sexta-feira, 30 de março de 2012

Um crepúsculo de outono

Imagem: Larissa Pujol

Frio, adorno do descanso, arrepia pele ao toque cinza (das horas). Com suaves tons feitos de propósito consagra a cidade com a vista do seu repouso, embora forçoso, abreviando os passos dos que voltam.

De dia em dia
A morte pressagia:
É-nos de frieza otimista que acordemos amanhã.

O templo arco distante, enfim, permite o flerte dos olhos, antes sorrateiros planos em soneto, para, em papel, beijar sua lucidez. Brisa parábola do dia comete pelas costas os pássaros, que temerosos, piam entre os álamos seguindo um ao outro. Lá, eles se somem à vista escolhida no horizonte tais como espíritos fáceis de aspiração – regressa plaino, amanhã, para a terra.
Que avante o álgido e agudo sentimento sobre a turva extensão. Nesta hora, o dom é belíssimo! Em plácida acolhida, a noite recolhe cada habitação entregue ao desfecho.

O fim é juiz do belo...
Sobre o leito os sentidos adormecem no caminho costumeiro deste fim.

Pois, já está tão longe(?), investigando a fantástica gentileza dos matizes que o compõem. Sincera é a intenção do arroio prateado continuado pelo crepúsculo na vontade fecunda confessional. Bem envolve o mundo com garbo prometendo a volta desabrochada do amanhã. Consolo se busca ao alto do monte, em dias estes, cujo gélido cruzamento se apresenta ante aos caídos ponteiros:
 
que anunciam a calmaria do tempo sobre as cinzas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Matéria-página

Podemos voltar ao fantasma que noutra hora nos será. Ou pungir o vácuo ulterior com toda a vontade de ser material do mundo para cumprir a incompleta obrigação entre os entes. Revoltadas são as pernas longe do piso ao nascer, e assim, destinada lhes é a rapidez dos dias e da longevidade – na oferta das suas provas enfermas.
A carta nasce da árvore. Num breve descrito ali faleceu o momento como o outono da folha que paira sobre o esquecido solo. A tinta que lhe dera vida não passou de estação; voltará na data marcada para liberar o ritual da semente.
A passagem é núcleo à imensa crença que nos assiste acima. Sem perceber, os caracteres se cruzam com os olhos, mas poucos têm o propósito da memória. Retratam-se em visitas de apreço, uma vez que outra anunciando o breve presságio do acaso. Sem tardança, a necessidade se faz colecionadora de fragmentos que adornam a superstição do esquecimento.
Ler: o mesmo sempre será a procura, que sábia, nos dialoga as novas coisas, talvez corriqueiras, acertando os pontos num texto de vida. Desta obra, pois, a porta se abre a cada virada de página. De muitas já oportunizadas, perdeu-se a habilidade de sair. Visto o simulacro que nos avaliará com sua releitura, após a estante, às traças nos ofertará.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Não se conclui o labirinto caracol

Juventude de passos, passeios. Enrosca a bandeira no entusiasmo de fazer parte da manifestação em si mesmo. Uma glória de esforço ou a derrota de amores são fórmulas justas da sua física, do beijo da sua química, da sua linguagem – Pessoa! Que jamais se conclua a pessoa!
O que é do seu jeito é o seu dom. Conservador é a inquietude, não só do corpo, este balancete cabide do tempo, mas da proferível geração na cara de candura; o sorriso na boca da peste – veste dura! Investe.
Não se acaba em cidade, juventude se acaba em corpo -  cama – nino de mãe afável de previsões. Corra cigarro sobre o travesseiro num expiro d’um ópio – o seu próprio vértice de culpa – seja após a vida esta simples anedota de bons recados. Veja!
A carreira é de cavalos, na beleza selvagem por livre e espontânea vitória. Aprendido o erro.
Conserto, que certo cria o definido. Os olhos acompanham o caracol na sua casca, e atentos no seu desenho de labirinto infindo. O rastro de parede, a goma da larva perdida como um dia de ontem.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Borboleta e rainha

Imagem: Larissa Pujol

Casulo dos polens hormonais na busca da sustentável harmonia. Bendito é o fruto do seu dia, o humor, quando larva alimentanda de terra evacuada e sanguínea. Apenas inserido, crescem-lhe as asas. Excluso, repele as asas na sua culpa de borboleta. Numa, noutra flor saracoteia impaciente ou sedentária da passividade no que se faz sol, no que se faz chuva.
No vento das horas, borboleta inconstante é ponteiro. Sua condição de inseto lhe dá a astúcia do esquivo entre uma pata e outro suspiro que já a tem descoberta. Sua condição de tempo nunca a aterrissa; eleva-a aos paladares de sua própria idade – rainha no cervical caule se apega, ordena semente para cada carência, viça a pessoa na sua fecundidade de borboleta.
Enfeite mediante o corpo, borboleta só e vitoriosa nas cores hemorrágicas alegres ou fastidiosas. O humor, na borboleta, se faz bondoso quando a primavera assim permite seu acúmulo de instabilidade. Algum vestígio de borboleta se expele por toda a matéria enquanto a vida lhe oferece órgãos.
Secreto e interno fluido, pela borboleta, se ramifica no estímulo sanguíneo. Pacífica – qualidade feminil – é borboleta em seu papel distribuidor. Reina ao bom e ao mau-humor, sem que a harmonia se jubile. Claro, de acordo com a sua vontade.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tinta-canção

Imagem: Larissa Pujol

Despertem-se, heróis! O chamado está logo ali, virando a página. Nas pessoas de desenho, um rabisco de utopia concentra toda aquarela no excêntrico momento de acreditar. A gente pingada nos ambientes planejados pelas vivas-cores à lápis...
                                                                       [naquilo que era balão]
... definha a sua consecução de verdade conjugando enredo e imagem.
Um momento de expressão neste dialogável arco retido na íris complacente com a mania do depois agracia, pois, esta busca que natura a forma do pensamento, nas suas apuradas legendas de caricatura. Tinta e canção suspendem os papéis frágeis às mãos firmando a linguagem ilustrada pelo volume animado da imaginação sem que este altere a personificação estimada no reflexo contínuo: que haja na performance da dor as estrelas físicas graficamente exauríveis.
[Sátira pinçada nas burlas consequentes da escolha entre a liberdade e o instinto]
Extravagâncias do sorriso, riscos em dentes e faces móveis ao invisível sentir. O riso é uma narrativa figurada numa sequência do que se pode ser. Arte pictórica que dispensa a espera, apenas faz espontânea a sua procriação no contato improvisado.
Palavra mascarada por formatos de sons e pessoas d’um universo puramente fabular. Entre as onomatopéias, a palpável (di)versão nos torna desenhos passíveis de borracha. Esperta missão infante que salva nossa crença – heroica. Chance, dê-nos uma charge, pedimos.