sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Segundo Período (ou II Ato)

     Sempre fui criada para ser uma filha professora. Para o Poder: cuidado, veio outra professora! Sempre me trataram como professora. Eu podia fazer coisas que meus amigos e colegas não podiam fazer... Eu podia preferir Dias Gomes, Nelson Rodrigues e Agatha Christie às “fadas”, podia interagir com a crítica sem que me ordenassem para “não me intrometer”, podia mandar e desmandar, podia olhar firme, podia desafiar, podia ter coragem, podia ler Marx, podia ter giz e um mini quadro-verde como brinquedos... Meus amigos eram alunos; e eu, professora.
    Meu nome é Larissa e eu questiono a construção da identidade docente. Meu nome é Marcelo e eu questiono as classificações. Meu nome é Andréia e eu questiono a idealização do professor. O meu nome é João Eurico e eu questiono se para ter um salário quase digno, sou obrigado e ter mais de sessenta horas semanais de trabalho. O meu nome é Susana e eu questiono o alinhamento docente. Eu questiono os livros didáticos, a leitura obrigatória, a hiperatividade e a impunidade, o individual e o coletivo, a docência e a decência... E como ser um professor, o que me torna um professor? Meu nome é Paulo Freire e eu questiono a educação que você procura!... Eu questiono o projeto político-pedagógico, o porquê de meu aluno me chamar de “mãe”. Questiono a depressão e a depreciação, os brinquedos, a ludicidade da polêmica, o aluno e o professor, quem é ativo e quem é passivo, se mantenho na classe ou se encaminho à Direção, os procedimentos educacionais, a indústria farmacêutica. Questiono o senso-comum! Por que ensinar a nada? Questiono o pagamento do piso, questiono a repressão fardada e a autoridade que cabe ao docente, questiono quem educa quem... Questiono o teor educacional e seus quais-quais-quais... A ditadura sindical e governamental, a greve autoritária...