sexta-feira, 19 de maio de 2017

Resposta (“ainda lembro que eu estava lendo...”)

Vou esperar desbotar... (Foto: Larissa Pujol)

Intransigente, exercito a vaidade e o corpo até torná-lo inapetente. Indissociável da minha totalidade afim de que nada em mim seja vulgar ou descartável. Deve morar aqui, em mim, a melhor liberdade.
Procuro alguém que aceite assim: aparentemente faltando um pedaço, mas é só descuido de quem quer se despir da sua completude para encontrar e vivenciar no outro a metade que nunca soube ser.
Então, podes esquecer a cor do meu vestido e a profundidade do meu decote. Esquece quantas doses de uísque trouxeste para mim, no entanto não te esqueças daquela conversa íntima, ao pé-do-ouvido, compactuando a contribuição histórica dividida no jardim...
Sobre o glamour da intimidade, antes coragem que prepotência, antes o erro que a indecisão, antes paciência que esperança, antes experiência que exatidão, antes instrução que conclusão.
Quem sabe, meu amor, deixemos a saudade desbotar. Até que reste a plena vontade de sermos silêncio de duas almas pisando sobre o assoalho ou folheando livros. A voz nos seria o cristal cujo uso propaga um corpo outrora esquecido... Que os olhos, porém, depois, ainda vidrem como no interior de um vidro, atrás ouvidos, oblíquo o pronome em primeira pessoa. A companhia luz que ajuda a estar só.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Candinho, Toninho...

Entre os alunos é o Candinho, raramente Toninho. Melhor dizendo, professor Candinho. Numa aula magna disse a nós para amarmos a Literatura Brasileira - talvez parafraseando Cristo automaticamente concluindo em “assim como amei meus alunos”. 
Assim, logo pedi a Literatura em matrimônio. Já éramos muitos anos de relacionamento, desde os meus castigos na Biblioteca quando criança, depois passando pela Federal do Rio Grande do Sul e chegando à Universidade de São Paulo. Candinho, melhor dizendo, Antônio Cândido vestiu o poder milagroso do seu xará Santo Antônio e se tornou o santo-casamenteiro entre a pessoa e a palavra. Amar a literatura. Para isso, Candinho acolhia franciscanamente seus alunos. Tive a honra. Na primeira vez, há quase uma década atrás, indaguei boba ao meu colega de doutorado: É aquele do Discurso e a Cidade? Enfim, sim, estive eu sob a dialética do malandro que rompia a barreira do livro-massa para que conversasse em carne-e-osso com Candinho.
Professor Candinho, figura delgada com passos calmos de sua verve leitora, pincelava de social, filosófico e cultural a musa já retinta de manifestos – a Literatura Brasileira. Intuitivo, tal como a resposta às necessidades profundas do ser humano, ele contaria que Sérgio Buarque era o homem do contrário, o erudito vindo da boemia. Com os braços maternos da musa, Candinho é acolhido no testemunho unânime dos que sobre ele dialogam. Prova também aos seus alunos a confiança que o ser humano pode ter para transcender em si mesmo. Além disso, além de professor, era Candinho como se estivesse em sua própria casa.
Sete anos depois cá me encontro – uma mulher e duas cidades –, em salas do ensino médio, na raia ativa da educação, mais intuitiva que metódica, como ele ensinou. Tudo conforme a cidade em que a alma é a veemente empreendedora do social. Hoje pratico esse amor que me levou a casar com a Literatura. Agora, mais velha e saudosa com jovens tardes de sabedoria, ainda mais.
Querido mestre, gratidão!

Professor Antônio Cândido na íntegra: https://avidaaoresdochao.wordpress.com/versao-integral/

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”

Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas...
Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te.
Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar...
Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me amar; se quiseres, te recebo inteira te apertando até sobrar lugar.
A mesa do café quer te dar bom-dia, a água do meu chuveiro escorrer todo o teu corpo, a toalha, envolvê-lo todo... Se quiseres, podes jogar em ti um dos meus vestidos. Se quiseres, podes ficar como estás... As cortinas servem para isto mesmo.
Meus móveis não querem que tu vás. Meus eletrodomésticos deixarão de funcionar sob protesto. Minha estante não deixará que a leia. Minha boca não pronunciará futuro. Até tu voltares...  

