sexta-feira, 28 de junho de 2013

O espaço da pedra

 
Num curto espaço, o abraço é o nosso tempo eterno – como a busca do dia futuro – velha nos parece a criança curiosa de corpo... Há lágrimas que os lábios beijam; saudade é criança e somos o seu responsável pecado.
Diga-me, hoje, que as horas o fazem sorrir; e se elas, na lembrança, mascarar-se-ão de sempre... A sempre pergunta que de muita ordem a possuímos. Dever na dúvida de continuar, mesmo que o tempo do sempre acolha-nos num abraço. Se persistir, compensar-nos-á a culpa: num dedo, num mundo, num sempre rotineiro.
Futuro, hoje? Decidiremos. Ao plano do passado esticaremos o quando patético da falácia para iludir o ócio que cai do céu... O quando do assim é. Respostas em curto prazo para nosso acúmulo de amanhã. Preparado? Vá. O para sempre é uma pedra!
Nosso carinho, nenhum espaço entre o abraço! Espetáculo em incontáveis atos pulsados e de intervalos mirados um n’outro... Obtemos o sempre que volta feliz, mas partirá entregando-nos a missão... Feliz regressará num agora que lembramos. Persegue o bem a falta sentida. Omitir-se deixa de sê-la – sempre, quem amará? Num breve espaço nos permitimos, então, levar pelo suspiro eterno... De pouco a pouco, o fardo é denso...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Coturnos

Imagem: Larissa Pujol

Coturno que afofa a terra
Tiro que fura a nuvem
Guardiões de verde
Bandidos na chuva

Piso forte
Tiro ou morte
Suicídio dos guardiões 
Homicídio dos ladrões

Um pé, dois pés
Braços estendidos
Epopéia ao revés
Anti-heróis armados
Guardiões vassalos
Novo tiro...

Coturno de sola gasta
Um, dois, mil pés
Braços curvados
Arma sem bala
Tiro de saliva
Projétil de sangue
Guardiões suicidas

Ratos da sanga
Profanas tumbas
Cantemos Chico!
Coturnos abertos
Pés roídos
Terra afofada pelas solas
Carcaças afofadas de tiros

Mil pés...
Afofando a terra marrom
Várias carcaças na chuva
De olhos abertos
De peito furado
Guardiões suicidas
Leis homicidas...

(Poema publicado no livro Versos Transeuntes Verbos Ausentes, 2010)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Alva labareda


Imagem: Larissa Pujol.

Um pingo quente desafia a nebulosa e cerrada manhã. Despejara-se durante a madrugada gotejando encanto deste sonho álgido. Lânguido prazer escurecido pela mão mestre das sombras pelas quais a Vida assina a página.
Pelo rosto do infinito, a bela fulgura dourada olha o pudor do mundo. Ali fica o menino com seus pés parados, mas levados pelo tempo - num dia apenas - d’um mundo corrido às tontas.
Balançam os galhos sorrindo céu! Quais palavras cantam o vôo? O dom, a senha, o suspiro – suporte de giro nas entranhas sucumbidas de sangue, morte e alimento. Soubera o amor que o passe bailado riscou seu peso num fundo expirado qu’inda flameja esquecimento...
A verdade assim parte sem que o mundo perceba. E o herói, com sua capa desenhada, berça-nos em sua dissimulada paz do sempre... Idolatremos o nada escondido para onde vai! O labirinto já em nós se perde, e os passos indiferentes continuam carregados pela normalidade do mundo. Ali, menino, sua célebre visão se acomoda; para lá, a sua celeuma se desprende; mas, aqui, o cerne estático admira aquele ponto chamejante contra o próprio dia... Branca e gélida pintura cadavérica – desafiaremos, nós, a eternidade.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Diálogo do Tempo

O Tempo por não ter tempo de pensar no Tempo, perguntou para o Tempo:
– Quanto tempo tem o Tempo?
E o Tempo por ter tempo de pensar no Tempo, respondeu para o Tempo:
– Tempo tem sempre tempo!

(Publicado n'O beijo da boca-do-céu, 2012)