sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Machuco o beijo

O limite mostra diversos caminhos que chegam a ele. Já agradeceu a sorte de ser escolhido? Teme se resolve pousar enquanto as asas não envelhecem ou se seus pés criam passos envolvendo lembranças. Em cada tentativa de censura, existe uma sabedoria capaz de cruzar o olhar com a luz. Então, os dias vão aquecendo a caminhada neste amor que, a-mar, transborda.
A carne jovem em dança evapora... Desaparece pelos passes a sua mágoa, e os olhos alegres rompem a aurora... Todas as horas levam ao fim, como baixando o véu róseo das figuras sombrias que se tornam os mais belos trejeitos abstratos do que se pretende. Meu D’us, há uma cintura em meu horizonte... À minha janela, por onde meus olhos lhe perseguem os vales, meu primor vem a ser a angústia de sua saudade...
Na verdade, amamos tudo o que nos desobriga! Mas, quando aprendemos que o sofrimento pode nos melhorar apreendendo-nos, virar o mundo de ponta cabeça, ocasionalmente, é questão de exercitar a resiliência. Sair da caverna de Platão para brincar de Aristóteles numa vida que transcende a filosofia... As idéias submersas dissolvem-se em pétalas além-flores de si. Descobre a bela ida mergulhada em si, cujo ar que a vive submersa, a inspira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pluma

Ela ia ao sabor da direção do vento. Testava o horizonte na percepção de uma nova ideogenia... Uma amenidade que me conteve ao mirá-la. Segui, então, a sua doutrina por alamedas e olhares facilitados. O espaço tinha a ela! Individual figura que me concedia o mito do belo, aliás, recompensava.
O dia se depauperava. O sol se despediu com imponência para o ciúme da noite que chega. Pessoas se afastavam fastidiosos, aceitando a desvantagem de suas energias... Os muros fechavam seus olhos com as sombras vindouras... Mas, ela, aqui permanece e torna clara a graça deste tempo, que sempre é hora de amá-la. Em minhas mãos ela se traz habituada com o meu silêncio... Solta-se e me dedica flores a mais na minha vida: uma composição para escrever em pé e repelir letargo! – Repito. Sequer a lua, que longe adornava o reinado estelar, é acrisolada como ela.
Fazer uma notícia que ontem provocasse, pois, a infância. A novidade, deveras, sente a ocasião deste nosso sinal, cuja displicência dos sonhos aformoseou da amizade ao carinho, da espera à ternura. Foi lesto o crescimento, e por nós ele se apaixonou... A fresta que permitiu a luz angaria a nossa necessária respiração imediata. O apoio tomou as proporções de um horizonte sinuoso, tal qual provocaste na primeira linha deste caminho, – como eu deslizo minhas mãos por tua cintura, otimista.   

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O segundo sopro

Resolvemos dormir. Quem confia, na aliança do hábito matrimonial, o espaço de total descompasso do repouso, sabe que o sono apenas chega com o embalo de ambas as respirações, naquele abraço circundante da mesma noite.
Entre um comentário e outro brevemente fechamos os olhos. Era “meio-da-semana” e o meu descanso já penava durante o trabalho. Talvez ela houvesse dito mais algumas palavras, que o movimento taciturno do assunto me acomodou ainda mais em seu ninho...
Passaram-se três, quatro horas de repouso até que ela me acode, me reanima assoprando todo seu ar para dentro de mim, segundo seu relato:
- Amor! Graças a Deus! Estás bem? – ela não esperou minha resposta... – Tu tiveste apnéia! Tu simplesmente paraste! Paraste de respirar! A tua pulsação parou! E tu ainda não me respondeste! – Nesta hora observei que nem meu pai havia dito tantas exclamações numa só frase... Comecei, por fim:
- Não sei... Digo... Parece que “voltei”. Estou com uma forte dor no peito, mais ainda no pescoço, em sua musculatura, e nos canais aéreos que conduzem o ar aos pulmões...
- Não fales muito. Mantém-te acordada! Vou buscar água para ti.
E lá vinha ela com rara carinha séria confundindo seus quarenta e cinco anos entre as agruras da preocupação e o medo infantil de perder algo considerado valioso. Minha pequenininha...
Bebi todo o conteúdo do copo. As dores aliviaram. Ela fez massagem com relaxante muscular nos pontos dos quais me queixei. Fui melhorando aos poucos – aliás, aos pouquinhos, para ter suas mãozinhas me abençoando por muito mais tempo... 
- Como tu “descobriste” meu mal-estar?
- Porque eu despertei com a falta do teu “embalo” e do leve sopro que sinto quando respiras. O costume faz isso... Se tu não tens o que te é cômodo, tu despertas!
- Continua...
- Então notei que teu braço estava muito pesado. Foi apenas colocá-lo estendido ao teu corpo que ele “desabou” e levou todo o teu tronco para o lado. Desci da cama, acendi a luz. A tua cena me assustou, Amor. Eu te chamei uma, duas, três vezes. Eu te gritei! Mas tu permanecias inaudível e com corpo mole. Tomei teu pulso: nada. Tentei perceber um fio de respiração: nada. Não! Não pensei, nem penei chamando o Socorro porque sei que com a lengalenga deste serviço tu não sairias dessa, querida! Assim, puxei tua cabeça para trás e te soprei todo ar que eu dispunha nos pulmões...
- Faz sentido. Enquanto “voltava” senti como se esvaziassem um balão de ar na garganta.
Olhei-a com todo significado. Tornar-se-ia para um deus enquanto ela continuava com sua carinha de precaução.
- Que curioso... – sorri-lhe tremendo os lábios - Tu me deste o segundo sopro da vida.
- Isso se chama “primeiros socorros”... – sorriu timidamente.
- E único. Bastou para pegar uma parte de ti... De ser tu...
- Daqui a pouco serás tu a me devolver o sopro.
- Quem sabe começo pela tua nuca...
De fato, então, eu me mantive acordada, suspensa pelo fio condutor da vida chamado sopro - ora chamado fôlego, ora chamado tesão! Ela não compactuou com minha exaustão cardíaca, mas beijou esta região expandindo toda sua boca... Passado o dia, voltei do trabalho; e sobre a mesinha do telefone estava um bilhete com letras graúdas e corridas, agendando meus horários para diversas especialidades médicas... A minha pequenininha, como namorada, é uma ótima mãe...

sábado, 5 de dezembro de 2015

“Minha bela Marília”

Elegia. Desenho a lápis de cor e toque de caneta pinche.

Tomás ao seu nome agraciava com altivo vigor a calma da pétala no toque de sua pele. A beleza sua, Marília, usufruía o tamanho da paz, e as liras de pesar ainda lhe complementavam o encanto do meu pensamento.
O gosto em mim não faltou, Marília. A misteriosa flama criou de minha pequenez o corpo santo do meu fantasma adulto. Acreditei na memória implícita ao ter a consciência do depois. Agi automaticamente, Marília, ao lado que você não me via: era a benevolente capacidade da boneca que sua imagem me servia bela.
Não sabia, mas não parava. Melhor, tinha-lhe eu a mais rósea curiosidade. Ah! Aquela cara de Marília! Cara moldada na profundidade sanguínea dos diálogos de todas as gentes que dela nasciam... Cara de Marília, argumentada na melhor disposição da ventura de qualquer pessoa. E de tão minha pessoal, embora outro dia, ela ficava para sempre; pois não se despedia. Marília me era um ciclo.
Sua cara longilínea, com completo universo frequentado pelas projeções de anônimas vidas que ela se permitia nos espelhar. Marília tinha de nós o seu repertório. Dedicava-se a nós, aperfeiçoava-nos desde a fragilidade à polêmica – um rico recurso atribuído aos gênios...
A Marília foi uma das amadas platônicas que vivi, quiçá a primeira. Admirava a habilidade daquela larga risada que enjaulava dentro de sua boca a minha tenra idade de menina... Desde lá eu via na moldura daqueles lábios de Marília, como ela citou, o quadro inacabado do, por exemplo, meu apreço que lhe confiro até hoje. Não, "minha bela Marília", de você nada passa. Tudo vive! Tua verve.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Relato docente: a dúvida e o questionamento

Enquanto eu mediava o processo criativo dos alunos – que se acertavam entre poesia e disposição visual – um deles me evoca:
- Criei inspirado no jogo do “pac-man”, dos anos 80. Os caminhos a seguir, melhor, a escolher: o certo, o errado e o duvidoso. Que a senhora acha?
- Hum... Os monstrinhos no errado, os pontos no caminho certo. No duvidoso, ambos se juntam ao bônus... A proposta é interessante, mas... Tu erraste a palavra!
- Como assim, professora?
- Imagina tu chegando frente à placa na qual diz que o próximo passo é duvidoso. Tu recusarias a seguir em frente, verdade?! Ou te atrasarias muito ao tentar decidir com o medo que te enfrenta este caminho: logo te prenderias somente ao ponto de partida.
- É verdade, “sora”. Nunca pensei no quanto a dúvida nos amedronta. Mas, ai... Agora eu fiquei ansioso. O que faço?
- Tu mesmo te respondeste...
A face do aluno, como um filho, questiona.
- Sim. O caminho auxiliar ao certo e ao errado, meu caro, é o questionamento! A questão te prepara e reforça teus passos. Esses podem, até, ser mais curtos ou tardios, no entanto a curiosidade ao questionar te dará alguns “bônus” para evoluíres de etapa e te defenderes dos perigos. A dúvida instiga o medo, a volta, a desistência! É a ânsia de acertar numa terra de ninguém.
- Então, “sora” Larissa, existem os caminhos certo, errado e o questionável. Claro!
- Ponto! Bingo! Gol! – Vibrei com o caminho que ele escolheu para além da atividade...
Assim voltei com a minha torcida para os demais questionamentos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Àquela que eu não citei as cores

Se tu me deixas desfrutar
Esse róseo pálido do teu fruto
Belo feito bruto diamante
Digo-me amortecer num halo encoberto crepúsculo

Faltam-te as cores

Doente pálida cara funérea
O róseo movimentar dos lábios
E o oco escuro da tua boca
Que esconde a serpente vermelha
A sobreviver pelo ataque

Rósea coloração das pulsadas
                                 cardíacas
Em múltiplos caminhos azulados,
O roxo hematoma do beijo mordido
Suga o sangue, vampiro do colarinho degolado...

Na pele branca
Os dentes brancos
A liba vermelha e escorregadia da obsessão

Não te falta a fome

Tampouco o sorriso amarelo
No pouso das rodas do pássaro prateado.
Guardadas as asas quebradas
As penas cinzentas flutuantes apaziguarão este remendo...

