sexta-feira, 27 de abril de 2012

O D'us nosso de cada cena

Costume é criar roteiros aos olhos do pensamento [este] que poderia ser. Almeja fabricar o futuro, embora ficcional, tratando de amenizar os desleixos que os próprios sinônimos não procuraram matar.
D’uma fala a outro silêncio, apenas o presságio expressivo da câmera de um pensamento ou a uma reclamação escondida desvendado no sorriso adianta a adivinhação daquele que assiste. O foco é o plano do hoje que já mudou da externa para a interna casa de um ambiente decifrado pelo deus nosso de cada vontade. Corta.
Nos papéis descritos, cada molde de face e os textos dos gestos são lidos por quem nos escreve; e logo objetivados pelos olhos que buscam na trama algo a mais para continuar em si após o capítulo. Vivos personagens têm a ver conosco, e sem fim são seus conflitos que verdadeiramente carecem de um enredo final feliz decorado.  
Pergunta o diálogo: conosco?
Carece-se – repetida – pela imaginação. Precisa é a certeza [redundante] total das cenas e das suas trocas que pausariam a obsessão pelo assunto. Jogada, vida e crime. Justa vontade de matar o impossível, de crescer ou diminuir conforme a exigência do espírito: ainda em silêncio.




sexta-feira, 20 de abril de 2012

O homem-flor e sua gravata

Imagem: Larissa Pujol

Ele é um homem-flor.
É uma fotografia minha feita com tripé. No entanto, ele não usa vestido e - tampouco - decotes em suas camisas. Ele usa gravata - Quer melhor símbolo masculino do que uma gravata? - Não há! Gravata é um pênis têxtil em que a feminutude calcula, por puro instinto animal, o tamanho do tecido, compara as cores e as estampas visíveis daquele que a veste. É um costume dos nossos cinco olhos, dos óculos, e dos olhos raivosos dos nossos cônjuges, porém.

Imagem: Larissa Pujol

- Realmente... - Blabloseou o homem-flor com seu sutil biquinho nos lábios.
E os olhos do mulherio direcionam-se para o nó de sua gravata que encobre um pomo-de-adão. Os olhos deliciosamente escorrem por toda aquela gravata como uma prancha passa-roupas. O homem-flor abre um botão do seu terno para a alegria feminil daquela arena. Alegria em ver a ponta da gravata - se é alongada, larga, estreita - muitos enredos são criados pelas fantasiosas estranhezas femininas no fundo d'um regaço. A casaca levemente se abre... E um desenho virginal é o encarte colorido no fim daquele pedaço de pano [...]

*Obs.: Certifico, na forma da lei imaginária, que a presente estória está conforme a que me foi apresentada na relidade. Conferi na ficção e dou fé.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O fragrante e o versejado

