Pular para o conteúdo principal

Um crepúsculo de outono

Imagem: Larissa Pujol

Frio, adorno do descanso, arrepia pele ao toque cinza (das horas). Com suaves tons feitos de propósito consagra a cidade com a vista do seu repouso, embora forçoso, abreviando os passos dos que voltam.

De dia em dia
A morte pressagia:
É-nos de frieza otimista que acordemos amanhã.

O templo arco distante, enfim, permite o flerte dos olhos, antes sorrateiros planos em soneto, para, em papel, beijar sua lucidez. Brisa parábola do dia comete pelas costas os pássaros, que temerosos, piam entre os álamos seguindo um ao outro. Lá, eles se somem à vista escolhida no horizonte tais como espíritos fáceis de aspiração – regressa plaino, amanhã, para a terra.
Que avante o álgido e agudo sentimento sobre a turva extensão. Nesta hora, o dom é belíssimo! Em plácida acolhida, a noite recolhe cada habitação entregue ao desfecho.

O fim é juiz do belo...
Sobre o leito os sentidos adormecem no caminho costumeiro deste fim.

Pois, já está tão longe(?), investigando a fantástica gentileza dos matizes que o compõem. Sincera é a intenção do arroio prateado continuado pelo crepúsculo na vontade fecunda confessional. Bem envolve o mundo com garbo prometendo a volta desabrochada do amanhã. Consolo se busca ao alto do monte, em dias estes, cujo gélido cruzamento se apresenta ante aos caídos ponteiros:
 
que anunciam a calmaria do tempo sobre as cinzas.

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …