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Obséquio amigo

O mural da escola anuncia o resultado... Foto: Larissa Pujol.
O encontro, como labaredas do fogo, corre depressa por toda a cidade. O grande corpus arde em chamas. A grande sanguínea está incendiada. A pessoa fica estarrecida. Entre nós desenrolam-se como línguas de dragões gigantescos, as caudas do fogo amado a bater o chocalho furioso das faíscas varando veloz o céu fincado pelo vento. Cresce o fogaréu, e mais, sempre mais, aumentando a sarabanda do suplício de tanta gente que busca o fim no atropelo das horas. Fica na crônica o mais emocionante e trágico cotidiano que se tivera. A fogueira das pilastras ósseas marca angústia profunda de amar, isso tudo em momentos que a força e o saber humanos parecem capitularem irremediavelmente.
A trêmula história registrada por nosso corpo entre as sombras de fumaça-cidade esbatida nos horizontes é relembrada como uma advertência: aconteceu entre nós. Nós, envolvidos pelas chamas instintivas, resultando num espetáculo dantesco de proporções inusitadas. Sofre-se a mesma estupefação. Para mais um capítulo de drama abandonado, tentando a salvação das criaturas, cabe o possível e o impossível sentimento. Em minutos apenas, as chamas crescem, avultam, assombram. O mesmo amor irmana as criaturas! Alguém procura se agarrar à vida improvisando um jeito de salvar-se. Se o seu sofrimento imenso não é menor expectativa sofrida pelo espectador que, não resistido ao olhar, acompanha os lances emocionantes que o alvo, revelando incrível vontade de amar, vai praticando. Aí temos a confirmação das palavras de Robert McNamara: o homem é um animal racional dotado de incrível capacidade de fazer loucuras.
Incêndio pleno, poderoso, amedrontador. A vontade de amar-viver como que dá uma força extraordinária à pessoa que prossegue tentando entusiasmo ao unir-se à jovem que tem a mesma disposição e está contando com o apoio nu d’alguém. Mas, o auge do horror! Enganar-se tem sua pior frustração. Os desesperados em liberdade, querendo viver, vêm ao encontro da morte. É o ponto supremo da tragédia. Não existe quem se não emocione diante de um sentimento tão amargurante.
Dominando milênios, o fogo, às vezes, se lembra de sua natureza selvagem e, escapando aos controles, ameaça a vida de todos. É quando o homem esquece os conhecimentos que acumulou ao longo dos tempos e reage como o primeiro de sua espécie ante as chamas da floresta desejada: foge. E mais das vezes: morre.
É o jovem casal apegando-se à ideia de amar...
O grande amor, como os grandes incêndios e os grandes rios, nascem pequeninos; mas todos se esquecem de manter a calma. Comovedora solidariedade do amigo vai animando circunstantes generosos, todos de gestos tresloucados de pânico total na soberba das gotas. Eis que soube manter o sangue frio em meio ao inferno surpreendente. Salva como prova dita: a calma é regra básica que pode orientar o comportamento d’uma pessoa cercada pela intranquilidade de todos numa situação de desespero. Pessoa ajuizada: bem-vinda à vida.
Como um adeus à queimada das sombras de fumo esbatidas da terra assustada para um céu tristonho, fica o espectro do corpo. Trágico espectro torrado e chorado pelo cáustico das chamas apaixonadas que foram violentas. Uma imagem que apunhala o olhar saudoso de um substantivo amedrontado. O espectro do corpo sem estrado vale como advertência esperando providencia para nunca mais fatos iguais possam ser repetidos, e para que não tornemos a chorar mortos interiores, nem lamentar feridos em outras tragédias da angústia. Que seja lembrado: a dor existe onde a ilusão falha.

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