Assim ele me tocava com versos. O perfume, palavra presente nas rimas, e a indagação dos seus olhos suspeitam da minha atenção. Hipnoticamente, eu-calada, mantenho-me à deriva de todo o conhecimento já obtido entre os objetos: por causa do aroma suspenso no que seria dito. Dita-me, pois, o proveito do teu dístico. Este em perfume cuja Terra suspira demonstrando a fecunda vida que se desperta a partir de um nada, apenas exalando.
Enquanto o termo natural assume o comum e a esfinge, a linguagem vaporada é misteriosamente declamada em sua pétala de expressivo adorno, folheando os beijos que, por ventura, se tornariam delicadas escrituras naquilo que se procura. A tua idade, declamador, é experiente de cheiros. Selvagem e lascivo, ora, diretamente a mim tu me esculpias a imagem da poesia e do perfume nos quais as frases ressaltavam a sonoridade das pétalas (reafirmo). Por completo sentimos a poesia que nos aliena dos ali presentes, bem analisados uma a outro, outra a um, na proximidade factual do som e do olor.
O poema em segredo te falando, Declamador, se desprende da robustez encadernada e penetra, pouco a pouco, pelas entranhas curiosamente reveladoras de mistérios. O olfato, também outro segredo, lentamente nos avisa que a intimidade se manifesta nas névoas de frêmito entre espíritos. Vacante é o poente ainda, embora clame por Passado.  
O perfume suspiro em surdina! Ele, meigo, acaricia tudo que em mim há corpo. Neste momento, cifro as volúpias dos violões de Cruz e Souza enquanto a veludosa voz tua cita-me as fragrâncias roçando a epiderme. Os cabelos meus recaem rubros sobre parte da fronte como o cetim de um véu que denuncia o florescer dos lábios, para ti, prontos para serem, por fim, carnes. O seu êxtase está na demora. Sensação maravilhada pelo inédito da delícia, deveras, mesmo que haja provado em outras vontades do seu longo tempo, será novo gozo das sensuais ilusões. - Declamador, o aroma te trouxera um novo gozo das sensuais ilusões?
Seja pela fantasia em viva-voz, o néctar da poesia que em mim buscas possui exalado amoroso quando, dos versos ditos, a absorção se torna a fortuna ensaiada antes de um contato. Poema teu cujas mãos naturais, simples e enigmáticas, friccionam a pétala na insistida fragrância que possa, talvez, se guardar em tempos de inverno. Ele se refere ao meu perfume recém percebido ao versejar seu estímulo beijo naquilo que jamais o adormece. Semelhante ao cheiro, brando se próximo e intenso se me adentra, tua perceptiva sonoridade armazena entre nossas visões as possíveis momentaneidades de uma estrofe provocada.
O paradisíaco noturno enleva nossa investigação, Declamador. Aspiras-me em teus versos de rodopios valsados esperando que os movimentos meus volatilizem a peculiar entre-pernas neste sinuoso manejo - leve e rápido ou lento e nervoso - vai-vem de um lânguido requebrado. Nas expirais subindo... Este balanço vagaroso de ruídos sufocados e liquefeitos.
Até o dia retornar, Declamador, jazer nossos corpos um ao outro no bálsamo unânime do sonho seria prazer das almas. Flores acompanham os espíritos e declaram sentimentos: ambos vivem. Liberta a natureza comum e esfinge nos levando alegria e pesar. É o perfume que assim visa o transe extremo entre concepção e a decomposição.
Interpela-me ele em versos inalando o promíscuo suspiro longo da flor que encontrou. A essência, aviso, inda que golpeie ferozmente, nunca tolhe o gozo dos polens. A alegria exalada de um perfume acusa aquela intuitiva presença cujo rastro apura a vontade alheia do retorno. No ambiente se propaga, nos poemas se versa!
A madeira concentra em mim o seu cativeiro. Através do que não defino, mantenho o controle nas mãos, fazendo de conta que não...  Sentes a carícia aveludada de uma resposta aromática que te dê o tempo para conhecer seu final? Penetrar na casa de uma mulher desabitada descobre o seu olfato ansioso pela criatura escondida - divina de músculos e de sensibilidade arisca. Estremece, portanto, o som de perfume na tua voz para sempre gravada nas melhores canções.
A pausa de tuas rimas, audível olfato, como o silêncio da madrugada, transfere os sentidos da visão para o espírito palpar, enfim, o cumprimento da saudade que engana com a impressão de nos aproximarmos. Ilusão é perfume que te transporta a mim enquanto a poesia traça tua memória silenciada. Em teus versos, frouxo se torna o caminhar do céu através dos movimentos do perfume. Acima e abaixo fazes flutuar os gemidos das pulsadas almas carregando a atmosfera de sentidos abstratos e fixos em nossas mucosas.
Animais são influenciados pelo cheiro: imperceptível permissão minha de te fazer sugar o alvéolo da poesia. O aroma que sentes é a respiração exausta entre os seres e os seus objetos, uma azáfama que esparsa a boca no seu florescer de carne. Brisa que recém instalada te vibrou os acordes das sinestesias. Acontece o poema que me entregas explicando a delícia que se espalha.     

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Constrói tijolo em pele

Trinca a parede aquele risco quebrado assim como gole frio da angústia percorrido pelo esôfago. A sede é um longo caminho ainda virgem, todos os dias. Montaram com tijolos em nós a abertura nomeada de boca e puseram-lhe vidraças para adiar tudo o que seria sentido.
Enquanto o alento da espera abafa o cristal da visão, o dia ali nos vigia em círculos cruzando as sombras do descanso e certificando o nascimento estático da raiz à mente que alcança a mais possível altura.
Ainda somos paredes arquitetadas e construídas de acordo com a verdadeira pilastra fixa no subsolo. Nos cimentos seguros por trás do orgulho reboco se fez a árdua lida, às vezes de areia que burla ou de feia paciência, mas totalmente presente durante a ascensão dos seus cômodos.
Telhados assim em que o sol se desperta e trabalha com suas idéias sobre nós. Vida útil da beleza da nossa feição, algumas cores retocadas pela conservação para melhor receber as visões das vidraças alheias. E aquele sentimento adiado aparece frente ao portão: adentre-se. Esteja belo ou tolo, amenizará o riscado daquele alto que se esquece. Creio, sobre o piso, repousando está dentro de mim.