sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sob a janela

Alguém sai da boca sem ordem ou juízo. De corpo atrapalhado, a insana sentença brinca sua verdade esgueirando restos de decisões enumeradas. Maduro pomar à frente que anseia à própria composição faminta provocada por sua quietude e seus gestos de queda e de prontidão... Enquanto há templo sob o corpo, confesso o vigor solitário e imenso ao contemplá-lo na boca com cores delicadas de vento-norte.
Um desespero aplaca o vestido adornando o ar ou, talvez, o ânimo. Qualidade afável na agitação das definições. Entende-se, arrisca-se imerso no espírito, ora na áspera boa lembrança, o sorriso cativo e arisco que abandona a palavra e se preenche de singulares percepções.
Vísceras: os momentos já as experimentaram na introspecção de encontrar algo único a se dedicar. Com cotidiano somos tingidos à existência opaca e orquestrados sem eco e ruído. A casa nos eleva em seu contexto solitário eufemístico. As fagulhas de cólera se antecipam neste acúmulo de pronomes, impropérios contra a falta de um si sofisticado ou nunca criado.
O ditado se exaspera avesso àquele solitário de mirrada companhia própria. Legião de poses dispersas em caras e frutos infinitos em qualquer fome suportada. Não fora negada a mordida, tampouco a cálida continuação promissora de si.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Prelúdio

A soma dos ventos nos corpos que respiram; tais milhas de caminhos que carregam os olhares dispersos do dia. Cada alegria, simples ou escandalosa, suspende-se nos galhos completos de horizonte outonal. Na terra, a liberdade, seiva feminil, espalha novidade eterna e descansada de tempo.
Aos gametas da vida: a sofrível fragilidade dos desejos. Quão sutil o plano derrocado do olhar temendo a mudança brusca do ar, do que se respira em partículas de instinto. Surjam de todos as catástrofes em estrofes aceitas de paz... Sem suborno, deixa-se partir um beijo obscuro e insignificante - contrário à chegada de nossos genes em qualquer caso...
Suspira o peito no anseio do sangue que lhe resta... Findou-se, então, velho e consoante ao leito amoroso que servira na sua calma crida de ideologias e confissões verso à verso. Eis, talvez, a verve mortífera do caleidoscópio a nos esbanjar espírito e uma imensurável dimensão em diversas paralelas móveis honestas.
Não divergirão neste espaço o qualquer e o pouco... A matéria venosa de todos os ninhos se encapsulam na sobrevivência obtida por pontos desenhados à cores sem critérios, à sombra dispersa de candura.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A abertura do manto

O ar das cores, o arco pleno e distante – adornos d’áurea avistada em qualquer fruto – são os passos das estações nestas faces ambientes e reproduzidas. Versos se diluem semelhantes às nuvens concluídas nos pés selvagens e líquidos de todo um ser.
No solo, o plano de sua imagem verticaliza o infinito enquanto o pensamos e o carregamos na comunicável extensão tênue do bem passado que resta... Indaga a passagem em suas reticências o olhar cativo da metáfora dita. Somos respostas atraentes do que virá – esta frente enérgica, aflorada e harmoniosa de cada pouco descrito.
Sinta atrocidade ou longevidade, um beijo de paz sempre corromperá a derme d’alma sob o poema cego. O pensamento, como crisol, prova sua prata visionária da lua; e em seu ponto sincero, foca a cintilante alvura dos ventos que desviam a primavera com seu véu furtado das lágrimas...
A luz exaurida sobre o eterno repouso completa a cinza circunspecta ao nosso redor. Branda maturidade que estende seus braços por detrás do apaziguamento confesso.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Se me rendo

... ou se me rendo...
Imagem: Larissa Pujol

Na abstração das rendas cose-se o detalhe descoberto no arrepio da pele – esta minha cama eterna sob a mão da luz que me desenha sua curiosidade. Vista a sombra tatuada móvel, tenho culpa dos contornos dobrados, desviados ou reconduzidos destas flores fio-a-fio como moradia da aranha... O laço no perpétuo circular da cintura assume brincadeira de ti, dono de amarras com a leveza dos enlaces das pernas... Que sombra! Que curiosidade! Que mistura por vir.
É pelo caminho casto me cobrindo fino e arejado, cujo contorno desfaz o fim nas suas metades torneadas e feminis, que não se perde o rio viscoso e incolor, escuso no segredo. Segue a falsa modéstia da renda ao encontro suntuoso daquilo que realizas. Expando-me toda ao que és – o céu despido de suas nuvens – e evoco o reduto sensível do segundo nesta fragilidade bela e ilustrada.
Cada fragmento de um eu em sombra se une em pele durante o escorrer das rendas... Pertenço ao que me esculpe o céu nas minhas procelas... O olho escolhe o encarnado cômodo tenro. Todo tu é bem vindo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Balanceio

Imagem: Larissa Pujol

Estas são as curvas do refrão bailado sob o vestido qu’ eu balanço... Pela tua mirada, a história narrou a melódica sinuosidade despida. Cantou-me o passe gingado da tua vontade entre a moral e o teu sangue, entre os outros e o teu poder movido pelos meus próprios pés.
A batida, em ritmo soluçante, contempla a fisionomia apreendida em palavras absolutas. É a capacidade de pensar e a qualidade da abertura nesse imenso humano do qual se precisa... A anáfora serpeante da liberdade ouviu o refrão escorrido em seu fim... Que dimensão permanece no solo úmido e seguro e nas profundezas que abrem caminhos?
Expressamo-nos em repetidos estribilhos que comparece, isoladamente, a qualquer juízo fugaz... Um pretexto de carícia para a pele de gato desaparecer entre as sombras. Um pretexto de garra para a própria pele não esmorecer, homem.
A letra d’um corpo sopra o chamado em teu imo. Antes de mim, a verdade esqueceu e se pôs a escutar todo o teu interesse. Distinta transparência sonora nas voltas do frenesi que interpela nosso arquejo...

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Cerne de veias

Decorei toda a paisagem nele expressa: de cores, de vaidade, de memória. Propus-me a prova insinuada que refletia os cristais de seus olhos e surtei à beira das lágrimas com os trejeitos deixados carentes... Digo-me nele a frase de bloqueio esperto, cuja roga de seus lábios desprendem sensibilidade.
Idolatro sua dita neste corpo que adora mirar e, passivamente, me desenha à sua nudez permitida – ele – dele – se não me detive, penso-o na tessitura arranhada do disco sussurrando as travas do será... Ouvi, talvez, pela avenida que ele abriu próxima à minha guarida máxima, os grunhidos plásticos do beijo. Ficamos reféns das caras e da simetria perfeita do instinto; e quem nos concedeu o apego das unhas? – o desafio da atitude louca no mesmo espaço rechaçado da bondade e ardor... Começo, sob o meu intrigante almejo fulgente entre os corpos, a coser a solidão dos fios correspondidos. Foge-me a dor perfurada a cada remendo de estampa guardada nas cores que nos foram nuas...
Não concluamos, quem sabe? – Quem sabe? – A mim ou a ti?

