota que louva o capitalismo nas personagens prostituíveis de marca Madame Clessi. A idiota elogiada por Erasmo e rida pelos sábios. A idiota pedinte dos Miseráveis. A idiota para a qual La Boétie comentaria: ave, a "frilance" que se acha empreiteira. A idiota - invejosa porque nunca foi aprovada em um concurso público - a qual Dante soltaria um: aham, senta lá, Cláudia - com toda postura epopeica da poesia endemoniada. A idiota que Caetano encaixaria no verso "somos uns boçais". A idiota, não perca, no cinema-…

Entre mãos

Às vezes o ser humano, ou eu somente, preciso somente de alguém que se aproxime para duas, apague a luz e me sussurre “sinta aqui essa massagem”. Eis que a mão é puxada para o centro-ritmo embolado, circulatório, embora carregado e adjacente à saudade que não cabe ali, naqueles batimentos. Na música a casa e aconchegante e registrável até que se bagunce tudo. Assume-se a angústia, a introspecção e a reflexão com o tempo sobre o que ele proporciona e tira. Período difícil. Perdão acentuado de sobremaneira. A negligência com o passado e com o que nos trouxe aqui... Quanto medo à comédia de minha insônia isso acrescenta. Prevejo e compartilho à toa. Só e só há alguma beleza na tristeza individual e intimista. Na coletiva, só há dor e despropósitos. Desejo de saúde forte! Cautela e comemoração... Entre as mãos. Eis que alguém deitada ao meu lado na cama quase fria, quase quente me olha nos olhos e sorri um sorriso de covinha após um longo silêncio à noite de uma data com alguma intenção de…

Crônica epistolar

“Oh, paulistinha bonita”, inicia a estrofe cantada por Teixeirinha à luz da união entre os dois estados cuja saudade atravessa a ponte sobre o rio da milonga. Oh, minha paulistinha bonita! Um elogio de mimético desembaraço desta que a beija e a escreve com toda guarda divina que sua pessoa me tenta. Oh, minha paulistinha que de tão bonita é sua desfaçatez quando lhe digo que você tem Angélica na cara... Deixando de lado os regozijos de uma “boca do inferno”, permeia-me a paz do convite a estar com você em meu colo com mimos de inha, tal qual a paisagem bucólica que cerceia a nudez feminina nas estampas dos lençóis sobre a cama desfeita. Meu odeon onde a cantiga sofre nas rimas de inha por todo carinho que lhe alcança nesta ponte. Paulistinha. Pequenininha. Um diminuto de tempo e espaço para que você caiba de amuleto no que posso chamar de meu. Eu a amo e ainda tenho tanto para amá-la... Amar como todas as épocas que divagam a poética pesquisa sobre amar e pecar, fugindo para qualquer ca…

A peleja e o silêncio

Possuímos o péssimo habito de pelejar com o tempo e isso é acentuado em datas comemoradas. Aprendemos a gostar de dias pelo esforço de resultado amoroso entre nós, ainda paixões, ainda família, ainda amigos. Não há como não sermos invadidos por uma onda de emoção de água fria e de gratidão pela impecável e emocionante que muitos manifestam a felicidade de compartilhar qualquer coisa de vida. Entre nós salvamos nossas almas em dias comemorados cuja efemeridade e as dores costumam pesar além do comum. Lermos, ouvirmos, sentirmos entre nós é a certeza de que algo certo construímos em tempos de peleja e, por aqui, sigamos aprendendo com alguma humildade e devoção a aceitar que isso basta e é tanto. Paciência, sabedoria, delicadeza, generosidade. Cada um sabe um pouco ou vive tudo de cada. Conversa gostosa entre nós, ainda paixão, ainda silêncio, ainda segredo. Precisamos falar sobre o silêncio, pessoal. Esse aspecto do tempo retraído: música, relação, tecnologia, arte, natureza, vida. São…

Depreendidas

Para bom poeta, meias bastam. Ter cautela ao andar para não pisar em desejos alheios. Se no mar, por vezes deixar-se inundar é forma de cravar os pés no chão. Nem sempre há desespero no descontrole. Essencialmente urbana, mas com um respirar de espaços bucólicos onde anda em mim um vestido jogado de morangos... Esquecer na perda do admirar as bobagens de amor que iria dizer. Sou da megalópole e me é intrínseco o concreto que assim me equilibra em grandes altos de alcance celeste – o mesmo que, em momentos silentes, recolhe a paz em meu rebanho e em grandes altos de ambição como a frase “Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi”. Todo cansaço será recompensado? Na poesia parece óbvio. Na realidade, nem tanto. Para compensar: aquieta-te. Cansa teu olhar no meu, querida. Espera o melhor para colher o tempo de beleza resgatada no interior de nós. Vem, querida, descansa teu olhar no meu...

Todo dia (especialmente nesta semana)

Às pessoas que passavam por mim refutando o clima chuvoso com interjeição indagada de participação coletiva reclamante “ah, que horror, né?!” eu respondia “um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é”, bonitos à sua maneira, propícios a diversas tarefas para quem não se esconde na queixa. Logo, algo que me chamara atenção veio da paciência dessas pessoas ao pararem silenciadas ante a lógica pessoana. Encontraram a raridade e em mim o halo dos desaparecidos? O sinal da escola soava, os carros passavam, o pátio era um odeon de premissas e pressas até que o espaço concreto se tornava o próprio ar de langorosas difusões de olhares e palavras, como a água corrente de efeito apenas seu e intransferível. Não era coisa esperada. Tampouco suas caras! A matéria parou. A matéria reflexiva, o guarda-chuva que não fechava, a pressa que cessava. Eu queria realmente aquele gesto em seus olhos – a aura após a cegueira. Pareciam, cada um a seu tempo, enfim, na companhi…