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Ah, pais!

Uma tarde verídica de sol. Década de 80.

- Começou a contar. Corre!
Comigo veio um molequinho de cinco anos, cabelo penico e castanho escuro - é ruim não me recordar de seu rosto... Pele clara e só! Com os lábios que morderam os meus... – Vestia uniforme no tamanho certo, mas sujo de recreio e aula de pintura. Eu, por ventura, aos quatro anos, conseguia conservar o verde lavado e o símbolo histórico do colégio, embora arriscasse na correria até a Sala de Música.
- É um bom lugar aqui. – Encolhi-me toda sob as teclas do piano – Tu cabes. Vem!
Os minutos naquele esconderijo passaram com ambos suaves e quietos. Quem batia cara na parede contando para que nos escondêssemos jamais pensaria naquela sala, logo, começamos uma cuidadosa traquinagem para degustar nossos lanches com pouco ruído. Enquanto ele mordia seu pastel de carne, olhou-me com dúvida. Tragou o pedaço seco e disse:
- Quero saber um negócio que vi...
Não me importei com aquele suspiro. Tratava de desembalar uma moedinha de chocolate.
- ... entre meu pai e minha mãe, sabe?!
- O quê? – Perguntei com a maior inocência da cegonha.
- Assim, olha! – Colocou-se de joelhos na minha frente, me pegou pelos ombros e me deixou na mesma posição que a sua. Respirou...
... e aquela mordida cheia de curiosidade preencheu meus lábios, imediatamente doloridos e com gosto de pastel. O molequinho, percebendo meu ai, respeitou e não usou os dentes para continuar respondendo a questão... Agora, apenas os seus lábios faziam a vez (mastigada) do que ele acreditava acontecer entre seus pais. Ah, quem diria? Nem os pais diriam que algum tempo depois de nossas precárias idades saberíamos que era somente um beijo... Por ora, tivéramos a impressão que o corre-corre adquiria percepções interessantes: um por que, um quê comestível e um ai...

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