Sobram-te praças

Banhas-te em pingos de folhas verdes
Algumas velhas amarelas páginas, roídas folhas
Desgraçadas traças manuscritas...
Cerco escuro alumiado fumê
Desta noite...
Estrelas te alimentam.... Alento branco esfumado em tua boca...

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um causo daqui (para os anais da escola)

Passada mais da metade da manhã, tudo na escola se conduzia para o primeiro desfecho. Os professores, já esclarecidos das reuniões, cruzavam o portão se despedindo. Alguns continuavam no refeitório a esperar o próximo turno, outros resolviam pendências na Direção, outros ainda não haviam descido do terceiro piso...
Lá se encontrava o quarteto vice-diretora, supervisora, secretária e coordenadora, anotando, repassando, ajustando pedagogicamente as sobras da manhã conforme a rapidez frouxa da fome que se apertava...
No emaranhado da concentração e da discussão, todas ouviram um estouro. O primeiro estouro (ou estampido, logo três delas assim o definiram)! Silenciaram-se atônitas e ouviram o próximo “estampido”.
- Meu Deus! Um atirador! – apavorou-se a secretária decidindo-se por fechar a porta da saleta na qual elas estavam...
Enquanto isso, a coordenadora seguiu sentada com cara de paisagem, a supervisora conseguia se aninhar embaixo da escrivaninha, e a vice-diretora buscava escapar ora tentando calcular os metros que pularia da janela ao chão lá fora, ora tentando se encaixar dentro da geladeira que ali tem... Mais três estouros num espaço de três segundos!
- Quietas! – ordenou a que tinha voz mais baixa – se não o atirador vê que estamos aqui e sai atirando a esmo!
- Shiuuu! – completou a supervisora.
(a colega que estava sentada com cara de paisagem continuou assim assistindo à cena)
Os passos se aproximaram da sala onde o quarteto estava. Chegou à porta uma respiração arfante que lá dentro, ao contrário, todas ouviam respirando o menos possível para não serem descobertas. Eis que a voz procura:
- Senhora vice-diretora! A senhora está aí?
- É a Marieta. – disse a secretária.
- Não abras! – ordenou a vice-diretora.
- Vou abrir sim! – esbravejou desobedecendo-a – Se o atirador a encontra ali, sozinha, já era! – E abriu a porta puxando Julieta com um safanão para dentro da sala.
Marieta, assustada, perguntou que havia. A secretária correu a dizer “É o atirador! É o atirador!”
- Silêncio! – soprou a supervisora, ainda embaixo da mesinha.
- Ouvimos cinco disparos. – continuou a vice-diretora.
- Cinco estouros, na verdade. – completou a coordenadora ainda com a cara de paisagem. Marieta então abriu o rosto com expressão de remorso...
- Ai, senhora vice-diretora, me desculpa! Eu não queria causar esse transtorno pra vocês!
- Ahn?! – uníssonas.
- É que eu estava limpando uma das salas do segundo ano e, como os alunos fizeram uma festinha, resolvi tirar tudo e estourar os balões... – justificou Marieta.
Até o desfecho da trama (e o fechamento daquela sala), os disparos de gargalhada matavam-nas com tamanha graça.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

E se amanhã a angústia

Ela pediu que o meu corpo renascesse em Corradini...

Amo-a calmamente entre os meus e os seus braços. Amo-a para esquecer, seja por um instante, que somos escravos da pressa que nos resta. O medo ainda pode ser um cuidado com as mesmas mãos que sufocam o trajeto do livre ar durante o corpo. Mas, do abraço dela eu tenho a composição para escrever em pé e repelir letargo...
Então, neste tácito mergulho de pelos que ornamenta o piso, juntamente estampado com suas peças íntimas e com suas arrugas, estudo um pouco sobre as relações entre modernismo e mimetismo animal. Desfaço-me da arapuca: a arte é um organismo liberto. Nada que te cobre vale tanto quanto o que te despe.
Entretanto, ela não era resoluta, tampouco senhora de si mesma. Permiti-me a sua aflição, sua controvérsia de criação. Deixei-a se questionar (e a se cobrir). Não mais a olhei... Cada eu sabe de sua liberdade. A irresponsabilidade ao usá-la vem do desconhecimento sobre si mesmo (ela continuou protegendo os seios, abraçada nos próprios joelhos). Assim confirmei que a chegada da proibição traz uma forma de comodismo... “A esta altura da minha vida” – surpreendeu-se consigo aos seus quarenta e poucos.
Cabe a educação esclarecer a dicotomia “culpa e vergonha” aos infantes e à velha teimosa guarda. A vergonha está ligada à ilícita continuidade até que se saiba do dolo. A culpa, por sua vez, percorre ao lado da autonomia: certificar-se do erro e prever-se pela consciência. “Tu estás entre ambas?” – procurei-a. “Não... E menos ainda sou acomodada, Larissa!” – revelou-me assim gostar do conhecimento, tirando da minha pele o alimento para a sua inconformidade.  

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Durante a sua insônia...

Diz o ditado que "a noite é uma criança". Então a experiência completa: e nós somos os seus brinquedos!

São suas mensagens que me visitam feito anjos obscuros do desvelo. Breves presságios de uma noite que alguém esqueceu o medo por tal qual estava escuro em seu próprio peito. Assumir e continuar afiam a navalha da escolha: podados os galhos fortes da sua árvore, querida, os frutos a abandonarão... e, da minha árvore, a minha raiz, mãe, desfalecerá derrubando-me.
Ainda sobre a sua insônia, que a cada manhã felicito o dia por lê-la, o seu riso acreditou na beleza. Muitas bobagens em comum de duas professoras cuja alegria tem sua fonte quente de palavras expiradas com o aveludado vento do segredo. Aqui, em meu celular, singelas figurinhas e ditos chistosos se alaram e vieram cuidar meu repouso (preferia que este estivesse ao seu lado, embora nela eu repousasse desperto meu olhar todo amoroso).
A aurora a surpreendeu e as estrelas que testemunharam suas mensagens e semelhança ficaram atrás da luz. Ah, quantas vezes! Na manhã a sua presença encanta... O dia é adocicado pelo seu bom dizer envolvente ao seu carinho... Tenho a fortuna que me brinda a sua chegada! Ganho dessa paz o idílio que perdura compondo mais um dia para que eu a queira sempre...
Em meu romance, querida amiga, eu perco tempo tentando resgatar em cada gesto seu uma bandeira... Chega o fim despedido, tão logo resolvo esperar um indício de sua vontade de ser ninada, outra insônia dela... Mas, nada. Mas, ela entrou de corpo, roupa e tudo na profusão do desgaste. Mas, ela sonha... Mas, o silêncio avisa que esta noite sou eu a zelá-la, misturando anseio com meu corpo envolvido em lençóis de nicotina, a noite inteira...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Seu risco pelo livro

“Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o sonho na sua órbita.” (Saramago)

Escondia o meu tempo entre as linhas de Saramago, um livro que me foi dado com apreço por uma amiga, quando entrei nas páginas em que riscos oblíquos e vermelhos faziam pequenas retas abstratas cortando a leitura. Suas mãozinhas inconfundíveis entre os papéis não ficarão esquecidas! Continuarei a leitura com a memória que ali estava, sustentando aquelas tantas situações que presenciei apenas num convento.
No entanto, voltei e percorri os parágrafos que aquela cor sanguínea cuidadosamente se revelara. Ela estava na ordem da loucura, ora da pressa de se poder voar. As duas retas no final da página tinham a pressão cortada do receio e da expansão colorífera da mulher que conseguiu vencer o enredo e atender o filho pedinte. Essas retas formavam um ilusório “L” desajeitado, mas recreativo, ficando no canto do enredo.
Na próxima página, uma direta continuação com ondulada precipitação cortava o diálogo. Por um dado inquietante, fui obrigada a concordar com tal semiótica. Tornou Bartolomeu Lourenço mais animado e mais confiante para se personificar em situações como aquela. Entre as paredes que me cercavam, as manchas dela na única coisa que eu podia fazer – ler – eram o aconchego. Afora, o mundo é uma constante desilusão de páginas amareladas pelo tempo. Assim os personagens adquiriram exatidão mais que as pessoas, expeliam sangue por sonho. Sustentavam sua própria história enquanto eu mal conseguia sustentar a concentração, porque dependia daquelas marcas vermelhas, feito amante que sou.
Enfim distraio-me nas cavalares soluções da rainha que até me esqueço das passagens encarnadas. Esqueci-me por quanto tempo estava ali entre aquelas duas páginas, tentando voar com o padre, mas com os riscos ofuscando sob o encosto do meu polegar direito, encarnava na queda do corpo à realidade. Eu sabia que se o descobrisse, eu voltaria a reler aquelas marcas abstraídas do mesmo caso que estava acontecendo... Foi o trabalho que ela teve: passar a compreensão de uma maneira controversa às obtusas palavras que não revelava. Talvez eu tenha encontrado o tesouro antes mesmo da chegada de Blimunda, após a “grande caminhada”. Por isso me sentia a realidade do poder ao desfrutar do livro enquanto marca raspada pessoal de quem mo deu!
Embora reflita: são apenas riscos absurdos que ela deixou, seja com esmalte, ou com lápis, ou tirando o excesso do batom, me ajudo com tal promessa de derrubar o muro entre nós duas. O fato de ela se entristecer sozinha, sem dizer tudo que lhe é sagrado e escuro, escondia-se também entre as linhas das páginas, que translúcidas influíam o seu (o nosso) mundo.
Minha leitura concluiu o capítulo. Calada, permaneci no seu vermelho. Aquela cor lenta estaria ali marcando as páginas como um bar que posteriormente eu voltaria a encontrá-la. Ela, por fim, não mais partiria...
Realmente era incrível como se vivia o triângulo entre Saramago, o resto vermelho dela e mim. Entendi que apesar daquelas inúmeras leituras no convento, não seria eu, devido à timidez, capaz de proferir os poderes da mulher fantástica. Ela, porém, conseguiu.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O justo perecível

A justiça tem o beijo de Magritte. Nós, de juízes, marcamos as caras sob o branco têxtil da sociedade. Se fomos ao inferno, o comando chantageará a austeridade. Diz-se razão experiente daquele que sofreu, mas ignorante como Creonte.
O livro que acompanha a veste do parecer, tocando no peito a humanidade, acalenta-nos com leveza mítica entre a fantasia e o conhecimento. Introduzem-se os tipos de julgamento à face da novidade pujante ou, mais tarde, com a paciência do tempo que carregou a experiência até ali. O drama é o anseio do inconformado, e não há final para a vaidade, ao contrário da vida.
O herói previne o real: não analisa o céu de um bandido, suspira mais que a antítese do capital, retém a egoísta glorificação. É diferente do comum que bate no muro com a cabeça e abre caminho para todos! Esta cabeça ouviu histórias de fantasmas, despedaçou encarnadas partes do sofrimento na defesa do seu próprio espaço-cenário engajado à paixão da justiça através da liberdade.
Não há maldade, tampouco maniqueísmo. Criatura justa na complexidade do sim e do não, humanidade. Ela, almejada no coletivo em si mesmo, condenando-se também na fragilidade do indivíduo. Tem-se a estrutura da repressão na transparência daquilo que se esqueceu de viver... Enriqueceu, porém, a premissa que depois se desteme. Logo ali, do céu escorre o véu que atormenta a zona de conforto do inofensivo.  

