sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A querida dos sonhos alheios

Em mim é o cotidiano, vigiado, mas paciente. No outro, um sorriso.
O retrato partiu do seu brilho ocular. Este azul sincero. Melhor que a prateada diferença frente à minha cor branca levemente ruborizada, distinta pela manhã. Viu-me por mim um reconhecido autorretrato à Modigliani, assim pousada no entendimento d’outro. Com silepses de afago, este azul sincero de um moçoilo Chico Buarque conduz-me toda volta do meu cabelo recém disperso sobre minhas pernas. Disse como o vento entre cortinas que a luz se acendera através dos fios do conteúdo... Olhos que me diluo em seu lápis partido e regressado aos trejeitos do cotidiano os quais o vigiavam.
Pertenço-lhe de loucura viva. Enfim o seu suspiro cinza retirou meu próprio reconhecimento estático da escultura santa e o amoleceu nas voltas ventanias dos meus cabelos que ele viu. Ah, honra pelo coração que dos olhos azuis sinceros ele me julgou em sua bondosa adulação somada à minha complacência e à sua doçura. Renovou-me nas mesmas coisas, mas em excesso! Ousou, opinou: louco artista. Do outro lado, eu, a mestre, ora à natureza morta, ora à cena doméstica suave da professora de Chardin, soluçava a dúvida entre agradecê-lo pelo reconhecimento ou puni-lo por trocar as atividades do conteúdo por mim...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Passado em matriz

Sobre nós há um conto de números e respostas ao jeito indelével e corpóreo. Cenas curtas, de arrasto à cadeira pungente numa amarra abaixo da mesa entre as pernas – estas tímidas mães que não correm, tampouco se exaurem abrindo-nos.
Pares de personagens vividos em diferentes décadas, cada uma com sua indolência – me dizes tu que chegaste com toda a inocência, não sabendo de minha história. Alinhaste o diálogo pelo percurso do vestido de noiva, nascida pelas mãos experientes de almejo, e finalmente escorrida junto ao chão carregado de fardos que aprendemos.
Do meu vestido branco parte a tua materialização do amor puro, sagrado e sacrílego. Em mim para a tua visão quero que seja um objeto exilado de sua função e contextos visuais... Apenas visa um pedaço têxtil, poeticamente elaborado, ora para a representação apartada da ser que a ti se despe das nossas realidades, ora para explicitar, sem donativos educados, o desejo efêmero, mas eternamente retornável, ora para deter nos vãos que permitem sua curta descida rodada a esperança de tua carência que não se restringe a este discurso. Âmago de corpo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Caro filho, filho meu...

Com jeito de Eduardo e Mônica, mas separados como Pais e Filhos
Há pouco, um grafite na mesa do professor revelou-me os ingênuos traços da tua descoberta masculinidade do amor. Letras claras, mas escusas, de tempo impreciso, definindo apenas o reluzir do sentimento no encontro entre a lâmpada e o móvel escuro – ambos velhos de uma nova história.
Leio meu nome e minha profissão ali jogados como Galatéia idealizada sobre o teu peito aberto, incerto de possibilidades, porque sabes que não mais vivo isto, meu filho... Quando nasceste, creio que eu recém chegava à minha casa esquecendo os poucos segundos da madrugada que contei. Ah, Querer: verbo bonito de ironia! No resumo da compaixão, meu filho, resta-me a graça que será ao lembrares de mim como base para escolher quem contigo amará.
Por enquanto, o espírito sonha em teu homem, meu filho, projetando a realidade essencial através de tua inocência – que continua pela exterioridade do corpo... Meu espírito, filho, há muitos divãs, despertou... E hoje vela a matéria a servir a ti e teus colegas com o máximo de maternidade.
Até que ponto o destino é réu-confesso? – Pergunto ao teu “Demais”. As letras tuas, maiúsculas de apoteose, discretamente despejadas sobre o apoio de meus cadernos, denunciam o segredo da inocência: a angústia. Sei pelos que amei, meu filho... Logo, me justifico na figura que tu tentarás a possibilidade de teus projetos, somente. Chega a ti mesmo, filho, com essa simpatia egoísta da angústia que dispões. A camuflagem platônica que inseres não é culpa, tampouco exílio.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A investir em arranhões

Tenho um subterfúgio para o final de quinta-feira: um canto de qualquer ponto de cinema juntando loucos admiráveis ao meu lado e nos inserindo nas notas de pausa e expiração d’um blues que compartilha, também, suas dores.
Puxo o passo entre as ruas do descaso humano. Prazer da solidão em reconhecer a madrugada urbana pelos cacos sonoros das lajotas que orquestram o trash-hard com meus saltos e os pedregulhos que chuto adiante como balas de revólver. Em forma de fones, Cazuza está suspenso no vão preenchido do meu decote. Deixei-o no volume máximo para o caso de mendigar “piedade”.
A primeira noite de hoje não foi boa – poderia me socorrer, então, esfriando as mãos nas chaves metálicas do saxofone –,  mas a segunda vem com amigos... Chega Silvana, minha parceira de fumaça. Logo mais a Cláudia e suas piadas, a Magdengosa, o Marcelo com seus caprichos anarquistas, e... e..., na continuidade das aditivas. O ponto de cinema se torna a versão remasterizada do Café Nice. Pedem a mim que sacuda o uísque enquanto o picadinho roda em todos os palitos... E não é que chega logo ao meu copo dosado o “declamador dos perfumes”... Ah, ele fica mais corado através do gélido amarelo; e sua carne dialética, longa, com pontos de quartzo ao alto, confere à caça da coruja o seu sonho durante o murro da sexta-feira na cara dos outros...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O suave cumprimento

Seja o botão a fronteira entre a espera e o desfrute. Nas vestes, ele atenta ao par errado através do paradoxo seduzido... O especial, aqui em meu corpo, define-se como a transformação alheia sobre o que nasceu. A flor, então, desce antes do próprio caminho de si desfeita na pele necessária.

Especial: uns nascem e se conformam, outros são transformados... (Foto: Larissa Pujol)

A loucura é a paixão da inteligência. Nela cabe um tudo nunca raso, nela se recolhe o olhar desacomodado de quem a permitir; e, à submissão da galhofa, ameaça os que a atiram no destino de terceiros.
Um frio aquecido pelo horizonte converte o longo retiro de delicadezas em móvel possível de tempos em tempos nos quartos com novidades. Emerge da melancolia. Então conversa reduzida ao tempo mais-que-perfeito à espera do mesmo indicativo no seu agora. Vem de si o anseio de expulsar o mundo, sem compromisso com a resistência.
A intimidade das nossas palavras s ’esconde no lugar menos pensado. Alcunhou-se “lá fora” a verdade que deles ficou, e assim morria o desejo d’estar na habitada segurança cuja impotência retrai um coração claudicante através d’angústia. - Liberdade não é para descansar! - Brada ela sobre si mesma, consciente do seu eufemismo desvelado.