Pular para o conteúdo principal

Isolada pudícia II

Luz para disfarçar nus... (Foto: Larissa Pujol)

Convenço-me que nada mais influencia a pessoa como a elaboração moral. Sentimentos de sonhos a se concretizarem se despertada eu estiver! Abertos os olhos, tenho-a novamente me agradando com desejo e, portanto, com sofrimento. Desperta a sensação de lástima pelo término deste meu feliz e tranquilo olvido... Esperança de felicidade corpórea, alvoroço deste assunto, mescla de fragrância rosa... Sou ela vivida neste cataclismo que nos adeja.
Visto-me maquinalmente no mesmo lampejo selvagem que se descontrolava nos seus olhos ardentes e astutos vindos durante minha lembrança... Abotoada a camisa xadrez, deixando a mostra os volumes dos seios, descarada, alegre e solta de café-com-vinho, mascarada a Dolokhov, mas camuflada a Varenka! Ah, ela gosta de mim, e a aprecio desde sua voz soprana, no conjunto de olhar direto, flecha-negra atravessando meu intelecto, boca graciosa de sorriso pequeno e amontoado.
Paixão por ela, minha companheira de partitura: suas mãos finas, pianista, alongadas como a agilidade que ela leva suas claves e suas chaves para encerrar a porta, a sós comigo! Alongadas como seu nome sufixado em –ise; hoje, no meu gozo, a matriz... Ela adora ópera russa! Tudo em mim se organiza para opor-se aos desejos... Não! A vida é o único intervalo que estou livre! Que seja apenas Oblomov a prender-se na inação e no fatalismo. Minha maneira feminina de sofrer é na culpa nua da outra, na sofrível irradiação hepática do humor, num eu cínica e desiludida a Petchorin de um tempo anti-herói.
Aclive de poder a que se conhece um pensamento. Cita-me a paciência vermifuga de Lermontov, esta cigana emprestada à castidade russa... Continua sussurrando em mim: roeu-me a alma e a incendiou. 

Postagens mais visitadas deste blog

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…