sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O segundo começo com ela II

"Corujinha" "Wuho! A te estremecer, escondidinha, como poetizou Vinicius de Moraes" (Imagem: Larissa Pujol)

Um apartamento planejado para neutralizar ruídos. Lá dentro o dia esquecia suas horas. Poderia ser seis da tarde, como seis da manhã, três da tarde... Cortinas, sofás, tapetes compunham um cenário macio imerso em luzes indiretas. Dia ou noite, o lado externo – tão longe – não importava. Soltaram seus pertences pedagógicos numa mesa de vidro... Rhode se jogou toda aberta no sofá, recuperou uma boa cara de arquivo, e mais afável que no colégio, ria mais, sorria voando, tagarelava com o único compromisso de ser feliz... Mui linda, uma dádiva de D’us! Ela puxou sua colega pelo braço jogando-a em seu pequeno colo naquele móvel... A cabeça da menina se acolheu sobre o peito da rosa. Ali ainda restava algum pó perdido de giz... Rhode a acarinhava passando-se com unhas-arrepios nos braços e cafuné.
- Suor pedagógico. – Disse a garota professora sentindo o gosto úmido da outra pele feminina em seus lábios.
- Temos os melhores suores. Mas o mate lá no colégio, o calor, a caminhada e o dia letivo ajudaram a nos derreter ainda mais... Espera um pouco. – Rhode se desvencilhou da jogada que havia feito com ela, saiu descalça e pequenina até a área de serviço. Retornou trazendo duas toalhas e dois roupões.
- Estes são teus. – Entregou amavelmente – Vamos tomar um banho?
- Tu, primeiro. – Arfou e tremeu.
Rhode percebeu a insegurança da sua colega e resolveu compreendê-la. Afinal, muita didática paciente na hora de ensinar, pensou a experiente professora...
- Ok, minha menina. Do banho vou para o meu quarto. Espero-te lá. Também mereço uma massagem daquelas que tu fizeste numa colega nossa... – Disse em tom de convocação, encobrindo ciúme.
- Nossa, nem me lembrava mais! Foi na hora do recreio. Ela estava com dores fortes nos ombros e me pediu auxílio... Estava cheio de gente na sala dos professores, mas não me lembro de ter te visto.
- Não, realmente eu não estava lá; porém tenho meus informantes.
A aprendiz do outro feminino adorava o tom de perseguição de Rhode. Ficava claro – pensou – por que esta professora, que pediu massagem, se distanciara tão repentinamente da novata... Existem outros casos, mas é melhor deixar para o esclarecimento da perspicácia.
Rhode se dirigiu ao banho. De lá, avisou:
- Tem Ice e Keep Cooler. Água também. Fica à vontade.
Na verdade, a garota já estava, sim, com muita vontade! O álcool era desnecessário, mas bebeu uma dose de Ice para refrescar a imaginária situação que projetava em Rhode se banhando: suas pernas pequenas, seu corpo magro e cinquentenário, seus cabelos curtos, sua pele morena. Anuviou em seu prazer a espuma que se confundia com sua saliva amorosa de menina, escorrendo sobre os pelos pubianos da rosa, entre as coxas... Respirou fundo! Resolveu parar com tais platônicas. Haveria uma massagem somente, uma conversa para encerrar os assuntos e uma despedida para, enfim, poder voltar a sua casa, tranqüila... O chuveiro foi desligado juntamente com o último gole deglutido com ânsia. Terminou a garrafinha... Era a sua vez de tomar a pancada d’água. Esperou Rhode sair do banheiro e espiou da cozinha o balanço dela até o quarto... Estava linda naquele roupão rosa-bebê, com os cabelos molhados, gingando pequenina - quitou a parte da despedida... Não há problema se voltar uma ou duas horas mais tarde... Abaixou a cabeça e se foi ao banheiro sem olhar para os lados, talvez para não estragar as demais surpresas.
Tinha banheira com hidromassagem, um chuveiro belo com bocal largo que jorrava com ímpeto a tranqüilidade. Deixou suas vestes dependuradas sobre um armário baixo e mergulhou nas águas borbulhantes... Rhode deixou um olor forte e gostoso de floral vintage confortável que oferecia um ar milagroso de primeiro amor... Seus sabonetes, seus eau, seu gosto refinado... E a menina professora ali, pertencendo também aos seus gostos refinados! – Ah! – Deixou-se viver enquanto os jatos da banheira tremiam-lhe o corpo todo – por dentro também.
Secou-se, vestiu o roupão branco, calçou os chinelinhos que Rhode emprestou. Pensou na sorte de as duas calçarem o mesmo número, 35. Ouviu seu nome pesado na voz convocatória e urgente de Rhode. O quê fazer? Tornou a ouvir e respondeu-lhe calmamente um “tou indo” toda carinhosa.
Continua...