Pular para o conteúdo principal

No risco suave dos vultos

Aos teus pés... Entre tuas mãos. (Foto: Larissa Pujol)
Lembro-me, querida, quando entrelaçamos os dedos pela primeira vez... Aquecíamos na macia caixinha formada por nossas palmas as últimas consequências da subliminar confissão. Do nadir da dor, emergiu a delicada lava rumo ao zênite de um corpo-mor amoroso. Miragem entre nossos olhos, querida, para a qual as pernas paralisam hibernadas na serenidade da nossa rendição...
Querida, que maremotora de pele! Água-viva ardente do meu segredo. Os assuntos de amigo cingem códigos na palpável linguagem alugada da luz. Isolamo-nos duas no meio da cinza redoma torpe dos outros. Somos, no entanto, o cerne absolvido: amamo-nos! Deixemos as pessoas irem, pois nos usam as palavras por todo fluxo das línguas que dispomos. Tão doce, minha querida. Doce ainda maior e triste na despedida. Meu amanhã que te encontra me impede de desistir – declaro-te – enquanto minha casa ali vazia preenche em mim o outro silêncio do torpor.
Tétrico fingimento a cair da pele, derretido, por todo caminho das estrofes a combinar contigo. Mítica querida! Comprovas na canção tua impregnada memória. O tempo seríamos nós – dia e noite – metades impossibilitadas de parar... Até os sonhos, o nude dos teus lábios vai se dissolvendo no destino que confia na vastidão de nossa lenda. Secou a estação. O manso vento permite às florezinhas o repouso no breu deserto do chão. Elas resistem e se decompõem.

Postagens mais visitadas deste blog

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…