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Memorial da existência

Ao se construir vem o concreto e o poder. Do pensamento às mãos, a segunda chance é apenas uma promessa. A vez, então, cumprimento da vontade, ilumina a mudança: norte do conhecimento.
Inventar-se no preceito que somos nós a origem que pensa traz o corpo, antes título do instinto, que sobrevive. A base da busca é o olhar, o conceito é o passo... Embora haja conclusão de uma perda, o encontro sairá de casa com a procura. Até nós, ele assume desejos amórficos de uma perseguição. – O que seria do amor se não aniquilássemos o orgulho? – São caminhos e divindades aceitas de si mesmo a cada passo para trás. Mas o nome ali continua firmando a edificação.  
Seja a massa as caras do nome. Para todo o mundo, é-se o mundo! Logo, em seu mais recôndito solo estão os costumeiros espíritos a viverem para si as experiências que os alienam do mundo e das caras. Constroem aquilo que nada prende ou repete, são velhos sem perda numa matéria que prescinde à natureza se fluindo ao ciclo do verme.
Emancipa-se a crença reciclada das atitudes. A felicidade, sorte de quem diz, ainda é fragmento da vida à qual se nasce para consertar. Próprio se é apenas da mecânica persuasão de metamorfose e mística... O pensamento insiste, o incômodo ousa e a competência resiste. Apenas os planos do espírito arquitetam com o ideal. Vista as camadas da consciência, há cada corte para o existir, cada destroço do seu próprio concreto. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quando eu te der segredo

Tão longos os seus serpenteares frente a mim, querendo a audácia da música que sorria ao me mirar cantarolando ao vazio. Assim estava ela, tão breve ao meu corpo que teimava não obedecê-la, teimava a escravidão das luzes sobre si, rodando e rodando como a barra do seu vestido sobre as coxas.
Resolvi fitá-la nos olhos, e ainda aquele sorriso de laço encarnado cometia a mensagem dual feminina. Ela gosta do mesmo, ela é igual, prefere as rosas à exatidão, é delicada e quer a si mesma... Descobri que o fino salto do seu salto agulha me liberava a disciplinada nudez de uma fuga. Disse-me ela, então, que me conhecia de algum lugar... Tratei-a, primeiramente, como senhora. E ela me riu informalidade dizendo-me que conta com apenas quarenta e quatro... Ah, tão linda que me fez saber que a educação também comete gafes! Pois tinha eu a plena certeza de que nunca a havia visto... Mas logo emendei umas ilusórias situações de lá e cá do talvez que fizeram nossos encontros do passado, para ela, se encaixarem na realidade e na nossa intimidade.
Mais musicas saudosas! Festa nostálgica! Homens a nossa volta tentando aproximação. Ela esquivava, eu esquivava procurando as mãos e a cintura uma da outra na chamada da posse... As pessoas “em conserva” já nos passavam seus olhares inquisidores, aos quais fazíamos questão de queimá-los com as nossas próprias chamas aprazidas em nós mesmas. Riamos copiosamente dos “em conserva”; debochávamos daqueles que, com agressividade, nos puxavam os braços na frustrada tentativa de nos separar para escolhermos a eles... Bebíamos no mesmo lacre da latinha ou no mesmo lugar do copo em que nossas bocas encostavam...
Sua plena desinibição! Ah, entre mulheres não existe pudor: sabíamos até ali os nossos endereços, nossos telefones, nossas profissões, nosso tamanho do sutiã, os tipos preferidos de calcinha. Entendíamos de música, suspirávamos as épocas e este presente encontro. Gostávamos do bobo e da verdade, do curioso e das frases brincadas. Sobre o céu, sobre o nós, “sobre magia e meditação”. Valeu muito ela achar que me conhecia, passei a amá-la.
Numa mesa próxima decidi que descansaria meus saltos. Ela seguiu na pista com toda sua aurora de festa e imensidão. Ali, era ela só espírito... Recuperada, ao seu lado me pus exasperada para arrebentar essa linha tênue cosida com as diagonais de suas unhas. No entanto How deep is your love, dos Bee Gees, fincou mais as pontas daquelas agulhas. O abraço dela, tão forte, tão procurado, tão lento quanto queria. Pendíamos os pés: eram um, dois, um, dois... num balanço monótono que o enlace revela o que há de confiança e ternura. Os seus cabelos curtos e louros foram o ninho do meu olfato. O seu aperto, a vida no meu silêncio...
Ao término da música, pediu-me ela que a acompanhasse ao toalete. Estaria passando mal? – incuti-me esse pensamento tal qual fora seu rompante de ir àquele lugar. Lá, único local velho de necessidades e vaidade, ela se ajeitou, se aperfeiçoou, urinou. Ações completas frente aos meus olhos que a observavam temerosos num canto daquele toalete de paredes manchadas, chão áspero e luz sem graça. Retraí-me toda para não ofendê-la, mas... sua mão secando o íntimo respeitava minha obscenidade! Virei o rosto! Então ouvi a lixeira recebendo aquele bolo de papel higiênico lá no fundo, em que meu fundo regaço contraído já transbordava o gozo... Ela se refez das vestes. Mirou-se novamente no espelho. Refiz meu comportamento e engajei um parecer romântico-filosófico enquanto ela ficava frente ao espelho: que este era a única boa guarida dos segredos. Imperfeições, máscaras, choros e realeza. Nada nos escapa do espelho. Nunca seríamos na frente do outro o que somos na frente do espelho. E ele retém tudo consigo... “Até nós duas” – Permitiu-me ela. “Sim” – Confirmei ao seu lado direito. Ela me ofereceu o seu batom. Aceitei e tentei apanhá-lo na sua mão esquerda, escorrida ao longo do seu tronco. A favor da sua lógica, meu corpo declinou ao seu avanço. A cor do batom foi-me imposta pelos seus lábios, pela dor que seus dentes me apraziam. Refleti no espelho aquela sua maquiagem de língua, na alvura diáfana dos seus seios graciosos.
Amei-a de vestidos a camadas de sombra. Do gosto do uísque ao olor de cio. De mulher a mulher. Ela, magra e pequena, que eu a carregava sobre as coxas, sobre os ombros, sobre o ventre, sobre a cara... Pela mão ao retornar. Contemos a presença, sofisticamos a permanência. O porquê de demorarmos... Ah, a maquiagem, a vaidade... a desculpa feminina mais coerente... A dança novamente nos completou diversos assuntos e carinhos. A comunhão prosseguiu na melodia da pele...
Eis que a provedora da carona me chama para irmos. Não, eu... Eu tentei argumentar, resvalar mais uma música para que esta ficasse mais um pouco. E ela, a minha linda, percebeu minha despedida quando a olhei desconsolada. Abracei-a toda com ímpeto do consolo sonhador do retorno. Vamos! – Insistiu a dona do carro.  Ei! – Arquejou ela para mim. Ela me apertou com suas mãos o pulso e o antebraço, revelando e entregando a mim seu substantivo próprio, o ramalhete da confidência que, meu D’us!, esquecêsramos de dizer uma a outra durante a noite:
- Eu me chamo S... S. Mara...    

E no carro musicava... O segredo que ela me deu...

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O rastro e o caramujo

Sem mais inflamam-se os maus juízos proferidos pela pausa dos que esperam. As pernas correm a pé apenas o sangue circundante, cavado nas veias da sistólica ansiedade de qualquer maldizer...
As coxas apoiam o projeto, descansam o labor. Somente a inspiração, ao alto sonhado, voltou-se para ali e despencou desfazendo o nome nos fiapos do cansaço. Os dias provocaram! – é a desculpa do desleixo emocional que os deixou de lado – para trás. No entanto, a cinza do asfalto e das calçadas recebeu os passos voados sem adequação do tempo na vontade de si mesmo, enquanto a lesma antecipou sua lenta precisão e grifou sua passagem de um sinuoso caminho a outro.
Ninguém viu sua pressa voraz. A avaliação se fez seca e paupérrima na deficiência de sua própria marca. Não fez para melhorar, restaram-lhe as informações abandonadas pela saliva. O mais trabalhoso também tortura a gente pela morosidade... E o suor dá polimento à coroa que premia o sonho.
Ser a percentagem que convém a firmada permanência de si nas habilidades. Cálculo da letra somada à amostra de um bom tempo, com o qual se tem a sorte nata de praticá-la. No chão incidem os rastros do caramujo, este permaneceu na vida do pensamento compartilhando caminhos. A pessoa se desfaz da lenta apreciação e se elogia com a casca sem rastejar. Não pressiona o passo, não permanece. Voa o tempo, mas não voa o seu ideal. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Tão inesperada quanto intensa...