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Infinito e um

Limpam-me sobre a pele os despejos dos lábios salivados. Sedento percurso criado; a água bela e curvada no seu destino de gota vive inodora e confusa incolor extenuante da boca...
Milhares de únicos secos ao solo que se pisa, se escorrega e se apóia – finda passagem da estrela móvel e mole no obscuro interior por si desconhecido. Partiu, assim, a semelhança dos seres na despedida, foram-se as células e o dia, foram-se os homens, o sol e a permanência, tudo o que pernoitara, o que me digeriu e me devolveu – inclusive os lábios sedentos encostados no cheiro novo e vibrante.
Da alva espuma fragrante, a matéria se origina fácil e primaveril para o seu sustento. Um alimento adornado a nudez sortida de flores, de outros e de si (n’algum momento) cuja ventura me diz que será bem servida... É o caso, porém, da candura metade morna que toca o rodopio líquido na estréia do corpo vivo. A alegria que surra, a pena que se esvai carinhosa e longínqua – os membros são seu palco e sua peça num fragmento chamado criação...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sonata das doze ruas

Passos violados na viola, o risco da corda bamba no som trêmulo, correram com a mudança das notas até o espio da esquina. Dedilharam no piano o som baixo do suspense; e dele expirou o cigarro – fumaça dançante – convida-me, pois, à arruaça do bairro – ora asfalto iluminado de nudez cinza de nós!
Faróis pintam sóis por aqui, na batida da praça metalizada a piche e a militar! Embalamo-la  misticamente em fotos tomadas nas poças chovidas ontem... Finesse tal dos mis pianados entre graves olhares do violoncelo – hum! do será – na língua, os lábios, quiçá temerosos, ou sei bem – gostosos na suavidade do véu escuro deste ar a compartir seu corpo comigo!
Rápido bemol para a entrada: eis meu caso voltando à sua vida. Contra-mão, contra-baixo, mão, abaixo, travessia opaca para não perder a graça – onde? – Ah, tu! Venho por aqui no teu “L” curva... Despeço-me do salto e da lida em teu colo... O piano em teus dedos me cócegam ludibriando o cansaço e a sensualidade. Panderou meu quadril a um jazz sem madrugada! O tom das cordas, no meu fundo de pernas bambas, violou!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Caminho da floresta

Por um mundo mínimo... (Imagem: Larissa Pujol)

Teus pés onde estão? No ar? Na ida? No vácuo? Por eles, tu és o que sentes? Eles tocam, avistam até o que não sabes? Eles faltam? Eles esquecem? A rua vai com as boas horas... Existe algum lugar seguro para que as sombras se espelhem no céu? Passo pesado na escuridão da parede orgânica sem cara de agora.
Sombra não exprime gosto, mas é a única a tocar delírios. Sua própria impureza eclode a imaginativa continuidade do que pode ser, do que gira o prazer.
Prendidos, condensados lagos a evitarem o mar – sombras na linha tênue do desconhecido horizonte que sempre será. Esta liberta a vontade criando direções. Almas, teus pés, contemplam o sabor deslizado nas pétalas desejadas pelo solo. E o solo é apenas uma leve proteção... Ele é por todo o lugar, por todo o silêncio, um vazio abaixo de si úmido ou ancorado na planta que se faz ser.
A ponta branca nas asas da águia nos golpeia sensivelmente a vida que escorre pelas estrofes silabadas. Sombra ou profundeza, alguma conhecida referência para o fim atuante na metáfora da raiz(?).

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Pertangut a la mare

Imagem: Larissa Pujol

Uma escada, um espelho ao nosso diabo em ascensão. Entre floras e ruínas, os infindos organismos que somos e que nos alimentamos adornam a seita criativa do universo.
Selvagem, querida, um coração de mãe se natura; e, sem desculpas, o regaço germinante apropria-se da terra, da chuva. A esperança caminha em círculo: um dia volto, querida, com a tez entrecortada de anos a ir-se para o pó... Pó, meu âmago milimétrico de seres refletidos na bondade e na maldade, diagnosticados pelo espírito e por outras poeiras gigantes perpetuados nos móveis históricos da podridão.
Ao leito se acostuma o corpo feliz. Deixou a insana travessia da ida mendigando o fardo arrastado dos segundos exagerados de depuração nossa. Conservei a peça lustrosa e impressionante do mundo, valor este, querida, prevalecendo a única sinceridade.
Nós, um panteão clandestino de genialidade ignorada, anônima em si mesma. O papel virgem e escuso das palavras, da saudade. O sentido que se junta aos embustes d’um imenso mundo calcado a sonhos de pessoas.

sábado, 12 de outubro de 2013

Ah, pais!

Uma tarde verídica de sol. Década de 80.

- Começou a contar. Corre!
Comigo veio um molequinho de cinco anos, cabelo penico e castanho escuro - é ruim não me recordar de seu rosto... Pele clara e só! Com os lábios que morderam os meus... – Vestia uniforme no tamanho certo, mas sujo de recreio e aula de pintura. Eu, por ventura, aos quatro anos, conseguia conservar o verde lavado e o símbolo histórico do colégio, embora arriscasse na correria até a Sala de Música.
- É um bom lugar aqui. – Encolhi-me toda sob as teclas do piano – Tu cabes. Vem!
Os minutos naquele esconderijo passaram com ambos suaves e quietos. Quem batia cara na parede contando para que nos escondêssemos jamais pensaria naquela sala, logo, começamos uma cuidadosa traquinagem para degustar nossos lanches com pouco ruído. Enquanto ele mordia seu pastel de carne, olhou-me com dúvida. Tragou o pedaço seco e disse:
- Quero saber um negócio que vi...
Não me importei com aquele suspiro. Tratava de desembalar uma moedinha de chocolate.
- ... entre meu pai e minha mãe, sabe?!
- O quê? – Perguntei com a maior inocência da cegonha.
- Assim, olha! – Colocou-se de joelhos na minha frente, me pegou pelos ombros e me deixou na mesma posição que a sua. Respirou...
... e aquela mordida cheia de curiosidade preencheu meus lábios, imediatamente doloridos e com gosto de pastel. O molequinho, percebendo meu ai, respeitou e não usou os dentes para continuar respondendo a questão... Agora, apenas os seus lábios faziam a vez (mastigada) do que ele acreditava acontecer entre seus pais. Ah, quem diria? Nem os pais diriam que algum tempo depois de nossas precárias idades saberíamos que era somente um beijo... Por ora, tivéramos a impressão que o corre-corre adquiria percepções interessantes: um por que, um quê comestível e um ai...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Le peux


Encontramos o que possuímos no olvido do olhar e das palavras... A face sucumbiu este temeroso término do dia, ou final de qualquer vida assim que o véu crepuscular nos acoberta com suas belas cores do fim.
A cara anoitece sempre jovem e familiar, preparada. Pela nossa face anoitecida voltam os pássaros livres; voam num mundo pseudônimo em que tudo é longínquo... Casas frutíferas protegidas do vento e de mim – de meus talhos. Saudosa madeira que fui dia, afiada percepção do amanhã pela qual anoiteço a cara deixando meus pássaros regressarem.
Deixei a juventude num canto amassado de poesia. Página e verso abjetos na voz da sobrevivência. Uma responsável característica do ciclo, da fortaleza, do corte, do ir. Quebra. As Cores ou o Dia?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Quinto e último período (ou V ato)

Como definir a noção de ensino ou educação? Como investigar o ensino ou educação e como ocorre? O que é, afinal, educação? É ela de berço, da vida, das ruas, fármaco ou hormonal? Ensina uma história ou histórias diferentes? Haveria uma história de como se estabelecer a idade da Educação? Uma genealogia capaz de pôr as opções bipartidárias de questionamento e obediência numa construção variada? Seriam os fatos ostensivamente naturais da educação produzidos discursivamente por várias teorias científicas a serviço dos interesses políticos e sociais? Se o caráter imutável da escola é contestável, talvez o próprio construto chamado Educação seja tão culturalmente constituído como um “ensino”.
Na escola, professores e alunos são reforçados com uma série de situações relacionadas ao modo de vestir, ao modo de gesticular, ao modo de estudar, ao modo de ensinar, ao modo de entender o conteúdo, ao modo de comunicar, ao modo de referir-se através de contornos societários bem explícitos... A educação se indaga, mas sem querer, se reprime. Chega a esquecer de si, que sem educação, a democracia é uma palavra morta... As normas educacionais cada vez mais se intensificam; o grau de controle, talvez, seja mais para si e mais perspicaz...
O ensino político-disciplinador pode compreender a formação de seres, a definição e a função de cada profissional, e a territorialidade precisa da língua vernácula, da matemática, da ciência, da geografia, da história... Logo, a disciplina pode ser vista não somente como uma prática pessoal, mas como um regime político que assegura a relação estrutural da identidade educacional.
Reconhecemos a nós mesmos e aos outros. A alma humana é um abismo obscuro... Por mais que possamos nos despir de nossas vestes, jamais chegaremos à nossa nudez completa. Professores: estudantes sérios na classe da própria ilusão.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quarto Período (ou IV Ato)

      A serotonina e a dopamina são substâncias produzidas por todos os corpos. Suas quantidades podem ser modificadas por alimentação, tranqüilizantes, bebidas ou drogas. Após algum tempo de tratamento ou ingestão contínua é possível perceber o aumento da disposição no trabalho, raciocínio rápido e acúmulo de afazeres sem que isso cause desgaste físico e psíquico...
      E se eu tenho um giz? Sim, um giz à frente de todos. É um giz! Eu tenho conteúdo? No âmbito das características educacionais, eu tenho um articulador docente. E vocês nunca viram um giz falhando... Pois eu já vi lousas borradas de ensino! Nos cadernos que vocês escrevem, alunos, eu não posso calcular o tamanho do seu entendimento; e com as suas perguntas, eu não deduzo como são os seus ouvidos... Assim, por definição, eu não sei o que vocês são.
      Portanto, não são os cadernos, não é o livro didático... Seriam os neurotransmissores humorados e dispostos? Serotonina e dopamina. Ritalina... Se esse fosse o caso, poderíamos encontrar a educação em qualquer farmácia.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Terceiro Período (ou III Ato)

    O critério da educação prescrito pela nossa sociedade em seus códigos de leis e tradição é o critério da obediência. E esse critério é utilizado ao longo de séculos durante a história. Está intensamente introjetado em nossas veias e em nossa psique, que quando uma pessoa demonstra interesse pela aprendizagem do outro, afirma-se como certo que esta pessoa será um professor, uma professora.
    A educação é a nova religião da modernidade; e o sistema monetário também toma essa proporção, pois tem a capacidade de criar e descrever a realidade. O feito da tecno-educação contemporânea transforma a nossa ansiedade depressiva em Rivotril, a nossa impotência em estatutos sem deveres, a nossa paciência em café e a má-educação em Ritalina! Como saber se o nosso colega é um professor? Porque o vemos e o ouvimos gesticulando corpo e voz na sala de aula ao lado... Porque ele se mostra como professor... Porque ele se identifica como professor... Porque ele se comporta como um professor...
    Que seja possível, então, saber quem vem antes: se a ansiedade ou o Rivotril; se a falta de respeito ou a Ritalina; se o estatuto ou a impotência. Essa produção é própria da indústria legislativa e fármaco-educacional.
Professoras, professores! Alunos e alunas! Vocês estão preparados para a educação? Para a perversão? Para o suicídio? Será que vocês estão preparados? Vocês estão prontos? Vocês estão prontos para as anomalias educacionais? Será que você, aluno, está preparado?
    - O que garante que você será identificado como um professor?
    - Quem garante que você estará determinado a ser professor?
    - Para quem é importante que você continue sendo um professor?
    Caros alunos e colegas, vocês conhecem a história do professor Luis Carmo? O professor Luis Carmo, após passar vários momentos com seus alunos indisciplinados e de ficar à mercê da decisão da escola sobre a penitência dos alunos, ele foi obrigado a voltar para o seu trabalho sem que nada acontecesse aos estudantes denunciados... Descontente com a falta de poder no pleno exercício e condição docente, professor Luis sofreu um desgaste emocional e se matou.
    Lembro-me do caso do professor João Eurico, que para ganhar um salário pouquíssimo acima de mil (hum mil) reais para sustentar sua família, ele dedicava mais de sessenta horas semanais entre escolas públicas, particulares e cursinhos... Sem feriado, sem descanso, sem domingo, e depois de longos períodos de aula, aos (seus jovens) 45 anos, professor João sofreu um infarto fulminante e morreu...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Segundo Período (ou II Ato)

     Sempre fui criada para ser uma filha professora. Para o Poder: cuidado, veio outra professora! Sempre me trataram como professora. Eu podia fazer coisas que meus amigos e colegas não podiam fazer... Eu podia preferir Dias Gomes, Nelson Rodrigues e Agatha Christie às “fadas”, podia interagir com a crítica sem que me ordenassem para “não me intrometer”, podia mandar e desmandar, podia olhar firme, podia desafiar, podia ter coragem, podia ler Marx, podia ter giz e um mini quadro-verde como brinquedos... Meus amigos eram alunos; e eu, professora.
    Meu nome é Larissa e eu questiono a construção da identidade docente. Meu nome é Marcelo e eu questiono as classificações. Meu nome é Andréia e eu questiono a idealização do professor. O meu nome é João Eurico e eu questiono se para ter um salário quase digno, sou obrigado e ter mais de sessenta horas semanais de trabalho. O meu nome é Susana e eu questiono o alinhamento docente. Eu questiono os livros didáticos, a leitura obrigatória, a hiperatividade e a impunidade, o individual e o coletivo, a docência e a decência... E como ser um professor, o que me torna um professor? Meu nome é Paulo Freire e eu questiono a educação que você procura!... Eu questiono o projeto político-pedagógico, o porquê de meu aluno me chamar de “mãe”. Questiono a depressão e a depreciação, os brinquedos, a ludicidade da polêmica, o aluno e o professor, quem é ativo e quem é passivo, se mantenho na classe ou se encaminho à Direção, os procedimentos educacionais, a indústria farmacêutica. Questiono o senso-comum! Por que ensinar a nada? Questiono o pagamento do piso, questiono a repressão fardada e a autoridade que cabe ao docente, questiono quem educa quem... Questiono o teor educacional e seus quais-quais-quais... A ditadura sindical e governamental, a greve autoritária...

