sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Um decote entre a fosca cabeleira

Que toda ingenuidade se dissolva... E quanto mais se dissolve, mais nítida ficará o que há por trás dela... (Foto: Larissa Pujol)
Foi após o solo Waltz In A Minor, de Chopin, que a porta bateu quebrando a pueril compreensão da última conversa. Num sobressalto, as ondas da fina cortina branca – branda e transparente – desdobraram-se como as páginas do seu próprio livro. A voz lhe foi varrida, mas nada a associava à ideia de surdez... Acústica sensação perspicaz daquele alvoroço soado entre as feridas ditas.
A sorte é boa para o que eu sei; e o perfil oculto em cima dos ferros escuros e debaixo das últimas fumaças, naquele corredor, cuja claraboia se visava artista, seria uma geometria a mais entre os círculos e rombos de uma destruição abstrata... A única ternura vinha de baixo, dos ferros que a levantavam...
Clássica música sob o telhado das calhas. Calhas prateadas solenemente pelas teias de aranhas tecidas entre as pardas madeiras carcomidas... A dor é compatível com os dias em que o indivíduo esconde suas doenças para não ser abandonado pelos seus demônios. A coragem o possui com frequência num ser por si mesmo. Ela se afastou da grade, então, com passos retrógrados d’uma aspirante à figuração... A causa não era a selvageria da sua lastimada fera, o cheiro do Nada exalado pela álgida fossa, ou o livro que deixou fechado como um tabefe... Voltava à casa perdida porque nela – e juntamente a ela –, nesses dias sem luz, Beethoven uivava para a morte no alcance de suas mãos solfejadas.