sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crônica-epistolar: entre outras e todas

Sabes, pequena, alguns tesouros apenas reluzem no escuro, e, quando eu apaguei a luz, foi a tua voz que ouvi chamar. Sim, amada, a voz também reluz. Talvez seja uma premissa sábia assumir-se imensa em um segredo, embora triste. Falando de tristeza, deixa-me com ela. Falando disso, ponho aqui a palavra e na borda do copo qualquer clichê de amor mal-resolvido. Quando um amor que a gente inventa se transforma em piedade, crio um blues melodiando a minha ideologia: Senhor, dá-me coragem, porque esta carta seguirá cantando à Beija-Flor... O vocativo aqui és tu, em minha solitária confissão que te ilude, um dia.
Confesso, sim, que quisera eu te ter entre as minhas mãos e a cama, entre o agora e o sempre. Entretanto te tenho entre o talvez e o quase, entre um gole e uma mordida. Sim, pequena, morena, tem pena, eu quisera te ter entre os meus desatinos e minhas faturas, entre meus livros e controles, entre o trabalho e o domingo. Entretanto te tenho entre minha voz e um segredo, entre o escuro e o tato.
Eu, amada, que quisera te ter entre o inesperado e o ininterrupto, entre as improbabilidades, te tenho entre o esquecimento e a mentira, entre as anulações e as idiossincrasias. Sou a confissão que quisera te ter entrelinhas e entreolhares... E te tenho entre lapsos e o resto. Entre a falta e o medo. Entre outras e todas. Eu, que quisera te ter entre, te tenho dentro. 

Escondido num choro-canção...

sexta-feira, 9 de junho de 2017

“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

Chuva para forjar inverno. Uísque para forjar afago. Literatura para forjar amor. Fuga para forjar esquecimento.
(Imagem: Larissa Pujol)

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros.
Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas.
Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma percebe o desfalecer de um amor. A tristeza sólida em lágrimas que me repousa em posição fetal entre os lençóis após horas que esperam as horas seguintes para novamente encontrá-la. Só escrevo para ela. Só. Escrever dói. Dói a sós. Mudam as roupas, o mesmo bom-dia me envolve. A mesma amizade que blinda os sentimentos que me engolem. Se minha mentira pudesse estar na sua piedade...  

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Voa beijo em asa de borboleta

"Pela rambla o estandarte das cores: Catalunya, Barceloneta, Blaugrana a mirar-lhe o olhar de mil homens, bailarina dança na roda sardana [...] Menina mulher da pele branca, a bela da tarde com charme encanta. Filme de Buñel, obra de Gaudi ou tela de Miró?"

Sua tela aceita cores: seja arco-íris, seja tempestade. Ela detesta o sol, que compete com a clara dúvida de sua pele sobre o que nela se pincelará. Pele alva na qual o batom dita a regra escarlate e voa beijo em asa de borboleta. Pele de maravilhosa cor-de-inverno, cuja vacuidade de olhar para ela aterrissa o tempo e esfria os passos frenéticos em prol de apenas... Olhar para ela.
Ela beija flores! Voa. A nítida boca agora é pétala estagnada na cara, na boca, na nebulosa mística de espalhar polens lembrados. Democrática, ela não sabe o significado de segredo e partilha diálogo de suas cores pejando beijos. A boca dela quase nunca fala; mas faz! Claro, deve ser isso o amor: qualquer coisa diferente das palavras.
É um erro os poetas, que escrevem tanto sobre ela, não citarem que na sua tela também adorna a coroa bela e grega de sua seriedade, esse quê de cientificismo, sempre com óculos... Homens nunca a amaram pelo que ela pôde enxergar. Eles a amam pelo seu palpável presente. Mas ela não perde tempo com homens... Ela é sábia. Ela ama mulher! E isso é bom. Todas que a namoram, todas elas, aceitaram a carência dos seus olhos. 
Ela nunca sabe dizer qual foi o último dia que se amou profundamente... A tela branca junta à sua versatilidade o amor-próprio. Ela se reforma no casulo de dentro para fora de um autorrespeito inseparável e reforçado... Quando reclamam de saudade para ela, ignora. Ainda sobre ela, o problema da saudade é esse: não acompanha mudanças. E o fundo branco apaga e desenha novamente. Beija sua boca e nada acontece. Da tela branca de sua pele, o outro é mero espectador. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

“Não era mais a mesma, mas estava em seu lugar”

(Texto adaptado da crônica que recebi dos alunos)

