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Os irmãos PorQuês e a moça Justiça

- Do que precisas, Por Quê? – Pergunta Por Que.
- D’alguma preocupação. Melhor, da precaução. – Intromete-se o Porquê, irmão do meio.
- Por Que, viste? O anúncio esqueceu-se dele! – Vocifera Porque – Denominou, descreveu, delegou sem ti, caro irmão Por Quê! E ainda tenta com astúcia solucionar antes que denuncies.
- Calemo-nos! Lá se aproxima a menina Justiça! – Ordenou Porque – Cabe-nos auxiliá-la. É uma jovenzinha de modismos.
- Principalmente o de usar um tecido talhado nos olhos. – Sussurrou o Porquê para Por Que.
- Ah, Senhorita Justiça, você possui dotes de elegância, mas nunca aprendeu a andar sobre o salto alto! – Indaga Por Quê oferecendo seu antebraço para apoio.
Os outros PorQuês entreolham-se procurando um porquê para não rir...
- Por Deus, Senhorita Justiça, não fique sentada por muito tempo... – Aconselha Porque virando-se para os outros irmãos e cochichando ironicamente – senão acabará com bolhas onde estamos pensando!
- Ah, Porque, não a deixe ruborizada! – Disse Porquê. – Esta senhorita precisa, ora, poupar suas enérgicas lidas; e para isto, menina Justiça, ofereço-lhe o meu acento circunflexo para que se deleite sobre ele. Garanto que jamais houve um motivo que desaprovasse a eficácia deste meu artigo de lei!
- Descarado! – Altera-se Por Quê.
- Que motivo tens para tal falta de respeito, irmão do meio? – Retruca Por Que.
- Não liguem, este é banal. – Comentou Porque.
- Seus desaforos! Por favor, defenda-me, Senhorita Justiça. – Apela o Porquê no meio das expressões acusadoras...
- Sinto, mas a estratégia do teu pedinte socorro satura-se de conseqüência, carece de dúvida, incumbe o motivo – ou seja, tu -, e ainda finaliza com a interrogativa da tua ignorância. Logo...
A moçoila Justiça volta-se de costas gingando os quadris e senta-se acomodadamente cruzando os joelhos nus frente aos irmãos Por Que, Porque, Por Quê e Porquê. Continuou:
- Resolvam-se!, enquanto eu me aprazo assistindo ao último capítulo da telenovela.
Com a sensualidade dos anos 20, Justiça leva suas mãos delicadas ao rosto e abaixa o lenço que venda seus olhos... A revelação da cor destes coube somente aos irmãos ali presentes...

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