sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Rhode

Possui o corpo acostumado às linhas do conceito, mas insiste em confessar seu perfume que desce sobre mim como fada sem máscara – e dizendo gostar – ameaça-me com magia durante um jeito lá, um passe cá disfarçado entre nossas cinturas...
É de delatar os vestidos! Com os saltos pingados no piso opaco abrimos e fechamos os aros visados de nosso regaço. Ofereço a mão macia à concorrência mostrando a agressividade feminina no seu auge. Camuflando tecido e ambiente escuro, volto à minha posição pela linha congruente aos riscos das luzes que traçaram o escuso puxado dos olhos.
Nossos corpos sinônimos e a mesma curiosidade nas notas da entrega musical. Somos beleza; talvez uma simples brincadeira de dança aos olhos daqueles que nos assistem, mas o poema em nós abstrai em aliança epidérmica de toque leve. Sorrisos entre bocas rubras pontuam entrelaces das nossas letras salazes em unhas tingidas.
Somos sinônimos dando asas ao conceito – para longe. Em nosso sofisma de agrado, a concorrência, à margem da pista, nos acompanha com inocência voyeur... Circunstância da liberdade – que é uma potência feminina – sendo o bem. E esse bem se deixa definir somente entre a nossa parelha sincronia curvilínea dos seios palpitantes. Um palpite ao baile da destra à Don Giovanni...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pela luz dos... "olhares da verdade"

Preferi descansar a correção...

Num pingo de solidão ali permanece o compêndio da sua bondosa figura a concentrar a própria tarefa de acreditar entre verdades. Imaginação também é sua verdade, e mesmo num momento de passagem, somaram-se tantas partículas por ela percebidas em seu evidente silêncio externo, ao fundo do preenchido alarido das conversas e bizarras atitudes alheias – e estes outros, assim, não criaram atenção...
Ela é daquelas peças de pequeno-arquiteto: riscada tijolinho por  tijolinho, janelinha por janelinha, porta por porta. Moldada à telhadinho. Sonhos, penso, do seu retraído balanço na carteira durante a escrita que me a relembra. No entanto, ela os joga ao perdido e vingador esquecimento que cresce consigo. Curioso grão da realidade a ser possuído por sua atenção às gotas. Embevecido refrão a cada letra das maravilhas ao seu redor... Harmonia corre em meus olhos aludindo o paralelo a cada ponto.
Verdade sua, vida a vida, ela personifica ao texto. A pena sábia da história crê na diferente busca. Leve sopro de palavras que dela eu leio e me permito compreender a conquista corajosa de viver, desde o fraco galho d’uma árvore ao objeto mais notório e adorado.
Agradeço-te, minha cara aluna-filha, pela paz compreendida...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pièces montées

Se é para cobrir... que seja de paixão! (Larissa sob o olhar de R.)

Joga num pano de montar peças teatrais as palavras de Brecht! Um duplo sentido de lençóis é o arranjo de um casamento entre o compromisso aventureiro da sociedade efêmera.  – São os teus admiradores! – afirmas tu na presença turbinada de emoções suscitadas pela união de dois seres.
Toda uma gramática de coração para celebrar o amor e o casal que procura, sob a cabana feita de cobertas, vivenciar as etapas mais emocionantes das bodas platônicas ou a decidida união, mesmo que situacional.
O discurso perpassa o desejo. O imaginário perpassa as declarações, o amor perpassa o cansaço, a dúvida perpassa nós mesmos... E as vontades de Ibsen giram nas plásticas magias das bonecas. Por ti, Albee indaga se tenho medo de Virginia Woolf, e etc... tentando capturar os apaixonados.
Figurinos de minutos e alianças investidos para nos escolhermos um no outro às custas das perdidas noites de descanso. Como Brassens cantou “Ma mie, de grâce, ne mettons pas sous la gorge à Cupidon”, nós deixamos o interno à disposição dos nomes... Entrelaçamos as mãos alçadas ao significado do pássaro que se entrega de peito à quente suspirada no espaço dos sons. Olhos fechados revelam segredos à folha-paz de nós dois...
Cartas de amor postas à sombra do senhor pensamento, nos lábios que empalideceu a própria tinta.

