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Segundo Período (ou II Ato)

     Sempre fui criada para ser uma filha professora. Para o Poder: cuidado, veio outra professora! Sempre me trataram como professora. Eu podia fazer coisas que meus amigos e colegas não podiam fazer... Eu podia preferir Dias Gomes, Nelson Rodrigues e Agatha Christie às “fadas”, podia interagir com a crítica sem que me ordenassem para “não me intrometer”, podia mandar e desmandar, podia olhar firme, podia desafiar, podia ter coragem, podia ler Marx, podia ter giz e um mini quadro-verde como brinquedos... Meus amigos eram alunos; e eu, professora.
    Meu nome é Larissa e eu questiono a construção da identidade docente. Meu nome é Marcelo e eu questiono as classificações. Meu nome é Andréia e eu questiono a idealização do professor. O meu nome é João Eurico e eu questiono se para ter um salário quase digno, sou obrigado e ter mais de sessenta horas semanais de trabalho. O meu nome é Susana e eu questiono o alinhamento docente. Eu questiono os livros didáticos, a leitura obrigatória, a hiperatividade e a impunidade, o individual e o coletivo, a docência e a decência... E como ser um professor, o que me torna um professor? Meu nome é Paulo Freire e eu questiono a educação que você procura!... Eu questiono o projeto político-pedagógico, o porquê de meu aluno me chamar de “mãe”. Questiono a depressão e a depreciação, os brinquedos, a ludicidade da polêmica, o aluno e o professor, quem é ativo e quem é passivo, se mantenho na classe ou se encaminho à Direção, os procedimentos educacionais, a indústria farmacêutica. Questiono o senso-comum! Por que ensinar a nada? Questiono o pagamento do piso, questiono a repressão fardada e a autoridade que cabe ao docente, questiono quem educa quem... Questiono o teor educacional e seus quais-quais-quais... A ditadura sindical e governamental, a greve autoritária...

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Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …