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O fim de um roteiro de viagem e o fim de uma música

Se eu não posso sustentar os sonhos dela, se nada tenho e cada um vale o que tem...
Assim foi a última nota que ela pressionou no piano...
- Larissa, eu preciso conversar com você. – Ela precisava terminar, bem sabia eu... Bem qualquer certeza de suspeição do conversar sabe. Algo sério, ela evitou que eu a beijasse. Fomos para uma área ao ar livre, leve e solto... e com legítimos ares de solteirice, previ. Ela queria terminar aquela semana. Foi um romance de viagem digno de paulatinas noites ditirâmbicas à Zeca Pagodinho de juras, mas com sentimento em pentâmetro iâmbico pela imagem da Santa Cruz. Jura... Sentamos, em fim, à mesa do lobby. Ela foi direta. - Precisamos terminar. – Nenhuma novidade. Terminaríamos por causa da distância, visto que ela viaja muito e raras vezes se encontra no Brasil. Terminaríamos, na mais tola das hipóteses, por causa de nossa diferença de idade... Vinte e quatro anos de diferença. Não. Bobagem! Demo-nos tão bem em qualquer aspecto. Isso não é mais tabu. É …
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Canção e declaração

Love of my life O mais belo clichê redundante que cantarolei há pouco. Queen foi sábio em cantar o trocadilho inglês Love/Life dito a todo o momento, a qualquer movimento chamado de encontro. Considera-se o amor um encontro. É o começo da palavra. Começa a sua história pelo encontro: “encontrei-a pela primeira vez...”. E a vida inclui desencontro. Pois é, amor da minha vida... É a vida, não é?!
A minha insônia tem a voz dos teus sonhos. Assim como um sussurrar de versos, que desperta, eu sempre quis ouvir. Assim como um murmúrio pedindo socorro, tal voz ecoa da garganta umbral e do peito do mundo em um suspiro contido, de brado chorado e sofrido. Cantado sempre. E talvez no meu dever de contê-lo, suportá-lo, defendê-lo, force nas notas de minha própria angústia essa melodia profunda que acalma, afaga e te coloca novamente em sono (ou descanso) merecido.

Células

Em qual quando, onde ou como qualquer conjunto pode ser considerado “família”? Uma colônia de bactérias da família tal. Doença conjunta que se herda pela reprodução. Repetição de genes ou de um hábito conjunto como entre paredes feias, mal-cheirosas e decadentes de um cortiço... A ironia de quem tem a solidão na própria porta que abre. A ironia de quem eu, na solitude, orquestra tributa raiva da família no seu grupo passado de cromossomas. Ah! Ah! Mas o tributo a solidão também paga a decisão da autossuficiência adquirida – e dado-lhe o poder à linguagem e os passos rápidos de uma vida em comum. Alguns vivem no conjunto por si só sem saberem o que são. Medíocres, talvez por não suportarem a própria companhia. Outros são o conjunto por si só. Corajosos, tendo talvez quem os suporte enterrar. O conjunto, a colônia, a família. Portarretrato. Não gosto de fotografias. Caso eu as registre é de mim para mim enxergando a outrem naquela cara estática de anacronismo. Minha cara nas fotografias se…

Excertos e ditirambos II

Tosse, tosse, tosse Minha mulher saltitante Do peito, escarro Seus seios, não paro!
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Toda a minha vida Cantou Vininha Poetizou Bandeira Tosse fidedigna
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A quadra matemática: Poética matriz De guarda enfática No cruzado de meretriz
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Olhe o rabisco dela Uma menina veste vela Nos bramidos E esguichos do sal
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A receita de bem viver Inclui o ar que não mais                         Consigo respirar Como uma história completa                         Que não consigo mais contar Sem reunir tudo que me é efêmero Vida aos fragmentos Diversas foram elas Os sonhos do mundo que uno
É uma receita de saúde a sós.

Excertos e ditirambos I

Eu, você, nós duas Já temos um passado...
Ainda bem... Ainda bem que somos um passado.
(sobre o fato de cuspir, aliás, vomitar no prato em que comeu)
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Bico Desde o peito Onde pulsa Desde o leito Onde repousa Desde o desespero Onde retrata Desde o papagaio com dor Onde propaga a polêmica
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Foi da chuva – lá fora Que notei – aqui dentro Tua chuva caindo dos olhos.
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Um osso! Ei, amor, é o nosso!
(Shakespeare da vida xingada)
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Blá, bla, blá, blá...
Chupe-me lendo Os Lusíadas, pelo menos!

Organismo

Não há pão que envelheça sem estar de acordo com a fome merecida. A astúcia do alimento, a composição orgânica – também orgânica é a fome de quê – castiga o que se sente. Sentir é da parte abstrata, da riqueza que tomamos por nossa – dor, alegria, pavor. Migalhas aglomeradas desde a aura adivinha da indiscrição vivida à aparência. Envelhecemos conforme a busca merecida. À medida do corpo, como um alimento (do próprio alimento) que dá gosto ao ego. Aos vermes, com carinho, dedicamos as migalhas de nossa miséria. Busca, que tem a ver com o sentido aplicado conforme sua fome e sede de quê. Letras que nos indicam expressões, números que suspeitam, que aguardam, que convencem, que desesperam. A máquina óssea é um aparelho reverenciado, desgastado nos sonhos áureos enquanto possivelmente há uma figa do que adjunta a força. Ou as frutas. Podemos pertencer a terras que além do pão, dão frutos e trigos e sojas em abundância – todas se tornam farinhas para não apodrecerem. São deglutidas e devolv…
Pesadelo Pesa dela o colar Sopesado de nossa garganta A reza do céu provocado Por uma justiça invocada
Acredita ela na beleza, bem como a propaganda de cosméticos. Não tem mais cara, sua máscara – que caiu – foi espetáculo das mais belas ações que seu enredo proporciona ao absurdo. Camaleoa, eis a credulidade frágil desta a quem confiou rezando dela o seu santo anjo do senhor. Não foi zelosa, nem guardadora. Sem piedade – esqueceu-se de que ela não é divina – guardou e governou e eliminou. Efeitos do iluminador. Eram tantas cores e atitudes maquiadas friamente. Arco-íris do descaso. A cinza de um dia confiável. Artista sem texto, apenas com o improviso do seu caráter. Linguagem corporal em que todos dançaram. Manipulou marionetes vivas como ninguém. Foi boneca de trapo, de pano, de chão. Fecha a cortina que pesa dela toda sua arrogância. Enfim. Foi fim!