sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O começo com ela

 
Iluminura medieval
Setembro de 2014

Ao fim da manhã, o som longo e cansado apontou o caminho da saída. Entre bizarros grunhidos e euforia dos alunos, a professora apertava em sua mão a chave com a qual trancara no box seus pertences didáticos.
A moça andava e parava de supetão, conforme os mimos de seus alunos... Mas também, por que preocupar-se, já que o turno vespertino a esperava, novamente, nas mesmas salas as quais serviu o conhecimento? Aos poucos a multidão foi se fragmentando e os galhos das árvores, então, tomavam a palavra. Não havia sequer uma viva alma docente a não ser a jovem professora. Pensou assim até que Rhode surgiu da biblioteca contornando passos de salto alto. Não se importou e seguiu escorada nos ferros que compunham o corrimão da escadaria. Lia e se instrumentava em John Dewey, enquanto sua preocupação romântica ansiava um trato de carinho e atenção daquele pintor de quadros que a fazia repetir a velha história com novo personagem.
Nada. Nenhuma mensagem. Sentiu-se escrava à corrente no fosso do imo; e ao fechar os olhos, percebeu que milagrosamente esse fundo ia se emergindo até sair por completo junto com a expiração: sim, era Rhode que apoiava a sua mãozinha no ombro da moça e lhe transferia através do dia-sorrindo a plena virtude de estar bem.  
- Lendo quem revolucionou a educação pública?
- Para compensar a dor do sentimento, o raciocínio trabalha melhor.  – Sorriu desleixada.
Rhode sentou-se nos degraus, ao seu lado, e encontrou os olhos dela. Os grandes castanhos de Rhode reanimaram a jovem, que aceitou logo o convite para descansar num lugar menos desconfortável... Num banco do pátio, então, a professora procurou que a jovem se abrisse com ela. E assim fez. Aproveitou as rajadas de vento-norte que espiritualizavam um vestido poético ao calor, não citou nomes, mas contou sobre seu último envolvimento e o descaso.
Os olhos de Rhode tornaram-se pedras! A feição austera surgia da força das mandíbulas. Respirou fundo e despejou:
- Fico feliz com a idiotice desse homem! – Aliviou-se. – Este asco desprestigia a tua poesia.
- Apesar de eu sempre estar ciente da nossa situação, uma palavra de carinho faz bem.
- E tu crias as melhores leituras de um ser humano!
- São apenas revisões do que sinto...
- Sabes que eu entendo pouco de computador e internet, mas aprendi como acessar tua página. – Rhode deu um riso pequeno de cumplicidade. – Não tenho “redes sociais” porque é demasiada informação para uma pessoa que já usa Renew 45+... – A professora jovem acompanhou e ambas riram... – Bom, é isso que sei: abrir e-mail e teus textos. Ah, e leio teu livro! E... É tanta pureza de romantismo que... qualquer pessoa se apaixonaria por ti, à primeira leitura e se completaria à primeira vista; e vice-versa.
- Tu sabes como fazer sorrir, Rhode! Agradeço muito. – Suspirou e levantou os olhos para os galhos altos encontrando sorrisos de céu. Ficou silenciada por alguns segundos... Rhode apoiou as pequenas e magras mãos sobre os joelhos. Subiu os ombros levemente como se pegasse coragem para desabafar. Relembrou:
- Tu ouviste o que eu disse?
- Praticamente tudo. – Respondeu certa disso.
- Qual foi a última expressão?
- Algo como “qualquer pessoa se apaixonaria por ti...”. E eu agradeço novamente.
- Certo, tu ouviste, mas não prestaste atenção!
- Bom, se qualquer homem se apaixonaria... – Resolveu comentar a jovem professora...
- Eu não disse qualquer homem, guria! Eu disse qualquer pessoa! – Interrompeu arquejada, denotando acentuado nervosismo... – Qualquer pessoa!
Seguindo os trejeitos da ventania, a boca de Rhode, como uma lufa, atravessou com músculos, língua, batom, dentes e saliva a boca da jovem colega. Os hálitos eram quentes, gostosos e neles restava um gostinho do café do recreio. Foi um beijo longo, esperado por uma, desesperado por outra, e doce, de acordo com o sabor cereja do gloss que, então, se mesclava passivamente com a cor já desajeitada nos lábios. Minutos de sonhos com os quais as mãos de ambas fizeram jus ao entrelace! Juntaram-nas dedo a dedo na harmonia dançante da língua.
A música dos lábios terminou e a moça reviu sua colega. Acariciou os cabelos lisos, passou mechas para trás das orelhas. Disfarçava respiração enquanto mirava os lábios finos dela, agora sem batom. Admirou os olhos, o rosto delicado com algumas linhas de expressão e o seu semblante de vida. A ser mais bela, segundo a confissão! Rhode, por sua vez, abria o seu sorriso-piano, cheio de dentes. Pegou as mãos da companheira, e num espaçar de braços, agarrou-se nela. Abraçaram-se toda, toda. A moça acolheu seus pensamentos sobre o peito. Assim voltou a realidade:
- Não, não... – Afastou-a do seu corpo - Mas, Rhode, tu és...
- Sou casada por conveniência! – Explanou.
- Sinto-me mal... – Fechou-se a jovem.
- Querida, mimosa... Perdão! Por favor, perdoa...
- Não me peças perdão, Rhode. Não é por ti, amada. É por mim o desalento... Estou assustada comigo. Há poucos minutos atrás, uma boa amiga, confidente. Agora, tu és a reunião mais amorosa que senti. De repente, entendo o que passa por água e vinho.
- Quer que eu me explique? – Perguntou com insegurança, pensando que a jovem a recusaria.
- Amo te ouvir...
Sim, ela amava ouvir Rhode... Seja em conversas jogadas, reuniões, festas e até em sermões que a moça ouvia durante as aulas, isso quando a colega deixava a porta da sala aberta. Rhode à sua frente inclinou-se a ajustar os sentimentos, tomou as mãos da jovem e prosseguiu:
- Primeiro, esse prazer meu por ti acontece há muito tempo. Lembras quando nos cruzávamos entre uma aula e outra?! Pois é, pensei que nunca mais eu passaria por isso...
- Também me lembro da primeira vez que trocamos palavras. – Sorriu nostálgica. – Na roda de professores, eu e tu conversávamos coincidências para nos aproximar... Tu estavas de rosa.
- Verdade. – Riu nostálgica. – E dali por diante, todos os dias encontrávamos coincidências uma na outra... – Mordiscou o lábio inferior e voltou à explicação – Bem, mas, continuando, querida, até agora somente meu cônjuge sabia da minha homossexualidade. Fui criada num ambiente totalmente autoritário e me forcei a casar antes dos vinte anos. Este meu marido era antes amigo de rua, entende?! Ele estava a par da minha situação... Então combinamos um casamento para, enfim, sair de casa! Imagina se, na época, minha família - principalmente meu pai! -, soubesse que eu me atraia por elas! E quão difícil foi a própria aceitação, que beijei somente uma menina, no final dos anos 70, uma namoradinha de colégio. Eu tinha uns 17 anos, por aí... Foi uma despedida para casar. Doeu.
- Uma despedida de solteira.
- Se fosse alegre, mas não. E também porque nunca me relacionei sexualmente com uma mulher.
- Então... Ah, não brinques.
- É verdade... Pensei que tratando de formar uma família conservadora, meus sentimentos também tomariam este rumo. Que até pudesse me apaixonar pelo meu marido, mas não. Amo-o fraternalmente, não nego, mas prefiro a maciez, o cheiro feminino, o toque amado...
- Não pensaste que “conservando” repetirias tudo que viveste. Que anularias tudo para desenhares novamente no mesmo papel. – A moça esbravejou.
- Tudo bem. Mas se não fosse assim, eu nunca sairia de casa. Moças da minha época, que ingenuamente tu dizes que gostaria de ter vivido, eram tolhidas pela sociedade! Não éramos somente Beatles, Secos e Molhados e Janis Joplin... Vivíamos e aprendíamos sob lema “não sou feliz, mas tenho marido”.
- Sádica expressão. Bem poderias tu, então, ter “chutado o balde”! Pelo que sei, tal época foi marcada por muito desses “chutes”. Tu te acovardaste por quê?
- Sádica vida. Tua geração é corajosa. Para ti é fácil, né?
- Aham, é! – Deu uma pancada de expiração. – Bom, eu tenho de almoçar. – A moça mudou seus ares. Transgrediu a alegria. - Vai para casa, para o teu berço de boas maneiras. 
- Que aconteceu contigo? – Indagou Rhode com preocupação severa.
- Ah, desculpa. – Murchou a ira – Não quero, jamais, ser indelicada contigo. – e abriu um sorriso tímido de lábios fechados. – Mas precisamos ficar sozinhas... Além disso, preciso revisar a aula da tarde.
- Claro. Não quero atrapalhar o teu work-a-holic. Não me expliquei bem, não é? Desculpa qualquer coisa, então. Ficamos por aqui.
***
A tarde havia chegado, mas ambas resolveram chegar ao início de suas aulas. No mesmo corredor, uma para um lado, uma para o outro, respondendo à boa-tarde que os alunos lhes diziam... Dirigiram-se mecanicamente às suas salas, despejaram conteúdo, explicaram, exemplificaram, solucionaram dúvidas, passaram atividades. Havia períodos em que suas aulas estavam de frente uma para outra, mas resolveram deixar as portas fechadas.
No intervalo, a tensão de estar no mesmo reduto fez com que elas tremessem suas xícaras de cafezinho. Enquanto uma se servia a outra ficava à mesa. Tristes, nenhuma se olhava na cara. Desviavam-se engolindo seco. Estavam incoerentes e carentes delas mesmas. Quinze longos minutos que poderiam bem ter rido, se abraçado... O único aproveitamento delas naquele momento era pensarem-se inseguras. Elas notaram que o tempo terminou após todos se levantarem e voltarem às atividades.
Dois últimos períodos. O sol felizmente deu uma trégua e dava espaço às cinzas nuvens. Felizmente também estavam os alunos cansados da euforia... Com a quietude alastrada, a jovem professora decidiu por deixar aberta a porta da sala. Batia ali um vento fresco e gostoso, a sensualidade da chuva... Ventinho que começou a se fortalecer e a balançar três margaridas que estavam numa pequena floreira sobre a mesa na sala da coordenação. Fazia voar papeladas também e, nos sopros apitados, por vezes, ouvia os saltos altos de Rhode que estava noutro canto do corredor...  
Mais um dia feito! A nuvem de jovens pegava escadaria, pegava mochila, pegava-se entre si. Professores lotavam sua sala em meio às queixas, aos “ufas”, aos “graças a D’us” e aos “até amanhã”... A moça ficou na sala que lecionara. A sala vazia. Preferiu mirar as três margaridas e deixar que os colegas fossem embora, especialmente Rhode, sem perceberem que ainda se encontrava na escola.
Observou de longe: a coordenadora também havia saído...  Logo, a jovem, em dois passos, entrou na sala da chefa e apanhou para si uma margarida. Voltou com os mesmos passos para sua solidão, guardou seus pertences. Foi até a sala dos professores, respirou silêncio... e no armário de Rhode, a moça traspassou o orifício do cadeado com aquela margarida. Leu o nome dela, cativa no toque saudoso cada letra naquele papel grudado com fita adesiva... Leu como a lápide do que estava sentindo: falta.
Voltou para a sala de aula... Quieta, terminou sua leitura de Dewey. Um trio de alunas ainda estava pelos corredores. Elas passaram correndo, rindo, de fones no ouvido, e sentaram-se nas escadas do térreo. – Se não fosse por hoje, estaríamos assim. – Pensou a moça no seu segredo. Ouviu os passos de Rhode entrando na sala dos professores. Seguiu-a na fração dos segundos e sorrateiramente manteve a distância.
Rhode viu a margarida! Retirou-a do orifício e olhou pensativa, com feição apaziguada, cada branca pétala e o centro espesso e escuro... Acariciou cada pedacinho na ponta dos dedos. Por curiosidade divina, o trio de alunas resolveu colocar no volume máximo a música que estavam escutando: The only exception, do Paramore. A letra correu... Rhode sentiu a presença da sua menina, virou-se: I’ve got a tight grip on reality, but I can’t let go of what’s in front of me here… Ambas, em silêncio, miravam-se rosto a rosto e ouviam a canção, já no final, que acontecia entre elas. You are the only exception... Sorriram. You are the only exception... Brilharam-se. You are the only exception… Um passo a frente. You are the only exception… Abraçaram-se com todo o corpo que tinham. Pousaram seus rostos em cada ombro de paz. A jovem acariciou os cabelinhos macios de Rhode, valendo a pena o risco de as encontrarem naquela situação. Rhode corria as mãozinhas e pressionava forte as costas e a cintura da moça deixando-a com vermelhidões manchadas de giz...  Tão lindas! D'us lhes concedia a beleza da demora a cada minuto... Minutos, mais minutos! A novata professora disse:
- O “aqui” é muito pouco para ficarmos, Rhode. – Referiu-se à última fala dela.
- Concordo plenamente. – Rhode brilhou os céus castanhos e lhe sorriu todo o jardim de margaridas de volta.
- Plenas, então! – Acertou.
- Plenas e perenes! – Completaram uníssonas…
E elas, então, saíram de braços dados em busca de algum chimarrão que corria pela secretaria da escola...
And I’m on my way to believing... And I’m on my way to believing…