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Primeiro Período (ou I Ato)

Referências
Apropriações
Inspirações
Leituras
Releituras
Provocações

       Posso ser sincera com você? Posso ser sincero com você? Você usa sempre o mesmo argumento? Que tipo de professor você é? Quantas doses de ansiolítico você ingere por dia? E para ser um aluno, como se comportar? E para ser um professor, como se comportar? - Ai! – Se você estiver no meio? Se você se sentir no meio? E se for mãe? Se você for pai? Orientador? Gostosa? Se for turista? Intelectual? DIRETORA! Se for Wikipédia?... E se você não se encaixa em nenhuma das alternativas? E se você quiser todas as alternativas? – Professores, professoras e suas variações docentes – bem-vindos à perpétua zona de investigação!
     Escolha um aluno e guie-o através dos cálculos e processos químicos. As atividades com ele serão exaustivamente freqüentes e formuladas e, futuramente, ele será chamado de “doutor”... Escolha o mesmo aluno e guie-o através de pensamentos e regras sintáticas; veja o que acontece: as atividades regadas à leitura e debates o encaminharão para ser chamado pela primeira ou pela última sílaba da sua profissão... Já decidiu o que seu aluno vai ser? – Um professor! – Ótimo! Agora ele aprenderá tudo sobre didática, PCNs, Lei de Diretrizes e Bases e vai notar estornos todo mês em seu contracheque.
    Sempre aprendi que para ser professor é preciso passar horas em pé, ser firme, (não pode adoecer!), vestir-se adequadamente sem demarcar a silhueta, ter voz alta e projetada, ouvir psicologicamente, ser ágil para atender mais de duas turmas ao mesmo tempo, gostar de greve e, de preferência, ser simpatizante de esquerda... É preciso passar horas em pé, ser firme – NÃO pode adoecer, ágil para atender (CRIATIVO!) mais de duas turmas ao mesmo tempo, (PROFESSOR!), ouvir psicologicamente (GREVISTA!), vestir-se adequadamente (TIO, TIA!) sem demarcar a silhueta, (CAXIAS!) ter voz alta e projetada (FURA-GREVE), ser forte (CHATO!), gostar de greve (PROFESSOR LINGÜIÇA!) e, de preferência, (ORIENTADOR! DOCENTE!) ser simpatizante de esquerda... É preciso passar horas em pé, ser firme, não adoecer...
    O que minha pele diz a respeito do que ensino?

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Que seja tudo!

 

Repouso sobre o pensamento em ti as palavras cansadas de minha devoção. Devasto o caminho montando-o conforme as retas abstratas e obstruídas das pedras. Aqui, encontro com o meu pensamento em ti a afinação da consciência e da aflição num passo valsado – puramente à sua queda.
A plenitude do livre-arbítrio decide e erra na sua própria dureza. Cada um sem direito à culpa, visto que, para si, a culpa no outro é um alívio da fraqueza... É a areia identificada, profunda de caminhos e de leve direção. Questão verdadeira de onde a terra se inicia mar e por onde deito fora de mim e, sem perigo, talvez, me cubra o justo céu de Camões...
Quão furiosos são os rasgos de teus lábios afiados em meu peito! Encontrado o bem na escolha irreal a mirar, para que serve o prato do conselho? A sombra digerida pela luz, expelida em surpresa, às vezes, já rotineira, se torna ação experiente delirante conjugada entre eu, ele e nós – graça escurecida numa fotografia.
O costume é só.  Só peixes em cardume na mesma direção sem olharem-se nos olhos, sem noção distante a enfrentar. Apenas o corpo enleva a precisão do que é, do que tarda. Deixo-o cair e passar pelo pensamento em ti de letras infindas arenosas...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Rodopio no escuro

Tentar é passado e o que cresceu já é! Acontece no fechar dos olhos do tempo: existo em qualquer verdade, mas também quando me oculto na brecha d’um quarto com sua porta entreaberta definindo verticalmente a forma da luz... Aparecemos quando as roupas não são acessórios da confiança, logo que o medo, a vergonha e o fingimento se curam de desejo num resto de tempo em que nos perdíamos no labirinto da hipocrisia.
A contínua vida da morte é absurda se não nascer. Se nos pulsamos ritmados ao desejo, o que fará o Mundo do meu desejo? Deste, eu cuido e toco como se o construísse de coluna, cabeça e coração...
Maquilo o próprio peito com as cores atávicas do bem e – sobre as feridas qu’inda deixam esvair o ai abafado – meu comportamento nunca desnudou as pernas da dor, nem a correnteza do rio..., mas experimenta chacoalhar o conjunto de ossos por aí... Por um pedaço de terra corrida, por um pedaço de felicidade...
Um pedaço sem seres. A pessoa é a única imaginação no vácuo do infinito. Pressiono o desejo e comando o destino no vazio d’um mundo pleno de suas tragédias errôneas. Destino que se distancia dos tolos e daqueles que habitavam os estúpidos convívios do enquanto...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Seda serôdia

Imagem: Larissa Pujol

Místico espanto – és tu, dança dos ossos, recordando o sorriso mais belo da infidelidade da carne. Na escada domada, a madeira escura de apoio desaba sobre um caminho repleto de pedras tristes...
Acreditar que possamos ver, e cá penso que de mim surgiste durante a noite, quand’aurora parece para sempre perdida, ordenando as estrelas no teu IV ato trágico... Passo o que não dura contigo enquanto a alma e o mar enxergam a montanha que se eleva; agora, pelo vão profundo do desejo, a fonte de perdão escorre álgida ou ardente. Lembro-me de ti.
Partilhemos este caminho pedindo ao coração, ora frágil, um par de asas a estes nossos pés de barro. O mundo, sozinho, sopra vida dentro deste coração!, mas quando o véu mortal do medo, cosidas a fio da esperança destroçada e bordadas de lágrimas, erguer-se, revelará a face dos cuidados terrenos.
Ao parecer sem fim, ao padecer no fim, o espírito solto caminha sobre o mar com amor à noite... Foi-se nas cinzas o prenúncio do resto... Deixemos para as flores o próprio alimento doentio que adorna...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Pastoral

Levá-lo-ia através das vozes, dos trovões, do olhar imóvel... Da alegria inquieta tida, por ventura, na passagem do afago silencioso que interrompe o tempo... O ar, este instinto emocional do retorno, sente-o renovado em mim – um toque da palavra viva do vento – por mais infindo que se espera.
Pela água-cor dos seus olhos, enfim, miraria a face do Eterno e conversaria... Vivendo! A cruz nua de seu corpo sob o meu teto encadeia o vínculo com as partes do Todo Universal num retrato único entre os lábios, portas e mãos dadas para um céu qualquer sagrar...
Não repare este meu suspiro longo, que, com ensejo, a morte confia. Demore, que eu conto com as mãos para tocar naquele firmamento e estremecer, retirando-as imediatamente ao sentir que se trata d’um corpo. Beijava seus olhos e, no conjunto de sua face e boca, eu adivinhava suas vértebras e tecidos com o mesmo afeto que meu cabelo o guiaria para baixo da cintura... Não sei como chamá-lo, mas exclamo aflita, “Meu amor!”.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

As frases do corpo

Recolhe na tua expressão jovem a dita desamparada de receio. No seio da imortalidade ondulam desvios e subidas, arfam o silencio e a vingança, o perdão e a nostalgia num risco de tempo.
Estações partidas de trens em folhas; florescem n’outro canto onde a despedida se esquece e o frio não é suspiro da morte – eis o que me perguntaste sobre o medo – um apego sereno? A casa com suas luzes diminuídas brinca de sombras rascunhadas em teu semblante taciturno... Ah, diz ao teu próprio vilão que aquela história é a coragem de teus dias antes da ida.
Junto ao pó antes balançou a criança e a procriação. A lã costurada à medida bela do tempo se rasga no ágil e complacente final. Passou um traço sobre a sublime fronteira... Ouve, então, por quanta chuva pouco se foi...
Os olhos se fecham, juram afeto, mas também, cinzas; e cinza é a cor de manhã... Observaram-se por tudo quanto ainda há tempo e vontade, o anseio de agonia.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Entre nus

