sexta-feira, 3 de abril de 2015

No risco suave dos vultos

Aos teus pés... Entre tuas mãos. (Foto: Larissa Pujol)
Lembro-me, querida, quando entrelaçamos os dedos pela primeira vez... Aquecíamos na macia caixinha formada por nossas palmas as últimas consequências da subliminar confissão. Do nadir da dor, emergiu a delicada lava rumo ao zênite de um corpo-mor amoroso. Miragem entre nossos olhos, querida, para a qual as pernas paralisam hibernadas na serenidade da nossa rendição...
Querida, que maremotora de pele! Água-viva ardente do meu segredo. Os assuntos de amigo cingem códigos na palpável linguagem alugada da luz. Isolamo-nos duas no meio da cinza redoma torpe dos outros. Somos, no entanto, o cerne absolvido: amamo-nos! Deixemos as pessoas irem, pois nos usam as palavras por todo fluxo das línguas que dispomos. Tão doce, minha querida. Doce ainda maior e triste na despedida. Meu amanhã que te encontra me impede de desistir – declaro-te – enquanto minha casa ali vazia preenche em mim o outro silêncio do torpor.
Tétrico fingimento a cair da pele, derretido, por todo caminho das estrofes a combinar contigo. Mítica querida! Comprovas na canção tua impregnada memória. O tempo seríamos nós – dia e noite – metades impossibilitadas de parar... Até os sonhos, o nude dos teus lábios vai se dissolvendo no destino que confia na vastidão de nossa lenda. Secou a estação. O manso vento permite às florezinhas o repouso no breu deserto do chão. Elas resistem e se decompõem.