sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Cerco bestial

Jogaram-no contra a música incidente. Partiu de seu rosto a pesarosa concordância de filho sem que o houvesse acompanhado. Planeja, pois, o erro conformado da sutileza que antes rira; e, sem um hirto costume bajulado e incapaz desse maior que se abandona...
De livros e fins carrega-se a verdade de que as leis se interpõem à justiça muitas vezes. Estão aí, não para facilitar que se faça o bem, senão para preservar os conceitos parvos que nos mantêm escravos da nossa própria estupidez.
Beethoven encaminhou para a morte lunar seu ensejo de trato – no lado direito do vício. Viçosa madrugada em que alguns pássaros vigiam o próximo minuto de despreparo. A velha culminante mortífera agora cose o agasalho nosso. Suaves dedos oprimem veias na calma d’uma paixão. Pressionam o sangue, ponto a ponto, a escapar do segundo outro... Agarra e escreve o destino de carótida rompida; passeia nas brechas das pontes. Vai-se jovem e inconformado indefinido do seu próprio bem. Tempo em seu leito de primavera...

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Rhode Perfume

Pronuncia-se rodja - rosa -, palavra no mapa confuso daquele vermelho escuro dos seus sapatos... As torneadas mornas dos passos, denunciando o labor das quarenta horas semanais, dizem suas pernas ainda de uma presença que demora na desordem da minha cama. – Admirou-a aprendendo...
É no seu abraço que o olor presencia o deleite imitando o esquecimento do mundo e a associando a uma imagem de nudez à espera... Rosa percebida desde o instante da última vez do que seria a próxima! O hoje sem data se cria na casa sem relógios. Um hoje ontem ou iludido amanhecido, mas amigo da ordem. Ambas se apalpam com mãos ansiosas, acariciando a mornidão de suas cinturas.
- Fico a noite toda. – Disse a recente aprendiz d’outro feminino ao ouvido dela para que, enfim, a sala fosse fechada e o meio daquele entardecer se esvaísse logo com as vestes cansadas de giz...  - Não faremos vida. – Continuou a recente aprendiz, ainda na casa-lira dos vinte anos...
- Mas a continuaremos, minha garota, como ela deve ser gostada. – Soberaneou com toda sua experiência cinquentenária!
Beijam-se impacientes ao encontrar a maciez da carne moldada aos instintos femininos... A vivida rosa afastou-a com uma ligeira rudeza masculina:
- Seremos perseguidas! Estejamos preparadas. Tenho experiência em “censura”. Além do trabalho, fui criada para casar, casei. E, casada, a usar nome do marido, anulando meu crescimento, minha história... Pertenço a uma geração que foi muito reprimida... Perseguida, repito. – Alertou com afagos, agora, maternos.
- Mais do que uma a outra se persegue, não... – Desafiou a mais nova.
- Hahaha... Ah, contigo, as asas são altivas, que linda. Típico de uma moçoila que vive, desde os anos 90, para encarar e não se jugular. Que linda! Que de ti tudo preciso! Que linda! – e passou uma de suas mãozinhas ausentes nos cabelos... Cabelos estes com dois fiozinhos brancos que não ela cuidara na hora de passar a tintura...
Agarrou-se nela com gesto de liberdade. No entanto, a recente aprendiz d’outro feminino pretendeu devolvê-la à solidão por instantes fragmentados dos segundos... Abraçou-a novamente e, como a soberana tem menos altura, encurvou-se para beijar seu pescoço, sua nuca encoberta pelos cabelos curtos e tingidos, seus ombros... seu ser inerte que, agora, oferece a boca o quanto sua moçoila queira... queira aproximá-la docilmente da rua liberta. – Ai, mas os dentes desta minha pequena são afiados como uma censura! – pensou em viva-voz a recente aprendiz d’outro feminino...
- Preciso me certificar que és a pessoa de corpo presente. – Murmurou Rhode sabendo vivê-la...

