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Escrito quiçá feito...


Numa comemoração cujo prazer presenciar-se-ia com a ausência de todos, valem a pena as fantasias etílicas. O ácido sabor gélido da cevada, a língua amortecida pela beirada metálica trincada e a falta de quadros desenháveis num lençol fazem com que minhas pernas, de repente, fossem maratonistas de primeira viagem e caíssem na morbidez gravitacional.
Depois de alguns momentos de conversa deglutida, a simetria dos corpos se homogeneíza em minha mente puxando minha atenção. Aproximou-se de mim, Florêncio, meu colega da literatura.
- Eu me ofereço um gole!
- Olha que meu fígado e ele já estão ficando... – Alertei-o.
- E este “ele” há de querer compromisso?
- Só num quarteto de Alexandria.
- Incluem-se as bocas que beberam, ou seja, as nossas?
- ...
De fato ele estava muito atraente naquela calça de alfaiataria que, afrouxada em suas pernas finas, o assemelhava a um anão. A sobriedade é traiçoeira, dizia Hemingway, e ela nunca me deixava ver os belos traços profundos na testa de Florêncio, nem as curvas-sinais nas bochechas ao sorrir. Poeticamente imagino que seus grisalhos são os rastros que a lua deixara nesta noite...
- Sempre gostei do teu cabelo. – Confessei-lhe.
- Eu também sou fascinado pelo teu longo acaju. – Tomou uma mecha em sua mão e devagar foi desmanchando como um folículo de algodão doce...
Acho que meu colega me beijou.
O final é justamente o que relatei até aqui, de acordo com a dose única que me foi oferecida em sua casa.

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