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O segundo começo com ela

"É próprio da mulher o sorriso que nada promete e permite tudo imaginar..." (Drummond). Foto: Larissa Pujol.

Seis da tarde. Hora para encher as ruas unindo-se aos demais cansaços do dia. Hora como era de se esperar, diria o Chico... De ouvir batidas descarregadas nos portões... De colher nos pés o calor do asfalto e algumas lascas de pedregulho que insistem nas brechas das sandálias rastejantes...
Entretanto, às seis da tarde, estava ela na sala dos professores com Rhode. Compartilhavam risadas entre sorvidas num chimarrão verdinho, de paz quente e aveludada, que renovava qualquer fardo docente neste fim de turno. Os demais colegas já haviam fugido para aproveitar cada segundo de pouco pensamento em suas casas... A sós com ela, Rhode, aparentando leve rouquidão após dez períodos de aula, dispara-lhe um convite:
- Daqui a pouco teremos de fechar o colégio... Vamos sobrar por aqui se não formos embora logo. Queres ir?
A entrega desta pergunta soou à sua garota uma explícita fantasia amorosa, visto que Rhode falou com a boca muito próxima a ela. Mas resolveu concordar com a ética da profissão...
- E o turno da noite está por chegar, né?! Que tal o Ponto de Cinema? – Citou um local público para que Rhode não pensasse fáceis diabruras da novata colega.
- Depois de nós estarmos no meio de alaridos, conversas, burburinhos e todos os sinônimos possíveis de um dia louco? Poupa-me! – Retrucou Rhode com puxada voz firme que ordena a didática...
A menina professora ficara sabendo que nas últimas festividades dos colegas, Rhode não havia sido convidada por causa de tais impulsos... Então, a professora garota se recolheu como aluna que fora advertida com um bilhete para os pais. Abaixou os olhos. Rhode, compadecida com a sensibilidade da sua menina, tornou a apaixonar a voz... 
– Meu pequeno apartamento – que enfim está só, sem marido e sem filhos – é próprio para receber confissões entre duas... pessoas.
Ah, com aquele sorriso-piano Rhode abria toda a competência dos sonhos à sua menina... Como uma pluma, voou junto à experiente mulher – levada pelo seu perfume importado que comprara em Rivera - até o seu apartamento, sem perceber as ruas que percorriam, os carros atravessando, a gente e os animais que cruzavam seu caminho. Rhode guiava tudo com pés firmes no chão, carregava sua garota hipnotizada nos braços gostosos dos assuntos e da educação que prestava.
O elevador subiu suspirando. Era um prédio de alto-padrão, próprio de uma professora que chegara à classe F do magistério com seus méritos e tempo de serviço. As luzes de um só foco e plena iluminação denunciavam a fina modernidade do corredor daquele piso... Os passos sem barulho, mesmo com o altíssimo salto agulha de Rhode... A chave que ela encaixava com toda secreta invasão rodou com brandura duas vezes e a porta leve abriu-se a ambas com escuridão e escusa. 
Continua...

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