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Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento

- Que houve, você parece nervosa. - Temo raios. - Teme ou odeia? - Uma ação leva a outra. - A velha conversa do desconhecido e de sua consequência, etc... - Estou demasiadamente tensa para filosoficamente problematizar raios. - Mas aqui é seguro. - Descargas elétricas matam vinte por cento em casa, perde apenas para desacampados.  - Bom, eles não morrem do nada... Ou é porque estão usando aparelhos eletrônicos, ou porque talvez estejam, como vocês fazem, tomando “mate”, com a “bomba” metálica na frente da janela. Cê não está fazendo nada disso. - O medo tende a ser um costume irracional. - Parecia-me que você tinha pavor de vespas. - Tenho pavor de tudo que tenha e coloque ferrão. Um asco!  - Hahaha...  - Não há restrição de pavor por homens. - Cê quer um abraço para se sentir segura? - Se tu fosses feita de borracha... - Não é o caso... - Carros são lugares seguros, sabias? Sinto-me protegida neles. - Ué, descemos então?! - Para onde? - Para o carro. - Por que o faríamos? - Para cê …
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As aspas de amamos

Para quem desejamos é dedicada a felicidade final do artista, do poeta. Sempre encontramos um ipsis litteris para a pessoa em questão, que parece que o artista a pariu, a profetizou naquele poema, naquela música, no incômodo sublime da composição. “Quando Deus te desenhou”: entrega-se ao trabalho do artista a projeção onírica da qual se emancipou as melhores submissões inspiradas “para ti”.  Bordões, citações, expressões, frases, máximas, parágrafos. Seja intimamente ou com rabiscos e grifos, sempre guardamos em nossas leituras alguns trechos que nos despertam e ficam, de forma única, impregnados em nossas mentes. Alguns levamos para toda vida, outras servem especialmente para um momento específico, mas todas importam quando as lemos, as dedicamos, ou quando ganhamos voz através do outro. Abrir aspas é deixar o outro se comunicar por si. E ela abriu as de Vinícius de Moraes na sua carta. Sem coragem de dizer quem é, a anônima que já amo confiou no poetinha para grifar, em todas as pá…

Vulto e clarividência

- Meu lugar preferido para vê-la. Remete alguma experiência pós-morte. - Como assim?! Tu tiveste alguma experiência dessa? - Não, mas imagino assim alguma forma de paraíso. A visão um pouco turva com uma imagem serena como passa nos filmes. - Tu tens sido uma boa menina? - Ah, não me faça pensar nisso, Lari, não faça do meu paraíso o purgatório com suas perguntas filosóficas que causam crise existencial até em uma criança.  - Eu sei ser o inferno, “Margarida”, através de um ponto de interrogação. - Eu também não duvido que o diabo tenha essa aura celestial. As pessoas o deixam muito caricato, mas creio que ele seja bem sedutor. - Estás sentindo este cheiro de fogo e ar abafado? - Hahahaha... Sempre grata à companhia de plantão, de chão, de colchão, de boas conversas despretensiosas e ecumênicas. Entre pesquisas e textos, nossos intervalos de criação foram recheados de boas risadas.

Sobre o amor de (se) silenciar (retificado)

- Não sei se devo me orgulhar por ser a mulher que te cala.  - Tu não me calas. Tu me silencias. E, em um mundo em que milhares de vozes querendo ser ouvidas tornam todas inaudíveis, não há nada mais sublime. *** Ser é presenciar. Presença é segurança. Impublicáveis e amáveis. Amém! Paixão deve ser essa overdose de si mesma, apenas porque sou tão bela ao olhar dela... Ao silêncio dela. Maturidade: a chance de ter um romance tórrido sem se queimar. Atraio dela passos mudos num salto caqui, olhar de reticências e jogadas linguísticas desnudas. Eu, mais jovem, mais inexperiente. Bobinha aproveitável Lolita dos sonhos das aproveitáveis narrativas femininas. Minha postura profissional inevitavelmente se tomba ao seu beijo soprado quando fica só comigo, seja por marca do seu território ou por brincadeira, por descaso ou cansaço. Glamour das reuniões – ela feliz na ponta da mesa, e eu na outra. Monte de gente entre nós... Aquela piscadinha cúmplice e o mundo é apenas nós duas. O silêncio é …

Sobre o amor de (se) calar

Os símbolos da construção de uma relação são interessantes. Disse-me ela, olhando para A Força do Querer: - Se um dia casarmos, em vez de arroz, vamos pedir uma chuva de mignon sobre nós. Continuou: - Eu seria muito feliz comendo mignon todo sábado de manhã contigo. Continuou: - Eu odeio mignon com cerveja ou durante uma cena interessante de final de trama, mas, cotigo, tudo que eu odeio fica bem. As frases que eu escutei, enquanto dialogava grunhidos com bocadas de mignon mastigadas, me parecem inevitáveis que, para o resto da vida, os biscoitinhos mignon me lembrem dela. Mesmo que nossos caminhos se tornem diferentes um dia, já há eternidade em tudo que complete o coração, tome outra forma quando aberto e aquecido com as mãos, enchendo-as e ficando liquefeito e mais gostoso. Ressignificamos a vida por quem passa por nós. É bom que seja assim – Meu silêncio digeriu. Ela continuou: - Amo tudo o que a tua pele diz. Arrepiou minha liberdade, me esfarelando toda. Continuou: - Sempre ach…

Da minha criança (ou Tempo Presente)

E toda aquela infância
Que não tive (como as outras comuns)* me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Questionei-me nesse último dia 12: por que falamos sempre da infância (ou nos referimos a ela) em tom casimiriano de tempo longínquo e nostálgico? Em meio a tantos livros, uma fábula audiovisual da Disney é a minha história favorita de criança: O touro Ferdinando. Esse protagonista que vivia em meio a um código predestinado e prenominado aos touros – agressividade, competição, intrepidez – porém se regrava a uma vida paciente, só e aprendendo o que é a liberdade de si mesmo. Continuou livre, paciente e só. Ferdinando marcou-me. Pelo tamanho da pele na completude sensível de sua alma. Ele era (e sou) eu em vida desde quando assisti ao desenho... Mesmo criada em meio ao tabu padronizado de beleza competitiva entre outras mulheres acomodadas que buscam do casamento ideal e perfeito às fofocas da família, era eu a fugidia desse círculo. Quando se davam conta que eu não estava ali…

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …