sexta-feira, 4 de maio de 2012

Aula de literatura com Chaves (El Chavo del 8)... [Versões]

Pouco comum, ou melhor, nada comum que esTa vossa escrevente se intrometa numa publicação deste blog na sua primeira pessoa. Entretanto, esta semana, convido os leitores para que apreciem as versões feitas /nas/ cenas de alguns episódios do Chaves (El Chavo del Ocho) através da imagística de uma aula de Literatura. Literófila (ou Literaturófila) e Chespiritófila assumida, eu sempre quisera assistir a uma aula do Professor Girafales – e assim imaginei os dispostos abaixo – cuja referência fosse aos permanentes literários que abraçam a língua portuguesa. Encaminho os textos trabalhados nos seguintes títulos “Uma Aula de História”; “Ser Professor é Padecer no Inferno”; e “O Castigo Vem a Cavalo”, na ideia de como poderia haver sido...
Despeço-me fazendo minhas as palavras do personagem Chómpiras: Tómalo por el lado amable
Larissa.
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PROFESSOR GIRAFALES
Agora, você, Quico.

QUICO
Presente, querido professor.

PROFESSOR GIRAFALES
Quais as vanguardas serviram de inspiração aos manifestos modernistas?

QUICO
É, é... O futurismo...

PROFESSOR GIRAFALES
 Muito bem, muito bem. Quais outras?

QUICO
(perde-se nas respostas)
É, é... O fisiculturismo... (pensativo) É, é... O abismo... É, é... O abolicionismo... (certeza) Ah, o calculismo!... Ahn, o cinismo... Pois, não deu!

FLORINDA
Tesouro, você não se lembra que ontem à noite estudamos sobre o Modernismo?

QUICO
 Ah, mas nem me fale daquele grupo que condenava os inteligentes...

FLORINDA
O grupo que condenava os inteligentes? Qual, tesouro?

QUICO
O Grupo das Antas! (ri apatetado, mas logo fica sem-graça)

PROFESSOR GIRAFALES
Eu vou lhe fazer outra pergunta, Quico.

QUICO
(desanimado)
Outra vez...

PROFESSOR GIRAFALES
Qual era o principal objetivo dos Modernistas?

QUICO
As partidas de futebol!

CHIQUINHA
Professor, eu respondo, eu respondo! O principal objetivo dos Modernistas era a reformulação da linguagem e do nacionalismo através da arte.

CHAVES
Ah, que burra! Dá zero pra ela!

PROFESSOR GIRAFALES
Por que vou lhe dar zero se ela respondeu corretamente!

SEU MADRUGA
Claro, pois ela é minha filha!

PROFESSOR GIRAFALES
Ordem, silêncio! Vamos passar para uma época mais antiga. Quico!

QUICO
Outra vez!

PROFESSOR GIRAFALES
Você pode me dizer quem compôs a Canção do Exílio no Romantismo?

QUICO
É, quem cantou o exílio?!

PROFESSOR GIRAFALES
Aham...

QUICO
(perdido)
É, quem cantou o exílio...

PROFESSOR GIRAFALES
(demonstrando impaciência)
Sim...

QUICO
Quem cantou o exilio... (enfático) Ah, quem cantou o exílio...

PROFESSOR GIRAFALES
(irritado)
Sim! Eu quero saber quem cantou o exílio!

CHIQUINHA
Ah, quer dizer que o senhor também não sabe!

PROFESSOR GIRAFALES
O quê?

CHIQUINHA
Se quer saber, estude!

PROFESSOR GIRAFALES
Como?!

SEU MADRUGA
Professor, professor, não faça caso e continue perguntando ao Quico.

FLORINDA
Ah é, e por que ele não pergunta para a Chiquinha?!

Alunos causam bagunça.

PROFESSOR GIRAFALES
Ordem! Silêncio! Si-lên-cio!

CHAVES
Não deve fazer caso pra velha carcomida...

FLORINDA
(levanta-se irritada)
Quem é que é velha carcomida?

CHAVES
 É que me escapuliu...

PROFESSOR GIRAFALES
“É que me escapuliu”... Você sempre saindo fora com a mesma desculpa! Mas esta foi a última vez, endendeu?!

CHAVES
Tá bom, mas não se irrite!

PROFESSOR GIRAFALES
(bravo)
Então não me deixe irritado! Quico!

QUICO
(bravo)
Que é! (murchando) Digo, pois não querido professor?!

PROFESSOR GIRAFALES
Quem cantou a velha carcomida?

QUICO
Quem cantou a velha carcomida foi o senhor!

FLORINDA
Tesouro!

QUICO
Mamãe!

PROFESSOR GIRAFALES
Quero saber quem fez a Canção do Exílio...

QUICO
Ah, essa pergunta o senhor já fez antes...

PROFESSOR GIRAFALES
Porém você não respondeu!

QUICO
Por isso que eu digo que o senhor faz bem em voltar a perguntar... (pensa) O cantor... Ah, o cantor! O cantor foi Caetano Veloso... (perde-se na resposta) Ahn, Chico Buarque? (pensa) Ahn, o Jair Rodrigues... (certeza) Roberto Carlos!!... (desanima) Também não... Foi o Noel Rosa? Pois não deu outra vez!

PROFESSOR GIRAFALES
Olhe, Quico, eu vou tentar te ajudar um pouco. Quem pertenceu ao nacionalismo nos tempos de boemia?

CHIQUINHA
Mario de Andrade!

CHAVES
Não seja boba! Mario de Andrade não pertenceu à boemia nem quando teve tuberculose...

PROFESSOR GIRAFALES
A quem se diagnosticou a tuberculose foi Manuel Bandeira!

CHAVES
Isso, isso, isso!

PROFESSOR GIRAFALES
No Romantismo, quem escreveu a Canção do Exílio junto ao período da boemia foi o Gonçalves...

SEU MADRUGA
(interrompendo)
...Isso, isso, isso. Gonçalves! Lembrou bem. (enfático) Nelson Gonçalves!

PROFESSOR GIRAFALES
(impaciente)
Gonçalves não se chamava Nelson!

SEU MADRUGA
Aquele da boemia, como não? E isto saiu de que? (cantarola) “Boemia, aqui me tens de regresso e suplicando eu te peço a minha nova inscrição...”.

PROFESSOR GIRAFALES
(aceno de silêncio)
Olhe, olhe, é melhor que se cale, Seu Madruga.

FLORINDA
Isso, isso, isso.

PROFESSOR GIRAFALES
A Canção do Exílio foi escrita por Antônio Gonçalves Dias durante a década de 1840! Bom, passando para o período seguinte, diga-me, Chaves, o que fez Machado de Assis depois de colocar o primeiro pé no Realismo?

CHAVES
Pôs o outro, né?! A não ser se estava brincando de Saci-Pererê, então?!

PROFESSOR GIRAFALES
(irritado)
Não! O que fez Machado de Assis depois de pôr o primeiro pé no Realismo foi tornar conhecida a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Romance que atualmente conhecemos como o primeiro registro realista da Literatura Brasileira. Chiquinha...

CHIQUINHA
Não veio!

PROFESSOR GIRAFALES
Como?!

CHIQUINHA
Presente, querido professor!

PROFESSOR GIRAFALES
O que você pode me dizer sobre Domingos Olímpio Braga Cavalcanti?

CHIQUINHA
(pensa rapidamente)
Medalhista na Copa do Mundo de 70!

SEU MADRUGA
(eufórico)
Muito bem! Esta é minha filha!

Professor Girafales, impaciente, morde com raiva o charuto.

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(aula II)

PROFESSOR GIRAFALES
Lembrem-se que ainda falta o exame de Literatura.

CHIQUINHA
Ah, mas sem truques, hein!

PROFESSOR GIRAFALES
 O que você disse?

CHIQUINHA
Sempre que nos dá exame de Literatura o senhor vem com truques.

PROFESSOR GIRAFALES
Truques?!

CHIQUINHA
Sim, faz perguntas de coisas de quando a gente nem tinha nascido.

PROFESSOR GIRAFALES
Mas, Chiquinha, é que a Literatura trata justamente de avaliar o contemporâneo e o passado.

CHIQUINHA
Sim, claro, porque lhe convém.

PROFESSOR GIRAFALES
Ta, ta, ta, já chega. Nhonho, o que fez Villa Lobos no último dia da Semana da Arte Moderna, de 1922?

NHONHO
Ele estava muito falido.

PROFESSOR GIRAFALES
Estava muito falido?

NHONHO
Sim, ele foi calçando chinelos e passou a noite inteira cantando no Teatro Municipal de São Paulo.

PROFESSOR GIRAFALES
Esse canto de Villa Lobos era o canto dos Modernistas! Cantou no Teatro porque foi lá que ocorreu a Semana.