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Terceiro tema

E é fato que não sabemos
se voltaríamos a encontrar
o que deixamos o tempo ruir
fechando os olhos
mas mesmo assim eu...
mesmo assim eu... queria tentar.

Náufrago com o corpo cansado
no breu aguardo a tempestade
decidir se me atira outra vez as tuas praias
ou se enfim me leva às rochas
pra descansar.

E é tudo tão covarde...
deixar morrer as chances
por medo que barcos de papel não suportem
as cargas clandestinas
que fingimos não acumular com o tempo...

E é tudo tão impossível... 

Vira a mesa, vira o jogo, vira a casaca e a roleta. Vira saudade, vira poesia. Vira a página e o disco. Vira notícia, vira samba, vira lata, poeta e do avesso. Vira à esquerda, à direita, vira a via. Vira santo, criança, lobisomem, vira o tempo. Vira o dia, o mês, o ano. Vira o tempo. Vira.
Fluência, enfim... Assim como o amor ama através de mitos e serás. A jornada é extensa e por ela multiplicada, mas levada ao longe. Todo o cansaço seria recompensado se eu apostasse diretamente que te alcanço.
De quantos livros ela precisa para voltar a viver? Pergunto enquanto deveria eu amá-la. Bebo enquanto trago esta vida cheio de outros desafiantes da guarida de minha personalidade. Se quero falar de velocidade, tem que ser com luz e som. Quantos acordes? Quando acordes... 
Começa uma frase. Que a tua voz sempre ganha do sono, que tuas preocupações sempre se tornam minhas, que tuas questões sempre enfrentam a madrugada, que teu sentir sempre transforma minha certeza em pergunta, que tuas palavras sempre realizam meu sofrer, que o teu belo sorriso largo sempre justifica este meu olhar perdido, que as tuas quase-promessas sempre me colocam n’algum lugar distante, que a tua presença sempre me impede de. De... De concluir frases que nunca devem ser ditas.
A entrelinha é tão tua que, ao procurares, achas teu nome... Fluência, enfim. Na nossa língua, mas é. Confessa. Essa legenda que não se entende porque pertence a alguém. Obrigada.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sobre poesia romântica e indiretas: mas, por que não diretas?

Assim questionou minha aluna sobre os versos de Álvares de Azevedo. Pensei sobre mim, que, ao contrário do poema, não era um pesadelo mentido aquele momento. Contraste de gerações entre o poeta e a aluna. Eu me encontro no time do Álvares. Invejei o hoje: tudo normal, sabe-se, gosta e se desgosta. Tudo normal. Tudo belo. Não se perde, não se ganha. Beija sem encontrar antes o que pode lhe fazer bem.
Não há pensamento. Meus jovens filhos-de-livro seguem a linha pessoana! Ser direto que a vida num momento se sente dentro e maior em si! O Passado para esta geração dorme... Dorme jovem como o poeta questionado no princípio. Não há confessionário, há fé. Há D’us sem cobrança de religião.
A distância significa que a vida é demasiadamente veloz para não estar com quem se ama. Gostar de alguém, elogia; diferente da minha geração que se reprime com medo que a indiferença possa negar o status de conquista e felicidade. Como se a felicidade estivesse ligada a conquista... Tão distante o sonho que eu nunca beijei, porém...
A distância que tomo é de beijos fáceis de belezas (ainda que superiores a dela) que esvaziem meu riso engasgado a cada falta dela amparada no meu penar. Ser Álvares ou ser entregue? A normalidade agora desfaz contornos e empreende compreensão. Consola beijos. Desarma e ama, mesmo que seja por um curto período. Depois se despede e se reencontra como travessia. O melhor concreto caminho de realização das relações. 
Parabéns, jovens. Aqui, a experiência leva tapa na cara. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Carta-aberta-de-saudade à minha São Paulo