Deixou a bolsa, pegou o giz. Ainda não havia sorrido. Seus alunos se organizaram e, agora, esperavam os ciclos daquela letra que constelava novas histórias naquele deserto escuro de um quadro-verde. Escreveu o título, olhou-o. Não sorriu. Não contou anedota. Abaixou a cabeça e suspendeu o punho sobre o apoio do giz... Com o outro punho, cobriu as narinas. Olhou o título do conteúdo, esquivou o olhar da turma, que já procurava saber o que houve. Por que sem piada? Cadê a risada? Cadê, depois, o grito vociferado que silenciava a todos?
Tremeu a voz continuando a olhar para aquele infinito verde-escuro. Algo sem conteúdo para inventar, como na música, um machado que quebrasse o gelo e a despertasse daquele pesadelo que, por ora, somente ela carregava...
Fazendo jus ao título, então, ela se tornou uma heroína trovadoresca. Ergueu do desespero a coragem de um machado e quebrou o gelo soluçando-o derretido em lagrimas copiosas. Todos os alunos se reuniram conforme os outros cavaleiros em torno da Távola... Todos ouviam a sua professora. Não acreditavam. Pela primeira vez em suas vidas, o símbolo de fortaleza, rigidez, disciplina, cálculo e frieza – chamado professor – revelava o conteúdo humano.
Ela revelava o quão era difícil, naquele momento, colocar a profissionalismo acima de si. Revelou também o motivo. Aqueles jovens, fixados nela como verdadeiros astronautas de mármore, olhavam sem crer que a professora se transformava em pessoa e chorava sem medo. Ela conversava com seus alunos buscando a última chance de tentar viver sem dor. Ela não temia a noite de não sentir... Ela descia do céu. Era a mãe contando com o esforço de todos para que se reencontrassem no próximo ano. Era a mãe pedindo para que todos eles se sentissem abraçados na despedida.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Resposta (“ainda lembro que eu estava lendo...”)

Vou esperar desbotar... (Foto: Larissa Pujol)

Intransigente, exercito a vaidade e o corpo até torná-lo inapetente. Indissociável da minha totalidade afim de que nada em mim seja vulgar ou descartável. Deve morar aqui, em mim, a melhor liberdade.
Procuro alguém que aceite assim: aparentemente faltando um pedaço, mas é só descuido de quem quer se despir da sua completude para encontrar e vivenciar no outro a metade que nunca soube ser.
Então, podes esquecer a cor do meu vestido e a profundidade do meu decote. Esquece quantas doses de uísque trouxeste para mim, no entanto não te esqueças daquela conversa íntima, ao pé-do-ouvido, compactuando a contribuição histórica dividida no jardim...
Sobre o glamour da intimidade, antes coragem que prepotência, antes o erro que a indecisão, antes paciência que esperança, antes experiência que exatidão, antes instrução que conclusão.
Quem sabe, meu amor, deixemos a saudade desbotar. Até que reste a plena vontade de sermos silêncio de duas almas pisando sobre o assoalho ou folheando livros. A voz nos seria o cristal cujo uso propaga um corpo outrora esquecido... Que os olhos, porém, depois, ainda vidrem como no interior de um vidro, atrás ouvidos, oblíquo o pronome em primeira pessoa. A companhia luz que ajuda a estar só.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Candinho, Toninho...

Entre os alunos é o Candinho, raramente Toninho. Melhor dizendo, professor Candinho. Numa aula magna disse a nós para amarmos a Literatura Brasileira - talvez parafraseando Cristo automaticamente concluindo em “assim como amei meus alunos”. 
Assim, logo pedi a Literatura em matrimônio. Já éramos muitos anos de relacionamento, desde os meus castigos na Biblioteca quando criança, depois passando pela Federal do Rio Grande do Sul e chegando à Universidade de São Paulo. Candinho, melhor dizendo, Antônio Cândido vestiu o poder milagroso do seu xará Santo Antônio e se tornou o santo-casamenteiro entre a pessoa e a palavra. Amar a literatura. Para isso, Candinho acolhia franciscanamente seus alunos. Tive a honra. Na primeira vez, há quase uma década atrás, indaguei boba ao meu colega de doutorado: É aquele do Discurso e a Cidade? Enfim, sim, estive eu sob a dialética do malandro que rompia a barreira do livro-massa para que conversasse em carne-e-osso com Candinho.
Professor Candinho, figura delgada com passos calmos de sua verve leitora, pincelava de social, filosófico e cultural a musa já retinta de manifestos – a Literatura Brasileira. Intuitivo, tal como a resposta às necessidades profundas do ser humano, ele contaria que Sérgio Buarque era o homem do contrário, o erudito vindo da boemia. Com os braços maternos da musa, Candinho é acolhido no testemunho unânime dos que sobre ele dialogam. Prova também aos seus alunos a confiança que o ser humano pode ter para transcender em si mesmo. Além disso, além de professor, era Candinho como se estivesse em sua própria casa.
Sete anos depois cá me encontro – uma mulher e duas cidades –, em salas do ensino médio, na raia ativa da educação, mais intuitiva que metódica, como ele ensinou. Tudo conforme a cidade em que a alma é a veemente empreendedora do social. Hoje pratico esse amor que me levou a casar com a Literatura. Agora, mais velha e saudosa com jovens tardes de sabedoria, ainda mais.
Querido mestre, gratidão!