Repousa sobre o peito a textura calma e bela, mas retirada da vida para objeto a pedir proteção... À mesma altura do imo, ela deferiu-se nas camadas além do seu próprio beijo – seco escorre também a lágrima d’algum poder.
Palpitação nua, de tentáculos segundos que se agarram à frágil exalante figura mortuária e amorosa. Seu nome, curto remorso perante o corpo trêmulo, pronuncio com suavidade plena... Foi-se o rosto n’outro na estiagem! Abre a pele d’alma conforme a cumplicidade do sentimento...
Escrava bondade recolhida entre os nus desvios da incessante busca. Não mais permaneceu ali, pétala rolada ao começo de tudo, do som, da pergunta, do verbo. Retorna, pois, os passos únicos no meio da multidão – e só os seus para mim!
Perderam-se as texturas, poros entre povos, vida entre morte, como todas as vezes que respiramos...  Repousando em meu peito, disse-me a flor: acolho na descida, cubro a partida – é o que minha face avisa; e no romantismo do vento, abrevio.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Beat

Vivi ao longe, no olhar do esquivo, a turva esquina que nascera. Ato pelo qual mirou-se o semblante inócuo da persistência. Ei, sua cara! Na cara d’outro que você sequer me pensa!
Caminho entre seus olhares – coloridos, escusos, dispersos, alegres – para todas as dúvidas nas faces desconhecidas que o conheço desde as poucas horas e pessoas passadas... Desejo o início na despedida cálida entre mãos e escuridão, esta, por sua vez, mendicante beleza das sedas vestindo o chão. 
Claridade verde e profunda imensidão aquosa que em você desabo... Ainda mais eu mergulho no revoltoso transbordar de um rio latente entre as pernas. Um rosto de margem para a terra batida (e se foi... de velho). Ou morreu de falta? A coragem salta com o seu feitio austero – você me disse... E o risco assinou este cristal que a tudo observa em seus lados. Permaneci ao longe, no olhar do encontro, pelo dia que crescera...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

No vidro

Imagem: Larissa Pujol
 
Seu brilho, minha espada – o mar que pulsa a cor no emaranhado valente avança por sobre o bailado da sorte... Detalhes nos grãos de pele ao pó, e assim sacodem as sombras.
Um chamado vocifera a voz; por onde ela ocorre? Apenas sou todo lábio, único nu ao vento – desalento – que se introduz e foge deixando vida... Argento partir de minha ferida, fecho o peito em sua imagem, bem se faz homenagem a luz que o guia.
A tempestuosa tarde espera... Dentro, aqui, um resquício gotejante entre a janela e minha face – só – o porquê de a chuva ter sua resposta prisioneira... E minha busca vocifera: pressenti-o pela nuvem aquecida ao longe... Percebi sua chegada, que, embora perdida, se acostumava ao céu.
É-me natural acertar a pergunta... Caso o corpo se perca, a certeza movê-lo-á no olvido das cicatrizes de mãos alheias. Cometêramos respostas um dia, de ida...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O espaço da pedra

 
Num curto espaço, o abraço é o nosso tempo eterno – como a busca do dia futuro – velha nos parece a criança curiosa de corpo... Há lágrimas que os lábios beijam; saudade é criança e somos o seu responsável pecado.
Diga-me, hoje, que as horas o fazem sorrir; e se elas, na lembrança, mascarar-se-ão de sempre... A sempre pergunta que de muita ordem a possuímos. Dever na dúvida de continuar, mesmo que o tempo do sempre acolha-nos num abraço. Se persistir, compensar-nos-á a culpa: num dedo, num mundo, num sempre rotineiro.
Futuro, hoje? Decidiremos. Ao plano do passado esticaremos o quando patético da falácia para iludir o ócio que cai do céu... O quando do assim é. Respostas em curto prazo para nosso acúmulo de amanhã. Preparado? Vá. O para sempre é uma pedra!
Nosso carinho, nenhum espaço entre o abraço! Espetáculo em incontáveis atos pulsados e de intervalos mirados um n’outro... Obtemos o sempre que volta feliz, mas partirá entregando-nos a missão... Feliz regressará num agora que lembramos. Persegue o bem a falta sentida. Omitir-se deixa de sê-la – sempre, quem amará? Num breve espaço nos permitimos, então, levar pelo suspiro eterno... De pouco a pouco, o fardo é denso...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Coturnos

Imagem: Larissa Pujol

Coturno que afofa a terra
Tiro que fura a nuvem
Guardiões de verde
Bandidos na chuva

Piso forte
Tiro ou morte
Suicídio dos guardiões 
Homicídio dos ladrões

Um pé, dois pés
Braços estendidos
Epopéia ao revés
Anti-heróis armados
Guardiões vassalos
Novo tiro...

Coturno de sola gasta
Um, dois, mil pés
Braços curvados
Arma sem bala
Tiro de saliva
Projétil de sangue
Guardiões suicidas

Ratos da sanga
Profanas tumbas
Cantemos Chico!
Coturnos abertos
Pés roídos
Terra afofada pelas solas
Carcaças afofadas de tiros

Mil pés...
Afofando a terra marrom
Várias carcaças na chuva
De olhos abertos
De peito furado
Guardiões suicidas
Leis homicidas...

(Poema publicado no livro Versos Transeuntes Verbos Ausentes, 2010)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Alva labareda


Imagem: Larissa Pujol.

Um pingo quente desafia a nebulosa e cerrada manhã. Despejara-se durante a madrugada gotejando encanto deste sonho álgido. Lânguido prazer escurecido pela mão mestre das sombras pelas quais a Vida assina a página.
Pelo rosto do infinito, a bela fulgura dourada olha o pudor do mundo. Ali fica o menino com seus pés parados, mas levados pelo tempo - num dia apenas - d’um mundo corrido às tontas.
Balançam os galhos sorrindo céu! Quais palavras cantam o vôo? O dom, a senha, o suspiro – suporte de giro nas entranhas sucumbidas de sangue, morte e alimento. Soubera o amor que o passe bailado riscou seu peso num fundo expirado qu’inda flameja esquecimento...
A verdade assim parte sem que o mundo perceba. E o herói, com sua capa desenhada, berça-nos em sua dissimulada paz do sempre... Idolatremos o nada escondido para onde vai! O labirinto já em nós se perde, e os passos indiferentes continuam carregados pela normalidade do mundo. Ali, menino, sua célebre visão se acomoda; para lá, a sua celeuma se desprende; mas, aqui, o cerne estático admira aquele ponto chamejante contra o próprio dia... Branca e gélida pintura cadavérica – desafiaremos, nós, a eternidade.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Diálogo do Tempo

O Tempo por não ter tempo de pensar no Tempo, perguntou para o Tempo:
– Quanto tempo tem o Tempo?
E o Tempo por ter tempo de pensar no Tempo, respondeu para o Tempo:
– Tempo tem sempre tempo!