PÓPIS
E foi lá também que se apresentou Manuel Bandeira

QUICO
Sim, e Manuel Bandeira é casado com a Lira Paulistana. Certo, professor?!

PROFESSOR GIRAFALES
Não, Quico, a Lira Paulistana não era esposa de ninguém.

CHAVES
Claro que não, Manuel Bandeira não era casado com a Lira Paulistana, né?!

PROFESSOR GIRAFALES
Mas é claro que não...

CHAVES
Ele era casado com Pasárgada!

PROFESSOR GIRAFALES
Exato! (surpreso) Ah, o quê?

CHAVES
Sim, ele era casado com Pasárgada, porque Pasárgada é a mãe do imaginário e Manuel Bandeira é o pai do imaginário.

PROFESSOR GIRAFALES
Olha, é melhor ficar calado, hein. Vamos continuar. Chiquinha...

CHIQUINHA
Eu...

PROFESSOR GIRAFALES
Quem foi o maior crítico de Carlos Drummond de Andrade?

CHIQUINHA
Ah, foi o cara que o desenhou nas notas de 50 cruzados novos. Ele ficou um horror.

PROFESSOR GIRAFALES
Refiro-me ao momento em que os modernistas começaram a instituir o verso livre. Mas ninguém sabe quem fez a maior oposição aos Modernistas?!

QUICO
Foi o PT?!

Professor se levanta irritado e vai até ele.

QUICO
(perde-se nas respostas)
O PSDB? Foi o DEM? O Socialista? (mexe no nariz do professor) O Partido das Causas Literárias? Não deu de novo!

PROFESSOR GIRAFALES
Senta aí, vai...

QUICO
Sim, professor.

PROFESSOR GIRAFALES
Bom, deixando a segunda geração modernista e voltando para o primeiro período do movimento.

QUICO
Ah, isso aí é com a Chiquinha. Por que o pai dela esteve na primeira geração modernista.

CHIQUINHA
Meu pai esteve no Modernismo?

QUICO
Sim, Chiquinha, aqui no livro de Literatura diz que o pessoal do movimento modernista era visto como uma “gentalha”.

PROFESSOR GIRAFALES
A primeira fase do modernismo foi obrigada a atuar precipitadamente, isto explica por que foram menosprezados. E sabem por que eles tiveram que se levantar?

CHAVES
Porque estavam deitados.

Professor volta à sua mesa.

PROFESSOR GIRAFALES
Ah, está bem, ouça aí. Pópis, me diga onde foi assinado o Manifesto Regionalista?

PÓPIS
É, é, na parte de baixo da página!

PROFESSOR GIRAFALES
Hunf, acho que será melhor passarmos para outras épocas. Vamos ver, Quico, com que objetivo surgiu o Simbolismo?

QUICO
Sem objetiva.

Demonstrando irritação, o professor se dirige ao Quico.

QUICO
Lá vem ele...

Girafales para frente a ele.

QUICO
Foi para criar smiles no MSN? Foi para decifrar os caracteres do Windows? Foi para criar fontes com símbolos e desenhos para o Word? Não deu!

PROFESSOR GIRAFALES
(suspira)
Sente-se aí, Quico. Vamos ver, Nhonho, o que fez a personagem Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, antes de morrer?

NHONHO
 Agonizou.

PROFESSOR GIRAFALES
(decepcionado)
Ai!... Chaves.

CHAVES
Presente.


PROFESSOR GIRAFALES
Depois de ajustar-se na segunda geração modernista, o que fez Érico Veríssimo?

CHAVES
Repetiu.

PROFESSOR GIRAFALES
Ah, Chaves, procure lembrar por que Érico Veríssimo ficou famoso?

CHAVES
Porque ele tinha uma boa memória.

PROFESSOR GIRAFALES
O quê?! Ele tinha uma boa memória?

CHAVES
Sim, eu vi lá em Cruz Alta uma placa que dizia assim “O Memorial de Érico Veríssimo”.

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(aula III)

CHAVES
Sim, porque os artistas e os poetas fizeram reuniões, reuniões, reuniões e reuniões até que no segundo dia do manifesto encontraram o Ronald de Carvalho no Teatro Municipal pulando e coaxando que nem um sapo, então...

PROFESSOR GIRAFALES
(interrompendo)
Ei, não, não, espere. O Ronald não estava imitando um sapo!

Chaves
Tem certeza?

PROFESSOR GIRAFALES
Sim.

CHAVES
Mas será mesmo?

