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Parêntese (da visão)

Listam-se as memórias neste parêntese de visão; o que me conta, pouco enfadou seus grandes círculos curiosos. Entre os dedos a luz esverdeada d’uma planta crescente sob infinitos céus nebulosos da íris. Cantarolam ao redor de tua face as cores da cultura, esta, de homem a macho, esfriando os cálculos do teu sorriso – em teus lábios de filha a carne não sorve o alimento, mas beijam oferecendo-o.
Quão doce é a canela de tua tez; miramo-la saboreando os mistérios que escorrem n’algumas gotas suadas de brincadeira... Ah, pele minúscula, de moles músculos a adiantarem sua idade escusa! O hábito rodopia com tuas vestes e parece escapar-se dentro dos passes obrigatórios – presume o dito libertário o final da melodia; caso te diga fuga, repete-te a paixão do novo...
A mãe, cujo caminho se confirma nos traços da cara, amplifica seus cuidados ao horizonte alcançando a tua liberdade, onde estejas... O que lhe compensa é a despedida, pois esta carrega em si o balanço positivo da cabeça, tal crença na guarida d’um abraço posto em prática. Esse tempo teu provoca a corrida da Terra, a lentidão da derrota, o encontro dos genes... Tudo neste parêntese de visão que avistou a própria natureza te aniquilando anos de erros... Para o tropeço igualado à conquista, a intenção mal sobrevive com justo preço, filha...

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A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …