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Crônica epistolar: do meu leito...

Ah, este leito! Quão frio é o tecido na sua plástica receptiva. Pouco tempo ali observada, me pontuei aos olhos concretos sombrios que me encobriam. Minha amor, minha linda! Paradoxalmente tenho a falta do teu ninho! Entretanto, querida, prefiro que te mantenhas alheia ao que me lastima e adoece. Nada mais cruel seria para e em mim que causar-te desconforto. (7:36 a.m)
Rhode, minha colega, tuas mensagens, teus olhos, nossas bocas, nosso ser. Sorte abençoada que aproveito na tua moradia deste meu lado esquerdo, por ora, paralisado e dormente. Ainda aqui trabalham a sistólica e a diastólica maneiras, correndo vida nas idas do tempo, mas nas vindas do teu conforto, minha amor. Posso estar incompleta de corpo, mas de nós duas... Mais aspiro o oxigênio como de ti trago na boca o sentido amado que me dispõe teu prazer. (11:35 a.m)
O mais puro dos prantos se derrama espalhando a linha desenhada do teu rosto. Oh, minha menina verbena, como soubeste do ocorrido? Eu pedi para que te preservassem, pois angustia-me que a força em mim esteja prostrada e que mal possa eu te acolher em meu peito! Teu rostinho tem a virtude de bem-querer: sorte de mulher! Comemoro, então, com a destra a tua pele, deslizo a destra da beleza nos teus cabelos negros até o teu colo gracioso e macio, que logo mais o perverto nas iniciais costuras de tua blusa... Amo-te de mim, querida, que de tanta força tens para impulsionar meu moinho sanguíneo ao encontro das águas. (5:46 p.m)

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Pedi-lhe uma fotografia de instante. Um registro daquela singela desfaçatez vaidosa e despreparo de pose. Os cabelos encaracolados, presos em um coque-amélia de subserviência, divagavam o caminho elíptico de lenta tessitura rendida de seus olhos fechados – quase fechados – um feixe ainda entregue ao meu foco estático que ela soubera fazer imagem, fazer cinema de mim! Em uma rápida censura, a educação de sua alvura diáfana assinou o nome de Fragonard: a young woman reading. Sua pele à fresca da modernidade foi a imediata poesia àquela obnubilada essência triste antes em meus olhos. Estes endureceram junto às digitais na tela e minha língua rija na cala sôfrega da virtualidade. O rosto que ela me permitiu era todo um corpo, um nascido afinado de pequenos detalhes que compunham uma outra mulher de contornados seios que me olham através da Íris mensageira dos deuses – conectando o mundano e o celeste para um átimo de relação amorosa full-screen – e de intensa cor – eram seus lábios vagin…

Todo dia (especialmente nesta semana)

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Cada quadra representa uma saudade...

Hoje São Paulo despertou nebulosa, fria como a canção de Tom Jobim que busca o amor pela metrópole. No aeroporto, a bandeira a meio mastro, uma manhã nervosa. Eu também não queria ir, minha Sampa, mas eu te dedico: vou voltar, vou voltar! Uma música sabiá de canto melancólico e exilado, dos mais lindos silvos de Jobim, para este nosso até logo de futuro próximo feliz. Te amo, São Paulo. Sigo com o Tom, Querida. Longa é a tarde, ah, a tarde... Essa melancolia do dia, segundo José de Alencar; e nela, longa é a estrada de quem se despede... Não há sobejo de abraço quando o pranto carrega em si o lugar mais fundo para mergulhar. A forma imersa define a intimidade. O tempo permanece enquanto se acredita, mesmo com olhos náufragos no embaço da confiança, aliás, do amor. Permito-me a Sabiá de livre canto mais belo com tristeza. Os passos lentos de uma mórbida reação de ódio, ou de despeito, talvez de birra adolescente que desacorda com o dia que passa, e eu, nessa lida.