 Esta noite tive um sonho
Um sonho muito atrevido...
Apalpei na minha cama
A forma do teu vestido
(Mário de Andrade)

A sua chegada comporta uma erótica. Com breve vestido, Rhode é tão inesperada quanto intensa! Intensa na sua certeza, inesperada na audácia de sua guisa brincalhona do tempo. Rastrear a obra de Rhode, do seu sorriso transitivo ao poema fragrante, observa a tensão da matéria erótica... Namoro-a desde sua medicina à sua sensualidade. Talvez a sinta dispersa e realmente intensa por tais fragmentos desorganizados de ímpeto e deleite que coleto à ordem do erotismo.
Corpo miúdo de uma “pornografia desorganizada”. Cultura popular de sua beleza – tesouro exemplo na feminina compreensão de vida. Ela elenca o meu eu-lírico que a desenha apalpando-a na ordem estética, com sua forma vestida do proibido. Meu Eros típico de sonho atrevido, que antes desperto convence o domínio do proibido na minha vontade de dar forma ao escondido, derivando o desejo...
Maria atravessou o regato
Molhou a barra do vestido
Na água deixou o retrato
De tudo o que estava escondido
Quero avançar a questão com o outro rosto – escondido sob o vestido – de Rhode. Deste outro rosto clandestino figura-se o retrato sutil daquilo que imagino nela! Sou peça no jogo do que é proibido e do que é representado, cuja artimanha da palavra de Rhode vence o calado. Sua desbocada argumentação se repete gozada naquela risada aberta de grande preenchimento e elaborado buraco – ao qual enfio a minha linguística sequestrada, aparecida sob vários disfarces para se referir ao seu outro rosto, oculto. Faço a evocação dela com inúmeras observações que a retiram do tabu (e do trato de ser minha colega!). O que se redime nela é a falta pelo excesso, isto é, as substituições que ampliam o desejo deste proibido indefinidamente e que marcam a erótica praticada por Rhode na mulher. Uma particularidade sugestiva e provocante, de vestes decentes, mas muito maliciosas.
Engenho magistral de hermética ancestralidade com eclipse. Regrada lira de grave verbo à face animal do que ficou escondido no celeste retorno do proibido. Desastre natural e devastador de Eros no que a ama lado a lado com o preconceito.
Digo o verso objeto da censura: dizer mais que o original. A mulher em Rhode é alusiva e afirmativa. Ela contorna e toca no centro! Vence o proibido com essa criatividade de corpo e palavra. Na vida, o meu Eros a ela é silenciado: hoje falo o que a reduz ao proibido, e o que me preenche ao buraco desta mulher, que é (muito) mais embaixo...

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Em terceira pessoa

Percorrer o cimento: há flores pelos trilhos.
Não deixar escapar entre os dentes o sorriso: há fome de Ser!

A busca, como Maria, tem a estranha mania de ter fé na vida. Tem o romântico ceticismo de não acreditar na volta, no renascer. Para ela, a morte guarda com carinho os presentes que a vida lhe dá. Logo, o momento se diz fim d’um último segundo.
Enquanto espectros, somos seres de uma dança sem lugar ao som de uma música sem tempo... Sim, a morte possui uma estranha felicidade: diferente da vida, ela é sem tempo e sem espaço, como qualquer amante.
Nunca pensemos que o problema é solitário, já que o corpo é livre como o público. O erro apenas se torna infeliz na discordância do outro; e este é o ouro que salva o pensar do incômodo... De ti mesmo saberás com que certeza o mundo te olha. De nós, logo receptivos, saberemos, como o ser humano terá de melhorar. Voltar sete vezes no anteontem, se for necessário, num amanhã de novos tipos de pessoas da mesma mudança.
A história comoveu leis, misturou alimento com sangue. Fez-se curiosa na criança que mais quer saber. Quanto mais se define, menos se conclui... Mais ainda se tocamos o conhecimento no outro: sem segredos, não há amor. Região fronteiriça e dual o indivíduo com sua linha tênue chamada matéria, que o difere na imaginação – este mar de dentro em meio à tempestade num corpo d’alma.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Reflexões entre colegas: o doce e o maduro

Ensolarado final da manhã em que minha colega e eu nos dispusemos os pés para fora da escola e, enfim, conversar algo somente nosso... Aos passos da rua, ora reta, ora escorrida, ora íngreme e escalada para o céu da fadiga, as velocidades dos mobilizados partiam sem dó os nossos assuntos. Falar alto, dar licença, desviar dos esperados e estar sobre as regras da faixa soavam o antissocial íntimo de nós duas. No rabiscado trajeto dos temas comuns e alheios, minha colega comenta sobre uma conhecida:
- Ela tem o hábito de jogar frutas maduras no lixo... Desperdício estúpido! A fruta madura está no seu estágio maior de doçura e deleite amolecido...
- A natureza frutífera e nós, humanos, na sua magnitude senil... Percebe, somos a elas idênticos.
- Verdade. Meu Deus, nem no meio do fervor transeunte tu deixas de ser filósofa, Lari...
- Quando jovens e adultos, temos a rispidez a favor. Temos a intolerância da razão, o ganho da subserviência sobre a sobrevivência de si. Somos verdes, belos por fora, antes sustentados por finas ramificações paternais com toda generosa gravidade que nos mantém na soberania e na soberba da bela conquista. Não obstante, somos rijos por dentro. A boca emocionada que experimenta tal fruto novo e verde se enojará com tamanho azedume de tempo para isso, salário para aquilo, mais os planos à saliva gasta com o melhor argumento para o trabalho e reprodução familiar...
- Continua me adoçando, por favor... – Exigiu a nobre colega.
- A companhia de pessoas maduras, com mais de 50, é a melhor paz. Logo, sente-te convencida! Apraz-me muito estar contigo. – Enrubesci este elogio inocente e sem-vergonha a sua maturidade...
- Minha paciência já não é mais provada. Estamos aptos e prontos a tudo. Cada tamanho de vida é viver novamente nesta fase. Experiência para mulher é mania.
- Então o fruto maduro, que a tudo já acompanhou, terá de si a própria rigidez vencida e a paciência mole agirá com sorriso... Um sorriso como o teu.
- Ainda mordo. – Riu copiosamente esta linda!
- Mas tua mordida fecha os olhos e sorri as bochechas. As linhas expressas ao redor da boca ilham todo conteúdo gostoso de satisfação. Ao contrario da testa que se rasgou com a juventude pensante e aspiradora de surpresas... Voltando a fruta, querida colega, a casca madura pode ter sua fealdade, mas o fruto dentro é o costume do bem sentir. A nostalgia, na maturidade é uma saudosa alegria de fruto! Tudo passou e se tornou cantiga de roda...
- Tu és saudosa, Larissa. Isto é um traço do Romantismo, não é?
- Sim, o romântico é saudoso. Pelo menos, particularmente falando, a pessoa se ilude com minhas histórias, não com minhas promessas.
- Que teoria bacana, minha amiga. Desenvolve-a. Ainda mais que a tua casca está e é linda... Tu és um conjunto completo. Vivida e linda.
- A velhice é um clássico pela alegria. Recordo-me de um trabalho apresentado pelos alunos, no ano passado. Tratava-se de relatar opiniões experientes sobre os modismos regentes. Um grupo entrevistou alguns idosos no Calçadão, perguntou sobre a dança funk, e eles responderam que achavam legal... Isto causou a comoção geral da pesquisa, que os alunos contestaram durante a apresentação.
 - Imagino, no que tange ao possível feio e ao grupo...
- Pois é. Disse-lhes que o “achar legal” é totalmente compreensível no momento em que a senilidade se encontra. A juventude destes entrevistados, - continuei – se expandiu para conhecer o mundo, se aborreceu, julgou, brigou, argumentou, ferrou-se, levantou, venceu e cansou... Agora, para eles, até cuidar da própria doença é um motivo de alegria... Pois o cuidado os mantém comprometidos, sentindo-se úteis a si mesmo... Tudo, a partir de todos os momentos do hoje, para eles, é maravilhoso.
- Teu comprometimento com os alunos é fascinante. A sensatez é um dos quesitos da reflexão, e a dúvida instaurada antes com a pesquisa dos alunos, fomentou a sabedoria, orientada por ti.
- Ah, são os seus olhos...
- E posso-te dizer que deito à sombra da melhor árvore que já conheci: tu.
- Bom saber que te sentes acolhida, nobre colega. Fascina-me muito que estejas ao meu cuidado... Pelo meu tamanho, com certeza tua imaginação viu em mim uma figueira... – Sorri ao brilho infantil da sua pareidolia...
- Ah, Larissa! Tão querida e espirituosa. – E se envolveu em mim, porque nada mais na cidade nos importava...
Até que eu encostei meus olhos numa cantina de açaí durante o seu abraço dela... 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Crônica epistolar: eu, tu, nós duas já temos uma ilusão...

Quer ser... Amada? Mas amada pra valer?
Planejamos do labor ao confessionário: ensinamentos ativos de conteúdos projetados rapidamente para o fim, para enfim o resto ter de nós duas o desleixo do segredo... Reter na concupiscência do assunto louco, em meio à pedagógica renovação, aquele beijo reticente dado por certo. Tudo ou mais nos parênteses visíveis da razão, esta também negada às grades que ensombram os códigos emotivos entre um café e outro, transpassando bandeira e olheiras...
Tenho para ti as dúvidas, até que o tempo se arraste, somente para eu ficar ao teu lado... Arranjo besteiras formadas pelas tuas teorias e tudo que me choras acerca de família, trabalho e amor. Não percebes, mas a tua experiência te abre a mim. Arrasa comigo... Rasga minha intenção de ser sua amiga, mas, aberto futuro, chega a me dar medo do que eu te preciso: dizer “eu te amo”.
Fecho e abro a carteira de cigarros durante páginas inteiras... Se eu junto as peças e misturo-as resgatando nos gestos teus alguma sinestesia gostosa de estar a duas, n’outra parte pode se situar o engano – e jamais quereria eu provocar-te dano! – mas, perco a destreza, viro após a despedida apenas para te acompanhar com os meus cuidados... Ah, e tão lindos passos fazem-se caminho, que minha verdadeira casa é levada no teu mais profundo regaço! Logo, o abandono se apraz na irascível conduta da espera, lá num cantinho... Eu te observando: coisa de menina.
L.P.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A minha Helena...


É rosto? É jogo? O que te apaga? O que me apega? – Meu samba valsado – procura-se, busca-se, aos mil dias antes de te conhecer... Teu nome? Que clássico és tu? O que te comanda? Que verdade és tu? – Ou és mito? O nome da música? Tuas musas?
Tua legenda? Tua cultura? Tua moldura?
O velho sentido. Que sentes? O que te existe? Que realidade me és tu? E teu resto? E tuas sobras de sombras mensageiras?
Haja décadas e tua cara...
Haja conflito e tua cara...
Haja poetas e tua cara...
Quem?
Algum arauto me declame sua vontade! Não que me venha a integral bonança, a qual exaspero, mas aquela que sua despedida seja cômoda... Helena, a irmã andante dos olhos – imaginativos e circunstantes ao jeito apregoado do espírito. Nem mulher, nem natureza: amor. Sobre as ameaças do beijo, o rigor plácido, amêndoa santa da ceia, parece ser a garganta espessa dos gemidos salivados de Safo. Ah, Helena! – apelido machadiano que lhe concedo... Os paradigmas são verticais como as pernas. E tais normas de Helena têm todo um passeio de mãos entre línguas por sua meia-calça e sua saia tradutora d’um joelho que eclode carência... São montes, massagens pacientes e sinuosas. Entre elas, generosa trança que afunda o regaço do olho nu! Ah, Helena! Helena de tabu e normas grossas e brancas! Eu acostumaria minha cara entre os vales de Helena, e Helena de bruços sobre a curvatura do mundo...

