sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O segundo começo com ela

"É próprio da mulher o sorriso que nada promete e permite tudo imaginar..." (Drummond). Foto: Larissa Pujol.

Seis da tarde. Hora para encher as ruas unindo-se aos demais cansaços do dia. Hora como era de se esperar, diria o Chico... De ouvir batidas descarregadas nos portões... De colher nos pés o calor do asfalto e algumas lascas de pedregulho que insistem nas brechas das sandálias rastejantes...
Entretanto, às seis da tarde, estava ela na sala dos professores com Rhode. Compartilhavam risadas entre sorvidas num chimarrão verdinho, de paz quente e aveludada, que renovava qualquer fardo docente neste fim de turno. Os demais colegas já haviam fugido para aproveitar cada segundo de pouco pensamento em suas casas... A sós com ela, Rhode, aparentando leve rouquidão após dez períodos de aula, dispara-lhe um convite:
- Daqui a pouco teremos de fechar o colégio... Vamos sobrar por aqui se não formos embora logo. Queres ir?
A entrega desta pergunta soou à sua garota uma explícita fantasia amorosa, visto que Rhode falou com a boca muito próxima a ela. Mas resolveu concordar com a ética da profissão...
- E o turno da noite está por chegar, né?! Que tal o Ponto de Cinema? – Citou um local público para que Rhode não pensasse fáceis diabruras da novata colega.
- Depois de nós estarmos no meio de alaridos, conversas, burburinhos e todos os sinônimos possíveis de um dia louco? Poupa-me! – Retrucou Rhode com puxada voz firme que ordena a didática...
A menina professora ficara sabendo que nas últimas festividades dos colegas, Rhode não havia sido convidada por causa de tais impulsos... Então, a professora garota se recolheu como aluna que fora advertida com um bilhete para os pais. Abaixou os olhos. Rhode, compadecida com a sensibilidade da sua menina, tornou a apaixonar a voz... 
– Meu pequeno apartamento – que enfim está só, sem marido e sem filhos – é próprio para receber confissões entre duas... pessoas.
Ah, com aquele sorriso-piano Rhode abria toda a competência dos sonhos à sua menina... Como uma pluma, voou junto à experiente mulher – levada pelo seu perfume importado que comprara em Rivera - até o seu apartamento, sem perceber as ruas que percorriam, os carros atravessando, a gente e os animais que cruzavam seu caminho. Rhode guiava tudo com pés firmes no chão, carregava sua garota hipnotizada nos braços gostosos dos assuntos e da educação que prestava.
O elevador subiu suspirando. Era um prédio de alto-padrão, próprio de uma professora que chegara à classe F do magistério com seus méritos e tempo de serviço. As luzes de um só foco e plena iluminação denunciavam a fina modernidade do corredor daquele piso... Os passos sem barulho, mesmo com o altíssimo salto agulha de Rhode... A chave que ela encaixava com toda secreta invasão rodou com brandura duas vezes e a porta leve abriu-se a ambas com escuridão e escusa. 
Continua...

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sedimentar vênus

Concreto que ao corpo acoberta entre os verdes suspiros afora. Fantasia-se a história de véus. Sobe-se como sentimentos, espiando janela por frestas. Colhe-se folhas e pedras, pensando na evolução sem ao menos preservar o evoluído...
Cores são vistas e prescritas a cada curiosidade. O céu mesmo, as cores tranquilas e pingadas, as mesmas. Qualquer visão ao alto esperançoso se pensa no vazio da escuridão... Quem também esperou sentindo-se diferente, porém comum? Monstro de fraco sopro na corrente do Letes! Linhas finas em seu céu pouco de olhos consumiram sua natureza em números contados golpe a golpe.
Passou matéria de si, então, lá existia grande trabalho de sangue e patifarias de erros que insistiam na mudança, porém. Sentiu falta até esta ser ofuscada pelo grande assombro do muro conformado. Calor de outras belezas cruzou ângulos entre suas pestes, diluindo a terçã enfermidade. Remediou-se de bocas em seu solo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Nas permissões da prata

Pelos olhos que a movimentavam. (Foto: Larissa Pujol)

Oleosa plástica nas mãos remediadas de preguiça, entre todos os capitéis de pústulas arrebentadas por alguma faísca de velhice. Ao próprio mar, fustes cujas arraias à sangue se inchavam de moléstias crescidas pela pintura a óleo... Enquanto ela pudesse aparecer com cornijas, aqui, o olhar argento a fazia num vazo romântico de sua repetência. Ah, quantas recordações sob sua guarida! O espelho é o melhor narrador em terceira pessoa. Pensamentos: altos dos elzevires numa vidrada visão espaçada entre alguns riscos e pontos sujos da própria condenação.
Por vezes perdida, pergunta ao ponto de se confiar se o cristal à frente pode ajudar... Ou se a única pessoa ao longe, mas dentro daquele cristal, pode encostá-la. Entretanto, uma dose, bebida depressa, a faz considerar a situação mais calma... O espelho já havia retido a imagem. Ela estava escondida novamente.
O ambiente, deixado entreaberto, sofria uma leve passagem de ar vindo de outras frestas. Ele se fechava à suas costas cobrindo-a e encobrindo-a. Somente para a pouca imagem, agora, ali refletida restam poucas horas... O espelho sempre tem pela frente um tempo amplo e propício. Às vezes gosta de nos possuir da maneira mais lenta e sustida. Figura de estima que muito se ergue para si, e por ventura, pelas palavras do outro, quando nos umbrais dos medos, permeia um sentido longínquo onde vela a palavra de um corpo onímodo. De si – o espelho nos observa – há outros ritmos e finalidades.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Corpos primos

Onde a atitude monástica permanece na loucura: sobre ser o alento, o tesão e a rara fonte de alegria na "altura" da vida de alguém... (Foto: Larissa Pujol)
Eu escolhia meus dedos enroscados, mas não perdidos, nos curtos fios secos que ele deixava acarinhar. Eu escondia e emulava um fio e outro na nuca nervosa daquele homem admirado com seu próprio sonho ali presente, observando entre sua pele anosa e seus cabelos um metafórico mármore grisáceo e desgastado de vida... Seu medo, assim, como lápide de cemitério, se esvaia do meio daquelas cinzas macias deixando um remoto frescor... Ele palpitava a respiração. Eu velava a vontade que no seu menino adormecia há mais de uma década, despertando-se a si mesmo quando os olhos fechavam e o tato o permitia sentir em minhas pernas uma expiação pela tortura.
Eram ruas de ladeiras asfaltadas entre semáforos e velocidades apontando o destino do tempo que corria. Lombadas em sua testa com sobrancelhas arqueadas, os sorrisos curvados de todos os “sim”, mãos que trocavam guias em minha pele. Nós, iluminados a dia, como toda multidão que escapava para baixo das marquises – linhas curtas de acordo com o mórbido inchaço da bola erguida que, ao encontrar qualquer magote, arrebentava qualquer esperança de sombrio alívio...
De fim para cá, enfim, casa! Trocou palavras para se mover no presente. Conseguimos chegar longe, longe de um ontem que se abandona... Não creu, e me aproximei da pungente tentação que o acabrunhava. Para seus lábios petrificados, ele aceitou responder-se a si que era capaz de. Tremeram-lhe as mãos com minha novidade. Sua pessoa, então, havia se integrado a verdade do seu próprio corpo. De Homem policiado, racional, nascido na Era Kubitschek, desintegrado e cansado passou a Menino saudável, corado e arteiro: Macho acima de tudo! Entregou-se a mim rejuvenescendo esse louco menino na correria do vento norte e cálido balançando os trigais, as flores, sua primavera... Deitou-se comigo sobre os minutos contados e recuperou em seu homem a vetusta alienação da nudez aproveitada.