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Um decote entre a fosca cabeleira

Que toda ingenuidade se dissolva... E quanto mais se dissolve, mais nítida ficará o que há por trás dela... (Foto: Larissa Pujol)
Foi após o solo Waltz In A Minor, de Chopin, que a porta bateu quebrando a pueril compreensão da última conversa. Num sobressalto, as ondas da fina cortina branca – branda e transparente – desdobraram-se como as páginas do seu próprio livro. A voz lhe foi varrida, mas nada a associava à ideia de surdez... Acústica sensação perspicaz daquele alvoroço soado entre as feridas ditas.
A sorte é boa para o que eu sei; e o perfil oculto em cima dos ferros escuros e debaixo das últimas fumaças, naquele corredor, cuja claraboia se visava artista, seria uma geometria a mais entre os círculos e rombos de uma destruição abstrata... A única ternura vinha de baixo, dos ferros que a levantavam...
Clássica música sob o telhado das calhas. Calhas prateadas solenemente pelas teias de aranhas tecidas entre as pardas madeiras carcomidas... A dor é compatível com os dias em que o indivíduo esconde suas doenças para não ser abandonado pelos seus demônios. A coragem o possui com frequência num ser por si mesmo. Ela se afastou da grade, então, com passos retrógrados d’uma aspirante à figuração... A causa não era a selvageria da sua lastimada fera, o cheiro do Nada exalado pela álgida fossa, ou o livro que deixou fechado como um tabefe... Voltava à casa perdida porque nela – e juntamente a ela –, nesses dias sem luz, Beethoven uivava para a morte no alcance de suas mãos solfejadas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Para as sobras dos pés

O resto solitário dos dias voa além dos montes, tão longes não sonhados pelos futuros e acompanhados tempos, a criar dispersas rotas ao expresso. A solidão é o seu melhor ser. Ela entristece se se acolhe com o pensamento no outro, fechando os olhos recusados a acreditar na glória da fuga que espera o solitário.
Compreensível aprendizagem na eficiência do mergulho a grande velocidade que lhe dá o cerne amado à eloquência da visão. Saboroso e vivo a alguns metros da superfície isolada do próprio mar de conversas, cuja precisão da saciedade dispensa os palavreados que, como pães amanhecidos, tentam definir a solução. Mesmo assim, o resto solitário do dia nina um corpo esfumaçado que aprende a dormir no ar, estabelecendo o percurso noturno pela lufa do largo e cobrindo mais de cento e incontáveis amores por segundo, desde o ocaso até a aurora do controle interior...
Nevoeiros costumam por brecha do aberto a nos oferecer a cara d’outro para análise. Até que o impulso guie asas ao clarão estonteante acima das cinzas pairadas, a terra é uma amostra dos conjuntos acompanhados pela lama abjeta a esculpir pessoas oriundas de seus sentidos. Recolhe-se a alcova nos altos ventos do continente... Ao bando, os insetos! Solidão não cobra o preço do medo e da cólera que racionalizam o motivo a ser humano. E o outro na vasta lida perturbando o pensamento e encurtando a vida com definições. Só, dia longo e feliz. 
Longo é beijo do amador, bandida...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Rhode: Raise bet!

Aninhada sobre o ventre de Rhode, esparramando os lábios...
[…]
Rest your weary head and let your heart decide
It's so easy, when you know the rules
It's so easy, all you have to do is fall in love
Play the game!
Everybody play the game of love
[…]
This is your life
Don't play hard to get
It's a free world

Em nosso jogo, infanta intenção seduzida que aprendeu com Musset a séria face dos dados, as palavras são palpite de risadas mordiscadas com tragédia.
Tudo se regra à predestinada oportunidade enquanto a estratégia já descobriu. Angústia. Chegar à perfeição em pele, mas o atual alcance da mesma se dá em boa companhia... Parte a comédia verborrágica na qual abusamos da sedução e dos maus-tratos. A vida louca questiona o arrependimento – este transgressor – sobre um déficit de atenção. Se cada instante contigo para mim se torna uma abstração da eternidade, Rhode, não tenho do que me arrepender! Crivo o pasmo sonho em tua face tabelada de vencedores...
Que peça tua brinca com minha angústia? A tua chegada, pivô de todas as estratégias, fecha um tempo a outro que descanso com medo da solidão. Universal declaração, mas com algum ímpeto teu. Fantoche social corrompido, a permanência torna-se leito educado sobre os túneis. Às nossas pernas, a caminhada longa e oprimida de pinos casa a casa – de família – e um perfeito lugar por baixo da mesa para extrairmos os falsos pudores.
Ao final das cartas, agora em terra, as tuas apostas sou eu. Com afã a vitória se adianta lutando contra os fundamentos mais misteriosos da vida, de ti ou de mim. Consequência da nossa elegância amorosa sobre o salto alto...