- Quero ver se tu és tão forte, a ponto de, nem bem lá no fundo, não desejar... – Testei Helena.
- Posso provar com ação em vez de palavras?
Então ela brincou comigo como o menino Chico, com o meu arrepio, e arrancou com os dentes a minha resistência marcada para o fim... Quando percebi, Helena encostava a cabeça e a boca nesta minha montanha, arrepiando-me com suas finas mechas louras e recolhendo todo o corpo líquido de sua aspirância...
He-le-na! Ventura desta sirena que decide, náufraga, servir à morena bela cobertura das águas... Rimando a minha Helena, a borboleta noturna cobra de sua mulher a corrente das próprias melenas que ela puxa, obscena...

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Molde quadro

Molde Quadro (1992)

Se fosses areia, eu, o (a)mar, te levaria... (Foto: Larissa Pujol)

O ocaso anuncia,
            Em sua áurea crepuscular,
O moldurar do repouso

Enquanto tuas madeixas se movem
No arfar do meu colo,
É desejo da falange acompanhar
Os mesmos traços da tua guisa:
           
            A escreverem novas histórias...

A boca duvida entre teus olhos
            E tuas mãos

A breve passagem do inteiro
Sem início, tampouco volta;
Talvez seja este o lugar do céu –
No solo do sentir dos braços...

Semelhante entrelaçar dos dedos
Olhares do por que num corpo primeiro

Inexaurível relação
Entre o asfalto e as matérias,
Adormece e desperta na sua mesma face imóvel
O sol, a enchente, a noite e os passos...

São suas visitas...

Assim como o caminho entre tuas mãos e teus olhos
Ou no desconhecido maior em ti...

Parte das quatro estações,
Cerne que anseia o brando ninar do calor...
No continuar da boca? – a palavra, o sorriso...
Bramidos.
Inócua pintura de um quadro,
Permito o salivar das tintas...
Seguirás? – a tua resposta?

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pessoalmente a Clarice: um poema de conversa

As conversas se trocam entre beijos compartilhados indiretamente...

Pessoalmente a Clarice: um poema de conversa...
(De Larissa Pujol, vencedora do Concurso Literário Felippe D'Oliveira, na categoria melhor autor)

Distorcidas páginas manuscritas
A bege maquiagem e os olhos turvos
Misturam-se o álcool perfume
O álcool remédio
O álcool transição

Nossas vestes femininas
Tua boca traçada e poema
Meu sentimento esquema
O espelho contrário das roupas íntimas

Pensar é teu ódio
Sei e te procuro porque sabes
As conquistas em contramão observamo-nos,
- O testemunho litígio dos nossos dissabores -
A face esculpida por antônimos
A feição entendida por sinônimos

Alento e olor são tuas palavras
Sussurradas e surradas de sentimentos...
O tripé contingente em ambas
Defeito perigoso destruído em nossa planta
Perpetuam-se os platônicos enredos
Nas figuras sépias dos nossos álbuns viris

Sem cerne, nosso dístico ainda planeja o furor feminil
Pela falta desta dureza em nosso regaço
Impossível encontrá-los, homens, na virtude do nosso pó

As tuas celeumas narrativas conselheiras
Infortúnio traço divisório da coragem
                              [entre o grito e o maligno silêncio]
Oblitera-se a mão amiga nos desvios da incessante busca...
Reformula-se a página semelhante
Entre as riscas do descrito atavio e as espirais perguntas sem respostas...

Uma carta, amiga poeta;
Sei e te procuro porque me ajudarás a saber;
Retiro os olhos do instinto sonolento de pensar
                            [vistas a atuar nas emoções eternas]
Diferente do corpo-matéria que me instrui o medo
Admiradas, esperamos o edificado fátuo dos nossos homens,
- Ironicamente dedicadas - mas são estes que desejamos!...

Circular solidão do anel de saturno
Dar a volta por cima,
Em cima da esteira giratória dos erros taciturnos
Perigo que me indicas tu, poeta,
A ânsia de acertar,
                                    [a correção das minhas verdades]
Nesse obediente papel de ser,
Confesso-te, eu só posso sentir
E pior, sentir sem coragem...

Quiçá neste sucumbo contato eu o toque...
Entre os corpos antônimos, os sinônimos...
Tu gritas e pedes para eu gritar novamente
A vogal primeira do surto sabor amargo do impossível
Zênite encontrado em nossa verve!

Encontrar-nos em vezo nesta dissimulação mutante
Os caleidoscópios a nos criarem figuras indeléveis
Múltiplas vozes confundem o apreciado modo de viver

Solilóquio; as palavras dissolvidas neste meu curto espaço
E são muitas dentro de mim, poeta...
São as tintas jorradas em telas registradas antigamente
Conversas para os ouvidos destas paredes
Certamente, não sou eu. É o meu ambiente...  

Nas palavras, o teu domínio sobre o mundo, caríssima poeta!
Resumo-me na cala desse sôfrego entendimento
Obrigas-me a respeitar-me e a não perturbar minha infinidade
Sei que sou menor que este vórtice descoberto em mim
- Planos derrocados para me alcançar...

Esses teus olhos no peso da lembrança...
Desconhecemos os próprios mistérios
Encobrimos nossos segredos nos mistérios alheios
Semelhamo-nos aos seus enigmas
Por mor de complicar a solução de si mesma...

Rendo-me às tuas palavras, estimada poeta,
Sem procurar entender, apenas viver o novo
                                                       [ou o novamente]
Criou-se um impossível, logo sou...
Das faces maquiladas ou amanhecidas,
O “quase tudo” nas procelas do corpo feminino
Toque de fina textura em nossas sedas
As palavras alinhavadas nas agulhas das semelhanças...
Para ti, cosemos as perguntas sem buscar sê-las
A sina rudimentar de conseguirmos viver, sempre, apesar de.

Despeço-me.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Palco servido

Dia nublado pede o sangue decantado e generoso em todos os corpos... (Foto: Larissa Pujol)
O tapa da porta, fraterno encosto de amigo a confraternizar o costume escuro do fim. Boas prosopopéias naturam na selva lúdicas de cores elétricas seus gemidos tempestuosos de embriaguez e afago. Entre mulheres, as caras camuflam pássaros às suas penas hostis e laborais.
Dia nublado pede o sangue decantado e generoso em todos os corpos... Sangue correndo graça em partituras de riso, e sugerindo no imo a dança sublime, espremida no centro da alegria: a força num vai-vem duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos como voos angelicais, mas virilmente, contra o chão... Vórtice racional que docemente meus olhos começam a flamar seu preceito de conquista. Ao encosto do torpor, a sequência de mulher comanda os ímpetos de música e da saúde embebida em gélidos agitos no esôfago.



Ao meu jeito eu vou fazer um samba sobre o infinito...
A ciência feminina, cedendo-se num intróito extremoso de orgia religiosa, descomplica as suas curvas entrelaçadas por tabu. Às vezes o verbo possui uma saliva corrosiva e loucamente preenche a boca para inundar as fantasias desesperadas... O tempo empresta aos lábios a polpa mais exasperada, exequíveis em folhas da maquiagem sob coloridos rastros de luz. Eu a espreitava e a guardava na imaginação deformada de homogeneidade, impressa, ora em seus avanços pelos pés macios de dança, ora na viagem do seu vento rodado que chacoalhavam amuletos dourados em relevo sob o conluio clandestino que repreendia a libido mais escura. Enquanto incidia-nos o pequeno lume, entregamos nossos narizes obscenos a carregar uma da outra os nossos cheiros primitivos, vivendo em mórbido e viscoso apetite que se explora no rebento dos códigos proibidos. Paixão pressentida é um aço espicaçante de brado petalado...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Isolada pudícia II

Luz para disfarçar nus... (Foto: Larissa Pujol)

Convenço-me que nada mais influencia a pessoa como a elaboração moral. Sentimentos de sonhos a se concretizarem se despertada eu estiver! Abertos os olhos, tenho-a novamente me agradando com desejo e, portanto, com sofrimento. Desperta a sensação de lástima pelo término deste meu feliz e tranquilo olvido... Esperança de felicidade corpórea, alvoroço deste assunto, mescla de fragrância rosa... Sou ela vivida neste cataclismo que nos adeja.
Visto-me maquinalmente no mesmo lampejo selvagem que se descontrolava nos seus olhos ardentes e astutos vindos durante minha lembrança... Abotoada a camisa xadrez, deixando a mostra os volumes dos seios, descarada, alegre e solta de café-com-vinho, mascarada a Dolokhov, mas camuflada a Varenka! Ah, ela gosta de mim, e a aprecio desde sua voz soprana, no conjunto de olhar direto, flecha-negra atravessando meu intelecto, boca graciosa de sorriso pequeno e amontoado.
Paixão por ela, minha companheira de partitura: suas mãos finas, pianista, alongadas como a agilidade que ela leva suas claves e suas chaves para encerrar a porta, a sós comigo! Alongadas como seu nome sufixado em –ise; hoje, no meu gozo, a matriz... Ela adora ópera russa! Tudo em mim se organiza para opor-se aos desejos... Não! A vida é o único intervalo que estou livre! Que seja apenas Oblomov a prender-se na inação e no fatalismo. Minha maneira feminina de sofrer é na culpa nua da outra, na sofrível irradiação hepática do humor, num eu cínica e desiludida a Petchorin de um tempo anti-herói.
Aclive de poder a que se conhece um pensamento. Cita-me a paciência vermifuga de Lermontov, esta cigana emprestada à castidade russa... Continua sussurrando em mim: roeu-me a alma e a incendiou. 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Isolada pudícia

Hoje eu amargo contigo a saudade que ela deixou...
 Tão logo o entusiasmo salvou a aquarela. Reencontrada no estúdio de ensombradas palavras, a distância ao fundo daquele cerne correu vazia, então a fechadura procurou tranqüilidade... Seu rosto escondia-se de álbum em álbum para não enrubescer-se... Mas de tempo eu lhe conseguia um sorriso registrado de memória e sua fala melíflua logo organizava as atenções para seu fantástico Hoffmann com Offenbach.
Pedir-lhe-ia a amante cigana que me cantasse “Minha lareira...” e que seu piano estirasse as oitavas. Contudo, o lume do meu olhar abobalhado desconversou meu corpo com a argúcia dela imersa em Bernard Shaw! São bonitos os seus dedos, mas é sem rosto, como título de Teleshov, a sua concentração! – Que eu acabe com esta, se não me acabar antes. – Naquela hora, o espelho a nossa frente sobrevinha à culpa juíza da sensação de prazer... Agrada-lhe interromper e deixar de ser lamento!  Sortilégio de amiga conversando coincidências para melhor se divertir, proporcionando a sua terminada declaração, como figurada em Tchapaev.
A tola última vez que a minha resposta a viu foi num doce entristecer de um blues que ela tocou... Uma atmosfera instagnante atormentou minha íntima cara fiel quando ela desistira: “Gosto-te, mas como gostar de ti, Lari, uma mulher que gosta de outra?” Representaram-me, naquele momento, as insatisfações de Ivanov e Treplev. Inútil ser da existência ideal, com a fidelidade que lhe faz sombra. Galhofa sentimento em indiferença e postura. A felicidade depois não teria nada de triste... Mas tornei à minha atração de análise moral nos anseios tolstonianos de Nikolenka Irtenev... 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Crônica epistolar: do meu leito...

