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Infinito e um

Limpam-me sobre a pele os despejos dos lábios salivados. Sedento percurso criado; a água bela e curvada no seu destino de gota vive inodora e confusa incolor extenuante da boca...
Milhares de únicos secos ao solo que se pisa, se escorrega e se apóia – finda passagem da estrela móvel e mole no obscuro interior por si desconhecido. Partiu, assim, a semelhança dos seres na despedida, foram-se as células e o dia, foram-se os homens, o sol e a permanência, tudo o que pernoitara, o que me digeriu e me devolveu – inclusive os lábios sedentos encostados no cheiro novo e vibrante.
Da alva espuma fragrante, a matéria se origina fácil e primaveril para o seu sustento. Um alimento adornado a nudez sortida de flores, de outros e de si (n’algum momento) cuja ventura me diz que será bem servida... É o caso, porém, da candura metade morna que toca o rodopio líquido na estréia do corpo vivo. A alegria que surra, a pena que se esvai carinhosa e longínqua – os membros são seu palco e sua peça num fragmento chamado criação...

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Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

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Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …