sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Farelos prudentes

Há um pássaro alcançando a convivência da gente nos riscos d’um caminho qualquer. Olhou a silenciosa pujança da sobrevivência sobrevoando os postais calmos que se assiste desejando.
A gente não aprende que possui asas, mas as apreende. Como a liturgia do dia que tudo certo aparenta, faz do medo o seu propedeuta; e nas suas poucas veias a teia se encerra no jugo do cerne corrompido e vazado nos vetos.
Contornos pingados, pastosos pastoreios de vaga recordação, seus contatos alados bradam a perda. Indagam na verve posterior qual olho será perdido pela vida que busca a si mesma. Nas mãos da perspicácia a fraqueza é alimento a outrem... Aos pés do cretino a bondade não é segredo sorrido.
Visou a gente a aurora daquele pássaro. Sob o lençol argento vai cortando este frio carnal que despede o véu. Parada semelhança da presença justificada de ira e paciência – tão loquaz – cuja criação se tem morta. De nada as dores cometem o nascimento. É permitido, é quebrado.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O segundo começo com ela IV

Mais nova a beijando entre cabelos e costas para despertar ao som de I write a song for you...
- E aí foi porque eu gostei dela, porque queria entender a completude do que é ser uma mulher, e dei a ela todo o prazer que podia... Foi me puxando a ela até que eu pudesse dizer sim. Primeiro coloquei meus braços em torno do seu miúdo corpo. Os seus envolveram minhas costas com todas as mãos que o sentimento lhe dava. Ela me puxou para junto de si para que pudéssemos sentir o toque dos nossos seios. Pares perfumados. Sim, e o coração nosso disparava do mundo como louco... Sim, eu disse a ela: sim! Eu deixo sim, beijo sim, eu a amo sim!
- Ah, minha garota de quase trinta anos... Tu és a melhor James Joyce sobre a primeira vez entre duas mulheres...
- Não sei por que o igual ainda pode confundir tanta gente...
- Gente estranha essa! Tenta se completar no oposto, tão logo se esquece de si no outro que repele e repele, aos poucos, formando a infelicidade. – Começou a escolher peças de roupas para o dia inteiro enquanto sorvia com cuidado um mate recém feito...
- Essa gente perde tempo gerando estatísticas de reprodução.
- Gente que deixa de amar pessoas para amar gêneros...
- Ok, mas deixemos a gente amar-se livremente, cada qual com sua merecida entrega, Rhode... – Vestiu-se e tomou as mãos dela olhando-as fixamente... – Tenho um pedido: empresta-me o esmalte que tu usaste anteontem?! Entregar-te-ei amanhã no colégio. Hoje é meu dia de folga.
- Hahaha, claro, minha garota! Pega o que quiseres... Oh, está friozinho! Leva também este manto. Combina bem com teu colo macio, “minha” amor... – Teve mais uma vontade de despi-la, mas o dever se aproximava. Acalmou-se - Se a felicidade é estar com seu par; o par se faz com seu igual, né...  – Calçou seus saltos, pegou seu material de colégio. – Vejo-te no restaurante da esquina!
- Hoje é meu dia de folga, querida. Seria uma surpresa as duas almoçarem juntas se uma não esteve no colégio.
- No máximo vão imaginar que é uma reunião de sindicato.
- Hahahahaha. Mas tenhamos zelo, minha pequenininha... Conheço um café bom e discreto no centro. Eu te busco. Seis horas. Novamente às seis da tarde...
Caminharam de braços dados até a escola. Supostas boas amigas, parentes, irmãs, até mãe e filha passaram pelos pensamentos olhados daqueles que cruzavam por elas durante o trajeto. Foi a cada seis da tarde, seis da manhã que ambas trocavam em miúdos a espera, a cumplicidade, a paixão, a promessa, todas entre a dádiva da beleza em seu estado infinitivo: amar.



Lista de músicas:
- Fantasy. Earth, Wind and Fire
- Can’t hide love. Idem.
- I write a song for you. Idem.
- Can’t get you out of my mind. Lenny Kravitz.
- Play the game. Queen.
- Morena Flor. Vinícius de Moraes (com Tom Jobim)
- Pela luz dos olhos teus. Tom Jobim
- Wave. Idem
- Cotidiano. Chico Buarque.
- Valsa brasileira. Idem
- Trocando em miúdos. Idem.
- English folk song. Greensleeves.
- And I Love her... Beatles.
- Amar completamente. Laura Pausini.
- Dona. Roupa Nova.
- Minha flor, meu bebê. Cazuza.
- Pro dia nascer feliz. Cazuza (Barão Vermelho)
- Since I fell for you. Doris Day.
- Não existe pecado ao sul do equador. Ney Matogrosso.
- Reflections of my life. Marmalade.
- Venus. Shocking blue.
- San Francisco. Scott Mackenzie.
- Ne me quitte pas. Édith Piaf.
- The girl with the flaxen hair. Claude Debussy.
- Gymnopedies No. 1. Erik Satie.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O segundo começo com ela III



Seguiu pelo corredor, a porta ao fundo estava aberta. Um quarto amplo, de gesso forte nos rodapés e no teto para passar luzes incidentais. Uma claríssima modernidade em papéis de parede, móveis suaves e dois criados-mudos que exibiam três porta-retratos – na cabeceira dela: seus filhos, ela mesma. Na cabeceira ao lado: o casal... – Mas sobre a cama de casal havia uma mulher madura com roupão com laços entrelaçados, mas pretensiosamente soltos, e permitidas fendas que transpareciam nudez total. Não sentiu culpa. – Minha colega! – Exclamou a aprendiz do outro feminino...
- Entra, minha garota!
E a sua garota prosseguiu calada. Esta garota que não tinha nada ingênua e já tinha grandes alfarrábios na sua vida sexual, já que perdera a virgindade com dez anos de idade...  Sexo sempre lhe foi instinto. Cheiro de homem, que fosse ela de quatro, de compasso e aberta entrega! No entanto, perante Rhode, ela permanecia calada, paralisada!  Esse medo advinha da normalidade do amor, melhor dizendo, do amor-comum que construíra a sociedade... Sentiu-se penetrar nos aposentos decassílabos de Safo... – Vais continuar aí?
O quarto estava mais claro que a sala, despertando na menina a maior vontade de espiar entre as dobras daquele roupão rosa... As pernas de Rhode deslizavam sobre o lençol, uma sobre a outra como serpentes. Logo, levantou-se e ofertou uma música.
- Lembras que compartilhamos os mesmos gostos musicais? – colocou o CD – Quero ver se sabes o nome desta música e quem canta...
Em duas notas, a garota respondeu:
- Fantasy, de Earth, Wind and Fire.
- Boa menina! – E Rhode desatou seu roupão. Sentou-se na cama. Com os ombros descobertos, mas com o resto do corpo escondido, ordenou: – Massageia, minha colega!
A novata acatou a ordem. Ficou de joelhos sobre o colchão fofo, e atrás de Rhode, preparou as mãos, os dedos... Praticou a relação possuída e possuidora que se deve ter com pessoas “mais velhas”. Duas belas professoras! Uma experiente, outra que se confiava àquela permissão grega e sexuada entre ensino-aprendizagem... Com os polegares, a novata oprimia com serenidade seus músculos, deslizando nos ossos as costas das mãos, pele a pele no arrepio da entrega. Rhode foi deixando cair o roupão enquanto, no vão de seu dorso, a mão de sua menina escorria indubitavelmente toda leveza agraciada entre mulheres. Virou-se para ela – Vou deitar de bruços. Completa, guriazinha!
Rhode deixou para que ela tirasse o roupão. De costas para a novata, seus músculos tinham uma mágica feminil que aproveitava com dedos, unhas, palmas das mãos, cheirando-a, montando-se sobre suas nádegas nuas... Até esta hora, a novata ainda vestia o roupão branco! Ah, a cintura magra de Rhode, as voltas oscilantes entre desejo e olhar – queriam beijos! Nádegas que suas mãos encostavam e daquelas montanhas se percebia o poente na espinha... Montanhas que a levavam, levantavam e desciam as retinas de sua menina!
- Quero me virar para a tua frente... – Rhode se virou e se afundou na cama, relaxada. Olhou para a surpresa de sua aprendiz que falava somente por suspiro... – Entre mulheres não existe pudores! – E com toda libérrima feminidade, Rhode esparramou os curtos cabelos recém tingidos de preto sobre o travesseiro com a magia que trouxera sua mocidade...
Os seios da madura rosa, com os quais amamentou suas crias há vinte e poucos anos, estavam firmes. Mais firmes que muitos pênis, tão firmes quanto a concessão nua da menina que desatara o roupão transparecendo a pele alva à fixação da outra... Tão macios quanto o crime da liberdade em ser feminina. A moça tomou cuidado para não tocá-los. Massageou um nervosismo de ópera, rápido violino, em seu colo e sua cintura, esquivando os olhos para todos os lados. Pensou em Francisco, em João, em Rafael, em Pedro, em Paulo, em Roberto, em Erico, em Carlos, em Lucas, em Otelo, em Bentinho..., e em todos os diabos que a puseram de quatro e receptiva como se esta fosse a única atitude fêmea para uma mulher viver. A moça sorriu para si e abriu os olhos para Rhode já acostumada no deleite...
A nudez se completava naquele corpo miúdo. Aos pés dela, a garota massageava suas torneadas e abertas pernas. Do seu negro meio fluía o entregue e invadido olor amado de mulher. Um olor que – deduziu a moça – há remotos tempos seu marido não provocara...  Voltou a assentar-se sobre o quadril da mulher. Vagina com vagina. A moça parou a massagem e se fixou no rosto fino daquela senhora com a maior segurança em retribuir-lhe amor.
Aproximou seu tronco ao de Rhode. Com leve toque da ponta do nariz, ela foi metaforicamente constituindo traços retos na sua pele hidratada e fina. Rhode arqueou o pescoço para trás e boquiaberta esperou o beijo, mas a menina apenas sorriu-lhe timidamente apenas com os lábios. Beijou levemente sua face e escorreu-se para seu pescoço. Carregou os olhos de lágrimas e deitou sua cabeça entre os seios da sua colega.
- Quê, minha menininha?! – Rhode tinha o melhor afago do mundo. Deslizou os dedos pequenos e finos na cabeleira de sua aprendiz para acalmá-la. Riu com seus melhores dentes, com sua melhor mulher vivida...
- Sua menininha aqui tem quase trinta anos... – Disse chorosa e num tom de pessoa velha e maníaca.
- A juventude sempre está pronta. E nós estamos, minha menininha. – A guisa séria de professora tomou os ares de Rhode. Estava ensinando sua colega. A garota sentia o suave encostar dos lábios em seus seios a cada respiração dela. Inspiração de ar que lhe foi dando mais vontade, mais entrega, mais tinta incolor nos encaixes entre as duas, vivendo tudo o que se apaixonaram antes por meio de olhares, toques sem-querer, abraços cúmplices, pensamentos correspondidos, provocações e ciuminhos... Entre elas emoções se acoplavam naturalmente.
Tiveram o melhor experimento de prazer. Cada uma reencontrava esquecidas partes de si mesma na outra... Cândidos toques desabrochavam o feitiço feminino das ternuras em estado nascente.  A menina colhia sustento viscoso de sua Rosa. Terminaram com as horas, cantaram tropicalismos de cabelos longos, enfeitaram-se de carinho e belas vontades feminis de se confessar amor! “Te amo” virou ritmo. Poesia de pernas macias e anjas que queriam ser!
- Uma selfie, amor! – Lá se registravam a jovem e a mulher convicta de mais uma parte de sua vida... O Vininha, com disposição impressionista, reescreveria seu devotado soneto: “mas na moldura de uma cama, nunca mulher nenhuma foi tão bela quanto Elas!”
Continua...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O segundo começo com ela II

"Corujinha" "Wuho! A te estremecer, escondidinha, como poetizou Vinicius de Moraes" (Imagem: Larissa Pujol)

Um apartamento planejado para neutralizar ruídos. Lá dentro o dia esquecia suas horas. Poderia ser seis da tarde, como seis da manhã, três da tarde... Cortinas, sofás, tapetes compunham um cenário macio imerso em luzes indiretas. Dia ou noite, o lado externo – tão longe – não importava. Soltaram seus pertences pedagógicos numa mesa de vidro... Rhode se jogou toda aberta no sofá, recuperou uma boa cara de arquivo, e mais afável que no colégio, ria mais, sorria voando, tagarelava com o único compromisso de ser feliz... Mui linda, uma dádiva de D’us! Ela puxou sua colega pelo braço jogando-a em seu pequeno colo naquele móvel... A cabeça da menina se acolheu sobre o peito da rosa. Ali ainda restava algum pó perdido de giz... Rhode a acarinhava passando-se com unhas-arrepios nos braços e cafuné.
