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Da minha criança (ou Tempo Presente)

E toda aquela infância
Que não tive (como as outras comuns)* me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Questionei-me nesse último dia 12: por que falamos sempre da infância (ou nos referimos a ela) em tom casimiriano de tempo longínquo e nostálgico? Em meio a tantos livros, uma fábula audiovisual da Disney é a minha história favorita de criança: O touro Ferdinando. Esse protagonista que vivia em meio a um código predestinado e prenominado aos touros – agressividade, competição, intrepidez – porém se regrava a uma vida paciente, só e aprendendo o que é a liberdade de si mesmo. Continuou livre, paciente e só. Ferdinando marcou-me. Pelo tamanho da pele na completude sensível de sua alma. Ele era (e sou) eu em vida desde quando assisti ao desenho... Mesmo criada em meio ao tabu padronizado de beleza competitiva entre outras mulheres acomodadas que buscam do casamento ideal e perfeito às fofocas da família, era eu a fugidia desse círculo. Quando se davam conta que eu não estava ali…
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Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Interpretação velada

A segunda noite. A segunda fileira do teatro. A segunda vez. A segunda voz, a minha alma ouvinte. A segunda sonata de Chopin, as segundas intenções de George. Segunda-feira. Estrofes de Musset em linhas compostas de Liszt. Segundo amigos, os coveiros tinham de levar o ataúde com a lentidão da humanidade, ora em partitura, ora em poesia. Diversas notas de seus noturnos continuaram no monólogo dela. Era uma biografia de pareceres alheios. Eram vinte vidas em oitenta anos... A voz dela! Ela tem uma voz! A voz dela é o mais fio veludo do feminino. As palavras proferidas por ela ganham vestidos de gala aos meus ouvidos. Ouvi-la: os olhos podem seguir fechados ou abertos em posição de sonho. A voz dela guia a dança entrelaçando pontos, vírgulas e valsa de sintagmas. Ela é reticente. Questão de confiança, amabilidade e até de paz. Detalhe: sabe-se o verdadeiro significado de não dormir de tanta paz. Ouvi-la: calçar o salto mais alto e devagar ser pétala que desliza junto ao caminho da rosa-…

No fundo de si, mas na base de um relacionamento

Repara bem. Mesmo quando te afundas no breu da profundidade de ti mesmo, há sempre um rastro de luz para trazer-te de volta. Repara bem. Quando mergulhamos, nos sentimos como anjos de nós mesmos, voando para baixo. Saudade é querer dividir contigo tudo o que não consigo ver sozinha. Tudo que move é sagrado. Aqui dentro e lá em cima, na base. Lá em cima, sabes como é um início de relação: os assuntos ficam suspensos e há cuidado excessivo com as palavras.  Mas tudo o que precisava ser dito, foi. Mergulhei com aquelas conclusões tristes de renúncia, de paixões mal resolvidas e essa necessidade imensa de ser autossuficiente e ter certeza, ao regressar para a base, da escolha de estar junto a ti porque não há outro meio, outro rastro de luz que não seja tu. O raso tem me apavorado! Eu tinha me avisado que o sangue é mais denso e cego que a água. Tu sabias e disseste que torcerias para eu não sentir tua falta. Pareceste-me sincera. Tanto que, quando voltei à base, lá estavas tu me gratifi…

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Depois do expediente

Foges comigo para o meu lugar preferido? Quero preencher contigo a agenda vaga dos meus dias. Claro: palavra que abre caminhos. Seja no aceite, no amanhecer ou no deitar do expediente à cara do entardecer. Aeroportos e aviões e idas e vindas já me despertam normalmente uma sensação de não-pertencimento e nostalgia. Se a chuva cair... A chuva dilata qualquer sentimento. Não. Não disfarces covardia com propensão à calmaria. Joga-te, confia e ajuda-me: sê interessante, fala de ti e do mundo. Não te quero em foto perfeita, de profissão sem paisagem, de pose, de posse de cargo ocupado, de efeito e pouca comunicação. Quero-te verdade e despretensiosa porque tens emoção, tens história. Tens troca e visão além dos olhos. Ver-te beleza do dia-a-dia sem que seja nos nossos encontros e destinos passageiros.  Quero-te que me permitas ser triste e isenta. Fala do que vês, do que lês, do que sentes, do que queres. Dá-me a vontade de puxar a cadeira e servir um mate (ou passar um café). Sugere-me t…