São Paulo, lugar de sonhos... (Foto: Larissa Pujol)

Como o veloz bater das asas de um colibri, rápido bate o meu coração de saudade e vontade de voltar para a minha cidade. Que saudade de você, São Paulo! Cidade progresso, cidade dos museus, das casas literárias, das casas diurnas e casas noturnas, que não se recolhe num aposento qualquer. Cidade que exclama seu nome com Demônios da Garoa: Isto é São Paulo!
Cidade ambiental do belo Ibirapuera, cidade olhar do belo pessoal transeunte que pelas suas ruas e avenidas percorre. Cidade inteligência! Cidade educação. Cidade que acontece.
São Paulo, menina colegial fundada em 1554, moça Paulicéia que os poetas modernos se puseram a admirar no Theatro Municipal. São Paulo que me acolheu como mãe em seu berço de total aconchego cultural. São Paulo, minha ama-de-leite de suas bibliotecas ao ar-livre, alimentando com seus seios a história de cada pessoa que em você busca o crescimento saudável da sabedoria. Embora tenha eu nascido longe de você, posso afirmar que de sua terra paulistana eu renasci. 
Há pouco, ouvindo Inezita Barroso, parecia que eu estava junto a você, São Paulo... Mas pereci porque, ao correr os olhos pelos jornais locais, não encontrei nenhuma primeira edição que noticiava a cena de ciúme num bar da Av. São João... e então... aquela coisa que sempre acontece no meu coração quando cruza a Ipiranga e a São João se desmanchou em lágrimas... Perdi o trêm, não estava em Jaçanã, não sambei no Brás, o convite do Arnesto não estava na caixinha do correio. Fui do Paraíso à, pelo menos, Consolação de cantar e dançar, embora longe de você, meu par, suas homenagens. 
Ah, minha São Paulo, Sampa de samba desde o Anhangabaú, de jazz no Terraço Itália, de música-novidade por toda a Paulista...
Meu D’us de Anchieta, São Paulo, quanta saudade você me faz...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A linha tênue entre a convenção e a convicção de amar