(Publicado n'O beijo da boca-do-céu, 2012)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Balada na planta

Celebrando a própria obra, lá se arrasta o dia... Tal como a avenida que entre fumaças ora fica dorsal, ora se insinua – sinuosa – de muitos segredos e, logo, pode ser uma batida... Ou espera na esquina?
Acontece à corrente e ao cadeado: gira a chave na tranca e na liberdade. O peso de ambos causa barulho! Feitos de amor, um para o outro na mesma redoma de lençóis pincelados de vermelho rompido... Ah, estão nos corações das bonecas as flores conotadas de suas faces metafóricas... A brincadeira da desaforada pétala caída! ... Carregada por toda a suntuosidade da beleza partida.
Não há verso sem sua regra de formas perfeitas. Tampouco sua paz e seu amor são compostos por educadas palavras... Por que a brevidade restrita, se as notas deste bloco se referem aos acordes e ao perfume? O sinônimo, aqui, é um mero detalhe. O sentimento nos devolve ao mundo em formas expressivas de vida. Mistério saber para que lado cair... Para todos os lados, voar é o dito da sorte... Ou a festejamos, ou ela nos festeja... A dureza do solo feita de obras ruídas nossas. Apenas o caminho...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Le jeu de (homme) société

Rolar os dados, dar a partida. Sou a peça de casa a casa! Movida à mão, avanço ou retrocedo neste labirinto circunstante... Ponho-me na tua vez, talvez sem ganho, porém sem engano, por toda a mesa da estratégia. Andei pelos motivos de alegria, algum dia pulei para te esquivar da solidão, embora desconfies.
Não é momento de voltar, deixa o outro pensar em tua derrota. Os números são dados de rotina, apenas estes se concedem os zeros, perdoam e se fingem de mortos. Quase me jogaste, ora, no castigo do tempo... Casa a casa, não sou a dona, mas a janela! Blefe das horas, pontos... de estrelas.
Acaba-te por vencer a nudez de tua jogada... A subliminar tentativa do que tudo é ganho, observa-se. O risco na conta dos valores. Pediste, abre o tabuleiro! – Abrindo-me em pinos, dados e labirintos... E mensagens de mãos em mãos, de casa a casa, para ataque ou desprezo... Chances de fé.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Banquete

Ansiamos pela voz dos amigos: cá entre nós há voluntário? Os braços são pontes frágeis se não treinados com inclinação! “Piedade” pede o pastor, mas o Supremo nos concedeu o Direito...
Algum perdido, de berço em berço a colecionar mães, se prende no abandono para se desculpar... Caíram as paredes da fuga, meu caro, num coração partido! Aprenda que verdadeiros heróis voam em pensamento; nunca morrem ao tropeçar nas nuvens. Espatifam ilusão d’um corpo com muitas saídas.
Passam as águas e nenhuma carrega o mundo... Pelas margens perambula a louca verdade assistindo à direção da corrente. Deu-lhe as costas, observou-se num ponto de límpida calmaria – e era dia de sol! – e a sua mentira foi a cara mais linda que lá refletiu...
Juntos, renovamos a posse! Assim julga a batida mole d’água em todos nós, pedras duras, às duras penas movidas e rompidas pelo tempo. No entanto, somos de qualquer carência os melhores amigos... Acima de qualquer suspeita, a neblina que se despede do filho. Deveria, pois, anunciar sua chegada! Surpresa? Os anjos carregam raios...

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Para a guerra sarar

A luta tem cerne doente! Tem ânsia de volta; à nossa casa retorna o punho fechado da revolta. O espelho não tem classe, não mede o conforto do lado contrário e tampouco pede calma frente à própria cara.
Vivamos um pouco de tudo isso, digo que me poupo da face hipócrita após o beijo... Ainda escolho. Vivamos um pouco toda doença! Este consciente outro sedutor social... Recolhida nos braços, a criança observa o (seu) porquê desprotegido num tempo quebradiço e adiantado de futuro; a vida da morte num epitáfio abençoado.
Não há dor sofrível perante a esperança do paraíso – qualquer corte é anestesia num já fragmentado corpo de mágoa. Apagado o dia como a vida horária da borboleta – o vôo detrás do arbusto avança sua ida... No horizonte a mesma linha pintada à negra e espessa sombra está em meus olhos.
Esgotaram-se suas vinganças e as honras entregues àqueles que melhor poderiam enfrentá-lo. As faces seguem inteiras, percebidas e despedidas conforme a sobrevivência. Comprando o limite de dias melhores, o homem se enquadra na fotografia... De corpo inteiro, picou o próprio papel.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Luz e meio

Imagem: Larissa Pujol

O tempo colidiu em mim, neste corpo que é notícia. Uniforme apenas a distração na mirada ampla aos fragmentos. E lá no alto, bem próximo de todos, tal encostou a sombra na lua me permitindo o detalhe nesta imensidão de vida a que tenho direito...
A luz disparou e dispersou-se por todos os olhares do mundo. Bem distribuída, assim, para que nos certifiquemos do seu assíduo cuidado... Alados, os ventos encontram suas almas; eis meu colo de Terra a servir pessoas sonhadas. Repousa com gesto frágil neste arco luminoso que propõe o tempo em transe.
Sentido o amor, o pulso quisera o cheiro disposto n’alva pele nua – evaporou carregado pelo vento d’um norte qualquer... Por amargura, bastam as vivas carnes nele apegadas. Velhas mãos hoje a apoiar n’algum cômodo a incômoda paciência. Dor pela dor, a coluna agora ereta... Desmanchou-se a cor neste chão (de luz) – logo o Alto me provém mais uma fase... Plantas tosadas à míngua adornam o côncavo acalanto...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A particular afirmativa

Silêncio... Eis a solução às suas polêmicas! Não há vida que se compadeça das respostas miúdas – desta, somente a morte parte a sua definição. Se adiantar, ao certo, a disposta ironia da fluente ignorância, assim, ignorada à guisa da compreensão calada, pagaremos tributos ao respeito...
A redoma ameaça tem o mesmo ataque, a pacífica preocupação. Não obstante, a diluída análise do óbvio e normal faz a vez oculta do pesadelo. Avista o baixo entre os olhos, logo, à marteladas a cabeça do prego é fixa nesta fileira... Acaba por ser alheio o sufoco – e a sua escravidão.
Deixa-se, então, o deleito que nos assiste, e nós ao outro deleito, persuadir através do tenro afago. Repousará, talvez, o favorecimento próprio no meio paupérrimo e limitado d’outro. A razão inverteu a extensão! Embora universal, quantas migalhas valem a idéia de ser?! A implicância humana com numerosos elementos, ali fora, aplicando a si senão uma parte dos seres para restringir-se...
Compreensível representação superior na diversa espécie. Esta, toda a idéia que contém indivíduos! Do ponto de vista perfeito é oriunda a adequação do objeto na certeza do espírito... Disse o que é com regras de exceção... O ato confirma, portanto, alguma coisa d’outra – a cópula julgada decompõe, nesta proposição, o atributo.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pesqueiro

Não comete pecado esta sombra do mal sobre os nós cegos da rede. A pesca seguiu a vez do mar, ladrão de tudo, como se vivesse num rumo, apenas.
Saudável a fome da união que absorve os receios no abraço... Pouco pode-se crer, no entanto a novidade descrita nas costas, e que talvez a outrem lhe denuncie, aniquila o possível equivoco em seu apreço. Contornam-nos assim os marulhos anelados de correntes e correntezas. Borbulhou a viva-água anunciando a infinita rota de fuga... Atraiu sem que soubéssemos... A sombra, para o mau-dizer do pescador, acolheu no profundo paraíso negro os pequenos, grandes e rápidos desvios do seu dia. – Gigante começo é o Sol! – Deu-se conta.
O que importa? O suor escorre com seu fim semelhante ao nosso... O cair da desesperança abatido pela fortaleza qualquer é. N’algum outono próximo, a lua deixar-se-á marcar...
Ao lado, o balanço apático da velha guarida. Sente nesta a sua confidente ao fitá-la de horizonte a horizonte... A sua madeira fosca tinha a face de mãe! E ela se olhava sobre a água invadida permitindo o pescador de se tornar natureza... Atirou-se, borbulhou nu e voltou envolvido de corais e por alguns pares de braços... Outra madeira-mãe o seu descanso acolheu, naturalmente.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ponto desvio

A questão que eleva seus olhos à minha face, querido, mais protege a conforme sina deste dia. Um jeito propício a emular as alheias caras deixadas para depois, num encontro tropeçado do cotidiano, ou na contagem que nos deve a paciência.
Uníssonas expressões comentadas nas ruas, oxalá chegue o ouvido para desviá-las pelas esquinas que ora esperam, ora esquecem... Agora, elas narram de mãos dadas a calmaria d’um vermelho ponto lá no alto... Na travessia, só o trecho lhe é contado, querido. Então, leia-me, você, na pressa que o puxo, como se fossemos para a cama num dia de sábado... Não se equivoque! Embora a entrega dos pontos descosture um vestido e nos aquiete o argumento, vírgulas pouco sabem quando e como continuarão... Um fim d’outro indaga no ninho braçal a certeza daquele meio carregado de cerne doce e vivido...
Que se adie a parcimônia entre o seu sonho de Septimus e o extremo delineado apego em minhas mãos... O Letes não corre como nós, querido, portanto a passagem não se pintará neste quadro. Talvez, como tal esquecido, atravesse e se despeça da sobrevivência que consumimos. Parece-lhe difícil acudir o amanhã num ontem em eclipse. Sopram assim o vento e o assobio: escute ou leve conforme o trajeto...

