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Líquidas

Perseguir saboneteiras bonitas: atitude de quem muito lê Vinicius de Moraes. Foto: Larissa Pujol.

Enquanto jaziam as roupas ao fim do suor, a água, o perfume e a morena chovem dentre os meus pelos na física obediente do amor. Aleatórios toques oprimidos das suas mãos que suspendem com todo crime as desleixadas ordens de ser minha. E eu, antes dela, fui das sobras nas quais escoa o cotidiano...
Macia e fragrante, o risco iminente da sua boca existe na transparente leveza que me despeja... Olor taciturno como derretido na vela. Querer tal qual a sua chama que tenta alcançar o infinito... Pertencida no que há de mim, a morte não é, então, pretexto. Minha querida acolhe outra vida e me a entrega em seu ninho! Sabe ser pele, sabor, perfume e destreza... Nua ao que ela me pede, desmancha-se, pois, na minha saboneteira com toda ninfa das águas que lhe acompanham. Belíssima fantasia que forte traçam-na os jatos: Baudelaire cortou-a em pedacinhos para cada todo agradar-se e divertir-se...
O medo sarou o corpo, o sabonete deslizou a ternura, a pétala de suas mãos escoou a mulher, a verdade curou o receio. Na purificação reclusa, este retalho de vida própria entre nós, a sorte flui compilando a saudável prestação entregue à trama exagerada. Condensou a conquista, o começo e o laço. Quão líquido e diário nosso crédito de encontro. Interpretação esperada do fino e apurado vínculo. Consentidas, nós-naturalmente, desperdiçamo-nos, porém, líquidas em nossos vãos sem vigilância. 

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