- Perdoa-me por me intrometer, mas não me agrada o caráter do seu marido.
- Você percebeu em tão pouco tempo o que ele é pra mim.
- É bárbaro. Cruel.
- Sim, mas o quê posso fazer? Eu o amo e o aceitei diante do altar.
- O que são as convenções quando se trata de passar a vida inteira ao lado de um crápula. Com perdão da palavra, um estupor! Ele não a merece.
- Sem falsa modéstia, eu também acho que sou boa demais para ele. No mais, fui criada para isso, para ser assim, embora sinta a crueldade.
- Confesso que fico espantada com tal revelação. Uma jovem senhora tão perfeita, digna de todas as classes de elogios... Difícil acreditar que aceite a convenção familiar machista e que ainda tente justificar e defender a própria submissão!
- Compreenda, eu nasci e cresci numa base estrutural dessa maneira. Meu pai, sempre muito austero e rigoroso, educou a mim filha assim e minha mãe se calava. No entanto, nunca me ocorreu que tais atitudes pudessem ser...
- Incivilizadas, no mínimo, para dizer algo mais gentil.
- Percebo que me recrimina.
- Sim. Sim, mas a senhora não merece ser questionada. Uma mulher tão digna, tão perfeita. É como você disse: é por força da criação. Mas uma alma boa, uma alma pura, aceita mudança de ponto de vista.
- Eu agradeço a gentileza. Prometo que de agora em diante vou ser mais generosa comigo mesma.
- Desculpe por ser grosseira, mas francamente o seu marido representa tudo aquilo que abomino. Não a merece. Uma senhora tão formosa com sua pujança e esplendor... Esplêndida como poucas, francamente, você foi aviltada!
- Fui?!
- Claro, pois ele teve coragem de difamá-la ao mostrar que deseja a outra. Perdoe-me...
- Por favor. Ele não a deseja... Ele...
- Liberte-se desse sofrimento! Mande-o às favas! Você merece ser amada por alguém que reconheça seu encanto, que a valorize. Alguém que reconheça em cada jeito seu a delicadeza das pétalas da mais bela flor.
- Sim... E você é poética e veloz em suas lisonjas como o bater das asas de um colibri.
- Você necessita de alguém que reconheça em cada palavra que seus lábios murmuram o suave sopro da brisa de outono. Você precisa de uma pessoa que a pegue ao abraço com ardor da despedida antes da última batalha... Você...
- A moça-professora me entontece com tantos galanteios.
- Uma pessoa que a beije com tal paixão que por certo a deixaria desfalecer entregue ao êxtase mais profundo, sinônima do ar e da liberdade... Ah, se você soubesse como me sinto ao vê-la.
- Por favor, não continue. Eu não poderia ter dado ouvido aos seus galanteios tão carinhosos. Nunca ouvi isso do meu marido, tampouco de algum homem. Jamais fui tão lisonjeada. Sinto-me culpada! Sou casada!  
- Ele não merece o seu respeito! Muito menos o seu amor, a sua entrega!
- Eu sei! Quando ouço suas doces palavras, enfim repreendo o desatino de mulher, o arroubo com que se entregam a um casamento pela pressa social sem saber antes o que amam. Se eu soubesse que existia amor assim, fora das páginas dos romances...
- Dona. Apaixonei-me por você à primeira vista.
- Não! Não faça eu me sentir mais culpara do que já estou. Não devia estar dando ouvidos a essas galanterias.
- Deixe-me ajudá-la.
- Não!
- Sim! – Pego-a pelo braço – Está pálida, trêmula...
- Isso vai contra toda minha educação. Não posso. Não posso.
- O que é educação senão a acreditar na liberdade da própria consciência! Acalme-se Dona. Fiz alguns versos de minha palavra em homenagem a você.
- Versos pra mim...      

sexta-feira, 31 de março de 2017

Seu doutô!

“Pelos teus exames vejo que tu tens o perfil de um jogador! Jogador de baralho de primeira!” “A-do-ro. Quando o vencer é equipado com jogo, conheço como é tratado o poder. É dizer, posso interpretar o caráter do meu adversário.” “Lari, dizer que tu chegas a conhecer o caráter de uma pessoa através do jogo de baralho é uma afirmação muito forte.” “Meu caro, o poder é o amálgama do caráter.” “Ah, como posso te recomendar academia?!” “Dizia Nabokov, caro médico: cada vez mais sábio, cada vez mais gordo. Meia-hora a mais que tenho de leitura!”

Não, não é somente o pastor que vende terreno no céu, também é o médico que ilude a todos com a eternidade prometida na escravidão da saúde.
A cada ano, a cada semestre, a cada dia são recomendados atos cotidianos obrigatórios, assim como o voto, para manter a vida um pouco mais iludida com a imortalidade na escravidão da saúde.
Diminuir para metaforicamente diminuir o gosto pela vida. Mas o que é a morte senão a cinza embevecida d’um cigarro corporal desgastado no dia vicioso de sobreviver... Heidegger foi certo: “não é privar da morte que o homem pode existir se ocultando do que lhe é mais próprio: ser-para-a-morte”. Não há placebos, tampouco ultimatos médicos que a detém. Por isso, entre o suicídio de João Gostoso e o suicídio de Ismália, prefiro antes entrar em qualquer bar nomeado com data, beber, cantar e dançar como qualquer intervalo que signifique depois que “a morte é um fato”, assim noticiado por Sartre.
Minha biografia não será escrita de receitas, nem atestados. Os garranchos dela são de “lirismo difícil e pungente dos bêbados”... Não, seu doutô! Minha saúde não precisa de desgaste físico. Deixo isso para o túmulo! Minha saúde é terapia de livros, terapia de ensino, terapia de um afago de namorada, sem pensar no peso certo enquanto degusto comidas gostosamente erradas. Não quero saber da vida “que não é libertação”!

