sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Quinto e último período (ou V ato)

Como definir a noção de ensino ou educação? Como investigar o ensino ou educação e como ocorre? O que é, afinal, educação? É ela de berço, da vida, das ruas, fármaco ou hormonal? Ensina uma história ou histórias diferentes? Haveria uma história de como se estabelecer a idade da Educação? Uma genealogia capaz de pôr as opções bipartidárias de questionamento e obediência numa construção variada? Seriam os fatos ostensivamente naturais da educação produzidos discursivamente por várias teorias científicas a serviço dos interesses políticos e sociais? Se o caráter imutável da escola é contestável, talvez o próprio construto chamado Educação seja tão culturalmente constituído como um “ensino”.
Na escola, professores e alunos são reforçados com uma série de situações relacionadas ao modo de vestir, ao modo de gesticular, ao modo de estudar, ao modo de ensinar, ao modo de entender o conteúdo, ao modo de comunicar, ao modo de referir-se através de contornos societários bem explícitos... A educação se indaga, mas sem querer, se reprime. Chega a esquecer de si, que sem educação, a democracia é uma palavra morta... As normas educacionais cada vez mais se intensificam; o grau de controle, talvez, seja mais para si e mais perspicaz...
O ensino político-disciplinador pode compreender a formação de seres, a definição e a função de cada profissional, e a territorialidade precisa da língua vernácula, da matemática, da ciência, da geografia, da história... Logo, a disciplina pode ser vista não somente como uma prática pessoal, mas como um regime político que assegura a relação estrutural da identidade educacional.
Reconhecemos a nós mesmos e aos outros. A alma humana é um abismo obscuro... Por mais que possamos nos despir de nossas vestes, jamais chegaremos à nossa nudez completa. Professores: estudantes sérios na classe da própria ilusão.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quarto Período (ou IV Ato)

      A serotonina e a dopamina são substâncias produzidas por todos os corpos. Suas quantidades podem ser modificadas por alimentação, tranqüilizantes, bebidas ou drogas. Após algum tempo de tratamento ou ingestão contínua é possível perceber o aumento da disposição no trabalho, raciocínio rápido e acúmulo de afazeres sem que isso cause desgaste físico e psíquico...
      E se eu tenho um giz? Sim, um giz à frente de todos. É um giz! Eu tenho conteúdo? No âmbito das características educacionais, eu tenho um articulador docente. E vocês nunca viram um giz falhando... Pois eu já vi lousas borradas de ensino! Nos cadernos que vocês escrevem, alunos, eu não posso calcular o tamanho do seu entendimento; e com as suas perguntas, eu não deduzo como são os seus ouvidos... Assim, por definição, eu não sei o que vocês são.
      Portanto, não são os cadernos, não é o livro didático... Seriam os neurotransmissores humorados e dispostos? Serotonina e dopamina. Ritalina... Se esse fosse o caso, poderíamos encontrar a educação em qualquer farmácia.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Terceiro Período (ou III Ato)

    O critério da educação prescrito pela nossa sociedade em seus códigos de leis e tradição é o critério da obediência. E esse critério é utilizado ao longo de séculos durante a história. Está intensamente introjetado em nossas veias e em nossa psique, que quando uma pessoa demonstra interesse pela aprendizagem do outro, afirma-se como certo que esta pessoa será um professor, uma professora.
    A educação é a nova religião da modernidade; e o sistema monetário também toma essa proporção, pois tem a capacidade de criar e descrever a realidade. O feito da tecno-educação contemporânea transforma a nossa ansiedade depressiva em Rivotril, a nossa impotência em estatutos sem deveres, a nossa paciência em café e a má-educação em Ritalina! Como saber se o nosso colega é um professor? Porque o vemos e o ouvimos gesticulando corpo e voz na sala de aula ao lado... Porque ele se mostra como professor... Porque ele se identifica como professor... Porque ele se comporta como um professor...
    Que seja possível, então, saber quem vem antes: se a ansiedade ou o Rivotril; se a falta de respeito ou a Ritalina; se o estatuto ou a impotência. Essa produção é própria da indústria legislativa e fármaco-educacional.
Professoras, professores! Alunos e alunas! Vocês estão preparados para a educação? Para a perversão? Para o suicídio? Será que vocês estão preparados? Vocês estão prontos? Vocês estão prontos para as anomalias educacionais? Será que você, aluno, está preparado?
    - O que garante que você será identificado como um professor?
    - Quem garante que você estará determinado a ser professor?
    - Para quem é importante que você continue sendo um professor?
    Caros alunos e colegas, vocês conhecem a história do professor Luis Carmo? O professor Luis Carmo, após passar vários momentos com seus alunos indisciplinados e de ficar à mercê da decisão da escola sobre a penitência dos alunos, ele foi obrigado a voltar para o seu trabalho sem que nada acontecesse aos estudantes denunciados... Descontente com a falta de poder no pleno exercício e condição docente, professor Luis sofreu um desgaste emocional e se matou.
    Lembro-me do caso do professor João Eurico, que para ganhar um salário pouquíssimo acima de mil (hum mil) reais para sustentar sua família, ele dedicava mais de sessenta horas semanais entre escolas públicas, particulares e cursinhos... Sem feriado, sem descanso, sem domingo, e depois de longos períodos de aula, aos (seus jovens) 45 anos, professor João sofreu um infarto fulminante e morreu...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Segundo Período (ou II Ato)

     Sempre fui criada para ser uma filha professora. Para o Poder: cuidado, veio outra professora! Sempre me trataram como professora. Eu podia fazer coisas que meus amigos e colegas não podiam fazer... Eu podia preferir Dias Gomes, Nelson Rodrigues e Agatha Christie às “fadas”, podia interagir com a crítica sem que me ordenassem para “não me intrometer”, podia mandar e desmandar, podia olhar firme, podia desafiar, podia ter coragem, podia ler Marx, podia ter giz e um mini quadro-verde como brinquedos... Meus amigos eram alunos; e eu, professora.
    Meu nome é Larissa e eu questiono a construção da identidade docente. Meu nome é Marcelo e eu questiono as classificações. Meu nome é Andréia e eu questiono a idealização do professor. O meu nome é João Eurico e eu questiono se para ter um salário quase digno, sou obrigado e ter mais de sessenta horas semanais de trabalho. O meu nome é Susana e eu questiono o alinhamento docente. Eu questiono os livros didáticos, a leitura obrigatória, a hiperatividade e a impunidade, o individual e o coletivo, a docência e a decência... E como ser um professor, o que me torna um professor? Meu nome é Paulo Freire e eu questiono a educação que você procura!... Eu questiono o projeto político-pedagógico, o porquê de meu aluno me chamar de “mãe”. Questiono a depressão e a depreciação, os brinquedos, a ludicidade da polêmica, o aluno e o professor, quem é ativo e quem é passivo, se mantenho na classe ou se encaminho à Direção, os procedimentos educacionais, a indústria farmacêutica. Questiono o senso-comum! Por que ensinar a nada? Questiono o pagamento do piso, questiono a repressão fardada e a autoridade que cabe ao docente, questiono quem educa quem... Questiono o teor educacional e seus quais-quais-quais... A ditadura sindical e governamental, a greve autoritária...