"[...] Nos noms au bas d'un parchemin"

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Obséquio amigo

O mural da escola anuncia o resultado... Foto: Larissa Pujol.
O encontro, como labaredas do fogo, corre depressa por toda a cidade. O grande corpus arde em chamas. A grande sanguínea está incendiada. A pessoa fica estarrecida. Entre nós desenrolam-se como línguas de dragões gigantescos, as caudas do fogo amado a bater o chocalho furioso das faíscas varando veloz o céu fincado pelo vento. Cresce o fogaréu, e mais, sempre mais, aumentando a sarabanda do suplício de tanta gente que busca o fim no atropelo das horas. Fica na crônica o mais emocionante e trágico cotidiano que se tivera. A fogueira das pilastras ósseas marca angústia profunda de amar, isso tudo em momentos que a força e o saber humanos parecem capitularem irremediavelmente.
A trêmula história registrada por nosso corpo entre as sombras de fumaça-cidade esbatida nos horizontes é relembrada como uma advertência: aconteceu entre nós. Nós, envolvidos pelas chamas instintivas, resultando num espetáculo dantesco de proporções inusitadas. Sofre-se a mesma estupefação. Para mais um capítulo de drama abandonado, tentando a salvação das criaturas, cabe o possível e o impossível sentimento. Em minutos apenas, as chamas crescem, avultam, assombram. O mesmo amor irmana as criaturas! Alguém procura se agarrar à vida improvisando um jeito de salvar-se. Se o seu sofrimento imenso não é menor expectativa sofrida pelo espectador que, não resistido ao olhar, acompanha os lances emocionantes que o alvo, revelando incrível vontade de amar, vai praticando. Aí temos a confirmação das palavras de Robert McNamara: o homem é um animal racional dotado de incrível capacidade de fazer loucuras.
Incêndio pleno, poderoso, amedrontador. A vontade de amar-viver como que dá uma força extraordinária à pessoa que prossegue tentando entusiasmo ao unir-se à jovem que tem a mesma disposição e está contando com o apoio nu d’alguém. Mas, o auge do horror! Enganar-se tem sua pior frustração. Os desesperados em liberdade, querendo viver, vêm ao encontro da morte. É o ponto supremo da tragédia. Não existe quem se não emocione diante de um sentimento tão amargurante.
Dominando milênios, o fogo, às vezes, se lembra de sua natureza selvagem e, escapando aos controles, ameaça a vida de todos. É quando o homem esquece os conhecimentos que acumulou ao longo dos tempos e reage como o primeiro de sua espécie ante as chamas da floresta desejada: foge. E mais das vezes: morre.
É o jovem casal apegando-se à ideia de amar...
O grande amor, como os grandes incêndios e os grandes rios, nascem pequeninos; mas todos se esquecem de manter a calma. Comovedora solidariedade do amigo vai animando circunstantes generosos, todos de gestos tresloucados de pânico total na soberba das gotas. Eis que soube manter o sangue frio em meio ao inferno surpreendente. Salva como prova dita: a calma é regra básica que pode orientar o comportamento d’uma pessoa cercada pela intranquilidade de todos numa situação de desespero. Pessoa ajuizada: bem-vinda à vida.
Como um adeus à queimada das sombras de fumo esbatidas da terra assustada para um céu tristonho, fica o espectro do corpo. Trágico espectro torrado e chorado pelo cáustico das chamas apaixonadas que foram violentas. Uma imagem que apunhala o olhar saudoso de um substantivo amedrontado. O espectro do corpo sem estrado vale como advertência esperando providencia para nunca mais fatos iguais possam ser repetidos, e para que não tornemos a chorar mortos interiores, nem lamentar feridos em outras tragédias da angústia. Que seja lembrado: a dor existe onde a ilusão falha.