sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O segundo começo com ela III



Seguiu pelo corredor, a porta ao fundo estava aberta. Um quarto amplo, de gesso forte nos rodapés e no teto para passar luzes incidentais. Uma claríssima modernidade em papéis de parede, móveis suaves e dois criados-mudos que exibiam três porta-retratos – na cabeceira dela: seus filhos, ela mesma. Na cabeceira ao lado: o casal... – Mas sobre a cama de casal havia uma mulher madura com roupão com laços entrelaçados, mas pretensiosamente soltos, e permitidas fendas que transpareciam nudez total. Não sentiu culpa. – Minha colega! – Exclamou a aprendiz do outro feminino...
- Entra, minha garota!
E a sua garota prosseguiu calada. Esta garota que não tinha nada ingênua e já tinha grandes alfarrábios na sua vida sexual, já que perdera a virgindade com dez anos de idade...  Sexo sempre lhe foi instinto. Cheiro de homem, que fosse ela de quatro, de compasso e aberta entrega! No entanto, perante Rhode, ela permanecia calada, paralisada!  Esse medo advinha da normalidade do amor, melhor dizendo, do amor-comum que construíra a sociedade... Sentiu-se penetrar nos aposentos decassílabos de Safo... – Vais continuar aí?
O quarto estava mais claro que a sala, despertando na menina a maior vontade de espiar entre as dobras daquele roupão rosa... As pernas de Rhode deslizavam sobre o lençol, uma sobre a outra como serpentes. Logo, levantou-se e ofertou uma música.
- Lembras que compartilhamos os mesmos gostos musicais? – colocou o CD – Quero ver se sabes o nome desta música e quem canta...
Em duas notas, a garota respondeu:
- Fantasy, de Earth, Wind and Fire.
- Boa menina! – E Rhode desatou seu roupão. Sentou-se na cama. Com os ombros descobertos, mas com o resto do corpo escondido, ordenou: – Massageia, minha colega!
A novata acatou a ordem. Ficou de joelhos sobre o colchão fofo, e atrás de Rhode, preparou as mãos, os dedos... Praticou a relação possuída e possuidora que se deve ter com pessoas “mais velhas”. Duas belas professoras! Uma experiente, outra que se confiava àquela permissão grega e sexuada entre ensino-aprendizagem... Com os polegares, a novata oprimia com serenidade seus músculos, deslizando nos ossos as costas das mãos, pele a pele no arrepio da entrega. Rhode foi deixando cair o roupão enquanto, no vão de seu dorso, a mão de sua menina escorria indubitavelmente toda leveza agraciada entre mulheres. Virou-se para ela – Vou deitar de bruços. Completa, guriazinha!
Rhode deixou para que ela tirasse o roupão. De costas para a novata, seus músculos tinham uma mágica feminil que aproveitava com dedos, unhas, palmas das mãos, cheirando-a, montando-se sobre suas nádegas nuas... Até esta hora, a novata ainda vestia o roupão branco! Ah, a cintura magra de Rhode, as voltas oscilantes entre desejo e olhar – queriam beijos! Nádegas que suas mãos encostavam e daquelas montanhas se percebia o poente na espinha... Montanhas que a levavam, levantavam e desciam as retinas de sua menina!
- Quero me virar para a tua frente... – Rhode se virou e se afundou na cama, relaxada. Olhou para a surpresa de sua aprendiz que falava somente por suspiro... – Entre mulheres não existe pudores! – E com toda libérrima feminidade, Rhode esparramou os curtos cabelos recém tingidos de preto sobre o travesseiro com a magia que trouxera sua mocidade...
Os seios da madura rosa, com os quais amamentou suas crias há vinte e poucos anos, estavam firmes. Mais firmes que muitos pênis, tão firmes quanto a concessão nua da menina que desatara o roupão transparecendo a pele alva à fixação da outra... Tão macios quanto o crime da liberdade em ser feminina. A moça tomou cuidado para não tocá-los. Massageou um nervosismo de ópera, rápido violino, em seu colo e sua cintura, esquivando os olhos para todos os lados. Pensou em Francisco, em João, em Rafael, em Pedro, em Paulo, em Roberto, em Erico, em Carlos, em Lucas, em Otelo, em Bentinho..., e em todos os diabos que a puseram de quatro e receptiva como se esta fosse a única atitude fêmea para uma mulher viver. A moça sorriu para si e abriu os olhos para Rhode já acostumada no deleite...
A nudez se completava naquele corpo miúdo. Aos pés dela, a garota massageava suas torneadas e abertas pernas. Do seu negro meio fluía o entregue e invadido olor amado de mulher. Um olor que – deduziu a moça – há remotos tempos seu marido não provocara...  Voltou a assentar-se sobre o quadril da mulher. Vagina com vagina. A moça parou a massagem e se fixou no rosto fino daquela senhora com a maior segurança em retribuir-lhe amor.
Aproximou seu tronco ao de Rhode. Com leve toque da ponta do nariz, ela foi metaforicamente constituindo traços retos na sua pele hidratada e fina. Rhode arqueou o pescoço para trás e boquiaberta esperou o beijo, mas a menina apenas sorriu-lhe timidamente apenas com os lábios. Beijou levemente sua face e escorreu-se para seu pescoço. Carregou os olhos de lágrimas e deitou sua cabeça entre os seios da sua colega.
- Quê, minha menininha?! – Rhode tinha o melhor afago do mundo. Deslizou os dedos pequenos e finos na cabeleira de sua aprendiz para acalmá-la. Riu com seus melhores dentes, com sua melhor mulher vivida...
- Sua menininha aqui tem quase trinta anos... – Disse chorosa e num tom de pessoa velha e maníaca.
- A juventude sempre está pronta. E nós estamos, minha menininha. – A guisa séria de professora tomou os ares de Rhode. Estava ensinando sua colega. A garota sentia o suave encostar dos lábios em seus seios a cada respiração dela. Inspiração de ar que lhe foi dando mais vontade, mais entrega, mais tinta incolor nos encaixes entre as duas, vivendo tudo o que se apaixonaram antes por meio de olhares, toques sem-querer, abraços cúmplices, pensamentos correspondidos, provocações e ciuminhos... Entre elas emoções se acoplavam naturalmente.
Tiveram o melhor experimento de prazer. Cada uma reencontrava esquecidas partes de si mesma na outra... Cândidos toques desabrochavam o feitiço feminino das ternuras em estado nascente.  A menina colhia sustento viscoso de sua Rosa. Terminaram com as horas, cantaram tropicalismos de cabelos longos, enfeitaram-se de carinho e belas vontades feminis de se confessar amor! “Te amo” virou ritmo. Poesia de pernas macias e anjas que queriam ser!
- Uma selfie, amor! – Lá se registravam a jovem e a mulher convicta de mais uma parte de sua vida... O Vininha, com disposição impressionista, reescreveria seu devotado soneto: “mas na moldura de uma cama, nunca mulher nenhuma foi tão bela quanto Elas!”
Continua...