Pular para o conteúdo principal

Crônica epistolar: do meu leito...

Ah, este leito! Quão frio é o tecido na sua plástica receptiva. Pouco tempo ali observada, me pontuei aos olhos concretos sombrios que me encobriam. Minha amor, minha linda! Paradoxalmente tenho a falta do teu ninho! Entretanto, querida, prefiro que te mantenhas alheia ao que me lastima e adoece. Nada mais cruel seria para e em mim que causar-te desconforto. (7:36 a.m)
Rhode, minha colega, tuas mensagens, teus olhos, nossas bocas, nosso ser. Sorte abençoada que aproveito na tua moradia deste meu lado esquerdo, por ora, paralisado e dormente. Ainda aqui trabalham a sistólica e a diastólica maneiras, correndo vida nas idas do tempo, mas nas vindas do teu conforto, minha amor. Posso estar incompleta de corpo, mas de nós duas... Mais aspiro o oxigênio como de ti trago na boca o sentido amado que me dispõe teu prazer. (11:35 a.m)
O mais puro dos prantos se derrama espalhando a linha desenhada do teu rosto. Oh, minha menina verbena, como soubeste do ocorrido? Eu pedi para que te preservassem, pois angustia-me que a força em mim esteja prostrada e que mal possa eu te acolher em meu peito! Teu rostinho tem a virtude de bem-querer: sorte de mulher! Comemoro, então, com a destra a tua pele, deslizo a destra da beleza nos teus cabelos negros até o teu colo gracioso e macio, que logo mais o perverto nas iniciais costuras de tua blusa... Amo-te de mim, querida, que de tanta força tens para impulsionar meu moinho sanguíneo ao encontro das águas. (5:46 p.m)

Postagens mais visitadas deste blog

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (II)

- Vamos! - A melhor pergunta da noite: no meu ou no seu? - Engraçadinha. No carro, com uma verdadeira tempestade primaveril. - Você realmente relaxou aqui... - A melhor forma de lidar com o medo: racionalizar. - Nisso cê é boa. - Grata. - Não foi um elogio. - Não sou tão austera como tu pensas. - Eu não penso. Eu sinto. - Desculpa, senhora sensível. - Convença-me do contrário. - Já cheguei a poetizar os raios. Numa legenda de rede social questionei o que as pessoas mudariam no mundo se fossem D’us. Pensei em eliminar os raios, no entanto, numa conversa despretensiosa, eu cheguei a concluir que seria anti-poético aniquilar a única coisa que une céu e terra com contínua fortaleza de energia. Quase uma metáfora do amor. Isso não é racionalizar. - O que você mudaria, então, transformaria no mundo? - Na época falei de nuvens coloridas porque o registro tinha um rastro colorido no céu. Mas, pensando bem, ficaria um tanto como um horrendo quadro do Britto. - Hahahaha... - O que tu mudarias, …

Ética e espaço público: um breve ensaio

Em breve sairá meu voo, anunciou uma bela voz feminina no alto-falante. Entre quem se atrasa e quem caminha lento tentando igualar o significado de tempo com falta do que fazer entre as lojas e cantinas do aeroporto, analiso o espaço-mundo do “desculpe, com licença” e do “vamos sentar aqui” e “daqui a pouco” e fones de ouvido para concertos particulares de tédio... Sobre mim: Bons leitores desconhecem a espera. A concentração é o verdadeiro diluidor do tempo. Eis a interpretação: conceito não é lei.  O fazer individualista é ilusão. Embora haja vezes que a solidão nos acompanhe, sempre será imprescindível a companhia da outra pessoa, mesmo que seja para o pensamento. A ética suporta a indagação: com quem desejamos ou suportamos estar juntos? E disso oriunda contemplação empática e responsabilidade pessoal. Com quem desejamos ou suportamos estar juntos revela muito sobre os nossos exemplos de julgamento e consistência de ações. Na atividade do querer está implícita a afirmação do outr…

“Com os olhos de comer fotografia”

Pedi-lhe uma fotografia de instante. Um registro daquela singela desfaçatez vaidosa e despreparo de pose. Os cabelos encaracolados, presos em um coque-amélia de subserviência, divagavam o caminho elíptico de lenta tessitura rendida de seus olhos fechados – quase fechados – um feixe ainda entregue ao meu foco estático que ela soubera fazer imagem, fazer cinema de mim! Em uma rápida censura, a educação de sua alvura diáfana assinou o nome de Fragonard: a young woman reading. Sua pele à fresca da modernidade foi a imediata poesia àquela obnubilada essência triste antes em meus olhos. Estes endureceram junto às digitais na tela e minha língua rija na cala sôfrega da virtualidade. O rosto que ela me permitiu era todo um corpo, um nascido afinado de pequenos detalhes que compunham uma outra mulher de contornados seios que me olham através da Íris mensageira dos deuses – conectando o mundano e o celeste para um átimo de relação amorosa full-screen – e de intensa cor – eram seus lábios vagin…