sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Corpos primos

Onde a atitude monástica permanece na loucura: sobre ser o alento, o tesão e a rara fonte de alegria na "altura" da vida de alguém... (Foto: Larissa Pujol)
Eu escolhia meus dedos enroscados, mas não perdidos, nos curtos fios secos que ele deixava acarinhar. Eu escondia e emulava um fio e outro na nuca nervosa daquele homem admirado com seu próprio sonho ali presente, observando entre sua pele anosa e seus cabelos um metafórico mármore grisáceo e desgastado de vida... Seu medo, assim, como lápide de cemitério, se esvaia do meio daquelas cinzas macias deixando um remoto frescor... Ele palpitava a respiração. Eu velava a vontade que no seu menino adormecia há mais de uma década, despertando-se a si mesmo quando os olhos fechavam e o tato o permitia sentir em minhas pernas uma expiação pela tortura.
Eram ruas de ladeiras asfaltadas entre semáforos e velocidades apontando o destino do tempo que corria. Lombadas em sua testa com sobrancelhas arqueadas, os sorrisos curvados de todos os “sim”, mãos que trocavam guias em minha pele. Nós, iluminados a dia, como toda multidão que escapava para baixo das marquises – linhas curtas de acordo com o mórbido inchaço da bola erguida que, ao encontrar qualquer magote, arrebentava qualquer esperança de sombrio alívio...
De fim para cá, enfim, casa! Trocou palavras para se mover no presente. Conseguimos chegar longe, longe de um ontem que se abandona... Não creu, e me aproximei da pungente tentação que o acabrunhava. Para seus lábios petrificados, ele aceitou responder-se a si que era capaz de. Tremeram-lhe as mãos com minha novidade. Sua pessoa, então, havia se integrado a verdade do seu próprio corpo. De Homem policiado, racional, nascido na Era Kubitschek, desintegrado e cansado passou a Menino saudável, corado e arteiro: Macho acima de tudo! Entregou-se a mim rejuvenescendo esse louco menino na correria do vento norte e cálido balançando os trigais, as flores, sua primavera... Deitou-se comigo sobre os minutos contados e recuperou em seu homem a vetusta alienação da nudez aproveitada.