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Carregou o caminho...

...Preparou conjunto por dia, dia por frio, frio (ou não) por calor, calada, assim como a bagagem que sustenta suas metades têxteis em (para) cada membro oco e suspenso que reste... Enumerada, assim como as horas que espreitam o crepúsculo... Adiantada, assim como as metáforas entre o corpo e o pensamento... Amassada, assim como ama!
O olor, de costume, já se desprende antes da inexorável despedida, surpreendendo até este Sol que, míope recente, alumia próximo a si as barras sombrias pelas quais se guia a caminhada. Tal cidade na cama asfaltada roda a rotina – parece nunca finda – assim, quanto mais, quanto nela, amassada!, mais filhos se criam...
Desliza em seu colo a prática cinta concluída em valores, diluída em notas pagas ou cantaroladas num fundo ritmo de passos e desvios. Cedida a permissão seleta e expressiva deste começo, as nuvens do seu cigarro invadem o pensamento escuso n’algum pedido ao Eterno: a filha O avistou nas juras de amor, no entanto o rio se parte desencontrando-se em duas lágrimas...
Finalmente fragmenta-se Ela nas cenas onipresentes daqueles que a vêem. Se caírem aos seus pés, assumirão a Sua vontade de levá-los onde quiser... A compleição, forte aliada, também adiciona um sorriso cúmplice que creditará ao outro o retorno... Faz tempo.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Codinome Realidade

Questiona, a jovenzinha, sobre o fato de sonhar... Motivo para apalpar a atmosfera invisível arriscando macular as asas na moldura de dimensões incertas em sua total conseqüência...
Cabelos virgens ao ponto de as madeixas guardarem sob elas os lábios pequenos e parte da fina pele mimada pela mãe. Um ouro não a aconselha, apenas oferece sol ao beijo. Tal paz, de complexa sobrevivência, pressente o rigor do dia e diz para o abraço distante que a noite carregará o fardo pensamento...
Aprazer-se-á em seu colo a filha de pano, maleável e de obediente sorriso mesmo quando esquecida na idade. Estas pernas têxteis andam, hoje, por suas mãos cheias de feminino, que apalpam novamente a dimensão do ar, desafiam a densa água e arriscam a força. Certa a abertura alada da pergunta, confirma-se a diferente estada daqui a pouco – aquele degrau desaba, mas o outro por construir suportará seus saltitantes impulsos (curiosos).
O significado da senha destina o caminho da jovenzinha. Embora em minúsculo adjetivo, ela consegue descobrir ninhos enquanto o alimento da vontade lhe provém o saber; talvez, agora, se aponte a resposta.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Parêntese (da visão)

Listam-se as memórias neste parêntese de visão; o que me conta, pouco enfadou seus grandes círculos curiosos. Entre os dedos a luz esverdeada d’uma planta crescente sob infinitos céus nebulosos da íris. Cantarolam ao redor de tua face as cores da cultura, esta, de homem a macho, esfriando os cálculos do teu sorriso – em teus lábios de filha a carne não sorve o alimento, mas beijam oferecendo-o.
Quão doce é a canela de tua tez; miramo-la saboreando os mistérios que escorrem n’algumas gotas suadas de brincadeira... Ah, pele minúscula, de moles músculos a adiantarem sua idade escusa! O hábito rodopia com tuas vestes e parece escapar-se dentro dos passes obrigatórios – presume o dito libertário o final da melodia; caso te diga fuga, repete-te a paixão do novo...
A mãe, cujo caminho se confirma nos traços da cara, amplifica seus cuidados ao horizonte alcançando a tua liberdade, onde estejas... O que lhe compensa é a despedida, pois esta carrega em si o balanço positivo da cabeça, tal crença na guarida d’um abraço posto em prática. Esse tempo teu provoca a corrida da Terra, a lentidão da derrota, o encontro dos genes... Tudo neste parêntese de visão que avistou a própria natureza te aniquilando anos de erros... Para o tropeço igualado à conquista, a intenção mal sobrevive com justo preço, filha...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Do sujeito

O predicado por vezes envaidece a simulada incapacidade. Um elogio adianta ao cúmulo esperto a decisiva cara mostrada. Não se compadece a criação maquilada de tais coleções intituladas sapientes. Carece de luta, meu caro, e de sinceridade.
As flechas de concessão atravessam o mural que estima a tua tolice! Cabeça por cabeça, os pareceres não se fazem felizes, tampouco te mencionam – desejam viver. Traidor de si, o talho adula a suavidade da pele espalhada na correnteza – elo por elo, o vermelho círculo aproveita o terreno.
Acata, pois, esta voz que ora aterra, ora alegra, ora um pouco mais te domina. Realmente ela se define em pontos remendados de palavras... Espera-as (todas) sem receio, pois os males são teus, e bem fingidos compreendem a possível confusão da verdade...
Expectativas em tão pouca experiência, ainda que persista a imitação do otimismo, não importa, dizem respeito à união das lágrimas! Compreensão dos valores, quiçá não conhecidos, um a sua vez, a colecionar universos. O natural chega ao seu fundamento isolado.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Casual

Vislumbra a preocupada dita em curva perfeita de mudança. O corpo, objeto condutor das decisões, acalentara-se no âmago dos rumos concretos – e precisos – para solidão. A composta letra gestual do teu silêncio, de minha casa, furta a lida que muito lhe acalca a permanência sobrevivente verbaliza o imo, segundo o nosso pudor.
Há etapas em teu pedido cuja solução não se adapta entre os lábios. A cor sóbria dos olhos amedrontados me esclarece a contemplada perseverança.
O ganho soube sair com despedida, caindo rosas. A cara dura esculpida pela pesagem d’um tempo, deveras, para se lembrar... Algum carinho no assovio daquele canário? Seu mundo preso de ar e vida, esta assassina da saudade na próxima estação. Lá, as palavras se conformam; ao nosso redor, apenas a calma se difere com o pensamento. Memória: um caso singelo e acomodado nas expirais...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Préface-in-scène