PROFESSOR GIRAFALES
Claro. “Os Sapos” era um poema de Manuel Bandeira que foi declamado pelo Ronald.

CHAVES
Ah, sim, porque imitar um sapo dá dor nas pernas né. Eu, uma vez, resolvi pular sapinho e fiquei uma semana...

PROFESSOR GIRAFALES
(interrompe)
Ei, espere, espere. Estamos no exame de literatura.

CHAVES
Sim...

PROFESSOR GIRAFALES
Vamos ver, diga-me, o que fizeram os Modernistas após apresentarem o seu manifesto?

CHAVES
Tiveram que enfeitar os Parnasianos.

PROFESSOR GIRAFALES
(surpreso)
O quê?

CHAVES
Tiveram que enfeitar os Parnasianos.

PROFESSOR GIRAFALES
Como foi que disse?

CHAVES
Eu disse o que está no livro...

PROFESSOR GIRAFALES
Como vão dizer isso no livro, Chaves?!

Chaves pega o livro sobre a carteira e dirige-se à mesa do professor

CHAVES
Eu mostro pro senhor. Quer ver?! Ó...

PROFESSOR GIRAFALES
Tiveram que enfeitar os Parnasianos? Onde diz isso?

Chaves folheia o livro e indica.

CHAVES
“Tiveram que enfeitar os Parnasianos.”

PROFESSOR GIRAFALES
(enfático)
“Tiveram que enfrentar os Parnasianos”. Certo, tiveram que enfrentar os Parnasianos que regiam a arte.

CHAVES
Isso, isso, isso. Porque os versos eram os seus demônios...

PROFESSOR GIRAFALES
Sim... (surpreso) Eram o quê?

CHAVES
Demônios... Está dizendo aí, ó... (indica o texto)

PROFESSOR GIRAFALES
(indignado)
Seus “domínios”!

CHAVES
Isso, isso, isso. Então a noite do manifesto terminou em algazarra e todos ficaram com “um pé atrás” sobre o movimento modernista.

PROFESSOR GIRAFALES
Aham, adiante.

CHAVES
Não, com o pé atrás!

PROFESSOR GIRAFALES
Quando eu digo “adiante” quero dizer que prossiga com o seu relato!

CHAVES
Que relaxo!

PROFESSOR GIRAFALES
Eu não disse relaxo, disse relato! Ou seja... Olha, é melhor você se sentar no seu lugar! Vai, vai, vai. Senta lá. Você me deixa nervoso.

***

PROFESSOR GIRAFALES
Bem, agora vamos continuar com a Literatura. Quem pode me dizer qual era o principal objetivo dos modernistas?!

GODINEZ
A criação de museus.

PROFESSOR GIRAFALES
Eu não estou falando do Museu de Arte Moderna, Godinez.

CHIQUINHA
 Eu digo, professor, eu digo.

PROFESSOR GIRAFALES
Vamos lá, Chiquinha...

CHIQUINHA
O principal objetivo dos modernistas era a reformulação da língua portuguesa.

CHAVES
Hahaha, que burra, dá zero pra ela.

PROFESSOR GIRAFALES
Por que vou dar zero se ela respondeu corretamente?

PÓPIS
É, mas, pergunte outra, professor.

CHIQUINHA
Não, não, não. Não exagere! Essa eu já acertei...

PÓPIS
É que se ele não perguntar outra, vai pensar que você acertou por pura sorte.

CHIQUINHA
E se ele perguntar outra, vai confirmar!

PÓPIS
Não, não...

Devido à discussão entre ambas, os alunos fazem alvoroço.

PROFESSOR GIRAFALES
Silêncio, ordem! Vamos continuar. Você, Chiquinha...

CHIQUINHA
Viu só?! Pergunte outra...

PÓPIS
Ah, Chiquinha, eu só queria te ajudar, menina...

PROFESSOR GIRAFALES
Chega, chega. Vamos ver, Chiquinha...

O professor aponta o dedo indicador para Chiquinha.

Quem assassinou Euclides da Cunha?

CHIQUINHA
(assustada)
Eu não fui!

PROFESSOR GIRAFALES
O quê?!

CHIQUINHA
Eu juro que não fui eu, professor, eu nem sequer estava lá, eu tinha ido ao cinema. (chora)

PROFESSOR GIRAFALES
Olhe, eu somente perguntei: “quem assassinou Euclides da Cunha?” Você, Chaves...