Ah, este leito! Quão frio é o tecido na sua plástica receptiva. Pouco tempo ali observada, me pontuei aos olhos concretos sombrios que me encobriam. Minha amor, minha linda! Paradoxalmente tenho a falta do teu ninho! Entretanto, querida, prefiro que te mantenhas alheia ao que me lastima e adoece. Nada mais cruel seria para e em mim que causar-te desconforto. (7:36 a.m)
Rhode, minha colega, tuas mensagens, teus olhos, nossas bocas, nosso ser. Sorte abençoada que aproveito na tua moradia deste meu lado esquerdo, por ora, paralisado e dormente. Ainda aqui trabalham a sistólica e a diastólica maneiras, correndo vida nas idas do tempo, mas nas vindas do teu conforto, minha amor. Posso estar incompleta de corpo, mas de nós duas... Mais aspiro o oxigênio como de ti trago na boca o sentido amado que me dispõe teu prazer. (11:35 a.m)
O mais puro dos prantos se derrama espalhando a linha desenhada do teu rosto. Oh, minha menina verbena, como soubeste do ocorrido? Eu pedi para que te preservassem, pois angustia-me que a força em mim esteja prostrada e que mal possa eu te acolher em meu peito! Teu rostinho tem a virtude de bem-querer: sorte de mulher! Comemoro, então, com a destra a tua pele, deslizo a destra da beleza nos teus cabelos negros até o teu colo gracioso e macio, que logo mais o perverto nas iniciais costuras de tua blusa... Amo-te de mim, querida, que de tanta força tens para impulsionar meu moinho sanguíneo ao encontro das águas. (5:46 p.m)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A hemorragia da civilização

As épocas não perturbam o sentido aguçado da dominação. Educados ferros, à sorte besta da cara, surpreendem camuflados por flores o corpo da pele curtida à primavera... A beleza suscita a crença vituperada da imagem. Aniquilada transcendência a qual dissimila nossos passos macios na expectativa.
Justificada conversa cuja regra à mescla de voz tudo dissipa frágil e superficial. A dificuldade do abraço – a fluidez do adeus –, o tudo que se planeja aumentando o quando até o derradeiro murmuro. Sem colheitas com os olhos enamorados, o sorriso é pretexto da carne no movimento coletivo... Executaram-se trechos de si entre a atmosfera e o entusiasmo. Verdade prolongada, seja de horrores que provam o sobressalto d’um formigueiro inepto enquanto faz-se pândega de fortaleza marchada.
O combate é a nostalgia do interesse. Projeto e amor são bases, com angústia, indefinidas, mas considerados da alma e da pura desordem sujeitada. A ortografia do estímulo imediatamente quer a coerência das linhas num escorrer estóico sanguíneo. Vem da energia o término do mar de si! Levou-se. Tímida e velada, a esperança se encosta calada no disfarce costumeiro das oposições. De vazio, a indiferença parece a ela mesma um cantinho habitual de frases absolutas... A voz remota se conteve e se assombrou no gole do vinho transformado. Sopesou da boca o entusiasmo beatífico. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Das rodas nas horas contadas:

Don Yaosú Valladolid

Amealharam o sorriso das bocas pálidas
Figurou-se um olho de lança sobre o talho da face
A ruga profunda de um riso
O chacoalhar dos ossos corroídos

A sina do ritmo das notas
Uma só viola
Junto ao caminhar monótono do cansaço

Cantávamos em sol maior
Ao alvorecer da aurora
Alguns passos bailados em volta do solo
O grito do patriarca anuncia
                          O próximo cavalgar
            De Don Yaosú Valladolid

Rumo a Tarragona
Um passo rápido pela ilha maior
Perde-se no seu rastro a areia
        Dos calcares pedidos da mátria -

Cantai irmãos!
Na rédea do meu cavalo,
vossos sorrisos
Que muito me servirão de armas.
Para voltar a essa roda de bailas,
Na minha partida, adornai meus ouvidos com vossos refrões...

O pio de uma coruja rasante

Certamente, tu, predadora,
Na falta do teu já adulto filhote
Cantarás até ouvir um gemido de saudade
Eu também te ouvirei, minha mãe...
É de tua natureza saber minhas burlas no engendro da canção.
Não te preocupes, na vitória ou na tristeza,
Meu canto soará alto...
E não haverá ais...

O último sorvo de vinho na taça
Prontamente brindado
Sopesou cingindo-a entre seus dedos
Ocorrera-lhe um caimento do olhar
Tragou sem medo o fortuito gosto acre

Na guisa flutuante o marejo do adeus
Desmancha-se o sono dos crentes
Valha o descuido da serpente e o desmaio do véu

            Ornado peito ferido

O olho da sombra lhe encaminha ao orbe
Da noite que avoluma o medo do instinto
A lua avoca o assovio do vento detrás da lufa
Assomaram-se as nuvens, ocultou-se a lucidez.

Se houver algum vago espectro
Complete minha boca com as mais amargas águas
Mastigo a pele sensível do couro azedo
Dispersando o sopro da coragem ávida

A jovem loba que me amamentou
Farejou meus rastros, cansada e anciã
                Anseia o ninar triste da morte.

                Sobre a curvatura cega que nos separa...

            [Vislumbrando o cantar monocórdio da coruja]
O pio soluçante da fome e da perda
No buraco oco do infinito
O pressentimento futuro de pedra

No abalroamento dos inimigos
Há o ruído da risca do sangue
Se me for desenhado ou apagado do meu corpo,
Pedaços velhos de mim cairão e as novas formarão a gana cicatrizada
Loba-mãe seca, seus olhos não mais me vêem,
Não mais me perseguem
E o seu uivo não mais me revive...

Abandonar o resto da carne
O cerne entre os dentes
Fragmentos das cinzas qualquer
Entre as pálidas garras e seu ventre
Não permitais, meus pais, que eu me consuma em terra!

Caminhar entre o joio e a armadilha
O pêndulo da luz sobre meu nome
Fulgura o sorriso naquela que de mim se despedira
Num olhar mais morto que a próxima esquina...

Vilipendiosos sois vós,
Não marquem a talho minha dor
A alegria somente uma flor
Na sua rósea pálida face,
O furor de um beijo torna-se sua foz

Jamais deixarei que
    a anosa tez de meus pais
            Se contradiga
            Nas minhas lágrimas
            Que caem
            Tal como
            Suas peles

Ser e deixar
O âmago da lança imunda
Carcaças nuas em seus túmulos de firmamento
Acinzentadas chagas de uma Terra
Volto a pé...

Ele regressou
Foi-nos o forte desejo liberto

Sim, amor-lar
Arremesso a sorte ao alto
Cada um terá sua parte...
E os tolos se identificarão na espera.

Para ti a maior das frutas
E a mais nova das carnes
Irmão, sirvo-te minha mulher,
Para que descanse...

Fala o que queres
Ouvirás o que o outro deseja, meu caro.
É-me apreciável a sua maciez
Seu cheiro atiça o regaço
Mas suas pernas não me entrelaçaram
Com sua mesma certeza...

Por ventura deseja-me a escravidão
Daquele beijo distante
Úmido como um sorriso chorado
Urdido como o sol e o clarão

Contemplo a sua beleza
Com todo o rigor de minha adoração
Seu vestido dependurou-se no galho
A enfeitar a fortaleza feminina da árvore fértil
                  Carregada de frutos

        E eu de sementes,
        E de saudade veemente...

Escuso tua mulher, irmão,
Diferencia-a, por favor, aproveitando o teu melhor padecer.

Aos ventos, suas mãos e sua voz:

Aproximai de mim, parentes!
Quão peremptório é o trajeto deste dia
Alguns se arriscam na velha guia
Dos raios que afrontam o crepúsculo dormente.

Antiga esta minha cara
Volúveis estes meus olhos
Cadavérico este meu corpo

Deixo-vos a nova cantiga!
Aos pés dos vestidos
A poeira deste chão nos brinda

Viva terra que me engole
Com seu ruminar suave – volto logo – a ser raiz.

Voltarás tu, Yaosú, a ser raiz!
É tempo de janeiro

Grisaram as pompas
        Massacradas           
        Na palma do gigante Vento

Esta as joga para os outros
Vários lados do infinito   
        É a brincadeira,
        É o riso, é o riso...

Nós de obstáculos,
Nós de paredes
Abaixo do guiso esculpido
        Pelas palmas
        Sem cálculo
Terno descanso
O canto do toque das palmas gigantes dos ventos
        A brincarem...

Pompas grises sobre nós
        Sobre o riso
        Sobre o obstáculo
        Sobre acolá
   
Não se desmancham; são os brinquedos do vento...

É a sede, é a sede
Vem a seca, vem a seca...
De cara no rio

O curso do rio
E as maneiras da face
Retas, se duplicam,
E volta a falar

Cheia das águas
Transbordos dos olhos
A seca rastreada da pele
O solo marcado pelo seu tom

O riso aberto
A boca calada
Desemboca o rio noutro rio    
        Desbocado, depois,
        Noutra boca qualquer
   
    Uma sobrenadante folha...
                Tragada
    Em meio aos encontros
       Entre o rio e a face

Na seca da terra
São as gotas do humor
O cílio no rosto
É a folha a ondular

    O percurso do rio
    O sorriso, o olhar
    Mudou-se o caminho
    Um beijo lá, outro cá...

