sexta-feira, 25 de abril de 2014

O desígnio do conto

Os alheios a questionavam sobre seu feitio solidário. Jamais pensou em fazer algo parecido. Em meio ao fluxo da Rua Venâncio Aires, com passos largos que apontavam o medo do atraso, Helga se dirigia à imobiliária. Era corretora de imóveis, conhecia todas as casas, subia escadas de dois em dois degraus... Um dia, ao sair de um prédio, avistou uma banca de churros e o cheiro da fritura lhe atraíra os salivares famintos.
    - Empacota dois para mim.
    - Qual o sabor, senhora?
    - Doce-de-leite. – respondeu Helga. – Os dois. – reafirmou.
    Um jovem surgiu nos fundos da vendola, estava com a camiseta e o cabelo úmidos. Indicava que havia corrido pelo Calçadão inteiro em busca de ingredientes e resolvera disfarçar seu cansaço nas frias gomas do gel fixador. Ele olhou para Helga e sorriu. Seu cabelo apresentava uma franja para o lado direito, e realmente, ele parecia muito menino para encostar seu rosto naquela lâmina de barbear...
    - É seu filho? – Perguntou Helga.
    - Enteado, senhora. – a mulher disse.
    - Você estuda? – Perguntou Helga ao menino
    Ele olhou para o rosto da madrasta e não respondeu. Então a corretora se dirigiu a mulher:
    - Não acha que ele deveria estar agora numa sala de aula?
    - Acho que sim. – ela disse.
    - Eu posso arranjar. – solucionou Helga.
    Naquele momento, Helga não pensou que pudesse fazer uma benfeitoria daquele tamanho. Entretanto a força que lhe inspirava já a fazia esquecer da escola.
    - Mas ele me ajuda aqui. – hesitou a vendedora de churros.   
    Helga pagou os dois churros e foi ao caixa eletrônico mais próximo. Ao retornar o menino já estava com suas roupas embrulhadas numa sacola de mercado. Pegou a trouxa na mão, não olhou para trás e se foi ao lado de Helga. Entraram no carro. 
    - Você gosta dela? – perguntou ao jovenzinho.
    - Não. – falou baixo, olhando para o tapete – Para onde a gente vai?
    - Para casa – disse ela com a mesma suavidade que os pneus contornavam o quebra-molas – é melhor você tirar esse aparelho de barbear do queixo.
    A mulher tomou o barbeador do moçoilo. Dirigiu por toda a Rua Floriano em direção à Avenida Presidente Vargas, entrou no condomínio e conduziu-se ao apartamento levando o menino pela mão. Helga disse que no dia seguinte comprar-lhe-ia roupas novas e que lhe arranjaria uma escola. O garoto pediu para assistir telenovela, mas antes foi tomar um banho. Helga entregou-lhe a toalha e mostrou como se usava o chuveiro - coisas modernas. Voltou para a sala e ligou a televisão.
    Quando ele terminou o banho, ficou por mais alguns instantes frente ao espelho. Ele estava novamente usando seu aparelho de barbear próximo a boca...
    E o resto, conta-nos Helga, nos exageros de sempre, foi mais ou menos o que se comentou nas fofocas dos vizinhos.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A sós com a alma

O universo te chamou pessoa; e humano, no interior de minha casa, saíste da moldura clássica com teus trejeitos de tinta quieta... A contemplação entrega a mim – e bastaria somente – o enunciado de teu nome; no entanto também me situa perante a interrogatória da ultravida... É dizer flor, é dizer Cezane, é dizer o porquê, é dizer industrial e Duchamp em nossos personagens que há séculos conhecíamos numa tarde aos risos das madeleines proustinianas...
São longas mulheres e inclusos tempos colhidos sob as abas dos chapéus... Um sol a guache traga para si a confusa essência, ora das margaridas, ora do ensejo-fêmeo retratado (ainda sob a aba do chapéu). De ti o outono vem pela abelha na fertilidade liberta de flores...
Que sorria, portanto, de tão jovem nesta sombra entre as luzes bailadas. Conheci o violinista repousado na sorvida do conhaque, vista a concessão daquele bom e rústico mirar que antes orquestrou partindo. Suspiros idos de tua cara anunciar-se-ão em outras almas: é o porquê, é o sentimento, é a continuidade do véu no festival de pipas em cores... Ao dístico somos nós e o vento curvado ante o calar do retrato num beijo.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A cobiça da sombra

Por aquele muro, concretas cores nas caminhadas sombras acalcaram corpos de intuições. Uma cara foi areia quando surgiu efeito, uma doença visitou o frontispício condicional de ternura antes do céu – lá alcançado ao solo que se jogou... Onde contaram espasmos do segundo, a parede com hachuras já determinava seu símbolo de menino.
Animal do louco pelo que do alheio se sente. Convergir dores na obnubilar labareda interpretada a fim de parar qualquer nome de arbítrio; salvam-se, pois, as idas dos tijolos frente aos vitrais. A curiosa tela estava, aos poucos, tornando-se esquiva... Velha mordomia confiando a caída escura sobre as folhas que massageiam o infinito.
Flanam gente e morte. A seriedade, a chicote, delineia o jogo de cintura entre os cães que ladram... Alguns, por esse muro, comemoravam com dor o rechaço dos bons ditames. E em nós, a enfática tempestade cria-se superior à natureza... Quando esta capitula, o instinto a sanciona. São as falácias de pedra que adulam o seu rosto ordinariamente solitário... A queda avista, entre outros sintomas, o universo perpetuado de amor. Secreta e ponderada memória extraviada do calcário.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dos começos alados

Uma "DR" fotografável... (Imagem: Larissa Pujol)
O passo espalhado, caros filhos... Hoje, por alguns, relutado, negado, renegado a si talvez por representar um retorno ao diminuto iludido que fizeram juntando heróis e planos acima do ser pessoa. Por ora, apenas sentidos próprios entre ambos num labirinto confesso. Chamar-se-ão de termos que lhes caibam toda amplitude amada e vivida; calar-se-ão de palavras que a nada-realidade se refere, pois descansam sobre a verdadeira maneira de estar encaixados mundo a mundo...
Aquele sorriso do peito, caros filhos, que o crescimento palpita nas suas infantas peles a se harmonizarem com a solidão divida e platônica no que o outro respira... E do que precisa? Um recanto preferido por vocês, caros filhos, cujo externo que os criou - e ainda o faz - agora confie a certeza imposta de sedução angelical.
Ah, caros filhos, entre jogos ou recusas, a camuflada despedida deixa um recado para a sua próxima chegada. O protagonista revoluciona a si cercando suas próprias margens – vê-se o aquário criado entre as bocas dos meus filhos... E mais tarde, no enlace a qualquer elemento perdido, quererão voltar a tudo que lhes faça espaço. Lindo comum do instante sempre; o prólogo consentido e paralisante da beleza moça de se enamorar...