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O bem amado (IV)

2.1 Fanatismo, poder, busca da morte
            A sedução de Odorico Paraguaçu cede-se aos interesses, desde os políticos aos pessoais. As irmãs Cajazeira, Dorotéia, Dulcinéia e Judicéia, suas “escudeiras” (GOMES, 2008, p. 17) se entregam facilmente aos cortejos do político em troca do cumprimento da promessa de casamento e dinheiro seguro: Odorico era apaixonado pelas três e nada fazia para mudar seu sentimento nem o sentimento que elas nutriam por ele. Uma não sabia da relação de Odorico com a outra. As três só haviam se entregado à sua sedução porque ele lhes prometera casamento e um atrativo financeiro: uma casa de veraneio em Salvador. (GOMES, 2008, p. 24-25).
            Como é observado, a ganância de Odorico o faz atrativo de outras ambições. Ao suprir a necessidade de encantar e seduzir as três irmãs, estas, conforme o planejado, deixam-se conquistar a fim de assegurar a realização dos desejos pessoais, como a casa na praia e um bom matrimônio.             Uma parte auxilia…
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O bem amado (III)

2 “ODORICO PARAGUAÇU COM CÊ CEDILHA, POR FAVOR” – EXAGERO E TRANSBORDAMENTO
Visto que Dias Gomes baseava-se na realidade e, geralmente, em fatos reais ao escrever suas peças, a sarcástica telenovela de 1973, O Bem Amado teve sua criação a partir de um episódio ocorrido em 1906, no Espírito Santo. Até, o grande conflito político Watergate, dos Estados Unidos, teve sua versão na pacata cidade interiorana Sucupira, a qual levou o episódio a ter um desfecho surpreendente. Segundo Alencar (2008) desse campo fértil à imaginação originou-se Sucupira, uma cidade regional e universal. A irônica situação do protagonista faz com que o mesmo se torne popular e ovacionado, pois através do riso causado no espectador, estes vêem o invento para romperem as regras e quebrarem os tabus.             Odorico é o personagem exagero. Não há como se pensar em Odorico Paraguaçu sem se pensar em exagero e transbordamento. Isso tudo aliado à peça-chave da função da paródia – o caricato e a ironia julgadora e cr…

O bem amado (II)

Segundo José Bonifácio Sobrinho, “Dias Gomes era um mestre na arte de usar o humor e a inteligência para criticar aspectos da sociedade” (SOBRINHO apud Lyra, 2008, p. 29). O humor gomesiano chama a atenção pela sua inocência e exagero, principalmente, ao que se refere ao uso de expressões incomuns, como afirma Marcelo Lyra (2008), Dias Gomes “mostrava mais uma vez sua sintonia com a criação de palavras e a capacidade de extrair força dramática mesmo quando criava neologismos.” (LYRA, 2008, p. 29).             O cuidado ao transpor Odorico, o bem amado para a televisão mostrou o ponto forte do dramaturgo na questão das novas expressões. O personagem-título e suas pérolas lingüísticas “apenasmente”, “anais e menstruais desta cidade”, “com a alma lavada e enxaguada”, “desmiolamento”, entre outros verbetes, fez com que o autor contribuísse, até, para a extensão do dicionário, como lembra Ferreira Gullar: “Dias Gomes gostava de inventar e tinha cuidado com a sonoridade das palavras”. (GU…

O Bem Amado – um irônico exagero político ou um exagero da ironia política?

(ensaio publicado em 2008)
        A promessa da construção de um cemitério em Sucupira faz Odorico Paraguaçu, candidato a prefeito desta cidade, conquistar a confiança e simpatia dos seus eleitores. No entanto, seus métodos de administração política são um tanto corruptos e enganadores, mas, ao mesmo tempo seus neologismos e suas retóricas introduzem um dinamismo satírico que impulsiona o caricato da política da época, baseado no exagero e na obsessão pela soberba e poder.          A proposta desse presente estudo d' O Bem Amado, do autor Dias Gomes, busca enfatizar o processo do caricato político e/ou a exacerbação da ironia política no protagonista Odorico Paraguaçu.         Para a consecução do trabalho, na primeira parte se abordará brevemente a trajetória da gomesiana na literatura contemporânea e sua rica contribuição aos palcos da dramaturgia e da teledramaturgia brasileira. Dias Gomes, autor consagrado no teatro e na literatura, conquistou a empatia do público ao criar enr…

A megera domada (V)

No caso de Petrúquio, a solução encontrada para cortejar Catarina foi a de inverter o que sabia sobre sua personalidade, definindo-a como “a graça em pessoa” (SHAKESPEARE, 2003, p. 52). Conforme Heliodora (2008), essa obra põe em jogo as questões de relação familiar e hierarquia presente, numa forma em que os personagens atuem de forma brilhante e divertida, cujo maior prazer nasce das brigas e das acomodações.             Catarina reluta em conhecer Petrúquio, no entanto, resolve atendê-lo, mesmo que ele revide ás suas grosserias: Catarina: [...] Pois quem o moveu até aqui que daqui o remova. Assim que o vi percebi imediatamente que se tratava de um móvel [...] um banco. Petrúquio: [...] Pois vem e senta em mim. [...] Catarina: Vá mandar nos teus criados, imbecil. Petrúquio: [...] Eu sou aquele que nasceu para domar-te e transformar a Cata selvagem numa gata mansa. [...] (SHAKESPEARE, 2003:53-57)
            Catarina e Petrúquio possuem personalidades semelhantes, ambos se atacam com expr…

A megera domada (IV)

Para Hutcheon (1985), uma paródia procura um mecanismo retórico na afirmação irônica para um possível acerto de contas. Nesse trecho, o homem se traveste ironizando a figura da esposa, implicando em um julgamento negativo. De acordo com Linda Hutcheon:  [...] a sátira utiliza, com freqüência, a paródia como veículo para ridicularizar os vícios ou loucuras da Humanidade, tendo em vista sua correção. (HUTCHEON, 1985:74)
            Ao fim desse prólogo, Sly é convidado a assistir a uma encenação de comédia, visto que também se observa a necessidade do riso para a sobrevivência: Criado: [...] o excesso de tristeza deixou seu sangue congelado. A melancolia é a mãe dos desvarios. Pois quando a alegria e a animação nos envolvem o espírito, afastam muitos males e prolongam a vida. (SHAKESPEARE, 2003:20)
            Shakespeare foi habilidoso em inserir outra peça no interior da estória. Os comediantes passam a encenar para Sly a história de Catarina e Petrúquio, fazendo-se crer que a comédia co…

A megera domada (III)

3. A IRONIA E A REVISÃO DOS VALORES EM A MEGERA DOMADA             Uma das comédias escritas por Shakespeare que mereça ênfase é A Megera Domada. Escrita no período de 1593 e 1594, essa peça é dotada de profunda carnavalização e ironia, deixando transparecer que a brincadeira está inserida na brincadeira, pois nela se inserem elementos do riso, os quais se fazem necessários para o desenvolvimento da trama. No prólogo, Sly, um latoeiro bêbado, é enganado por um nobre, que o faz crer que pertence à classe alta: [...] Senhores, quero fazer uma experiência com este bêbado! Que acham de o colocarmos numa cama, cobrindo-o com lençóis preciosos, pondo-lhe anéis nos dedos e, junto à cama, o mais delicioso dos banquetes com criados atentos ao seu despertar? O mendigo não esqueceria logo a sua condição? (SHAKESPEARE, 2003:11)
            Desde o seu início, é possível observar que a obra em si será empreendida de forma alegórica e humorada. O estado ébrio de Sly, que já se demonstra cômico, ofere…