- Suor pedagógico. – Disse a garota professora sentindo o gosto úmido da outra pele feminina em seus lábios.
- Temos os melhores suores. Mas o mate lá no colégio, o calor, a caminhada e o dia letivo ajudaram a nos derreter ainda mais... Espera um pouco. – Rhode se desvencilhou da jogada que havia feito com ela, saiu descalça e pequenina até a área de serviço. Retornou trazendo duas toalhas e dois roupões.
- Estes são teus. – Entregou amavelmente – Vamos tomar um banho?
- Tu, primeiro. – Arfou e tremeu.
Rhode percebeu a insegurança da sua colega e resolveu compreendê-la. Afinal, muita didática paciente na hora de ensinar, pensou a experiente professora...
- Ok, minha menina. Do banho vou para o meu quarto. Espero-te lá. Também mereço uma massagem daquelas que tu fizeste numa colega nossa... – Disse em tom de convocação, encobrindo ciúme.
- Nossa, nem me lembrava mais! Foi na hora do recreio. Ela estava com dores fortes nos ombros e me pediu auxílio... Estava cheio de gente na sala dos professores, mas não me lembro de ter te visto.
- Não, realmente eu não estava lá; porém tenho meus informantes.
A aprendiz do outro feminino adorava o tom de perseguição de Rhode. Ficava claro – pensou – por que esta professora, que pediu massagem, se distanciara tão repentinamente da novata... Existem outros casos, mas é melhor deixar para o esclarecimento da perspicácia.
Rhode se dirigiu ao banho. De lá, avisou:
- Tem Ice e Keep Cooler. Água também. Fica à vontade.
Na verdade, a garota já estava, sim, com muita vontade! O álcool era desnecessário, mas bebeu uma dose de Ice para refrescar a imaginária situação que projetava em Rhode se banhando: suas pernas pequenas, seu corpo magro e cinquentenário, seus cabelos curtos, sua pele morena. Anuviou em seu prazer a espuma que se confundia com sua saliva amorosa de menina, escorrendo sobre os pelos pubianos da rosa, entre as coxas... Respirou fundo! Resolveu parar com tais platônicas. Haveria uma massagem somente, uma conversa para encerrar os assuntos e uma despedida para, enfim, poder voltar a sua casa, tranqüila... O chuveiro foi desligado juntamente com o último gole deglutido com ânsia. Terminou a garrafinha... Era a sua vez de tomar a pancada d’água. Esperou Rhode sair do banheiro e espiou da cozinha o balanço dela até o quarto... Estava linda naquele roupão rosa-bebê, com os cabelos molhados, gingando pequenina - quitou a parte da despedida... Não há problema se voltar uma ou duas horas mais tarde... Abaixou a cabeça e se foi ao banheiro sem olhar para os lados, talvez para não estragar as demais surpresas.
Tinha banheira com hidromassagem, um chuveiro belo com bocal largo que jorrava com ímpeto a tranqüilidade. Deixou suas vestes dependuradas sobre um armário baixo e mergulhou nas águas borbulhantes... Rhode deixou um olor forte e gostoso de floral vintage confortável que oferecia um ar milagroso de primeiro amor... Seus sabonetes, seus eau, seu gosto refinado... E a menina professora ali, pertencendo também aos seus gostos refinados! – Ah! – Deixou-se viver enquanto os jatos da banheira tremiam-lhe o corpo todo – por dentro também.
Secou-se, vestiu o roupão branco, calçou os chinelinhos que Rhode emprestou. Pensou na sorte de as duas calçarem o mesmo número, 35. Ouviu seu nome pesado na voz convocatória e urgente de Rhode. O quê fazer? Tornou a ouvir e respondeu-lhe calmamente um “tou indo” toda carinhosa.
Continua...