Pular para o conteúdo principal

O segundo começo com ela IV

Mais nova a beijando entre cabelos e costas para despertar ao som de I write a song for you...
- E aí foi porque eu gostei dela, porque queria entender a completude do que é ser uma mulher, e dei a ela todo o prazer que podia... Foi me puxando a ela até que eu pudesse dizer sim. Primeiro coloquei meus braços em torno do seu miúdo corpo. Os seus envolveram minhas costas com todas as mãos que o sentimento lhe dava. Ela me puxou para junto de si para que pudéssemos sentir o toque dos nossos seios. Pares perfumados. Sim, e o coração nosso disparava do mundo como louco... Sim, eu disse a ela: sim! Eu deixo sim, beijo sim, eu a amo sim!
- Ah, minha garota de quase trinta anos... Tu és a melhor James Joyce sobre a primeira vez entre duas mulheres...
- Não sei por que o igual ainda pode confundir tanta gente...
- Gente estranha essa! Tenta se completar no oposto, tão logo se esquece de si no outro que repele e repele, aos poucos, formando a infelicidade. – Começou a escolher peças de roupas para o dia inteiro enquanto sorvia com cuidado um mate recém feito...
- Essa gente perde tempo gerando estatísticas de reprodução.
- Gente que deixa de amar pessoas para amar gêneros...
- Ok, mas deixemos a gente amar-se livremente, cada qual com sua merecida entrega, Rhode... – Vestiu-se e tomou as mãos dela olhando-as fixamente... – Tenho um pedido: empresta-me o esmalte que tu usaste anteontem?! Entregar-te-ei amanhã no colégio. Hoje é meu dia de folga.
- Hahaha, claro, minha garota! Pega o que quiseres... Oh, está friozinho! Leva também este manto. Combina bem com teu colo macio, “minha” amor... – Teve mais uma vontade de despi-la, mas o dever se aproximava. Acalmou-se - Se a felicidade é estar com seu par; o par se faz com seu igual, né...  – Calçou seus saltos, pegou seu material de colégio. – Vejo-te no restaurante da esquina!
- Hoje é meu dia de folga, querida. Seria uma surpresa as duas almoçarem juntas se uma não esteve no colégio.
- No máximo vão imaginar que é uma reunião de sindicato.
- Hahahahaha. Mas tenhamos zelo, minha pequenininha... Conheço um café bom e discreto no centro. Eu te busco. Seis horas. Novamente às seis da tarde...
Caminharam de braços dados até a escola. Supostas boas amigas, parentes, irmãs, até mãe e filha passaram pelos pensamentos olhados daqueles que cruzavam por elas durante o trajeto. Foi a cada seis da tarde, seis da manhã que ambas trocavam em miúdos a espera, a cumplicidade, a paixão, a promessa, todas entre a dádiva da beleza em seu estado infinitivo: amar.



Lista de músicas:
- Fantasy. Earth, Wind and Fire
- Can’t hide love. Idem.
- I write a song for you. Idem.
- Can’t get you out of my mind. Lenny Kravitz.
- Play the game. Queen.
- Morena Flor. Vinícius de Moraes (com Tom Jobim)
- Pela luz dos olhos teus. Tom Jobim
- Wave. Idem
- Cotidiano. Chico Buarque.
- Valsa brasileira. Idem
- Trocando em miúdos. Idem.
- English folk song. Greensleeves.
- And I Love her... Beatles.
- Amar completamente. Laura Pausini.
- Dona. Roupa Nova.
- Minha flor, meu bebê. Cazuza.
- Pro dia nascer feliz. Cazuza (Barão Vermelho)
- Since I fell for you. Doris Day.
- Não existe pecado ao sul do equador. Ney Matogrosso.
- Reflections of my life. Marmalade.
- Venus. Shocking blue.
- San Francisco. Scott Mackenzie.
- Ne me quitte pas. Édith Piaf.
- The girl with the flaxen hair. Claude Debussy.
- Gymnopedies No. 1. Erik Satie.

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre o…