sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Rhode Perfume

Pronuncia-se rodja - rosa -, palavra no mapa confuso daquele vermelho escuro dos seus sapatos... As torneadas mornas dos passos, denunciando o labor das quarenta horas semanais, dizem suas pernas ainda de uma presença que demora na desordem da minha cama. – Admirou-a aprendendo...
É no seu abraço que o olor presencia o deleite imitando o esquecimento do mundo e a associando a uma imagem de nudez à espera... Rosa percebida desde o instante da última vez do que seria a próxima! O hoje sem data se cria na casa sem relógios. Um hoje ontem ou iludido amanhecido, mas amigo da ordem. Ambas se apalpam com mãos ansiosas, acariciando a mornidão de suas cinturas.
- Fico a noite toda. – Disse a recente aprendiz d’outro feminino ao ouvido dela para que, enfim, a sala fosse fechada e o meio daquele entardecer se esvaísse logo com as vestes cansadas de giz...  - Não faremos vida. – Continuou a recente aprendiz, ainda na casa-lira dos vinte anos...
- Mas a continuaremos, minha garota, como ela deve ser gostada. – Soberaneou com toda sua experiência cinquentenária!
Beijam-se impacientes ao encontrar a maciez da carne moldada aos instintos femininos... A vivida rosa afastou-a com uma ligeira rudeza masculina:
- Seremos perseguidas! Estejamos preparadas. Tenho experiência em “censura”. Além do trabalho, fui criada para casar, casei. E, casada, a usar nome do marido, anulando meu crescimento, minha história... Pertenço a uma geração que foi muito reprimida... Perseguida, repito. – Alertou com afagos, agora, maternos.
- Mais do que uma a outra se persegue, não... – Desafiou a mais nova.
- Hahaha... Ah, contigo, as asas são altivas, que linda. Típico de uma moçoila que vive, desde os anos 90, para encarar e não se jugular. Que linda! Que de ti tudo preciso! Que linda! – e passou uma de suas mãozinhas ausentes nos cabelos... Cabelos estes com dois fiozinhos brancos que não ela cuidara na hora de passar a tintura...
Agarrou-se nela com gesto de liberdade. No entanto, a recente aprendiz d’outro feminino pretendeu devolvê-la à solidão por instantes fragmentados dos segundos... Abraçou-a novamente e, como a soberana tem menos altura, encurvou-se para beijar seu pescoço, sua nuca encoberta pelos cabelos curtos e tingidos, seus ombros... seu ser inerte que, agora, oferece a boca o quanto sua moçoila queira... queira aproximá-la docilmente da rua liberta. – Ai, mas os dentes desta minha pequena são afiados como uma censura! – pensou em viva-voz a recente aprendiz d’outro feminino...
- Preciso me certificar que és a pessoa de corpo presente. – Murmurou Rhode sabendo vivê-la...