Em linha reta ou nos seus desvios
É o rio
É a cara
É o sim, é o não
O talvez do talvez
Da chuva que cairá...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Dos laços, meus braços...

... em teus braços no nosso planeta chamado cama. Foto: Larissa Pujol
 É a pressa da carência, de uma pelúcia aquecida de mãos a tapas no meio da história que falece. De tamanho eu dispo minh’alma e afogo a calma salivando um beijo teu... Vamos sem chão, podendo a solidão ser duas. Eis que o amor planeja o cuidado que te tenho, mas a saúde não se dispõe ao tempo. O lucro, então, brilha cruzando mordaças, canta sua sorte, e cansa a morte na satisfação...
Ao que aspira, o comando negligente da utopia faz do sujeito a sua procura. Muito astuta, a resiliência atroante principiou o alheio. Deste, apenas a galhofa se comete na sua própria narrativa. No entanto, haveria de esbravejar a distância que de perto acena às escondidas? Ah, o oco do vazio: a lonjura das ausências... Tive amores que de ponte serviram para chegar a ti, meu bem... Mesmo assim eu choro o perdedor bradado por Tchaikovsky...
Tradução caseira de "Alicia en el país de María". Foto: Larissa Pujol
O Mistério é a incerteza que nos leva ao futuro. Nós duas incertas, mas futuras?  “Que aconteça logo!” – digo a expressão que anuncia o poder esmagador da ansiedade! Juventude esta que, de experiência em experiência, vem a conhecer realmente a vida. Então, seu ímpeto combatente fenece e, resignada, não mais se espanta ao compreender a própria miséria moral de que “tudo está errado”. Ah, mas Tudo é incrível enquanto o amor resistir! Embora amemos a vida (e com vida), minha amada, não nos esqueçamos da natureza – a única para a qual não há substituto –, e que esta é a esperança de tudo, inclusive da morte...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crônica epistolar: yesterday.



Nosso dia 12, teu dia seguinte...
Quero esta música, amada, para amanhã, mas ontem nascida contigo e entregue na festa escusa do sentimento. Também és a pessoana que tanto te entrego alcunhas disfarçadas... Ah, as turbulências deste dia comemorado, cujo apreço chora no seu final... Entretanto, já nos nomeiam, já nos unem – alheios começam a compreender e a vida nossa amanhece em paz, querida. O ontem, nossa crença, amadurece a cegueira deste nó feito de aço: ferrugens de vínculo então precavidas contra a separação humana.
Minha, são diversas as nossas gêmeas! Somos cantadas, lidas, conflitadas e acarinhadas num ninho sábio de reclusas namoradas, de reclusos lençóis. À margem das vestes, a cama inaugura um planeta apenas nosso: de constelações ruivas e morenas, de vales deleitosos em mãos e fontes amadas da interna redenção sobrevivente. Sem mais, querida, amar-te é um novo mundo com cabelos selvagens à primária comoção desnuda...
Muito anseio dela o dia de ontem... Eu a amo de ontem ao primitivo destino traçado... Foto: Larissa Pujol
Nosso e teu dia bradados na sala fechada. Amor no vácuo desprendido de condenação... As alianças nos nossos dedos polegares não tardam, querida. São sóis que se encontram e devoram a terra caída da realidade. Existe qualquer amanhã para nós duas, linda! Somos plenas de estamos aqui! Uma casal de amor que “abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo” – com o nosso próprio tempo pensado em nosso planeta... – ajuda-me, querida, a entender do que as fases se harmonizam numa única lua de nós – mas que não nos amanhece juntas..., embora, graças a D’us, eu te viva, amor de colega, amor de pessoa, amor de namorada, todo o dia! Cheguei. Chegaste. Na escola tu me pegas pela mão e deixas o amor também chegar... Seja entre os lados ocultos das paredes, na evasão do mundo que, então, solitárias preenchemos de ansiedade, de entrelaces, de vontade, de cura! De várias maneiras até o sinal no fim da tarde, junto à predileção que me dizes, mesmo sobrecarregada de profissão: fica mais um pouquinho...   
O dia se despede, mas despistaste a mesa com teus filhos e tua máscara conjugal. Eis que a vampira de tuas virilhas te ama de forma dilacerante e impetuosa!
Feliz dia nosso, minha amor!
Teu aniversário de legenda

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Líquidas

Perseguir saboneteiras bonitas: atitude de quem muito lê Vinicius de Moraes. Foto: Larissa Pujol.

Enquanto jaziam as roupas ao fim do suor, a água, o perfume e a morena chovem dentre os meus pelos na física obediente do amor. Aleatórios toques oprimidos das suas mãos que suspendem com todo crime as desleixadas ordens de ser minha. E eu, antes dela, fui das sobras nas quais escoa o cotidiano...
Macia e fragrante, o risco iminente da sua boca existe na transparente leveza que me despeja... Olor taciturno como derretido na vela. Querer tal qual a sua chama que tenta alcançar o infinito... Pertencida no que há de mim, a morte não é, então, pretexto. Minha querida acolhe outra vida e me a entrega em seu ninho! Sabe ser pele, sabor, perfume e destreza... Nua ao que ela me pede, desmancha-se, pois, na minha saboneteira com toda ninfa das águas que lhe acompanham. Belíssima fantasia que forte traçam-na os jatos: Baudelaire cortou-a em pedacinhos para cada todo agradar-se e divertir-se...
O medo sarou o corpo, o sabonete deslizou a ternura, a pétala de suas mãos escoou a mulher, a verdade curou o receio. Na purificação reclusa, este retalho de vida própria entre nós, a sorte flui compilando a saudável prestação entregue à trama exagerada. Condensou a conquista, o começo e o laço. Quão líquido e diário nosso crédito de encontro. Interpretação esperada do fino e apurado vínculo. Consentidas, nós-naturalmente, desperdiçamo-nos, porém, líquidas em nossos vãos sem vigilância. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Por quem meu gozo dedica o ar...

Round midnight... Foto: Larissa Pujol

Então ela caminha ao meu encontro, de braços cruzados, como um sopro obscuro e sexual d’um saxofone... E eu a respiro de perfume em mulher nos meus solfejos bailados de cintura, quebrando lá e cá o serpenteio da nossa feminilidade. Ah, em minha boca ela bate staccatos mordiscados de língua, tira-me a boquilha, e me preenche, deveras, de ar e socos ternos cujas ondulações descem minhas mãos pelos seus finos e lisos cabelos.
Cintura fina e forte! Músculos! Somente o seu salto tocado decidido acompanhava este meu sopro. Ela desce do salto, sua única veste, revelando que o sentimento é o estado fértil da razão... Sustenta-se agarrada em meus seios, atrás de mim, apertando liberdade desde os pés pequeninos, no gélido solo, ao encosto suado da primazia de sua púbis macia e negra em meu quadril. – Diz para mim um "te odeio" bem rodrigueano... – Enlouqueci suas rugas. Antes, primitivo e espiral, o coração curvou-se de maduro quando meus dedos abriram seu corpo através do zíper atrás do vestido... Ela não treme, então. Fixa-se na minha síndrome arrepiada de estar bem. – Minha garotinha... – Derrete assim sua era uma vez, virgem..., eu.
Então ela comanda a sua saxofonista deslizando nudez por todas as chaves que pressiono. Não erro. Sopro e inspiro seus gemidos de voz madura e ligeiramente metalizada... Mulher de sombra aguda, de tons labiais e agrado todo meu: toda minha. Toda minha na sua vaga satisfação. Árdua travessa de seus finos dedos, outra vez, a sugar meus intervalos... Aberto o ar acalentado, minha boca despeja nos ouvidos dela gotas de seu convencimento, o mais significado possível, como o veludo ameaçador de brilho e cor.
- Amo-te...
- Amo-te...
- Amor eterno!
- Amor eterno!
Natural, a cama é o melhor casto prostíbulo...


 play!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Figura exclamada

De que modo o segredo não deixa sombra? Foto: Larissa Pujol.

“[...] e cheias de ternura e graça foram para a praça”, nos entremeios dos filhos e filhas que planejavam criar com os olhos puros, dizendo uma ou outra simplicidade fácil e inumerável que ambas superam. “Amo-te” o beijo proposto naquele instante escuso do mundo, caminhado pelo corredor. Almejo com magnânima e expressa louca vontade de abraçá-la até derretê-la ao pó de sua maquiagem... Aquilo que o bicho aninhou apenas sai ao alçar voo e ganhar corrida... Cada vez a sequência tem nosso alfabeto. A mulher encoraja predestinada à liberdade; e, se tolhida, ama ao embaraço de sua abstração, quando olha para o paraíso simplesmente encontrado ao seu lado. Sabe-se que o doce aquece a boca, chove a língua, goza deglutido! Apaga-se por momento na parede, escorrendo a imperativa satisfação. Querer ao passo que visa o aproveitamento. Sem o molde, a respiração toma conta... E uma da outra... O sentido aparece mágico durante a confluência dos vestidos entre o vento... 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O siso da profissão

- Sora, a senhora tem um abraço tão maternal...
Expectativa: agradecer a amável comparação.
Realidade: Não chores! Não chores!

O crescimento é o melhor conteúdo. Amada miudeza curiosa, por vezes taciturna de idade, que amanhece pássaros antes sonhados nascimento... A gestação enluarada acarinha a criança da mensagem. A fortuna próxima do amor que dispensa estereótipo – filho, filha – no bem-querer da sabedoria.
Acolho neste ninho a inefável plenitude do ser. Imenso pensamento a se completar pelo alcance de seus desafios corridos, saltitados, chorados. Entretanto, rebeldes de tagarelice e cabelos multicores... Jovem querida de carência, filha de destino efêmero: logo continuará sem mim, talvez pela vez distraída que sua adultice não me a fará reconhecer. Detalhes cujas rugas perecerão do carinho. Este ato sem segredo de sinceridade, incomensurável no breve espaço que abraça.
Remedia a labuta este reconhecimento. Nos vitrais empoeirados de vida, a tua semelhança caberá nos calcados detalhes... Soube-me o afago dizer que a sensata presença se filia ao sonho caridoso. Quão amplo e permanente este ser! O santuário assinou a justa manifestação arquejada de alegria. No mais intuitivo dos encantos, a crença materna...  