Projeção de indivíduo: posso ser o dúbio rosto na medida em que me conserva. Um solo reflexo de azulejos corrompidos de inverno; a luta liquida da nebulosidade...
Cometeu ressurgindo o conflito, este aparato de expressão – ouviu, sem tédio preciso, a sua elegia aforada de adeus – um bem alter à subversão que resmunga sem pudor a própria vida. Os olhos da coruja fitam as mazelas provocantes do risco nos túneis ocultos da lua; e bem vindo o seu dia acinzentado de luz, te permitindo sair sem ser pela fome d’outro.
Lar d’ira – um mito às pressas da descoberta – aprecia cômoda e passadamente o traço preciso dos quadriláteros do piso. As ondulantes descidas, amparadas pela brisa que as abre, sustentam a soma do corpo acolhido em sua introspectiva decisão. Visou ao mundo o prodígio mistério do pensamento... Com voltas no tempo, o olor acompanha, afinal, as vontades que nos oferecem as mãos – apego às circunstâncias hábeis de prospecto, acariciadas na destreza de não ser pessoa, mas idéia.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Paralelo suntuoso

De qual oco vão nasce esse céu calmo na turbulência de um medo infantil? Suas sóbrias cores, cores do infinito, atraídas de visão pujante e ideal, estampam a fácil opção taciturna.
As estações elaboram a arte do firmamento; eis o grafite que te escreve com fardo relampejo. Teu personagem renuncia ao próprio divino para, enfim, ser pessoa – o limite precavido da distância que se anuncia a cada nascimento. A face suprema há sido o disfarce das dores alheias, semeou expressões à troca lunar e cresceu teus caules acima d’álgida cobertura... Assim carrega o elevado, em seu inverso caminho, a certeza e a prova da escolha – fim sem clareza e de afável percepção – sonhaste-o tu?
Dos olhos se natura o alto, verdadeiramente cristalizado em quedas impressionantes... A mais bela luz também se abre em tua cara com fome, ainda que com o mesmo pecado atravessado no mergulho do mar. Mais um oco vão ecoando a pergunta d’um findo ser...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Camadas


Derrete-se o corpo, com o seu cansaço infame, sobre a lealdade fugaz da evasão... Triste colapso tênue desse dia vivido à custa da nítida cor estampada, corrida estranha no rolar das bolas guache...
Mente, mostra suas vergonhas, assim como as entranhas parem pureza – se bandido ou santo, virginal não se conclui. Entre os pelos, há algo de toque? Fogo, talvez, carbonizando saudade! O suor pede distância. Solta-se cômodo e feliz atleta... Ah, um experiente mergulhador (de) solo. Ida...
Órgãos vitais em pleuras sufocantes acompanham o rodopiar da enorme traquéia a soluçar pecados. Por isso se resgata. – O anjo afirma vivendo. “Por isso me dispo.” – Disse Drummond, deitado em minha cama e tirando os óculos.
- O beijo ama e espera. Cai o véu entardecido; amanhã, a busca segue até a hora vermelha. – Ordenou a noiva orfística...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O eco, o vento, o retorno

Imagem: Larissa Pujol
Cai o pano branco amontoado sobre a madeira escorregadia. Solidária corrente de pingos também se alastra pela ladeira compensada de afagos indeléveis...
Acredita-se que o cortejo seja recebido com o aplauso da ventania; ah, o abraço nunca esperado ali pronto a tornar nossa face... A conta não se compadece! Assim resta cavar a mais profunda mágoa que entesoura o silêncio...
A dor, incorrigível, ora aquece o alvo tecido pequeno, ora congela a saudade – aquele ontem não cuidado, aquele hoje afastado de amor... Os cabelos longos estiraram-se na madeira com sua mania de despedida. As respirações rodeiam o sono naquele interior imóvel. Não nos vê!
Caminho que caleja a perda... Sobre ele a alça, o lenço, o Sol e a esperança d’outro dia. Os olhos além de quem vive atravessa o céu encontrando a dimensão bela da alegria ceifada aqui, mas eternizada em benção...
Uma lufa carrega balões de presente...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Grunge

Acostumava a boa idéia com jogos e traquinagens, um gosto saudável de moleque... Sorri à pintura, mas derrete as minhas tintas nas paisagens que queira construir entre árvores, pernas, preto e branco...
Versava conversava a arguta sugestão de moleque colocando a sua habilidade ventríloqua no escorrer dos dedos pelas costas... Imitava a crença e em seu colo adormecia a boneca com mimos de proteção... Consolidada a maquilagem para o efeito, contenhamos a persuasiva comodidade da ilusão – este, por fim, abraço vivo da juventude até que a cara caia!
A resistência de sentimentos consentiu a bárbara aparição dos escrúpulos; somos a beleza do adeus, corrigida conformidade vivida. Obedece ao crivo solitário a nossa lisura aproveitada de corpo... Sem beijo recorrente, a estória participou seu fim deitando-se entre nós como criança medrosa... Pesadelo também é sonho, monstros são revestidos de pele, e amamos com o dever da culpa! Desperte com cuidado...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Surtida

Para corrigir a certeza, indago à parábola, que a visita moral representa, o lugar escuso por onde inspirou, com tropeços, o seu monólogo. Ao caso, somente a calada sôfrega consegue competir com o derrame elegíaco à conquista da máscara.
Sorriu-me com paulatina aridez aquela senhora... Revelava-se dela a trânsfuga emoção modelada às formas obstantes de liberdade. Da prudência criara-se a hipocrisia, esta já anosa boa feitora de lisonja... – Se gostas, então sonha! Se aceitas, então empenha-te! – Alertou aquela senhora, ali, que estira suas pernas diabéticas sobre todo o chão alcançável...
Fino trato de obediência crescida à exterior igualdade, e caso descubram a recíproca passagem secreta, somos minoria guardada! Peças reunidas de favores, observadas pela constante visão eterna e única... – Sentes medo? – Protegeu-me com palavras. – Medo: o porquê obscuro de si mesmo, porém sustentado por carência! A certeza não é solícita, mas ratifico a existência da palavra certa quando o resto escasseia... – Digo a esta senhora diabética sem pretender o final...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

À flor do lábio...

Nosso beijo chegou ao fim de sua validade. Sem ser pelas mordidas, mas pelo mal que almeja esta minha plausível despida...
Ouça a rapidez com que o som do piano sobe as montanhas... Evado-me (junto) pelas notas a escalada d’algum rochoso deleito. Flores m’alimentam – basta me descobrirem entre as pernas – com perfeito afago disposto... Apenas encostam...
Carrega-me o olor em seu conjunto de anjos – ao esquecimento, o sangue; ao vôo, a palavra! A fraqueza abandona e sabemos o seu disfarce... Entrelace suas mãos em meus pés atraindo minh’alma a terra suave, tanto sua, encontro-me na palma - convence-se você.
A cada corrida desta vida amada, as pessoas que percorreram pistas venturosas nos bramidos do beijo. Acumulou-se a saudade (sentida novamente) ao vê-lo... Por camadas e camadas obtive a declaração crida de posse – “amo-te”.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Arroio

A singela brincadeira causou comoção familiar: o filho e a filha, que logo estarão mortos, correm pelos trigais lançando mão de suas sementes a cada ventre terreno pisoteado. Se aqui nasce, ali falece para ali nascer e aqui morrer – Circular mentira tua, morte! – Descobriu a filha aproveitando a empatia que o substantivo feminino causaria entre ambas... Detalhes sórdidos que antecipam o pútrido, mas ideal faminto de nascimento... Resumiu, uma delas, sem perícia, e com fiel elocução confessional, a cadência de suas venturas... Tal Iara emerge ao comando da morte, prende o almejo oculto de quem se entrega – justamente a esta lealdade secreta e guarida das vontades trazemos amor... – e alivia em seu outro berço-mundo o cansaço de vida...
O filho lá se encontra coberto pelo manto incolor e frio na leva das dores... Aqueles trigais receberam a fonte de filho e filha em pedaços... O alimento assim se jogou ao vento combinando o despejo fecundo nesta lavoura.