sexta-feira, 24 de março de 2017

Entre espirros e gozos

- Oi...
- Fala, tchê...
- Eu quero dormir com alguém hoje.
- Boa sorte.
- Juju!
- O que foi? Tu disseste que queria dormir com alguém.
- Tá bom. Tá bom. Eu quero dormir contigo essa noite. Satisfeita?
- Melhorou. 
- O que foi? Quantas noites de insônia acumuladas?
- Três – disse a ela resmungando. 
- Isso anda se agravando.
- Ando trabalhando muito.
- Isso quer dizer: ando introspectiva demais para me envolver com alguém em busca de um sexo casual que me faça dormir bem durante a noite?
- Vai apostando.
- Ai, Juju. Não complica.
- Tens certeza?
- Tudo bem, tu não queres, né? 
- E tu vais bancar a difícil às vinte e três horas de um sábado à noite. 
- Eu nunca banco a difícil para ti, Juju. E duvido que qualquer mulher desse mundo o faça. 
- Que horas tu vens?
- Agora, minha Rapunzel adormecida ao avesso.
- Tu não esperarias de mim um enredo comum, sim?!
- Ainda bem que não, não carregas jeito de princesa.
- Ainda bem que tu me sabes.
- Falou a anti-herói que, em vez de procurar a sua par, correria para o Ponto de Cinema para trocar o sapatinho por um cinzeiro de cristal. 
- Gargalho! Cristal é brega!
- Gargalho eu, o sofrimento de um cigarro também, embora clássico. 
- Vem, então. Quero ler, relaxar um pouco e dormir. Pesadamente. 
- Estou indo, chego em vinte minutos. 

Em exatos vinte minutos ela chegava tocando a campainha, tamanha a intimidade com a escuridão da minha rua. Ela me abraçou com carinho, notando um livro em minhas mãos...

- Fernando Pessoa de novo?
- Fernando Pessoa sempre.

Respondi a ela dirigindo-me para a cama. Sentei com as pernas cruzadas, na confortável posição de índio. Vesti um pedaço de pano, jaz um vestido, agora transparente de velho e com alguns buracos. Prendi os cabelos com uma "piranha" e limpava meu costumeiro óculos. Ele se sentou no lado oposto da cama, observando-me. 

- Ouve isso: “Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir”.  Notaste a genialidade? 
- Tu ficas encantadora de óculos. Agora entendo o encanto do sempre...
- Presta atenção!
- Tu terias um lapso hétero com ele...
- Quem?
- Fernando Pessoa.
- Não... Somar-se-ia muito macho por quilômetro quadrado. Ouve esta parte... 

Enquanto eu lia outro trecho do livro, ela se aproximou, beijando-me as pernas, os ombros, o pescoço e qualquer parte que a minha postura leitora não impedisse...

- Presta atenção! 
- Sabe, eu já li “O livro do desassossego” – disse ela continuando a me beijar, enquanto eu tentava dela em vão me esquivar. - Comentaram que Fernando Pessoa tinha um micro pênis.
- Quanta infâmia! – converti-me a uma guisa sisuda sustentada no corpo de forma a fixar meus olhos nos olhos dela.
- Desculpa, dei um Google e li algumas notas, desde um programa de literatura e que relatava sobre uma biografia que dizia exatamente isso...
- Rá, sites de busca: a perversidade do conhecimento! Sim, infelizmente conheço a referida biografia. É uma biografia baseada em achismos! Nada ali é comprovado! Nada ali é provado! Uma historieta para ganhar notoriedade de "likes". Um embromado linguístico para a formação de fofoqueiros, não de debatedores. Se tu queres conhecer intimamente um autor, busque interesse inteiramente pela sua obra numa biblioteca e a interprete! 
- Calma, Larissa! Não precisa jogar essa avalanche intelectual na minha cara. Não estamos numa banca de tese e tampouco o tamanho do objeto fálico do Fernando Pessoa me interessa... – repreendeu-me enquanto também me acalmava com carícias nas minhas pernas e beijos. 
- Ai, tu não te interessas por Literatura! 
- Na verdade, me interesso. Por exemplo, que tu achas que Bukowski diria sobre isso? – perguntou enquanto deslizava sua mão por entre as minhas coxas e me mordia a orelha...

