sexta-feira, 13 de abril de 2012

O fragrante e o versejado

Assim ele me tocava com versos. O perfume, palavra presente nas rimas, e a indagação dos seus olhos suspeitam da minha atenção. Hipnoticamente, eu-calada, mantenho-me à deriva de todo o conhecimento já obtido entre os objetos: por causa do aroma suspenso no que seria dito. Dita-me, pois, o proveito do teu dístico. Este em perfume cuja Terra suspira demonstrando a fecunda vida que se desperta a partir de um nada, apenas exalando.
Enquanto o termo natural assume o comum e a esfinge, a linguagem vaporada é misteriosamente declamada em sua pétala de expressivo adorno, folheando os beijos que, por ventura, se tornariam delicadas escrituras naquilo que se procura. A tua idade, declamador, é experiente de cheiros. Selvagem e lascivo, ora, diretamente a mim tu me esculpias a imagem da poesia e do perfume nos quais as frases ressaltavam a sonoridade das pétalas (reafirmo). Por completo sentimos a poesia que nos aliena dos ali presentes, bem analisados uma a outro, outra a um, na proximidade factual do som e do olor.
O poema em segredo te falando, Declamador, se desprende da robustez encadernada e penetra, pouco a pouco, pelas entranhas curiosamente reveladoras de mistérios. O olfato, também outro segredo, lentamente nos avisa que a intimidade se manifesta nas névoas de frêmito entre espíritos. Vacante é o poente ainda, embora clame por Passado.  
O perfume suspiro em surdina! Ele, meigo, acaricia tudo que em mim há corpo. Neste momento, cifro as volúpias dos violões de Cruz e Souza enquanto a veludosa voz tua cita-me as fragrâncias roçando a epiderme. Os cabelos meus recaem rubros sobre parte da fronte como o cetim de um véu que denuncia o florescer dos lábios, para ti, prontos para serem, por fim, carnes. O seu êxtase está na demora. Sensação maravilhada pelo inédito da delícia, deveras, mesmo que haja provado em outras vontades do seu longo tempo, será novo gozo das sensuais ilusões. - Declamador, o aroma te trouxera um novo gozo das sensuais ilusões?
Seja pela fantasia em viva-voz, o néctar da poesia que em mim buscas possui exalado amoroso quando, dos versos ditos, a absorção se torna a fortuna ensaiada antes de um contato. Poema teu cujas mãos naturais, simples e enigmáticas, friccionam a pétala na insistida fragrância que possa, talvez, se guardar em tempos de inverno. Ele se refere ao meu perfume recém percebido ao versejar seu estímulo beijo naquilo que jamais o adormece. Semelhante ao cheiro, brando se próximo e intenso se me adentra, tua perceptiva sonoridade armazena entre nossas visões as possíveis momentaneidades de uma estrofe provocada.
O paradisíaco noturno enleva nossa investigação, Declamador. Aspiras-me em teus versos de rodopios valsados esperando que os movimentos meus volatilizem a peculiar entre-pernas neste sinuoso manejo - leve e rápido ou lento e nervoso - vai-vem de um lânguido requebrado. Nas expirais subindo... Este balanço vagaroso de ruídos sufocados e liquefeitos.
Até o dia retornar, Declamador, jazer nossos corpos um ao outro no bálsamo unânime do sonho seria prazer das almas. Flores acompanham os espíritos e declaram sentimentos: ambos vivem. Liberta a natureza comum e esfinge nos levando alegria e pesar. É o perfume que assim visa o transe extremo entre concepção e a decomposição.
Interpela-me ele em versos inalando o promíscuo suspiro longo da flor que encontrou. A essência, aviso, inda que golpeie ferozmente, nunca tolhe o gozo dos polens. A alegria exalada de um perfume acusa aquela intuitiva presença cujo rastro apura a vontade alheia do retorno. No ambiente se propaga, nos poemas se versa!
A madeira concentra em mim o seu cativeiro. Através do que não defino, mantenho o controle nas mãos, fazendo de conta que não...  Sentes a carícia aveludada de uma resposta aromática que te dê o tempo para conhecer seu final? Penetrar na casa de uma mulher desabitada descobre o seu olfato ansioso pela criatura escondida - divina de músculos e de sensibilidade arisca. Estremece, portanto, o som de perfume na tua voz para sempre gravada nas melhores canções.
A pausa de tuas rimas, audível olfato, como o silêncio da madrugada, transfere os sentidos da visão para o espírito palpar, enfim, o cumprimento da saudade que engana com a impressão de nos aproximarmos. Ilusão é perfume que te transporta a mim enquanto a poesia traça tua memória silenciada. Em teus versos, frouxo se torna o caminhar do céu através dos movimentos do perfume. Acima e abaixo fazes flutuar os gemidos das pulsadas almas carregando a atmosfera de sentidos abstratos e fixos em nossas mucosas.
Animais são influenciados pelo cheiro: imperceptível permissão minha de te fazer sugar o alvéolo da poesia. O aroma que sentes é a respiração exausta entre os seres e os seus objetos, uma azáfama que esparsa a boca no seu florescer de carne. Brisa que recém instalada te vibrou os acordes das sinestesias. Acontece o poema que me entregas explicando a delícia que se espalha.