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O desígnio do conto

Os alheios a questionavam sobre seu feitio solidário. Jamais pensou em fazer algo parecido. Em meio ao fluxo da Rua Venâncio Aires, com passos largos que apontavam o medo do atraso, Helga se dirigia à imobiliária. Era corretora de imóveis, conhecia todas as casas, subia escadas de dois em dois degraus... Um dia, ao sair de um prédio, avistou uma banca de churros e o cheiro da fritura lhe atraíra os salivares famintos.
    - Empacota dois para mim.
    - Qual o sabor, senhora?
    - Doce-de-leite. – respondeu Helga. – Os dois. – reafirmou.
    Um jovem surgiu nos fundos da vendola, estava com a camiseta e o cabelo úmidos. Indicava que havia corrido pelo Calçadão inteiro em busca de ingredientes e resolvera disfarçar seu cansaço nas frias gomas do gel fixador. Ele olhou para Helga e sorriu. Seu cabelo apresentava uma franja para o lado direito, e realmente, ele parecia muito menino para encostar seu rosto naquela lâmina de barbear...
    - É seu filho? – Perguntou Helga.
    - Enteado, senhora. – a mulher disse.
    - Você estuda? – Perguntou Helga ao menino
    Ele olhou para o rosto da madrasta e não respondeu. Então a corretora se dirigiu a mulher:
    - Não acha que ele deveria estar agora numa sala de aula?
    - Acho que sim. – ela disse.
    - Eu posso arranjar. – solucionou Helga.
    Naquele momento, Helga não pensou que pudesse fazer uma benfeitoria daquele tamanho. Entretanto a força que lhe inspirava já a fazia esquecer da escola.
    - Mas ele me ajuda aqui. – hesitou a vendedora de churros.   
    Helga pagou os dois churros e foi ao caixa eletrônico mais próximo. Ao retornar o menino já estava com suas roupas embrulhadas numa sacola de mercado. Pegou a trouxa na mão, não olhou para trás e se foi ao lado de Helga. Entraram no carro. 
    - Você gosta dela? – perguntou ao jovenzinho.
    - Não. – falou baixo, olhando para o tapete – Para onde a gente vai?
    - Para casa – disse ela com a mesma suavidade que os pneus contornavam o quebra-molas – é melhor você tirar esse aparelho de barbear do queixo.
    A mulher tomou o barbeador do moçoilo. Dirigiu por toda a Rua Floriano em direção à Avenida Presidente Vargas, entrou no condomínio e conduziu-se ao apartamento levando o menino pela mão. Helga disse que no dia seguinte comprar-lhe-ia roupas novas e que lhe arranjaria uma escola. O garoto pediu para assistir telenovela, mas antes foi tomar um banho. Helga entregou-lhe a toalha e mostrou como se usava o chuveiro - coisas modernas. Voltou para a sala e ligou a televisão.
    Quando ele terminou o banho, ficou por mais alguns instantes frente ao espelho. Ele estava novamente usando seu aparelho de barbear próximo a boca...
    E o resto, conta-nos Helga, nos exageros de sempre, foi mais ou menos o que se comentou nas fofocas dos vizinhos.

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