Em um meio gemido convencido, soltando completamente o livro e agarrando-lhe com força as costas respondi:

- Algo como um... "que se foda"!
- Esse sabia das coisas – ela sussurrou continuando as carícias e beijando-me a boca. 

(...)

Na manhã do dia seguinte, despertei tarde. Há tempos não dormia tão bem. Era domingo e todo e qualquer excesso de tempo na cama era facilmente perdoável, principalmente com o tempo nublado. Sentia meu corpo dolorido e levemente dormente. Pensei que deveria colocar em prática a recomendação do meu cardiologista sobre o meu preparo físico, apesar da correria pedagógica diária. Os lençóis e edredom estavam no chão. Na criado-mudo ao lado esquerdo esperava-me uma bandeja. Arrumada com amor, possível de se notar no primeiro soslaio. No entanto, os itens do café da manhã pareciam peculiares: um livro do Eça, um suco de laranja, cacetinhos com patê de fígado, outros com geleia, e cartelas de comprimidos para resfriado, outras para melhorar a função hepática?!? Ao lado, um bilhete: 

“Desculpa, amor, não poder ficar. É aniversário da minha mãe, e tu sabes disso. Deves ter esquecido. Mas, não te preocupes, eu minto que tu lhe mandaste um beijo. Alimenta-te bem e toma todo o suco com os compridos para resfriado. Talvez tu te resfries e a consequência disso é o teu fígado doente por causa do medicamento. Alivia-o, logo. Essa coisa de não dormir afeta o sistema imunológico, que te complica o problema hepático. Tu deves saber disso e o amor é um tanto quanto egoísta, às vezes. Ao te ver dormir tão belamente despida a minha frente, eu não resisti... Teus pelos todos arrepiados, teus seios outrora em minha cara ainda firmes, duros, branquinhos, fartos, tão perfeitos. Teu corpo, Larissa, se fixando ao meu em busca de calor, toda expandida em tamanho, mas contraída me abraçando, me protegendo, aninhando tesão. As mãos tensas segurando o travesseiro, num conceito sinônimo entre o corpo gelado e a alva cor de tua pele macia... Eu pensei, inclusive, em desligar o ar-condicionado a treze graus que, como dizes, trazia o ambiente a um outono jazido, mas não fui capaz. No teu abraço, passeei devagar as mãos sobre os pelos loirinhos eriçados da tua coxa, me protegi apertando os músculos dos teus ombros, valorizando a iminência do toque – lembras-te disso? Apenas na legenda de uma foto de saxofone, é impressionante como tu sempre consegues um jeito para provocar - senti logo a contração da coxa na minha perna, os olhos pesadamente fechados, as rugas de incomodo na testa, os braços em volta das minhas costas, o tremor quase imperceptível por cada centímetro de pele. O ar-condicionado continuou ligado por toda a noite. Tão encantadora. Tão sempre. Perdão por isso, amada Juju! O suco de laranja garantirá a vitamina C e, os comprimidos, não hesites tomar. Se bem que seria bem excitante te imaginar de nariz vermelho por aí, necessitando de cuidados extras e xingando de maneira fanha e rouca – ah, tu rouca! - o meu nome. Não serei tão insensível assim, como tu costumas dizer aos outros, cuida-te e deixa ser cuidada. Assim que parabenizar minha mãe, volto para te aquecer. Ainda bem que não levo jeito para princesa. Com amor, 

M.”

- Filha da puatchimmm! 

(Whats enviado após o terceiro espirro: da próxima vez, ao menos, deixa flores!)

(Resposta do whats: "Outras vezes, acordo dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos" - é a continuação do trecho do Pessoa que tu me leste. Sempre presto atenção em ti.)

Porque toda lésbica gosta mesmo é de uma boa Florbela!