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Paralelo suntuoso

De qual oco vão nasce esse céu calmo na turbulência de um medo infantil? Suas sóbrias cores, cores do infinito, atraídas de visão pujante e ideal, estampam a fácil opção taciturna.
As estações elaboram a arte do firmamento; eis o grafite que te escreve com fardo relampejo. Teu personagem renuncia ao próprio divino para, enfim, ser pessoa – o limite precavido da distância que se anuncia a cada nascimento. A face suprema há sido o disfarce das dores alheias, semeou expressões à troca lunar e cresceu teus caules acima d’álgida cobertura... Assim carrega o elevado, em seu inverso caminho, a certeza e a prova da escolha – fim sem clareza e de afável percepção – sonhaste-o tu?
Dos olhos se natura o alto, verdadeiramente cristalizado em quedas impressionantes... A mais bela luz também se abre em tua cara com fome, ainda que com o mesmo pecado atravessado no mergulho do mar. Mais um oco vão ecoando a pergunta d’um findo ser...

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Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

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Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …