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Harmônicas de minuto

Faz-te carinho a delícia expressa da surpresa, à súplica desvairada dos modos. Os saltos são verbos ansiosos, agora, como crianças, marcam passos na corrida para a cama. Além-mar, tu sabes, pequena, que nas ondas dos meus lençóis, (a)mar exige mais fôlego e mergulho total uma na outra... Ah, o fôlego. Quando nos une, falta. No entanto, ao consentir a ausência, tento ouvi-la nos pares do relógio.
Permito-me transcrever aqui o sentimento enquanto te escuto nas horas. Eu te amo, querida, de um modo inimaginável, quiçá doentio e amargo. O tempo tem, na sua palavra complexa, a desertora sensação de profunda alma que retesa os nervos de prazer no indubitável desejo de se expressar...
Então, dos arrabaldes surge a fantástica fumaça extasiada de desconhecido. O êxtase beatífico confunde a dor na rara beleza que verte preenchendo o misterioso caso. Seus fantasmas de vida distraída, mas romântica, existem no interesse que cinge a linha do querer. No horizonte, as árvores tranquilas do teu pensamento parecem emanar o calor da luz suave que cintila os teus olhos. Não havia tempo tão belo quanto esse! Tua figura bem-feita sobressai vivida, minha amada, afirmando meu hábito com tua graça. Observei a natureza: ela a tua volta se vê tépida e luminosa. Um redor cristal fosco da liberdade.

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Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
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- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
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- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…