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Harmônicas de minuto

Faz-te carinho a delícia expressa da surpresa, à súplica desvairada dos modos. Os saltos são verbos ansiosos, agora, como crianças, marcam passos na corrida para a cama. Além-mar, tu sabes, pequena, que nas ondas dos meus lençóis, (a)mar exige mais fôlego e mergulho total uma na outra... Ah, o fôlego. Quando nos une, falta. No entanto, ao consentir a ausência, tento ouvi-la nos pares do relógio.
Permito-me transcrever aqui o sentimento enquanto te escuto nas horas. Eu te amo, querida, de um modo inimaginável, quiçá doentio e amargo. O tempo tem, na sua palavra complexa, a desertora sensação de profunda alma que retesa os nervos de prazer no indubitável desejo de se expressar...
Então, dos arrabaldes surge a fantástica fumaça extasiada de desconhecido. O êxtase beatífico confunde a dor na rara beleza que verte preenchendo o misterioso caso. Seus fantasmas de vida distraída, mas romântica, existem no interesse que cinge a linha do querer. No horizonte, as árvores tranquilas do teu pensamento parecem emanar o calor da luz suave que cintila os teus olhos. Não havia tempo tão belo quanto esse! Tua figura bem-feita sobressai vivida, minha amada, afirmando meu hábito com tua graça. Observei a natureza: ela a tua volta se vê tépida e luminosa. Um redor cristal fosco da liberdade.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Extenso conforme...

Mesmo com as mãos frias ela escapa um dito saudoso de bem-querer. Não é, portanto, fantasia aquela passagem, a minha preferida, cujo semblante descrimina a suntuosidade de sua modelo.
Boca pequena do seu melhor sussurro. Aprendo logo a incrível habilidade na pele loquaz; e que de tão louca e vulgar, seu peito expande o significado de ela ser... Há por querê-la esta natureza morena, muito forte e perene até onde ela permite o fundamento do meu pranto. A palavra de sua enciclopédia comete antônimos de menina. Violenta com sua rosa o fraco sorriso que em mim adoece... Acaricia com verbos a vida que mente dizendo “sempre”. Somos o que pertencemos à angústia; no que respira a ida, uma ressalva.
Importante e contente o animal de si procura. Brada o mundo e solfeja a mulher – na cama em que a ouço e me despeço. O efeito, sua cor, seu braço num córrego-derme perfeito de luz acolhido ao fechar dos olhos. Cria, esta amada minha, o fato por suas rugas. Juíza camuflada por planos e panos que rasgam em qualquer saída de unha...
Existem quantos dias quentes para discutir, mais o porquê daquela roupa perfumada. Zelo que cabe no colo e na paranóia da experiência. O habitat de sua crença por fazer-me dela.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A sua ventura

Seu ninho é um bocado grato que tenho. Ali haveria eu de derramar meu pesar, socorrer-me no conselho de seu coração, mas a alegria de permanecer tem o que fazer comigo. A roupa se desajusta envolvente ao seu amor... Eis que subo o pensamento intrincado e a sua atenta vigília carinhosa repousa em quem se diz... Eu, moça, gozo deste regalo de cor caramelo no qual tão doce intrometo meu suspiro.
Eu sou, em seu ninho, o mundo entre as infindas constelações. Minha estrela está em seu elemento. Logo, ela suave surge envaidecendo minha pele com suas asas expressivas de toque elevado... Os pelos eretos a reverenciam sobre a derme que surde, quiçá, para liberar um tremor inopinado e, da ponta do corpo, um gemido desafinando um sustenido de mulher...
Emaranhadas entre braços e pernas, ponho-me a deslizar uma madeixa pela sua curvada cintura marchando o deleite do melhor compasso que teria o hino de sua feminitude. A felicidade na conversa sobre objetivos inocentes movem as sinestesias e gracejos apreciáveis. De tão ataviada namorada, as finezas se dirigem às plantas dos pés e se soltam pelos olhos. O ninho, aliás, a sua ilha preenche desalentos vencidos pelo encanto e pela gentileza, borbulhando prazer no arfar que sobrepuja sua geniosa habilidade de não cuidar do futuro. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Parede aberta

Em cada solidão, uma vanguarda. Foto: Larissa Pujol.

Num prego suspendeu a decoração de outra vida observada. Permitiu nesse meio do nada o ponto perfurante do limite dos olhos, a se manter nos cantos agudos e concluídos.
O branco longe. Longe esquadro que dos fracos se vê vulnerável; mais de posse a cada sobejo dado, embora a graça perdoe o infinito. Foi assim que sua veste bonita de escura transmitiu ficar ali: carregada de fardo na alforria dos montes! A casca versa mísera a concessão do pano. Outro pedaço adorna os parasitas que se camuflam no deslize belo à face do maior encanto.
De tudo, o passado emprega o seu vão momento. Espalha no outono do pensamento as manifestações senis de entusiasmo ou nuvem... Criou estimada observação quem se outorgou ser peça cativa deste pedaço. Haveria o dia, para o esmero do artista, de olhar-nos à passagem estática de si. O furo condiz à provocada batalha com louvor... O pó derramado esqueceu-se do espaço e se considerou liberto junto ao ar e aos polens soltos da figura.
Logo, as pestanas cedem à contemplação a vista taciturna e infantil do conforto. Terna cavidade fecundante, cujo corpo antes se subjetiva durando a ultravida.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pequenininhas

Protesto meu amor por ti
                     [na calada ilusão à toa
A saber que me console
O beijo que nossa amizade perdoa.

Tu és uma felicidade toda... toda...

Tens a melodia do nome
                    [e a harmonia do sorriso.
Completa és num todo desejo-mor...
Ao fim de tua letra,
A mulher tem a sorte de ser tu.

Minha pequena: se eu te tirar da solidão, tu vens morar na minha? Foto: Larissa Pujol.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

No risco suave dos vultos

Aos teus pés... Entre tuas mãos. (Foto: Larissa Pujol)
Lembro-me, querida, quando entrelaçamos os dedos pela primeira vez... Aquecíamos na macia caixinha formada por nossas palmas as últimas consequências da subliminar confissão. Do nadir da dor, emergiu a delicada lava rumo ao zênite de um corpo-mor amoroso. Miragem entre nossos olhos, querida, para a qual as pernas paralisam hibernadas na serenidade da nossa rendição...
Querida, que maremotora de pele! Água-viva ardente do meu segredo. Os assuntos de amigo cingem códigos na palpável linguagem alugada da luz. Isolamo-nos duas no meio da cinza redoma torpe dos outros. Somos, no entanto, o cerne absolvido: amamo-nos! Deixemos as pessoas irem, pois nos usam as palavras por todo fluxo das línguas que dispomos. Tão doce, minha querida. Doce ainda maior e triste na despedida. Meu amanhã que te encontra me impede de desistir – declaro-te – enquanto minha casa ali vazia preenche em mim o outro silêncio do torpor.
Tétrico fingimento a cair da pele, derretido, por todo caminho das estrofes a combinar contigo. Mítica querida! Comprovas na canção tua impregnada memória. O tempo seríamos nós – dia e noite – metades impossibilitadas de parar... Até os sonhos, o nude dos teus lábios vai se dissolvendo no destino que confia na vastidão de nossa lenda. Secou a estação. O manso vento permite às florezinhas o repouso no breu deserto do chão. Elas resistem e se decompõem.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Ela votiva: vaga, deliciosa, estranha

Que extasiada manhã, colorida do nosso ser único a sorrir o eufemismo dos minutos. Estes se esvaiam entre uma clarividência e um retrospecto que insistíamos haver coincidências de nós... duas.
Aproximar-me de ti, querida, é alar o perfume das emoções. Extrato exalado das mulheres compostas de sangue da flor – que palpita nos vãos límpidos e satisfeitos do sentimento, buscando a alienada expansão do próprio corpo, mais para uma e outra libertar! Espiritual desprendimento do tempo e deste local que nos embriaga com o dever cumprido, somos duas plantas amigas de amor interpretado nas sensações secretas.
Ah, querida liquefeita! Teria eu em ti o meu cálice no leito! Meu desespero de vida, que calada por ti, vagueia só em teu tenro ninho de humana, ama teus assuntos e desabafos pessoais, e sem querer percebe que se ausentara no desejo desta que te confessa, deixando parte da atenção em algumas páginas atrás. É a vontade cínica de cobrir as estrelas de tua ampla boca com a minha. Nunca mais sorririas a outrem! A mim, terias tão somente espasmos de sobrevivida entrada e saída de ar, sorrindo as estrelas, e voltarias para a introspecção aprazível deste meu sonho que muito te quer e todo o dia te pede em matrimônio – matri, mater, mulheres!... No entanto, o silêncio mediador conclui que tua felicidade possui a essência venenosa dos costumes, embora em mim habite a aurora do amor que me figuras nessa tua face linda! Linda face! Jardim onde as flores nascem lascivas pelas mulheres. Continuamos assim... Nua tu, minha essência terrena.   

sexta-feira, 20 de março de 2015

Feminino plural

Ao encontrar mais um entardecer na sua presença, a minha música dela: "e quando escuto o som alegre do teu riso que me dá tanta alegria, me deixas louca"

Como o rolar reto dos pedregulhos, tudo se acomodará no solo qualquer. Imo onde se pisa retraindo calafrios de raiz a dimensionar capítulos férteis sob a sombra carregada. O alimento deixou a planta para idolatrar a morte... Alguns pássaros se tornaram simples cores acompanhadas de distância; e nesta singular paciência, a solidão colhe os livros e discos da abandonada casa no campo. A Dona Elis cuidara alegre dela...
Desafio protegido em seus braços, local de cela! Anéis de brandura no olor do seu sol vêm ao encontro do mundo. Risco a vertente do feminino voraz, capaz de debilitar-se. Hábil linguagem do horizonte, da terra espreguiçada em gestos sinuosos do corpo... dela!
O que é vida se espreguiça nela! A água ondulante, a voz que vibra... Há boca fresca nesta em que me cativo! Coisas e criatura, espaço silvestre do livre arbítrio. O zênite ganhou de seu sol o princípio significado. No declive da luz, assim, libertam-se os membros estalando rústicos suspiros. Exaustas seres, murmuradas coisas para não perturbar o segredo que repousa. Perfume, aqui, imobilizando o ar, arquejando o desfalecimento do tempo... Vencida nos braços flácidos da tarde, esvaio-me reclinada entre seus seios...