Professor Antônio Cândido na íntegra: https://avidaaoresdochao.wordpress.com/versao-integral/

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”

Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas...
Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te.
Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar...
Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me amar; se quiseres, te recebo inteira te apertando até sobrar lugar.
A mesa do café quer te dar bom-dia, a água do meu chuveiro escorrer todo o teu corpo, a toalha, envolvê-lo todo... Se quiseres, podes jogar em ti um dos meus vestidos. Se quiseres, podes ficar como estás... As cortinas servem para isto mesmo.
Meus móveis não querem que tu vás. Meus eletrodomésticos deixarão de funcionar sob protesto. Minha estante não deixará que a leia. Minha boca não pronunciará futuro. Até tu voltares...  

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Terceiro tema

E é fato que não sabemos
se voltaríamos a encontrar
o que deixamos o tempo ruir
fechando os olhos
mas mesmo assim eu...
mesmo assim eu... queria tentar.

Náufrago com o corpo cansado
no breu aguardo a tempestade
decidir se me atira outra vez as tuas praias
ou se enfim me leva às rochas
pra descansar.

E é tudo tão covarde...
deixar morrer as chances
por medo que barcos de papel não suportem
as cargas clandestinas
que fingimos não acumular com o tempo...

E é tudo tão impossível... 

Vira a mesa, vira o jogo, vira a casaca e a roleta. Vira saudade, vira poesia. Vira a página e o disco. Vira notícia, vira samba, vira lata, poeta e do avesso. Vira à esquerda, à direita, vira a via. Vira santo, criança, lobisomem, vira o tempo. Vira o dia, o mês, o ano. Vira o tempo. Vira.
Fluência, enfim... Assim como o amor ama através de mitos e serás. A jornada é extensa e por ela multiplicada, mas levada ao longe. Todo o cansaço seria recompensado se eu apostasse diretamente que te alcanço.
De quantos livros ela precisa para voltar a viver? Pergunto enquanto deveria eu amá-la. Bebo enquanto trago esta vida cheio de outros desafiantes da guarida de minha personalidade. Se quero falar de velocidade, tem que ser com luz e som. Quantos acordes? Quando acordes... 
Começa uma frase. Que a tua voz sempre ganha do sono, que tuas preocupações sempre se tornam minhas, que tuas questões sempre enfrentam a madrugada, que teu sentir sempre transforma minha certeza em pergunta, que tuas palavras sempre realizam meu sofrer, que o teu belo sorriso largo sempre justifica este meu olhar perdido, que as tuas quase-promessas sempre me colocam n’algum lugar distante, que a tua presença sempre me impede de. De... De concluir frases que nunca devem ser ditas.
A entrelinha é tão tua que, ao procurares, achas teu nome... Fluência, enfim. Na nossa língua, mas é. Confessa. Essa legenda que não se entende porque pertence a alguém. Obrigada.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sobre poesia romântica e indiretas: mas, por que não diretas?

Assim questionou minha aluna sobre os versos de Álvares de Azevedo. Pensei sobre mim, que, ao contrário do poema, não era um pesadelo mentido aquele momento. Contraste de gerações entre o poeta e a aluna. Eu me encontro no time do Álvares. Invejei o hoje: tudo normal, sabe-se, gosta e se desgosta. Tudo normal. Tudo belo. Não se perde, não se ganha. Beija sem encontrar antes o que pode lhe fazer bem.
Não há pensamento. Meus jovens filhos-de-livro seguem a linha pessoana! Ser direto que a vida num momento se sente dentro e maior em si! O Passado para esta geração dorme... Dorme jovem como o poeta questionado no princípio. Não há confessionário, há fé. Há D’us sem cobrança de religião.
A distância significa que a vida é demasiadamente veloz para não estar com quem se ama. Gostar de alguém, elogia; diferente da minha geração que se reprime com medo que a indiferença possa negar o status de conquista e felicidade. Como se a felicidade estivesse ligada a conquista... Tão distante o sonho que eu nunca beijei, porém...
A distância que tomo é de beijos fáceis de belezas (ainda que superiores a dela) que esvaziem meu riso engasgado a cada falta dela amparada no meu penar. Ser Álvares ou ser entregue? A normalidade agora desfaz contornos e empreende compreensão. Consola beijos. Desarma e ama, mesmo que seja por um curto período. Depois se despede e se reencontra como travessia. O melhor concreto caminho de realização das relações. 
Parabéns, jovens. Aqui, a experiência leva tapa na cara.