CHAVES
(levanta-se)
Professor, eu conheço a Chiquinha muito bem e se ela diz que não foi ela que assassinou é porque não foi mesmo!

PROFESSOR GIRAFALES
Mas...

CHIQUINHA
Obrigada, Chaves. Obrigada, Chaves. (beija-o e chora). Se eu falei que não fui eu é porque não fui eu.

***

CHAVES
(narrando)
Ai, então, Luis de Camões disse ao rei que tinha muita vontade de ser o maior poeta da língua portuguesa...

PROFESSOR GIRAFALES
(interrompendo)
Ei, ei! Espere, espere! Luís de Camões não sabia que seria rotulado como o maior poeta da língua portuguesa.

CHAVES
Não?

PROFESSOR GIRAFALES
Claro que não. Além disso, ao recitar os Lusíadas ao rei, ele nem imaginava que sua obra pudesse estar entre os cânones.

PÓPIS
Ou seja, ele lançou seu livro às cegas...

PROFESSOR GIRAFALES
(acenando silêncio)
Pópis, shhh! Vamos recomeçar. De onde era Camões?

CHIQUINHA
(rindo)
Era da cama!

PROFESSOR GIRAFALES
Pelo jeito, você está com muita vontade de responder, não é?

CHIQUINHA
Não, não professor.

PROFESSOR GIRAFALES
Como não?

CHIQUINHA
Ah, um outro dia, com muito prazer, eu respondo.

PROFESSOR GIRAFALES
Nada de outro dia! Você vai responder agora mesmo: Onde nasceu Camões?

CHIQUINHA
Na casa dele.

PROFESSOR GIRAFALES
Em que lugar?

CHIQUINHA
Ah, lá na cozinha...

PROFESSOR GIRAFALES
Olhe aqui, Chiquinha, eu não a reprovo porque nem mesmo os historiadores chegaram ao acordo sobre o seu local de origem, embora o mais provável é que ele tenha nascido em Lisboa.

NHONHO
Então ele era Lisboenho?

PROFESSOR GIRAFALES
Não se diz “lisboenho”

GODINEZ
“Lisboano”

PROFESSOR GIRAFALES
Menos! Diz-se “Lisboês”. (suspira) Bom, e aceitando que Camões tenha sido lisboês, por que razão deixou a cidade de Lisboa?

CHAVES
Porque não tinha jeito de levá-la no barco, ora!

***

PROFESSOR GIRAFALES
Ordem! Ordem! Bem, vamos continuar. Chiquinha!

CHIQUINHA
Larga do meu pé, pô!

PROFESSOR GIRAFALES
O quê?

CHIQUINHA
Não, não. Fale...

PROFESSOR GIRAFALES
Diga quem descreveu o Brasil?

CHIQUINHA
Quem descreveu o Brasil foi Pedro de Lara.

PROFESSOR GIRAFALES
Olha, eu vou te ajudar um pouco. Quem estava a caminho das terras brasileiras junto a Cabral?

CHIQUINHA
Luís de Camões!

PROFESSOR GIRAFALES
Não, Luís de Camões narrou o trajeto de Vasco da Gama. Quem descreveu o Brasil foi Pero Vaz de Caminha.

PÓPIS
(para Chiquinha)
Isso mesmo. Lembre-se bem: foi Caminha, o cantor.

PROFESSOR GIRAFALES
Não, não! Caminha não era cantor!

PÓPIS
Era sim, como não. Pois se até fala o nome dele naquela música (cantarola) "Caminha" contra o vento, sem lenço, sem documento....

PROFESSOR GIRAFALES
Senta, senta!

PÓPIS
Sim, professor.

PROFESSOR GIRAFALES
Quem descreveu o Brasil foi Pero Vaz de Caminha!

CHAVES
Isso, isso, isso.

PROFESSOR GIRAFALES
Agora, me diga: o que fez Pero Vaz de Caminha depois de pôr o primeiro pé no Brasil?

CHAVES
Pôs o outro, né! Se não ele caia. A menos que ele estivesse usando uma muleta, ou sei lá...

PROFESSOR GIRAFALES
A primeira coisa foi anotar tudo o que era encontrado naquele solo. Naquele solo que seria referência para o primeiro registro escrito conhecido no país: a literatura informativa.

CHIQUINHA
Professor Girafales, eu posso fazer uma observação?

PROFESSOR GIRAFALES
Sim.

Chiquinha levanta-se e faz miragem enquanto Professor Girafales aperta com raiva o lápis entre as mãos.