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Interpretação velada

A segunda noite. A segunda fileira do teatro. A segunda vez. A segunda voz, a minha alma ouvinte. A segunda sonata de Chopin, as segundas intenções de George. Segunda-feira. Estrofes de Musset em linhas compostas de Liszt. Segundo amigos, os coveiros tinham de levar o ataúde com a lentidão da humanidade, ora em partitura, ora em poesia. Diversas notas de seus noturnos continuaram no monólogo dela. Era uma biografia de pareceres alheios. Eram vinte vidas em oitenta anos... A voz dela! Ela tem uma voz! A voz dela é o mais fio veludo do feminino. As palavras proferidas por ela ganham vestidos de gala aos meus ouvidos. Ouvi-la: os olhos podem seguir fechados ou abertos em posição de sonho. A voz dela guia a dança entrelaçando pontos, vírgulas e valsa de sintagmas. Ela é reticente. Questão de confiança, amabilidade e até de paz. Detalhe: sabe-se o verdadeiro significado de não dormir de tanta paz. Ouvi-la: calçar o salto mais alto e devagar ser pétala que desliza junto ao caminho da rosa-…
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No fundo de si, mas na base de um relacionamento

Repara bem. Mesmo quando te afundas no breu da profundidade de ti mesmo, há sempre um rastro de luz para trazer-te de volta. Repara bem. Quando mergulhamos, nos sentimos como anjos de nós mesmos, voando para baixo. Saudade é querer dividir contigo tudo o que não consigo ver sozinha. Tudo que move é sagrado. Aqui dentro e lá em cima, na base. Lá em cima, sabes como é um início de relação: os assuntos ficam suspensos e há cuidado excessivo com as palavras.  Mas tudo o que precisava ser dito, foi. Mergulhei com aquelas conclusões tristes de renúncia, de paixões mal resolvidas e essa necessidade imensa de ser autossuficiente e ter certeza, ao regressar para a base, da escolha de estar junto a ti porque não há outro meio, outro rastro de luz que não seja tu. O raso tem me apavorado! Eu tinha me avisado que o sangue é mais denso e cego que a água. Tu sabias e disseste que torcerias para eu não sentir tua falta. Pareceste-me sincera. Tanto que, quando voltei à base, lá estavas tu me gratifi…

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Depois do expediente

Foges comigo para o meu lugar preferido? Quero preencher contigo a agenda vaga dos meus dias. Claro: palavra que abre caminhos. Seja no aceite, no amanhecer ou no deitar do expediente à cara do entardecer. Aeroportos e aviões e idas e vindas já me despertam normalmente uma sensação de não-pertencimento e nostalgia. Se a chuva cair... A chuva dilata qualquer sentimento. Não. Não disfarces covardia com propensão à calmaria. Joga-te, confia e ajuda-me: sê interessante, fala de ti e do mundo. Não te quero em foto perfeita, de profissão sem paisagem, de pose, de posse de cargo ocupado, de efeito e pouca comunicação. Quero-te verdade e despretensiosa porque tens emoção, tens história. Tens troca e visão além dos olhos. Ver-te beleza do dia-a-dia sem que seja nos nossos encontros e destinos passageiros.  Quero-te que me permitas ser triste e isenta. Fala do que vês, do que lês, do que sentes, do que queres. Dá-me a vontade de puxar a cadeira e servir um mate (ou passar um café). Sugere-me t…

Arcadismo e personagem

- Se um dia me contassem que eu me apaixonaria por uma ruiva, branquinha, rodando vestido florido em um amanhecer de vendaval contorcendo os trigais, eu diria que tal projeto de poesia neo-árcade é fraco, excessivamente romântico e sem criatividade. - Fico tranquila em saber que tu te negarias a fazer esse papel clichê. - A tua capacidade de incrementar versos e roteiros é impressionante, Larissa. - Alguém tem de quebrar a obviedade de um poema tranquilo e bucólico. - Bom saber do teu empenho para me fazer aceitar o papel. - Ah, que ardilosa és! - Há quem caia nas próprias armadilhas. - Deusas e poetas nunca dormem... Precisam zelar o sono alheio e sonhar antes. - És Deusa ou Poeta, Larissa? - Qualquer coisa desapegada entre uma e outra... O nome é de Deusa, mas os pecados são de Poeta.

Quando o mundo é o cortiço

Enquanto o mundo girava mais rápido pelos jornais que em torno do Sol, no andar da cobertura lá estava D’us em Sua cadeira de balanço. Ouvia-se, ao fundo, a voz de Elis Regina. D’us estava se distraindo na eternidade ao som de Casa no Campo...  Mas como ser onipresente que é, Seus ouvidos também atentaram para um burburinho fofoqueiro que citavam seu santo nome em redes sociais. Levantou-Se num rompante e pôs-Se a caminhar, meio cambaleando as cadeiras e as pernas por conta da idade, ora apoiando as mãos na parte lombo-sacra de Suas costas, preocupado em saber por que Seu nome era arquejado. D’us não é um cara de ter mídias sociais. Sempre achou antagônico ter senha para tudo, visto que a publicidade disso visava alcançar a todos (e até os “recalcados”). D’us ainda nem dispõe de tempo para tais mesquinharias, pois ao cuidar desta grande creche chamada Terra, o domínio de algumas salas às vezes torna-se inviável. São alunos problemáticos. D’us chama: - Arcanjo! E lá estavam todos os a…

O homem que insultava o mar

Enquanto eu passava temporada numa praia gaúcha, há mais de dez anos, deparei-me com aquele jovem senhor situado numa rocha costeira, a proferir insultos ao mar. Xingava-o, blasfemava-o. Suas palavras de baixo calão tinham peso de elegia. Uma rima perfeita entre seu corpo fraco cobiçado com a impotência do maldizer. Atirava-lhe restos de pedregulhos quando as ofensas se repetiam, pisava em seus marulhos a cada encontro com seus pés, a cada falta de como humilhar aquele gigantismo do mar. Com uma amiga, eu realizava minha caminhada matinal pelo mesmo trajeto. E lá estava ele contra o mar. Estaria ele embriagado? Indagou a moça ao meu lado. O jovem senhor percebia já na sua esqualidez a despreocupação com a própria sobrevivência, a vitamina era absorvida na energia de seus insultos ao mar. Comida perdera-lhe até então o significado. Porém, de onde incidia a fortaleza de seus insultos? Completei com mais dúvida. Era como se um ódio débil e triste socorresse-lhe a própria vingança. Ele e…