sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Overhear the (hard) calm...


Sobre a mesa, um convite da noite...
Com vaidade carrego o tambor do meu revólver para melhor iluminar sua face.
Confundir luminárias suspirando o exagerado resto da vida é corriqueira anedota deste bairro... No caminho, prefira, meu bem, estar entre o muro e mim; pois conheço as direções do vento cá fora. Isto não é crendice, é passagem. Assim confesso minha calma ao ouvi-lo mencionar meu vulgo apelido “Exclamação” com carinho...
Por estas ruas, gritos e trovoadas fecham as portas. Apenas um fato comentado na hora do café. As propostas não morrem, mas ensinam um bom final... Coragem, aqui, se faz nos esconderijos, meu bem... Depois se paga galo por galo denunciando a volta p’ra casa!
Ceda um cigarro a esta língua cortês. Muito gostaria queimar as doenças com palavras – “a letra dá vida”, diz o defunto ao sentir a falta da pena. A dor assemelha a todos indeferindo o resultado da felicidade: por mais difícil que se cure, seu extremo ainda poderemos sentir... Neste lugar, meu bem, o beijo na boca é o único a te fazer confiar alegria ao fechar os olhos.
Exagere, meu bem, os pedidos da sua alma. Você é regalia do meu tempo... Oliveira germinada n’algum passo de areia. Relíquia do meu sangue... Meu norte alcance! Luz da minha arma!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A corrente das horas

Acuda-me, Dia, num toque selvagem e natural d’angico... Segundos se dispersam como suas folhas alertando o novo tempo, apenas os sentidos pairam juntos, de costume nosso o aconchego esperado... Gélidos dias, parentes seus, ontem, nos mantiveram no resguardo da tristeza. Embora sopre a vida corrente açoitando a face, contenta-nos a sua volta sentinela e querida.
A reza d’um sabiá laranjeira tocava às seis da manhã, desafiando a queda estrondosa da madrugada. De um pio a outro, a necessidade da comida; pelas vistas, a coragem arguta da vida. – Em algum cheiro d’água passada no descanso dos olhos...
Espelho móvel de todos os espectros. As poças, uma que outra lama em bom aspecto, definhavam os traços que por baixo nos acusam. Cabeça d’árvore à sala nova que pisa; às vezes, a atraente fotografia que obscura a passagem feia não deixada no lar.
Conosco hoje findou o sol enxugando o ontem tempestuoso. A maior parte dele evaporou, mas não tanto quanto o obsessivo amanhã, que parou no sorriso. Compete ao descanso aquela minha nudez banhada (quiçá de beijos). Deflorado o despertador!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Traço corrido

Abre-me (em mim) a tua varanda. Não chove, e o dia morre de dores... Vivendo passes, cantarola os errados versos de Saturno sem rimar nossos anéis...
O que me dizes, se é jovem ou anoso, não importa: gosto de varanda a passar... Lá e cá... Somos bichos criados pelas crianças; somos lúdicas brincadeiras de criação!
Em várias viagens os adeuses se comparam em todo o mesmo... Levaria ao esmo, mas te digo que não me é complicada a palavra; não esqueço as presenças, não lamento, não sou ópera... Quem sabe um encontro na minha cara de paisagem enquanto o outro se ilude na janela da minha casa?! Sinceridade não teme o futuro; ao olhar para trás assumo que primeiro senti paixão...
Primeiras notas sem pressa... O aceno com a perfeita graça das mãos a dedilhar a recordação: tropicália nunca finda... Sai às ruas, volta para casa e observa a cinza contribuinte dos passos... Olha o que lá amou, o que lá matou... Frio e quente fazem parte do ano, da pessoa e do banho.
Somos manifestos... Somos festas... Anfitriões assassinos do fim... Varando...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Escrito quiçá feito...


Numa comemoração cujo prazer presenciar-se-ia com a ausência de todos, valem a pena as fantasias etílicas. O ácido sabor gélido da cevada, a língua amortecida pela beirada metálica trincada e a falta de quadros desenháveis num lençol fazem com que minhas pernas, de repente, fossem maratonistas de primeira viagem e caíssem na morbidez gravitacional.
Depois de alguns momentos de conversa deglutida, a simetria dos corpos se homogeneíza em minha mente puxando minha atenção. Aproximou-se de mim, Florêncio, meu colega da literatura.
- Eu me ofereço um gole!
- Olha que meu fígado e ele já estão ficando... – Alertei-o.
- E este “ele” há de querer compromisso?
- Só num quarteto de Alexandria.
- Incluem-se as bocas que beberam, ou seja, as nossas?
- ...
De fato ele estava muito atraente naquela calça de alfaiataria que, afrouxada em suas pernas finas, o assemelhava a um anão. A sobriedade é traiçoeira, dizia Hemingway, e ela nunca me deixava ver os belos traços profundos na testa de Florêncio, nem as curvas-sinais nas bochechas ao sorrir. Poeticamente imagino que seus grisalhos são os rastros que a lua deixara nesta noite...
- Sempre gostei do teu cabelo. – Confessei-lhe.
- Eu também sou fascinado pelo teu longo acaju. – Tomou uma mecha em sua mão e devagar foi desmanchando como um folículo de algodão doce...
Acho que meu colega me beijou.
O final é justamente o que relatei até aqui, de acordo com a dose única que me foi oferecida em sua casa.