sexta-feira, 24 de julho de 2015

Isolada pudícia II

Luz para disfarçar nus... (Foto: Larissa Pujol)

Convenço-me que nada mais influencia a pessoa como a elaboração moral. Sentimentos de sonhos a se concretizarem se despertada eu estiver! Abertos os olhos, tenho-a novamente me agradando com desejo e, portanto, com sofrimento. Desperta a sensação de lástima pelo término deste meu feliz e tranquilo olvido... Esperança de felicidade corpórea, alvoroço deste assunto, mescla de fragrância rosa... Sou ela vivida neste cataclismo que nos adeja.
Visto-me maquinalmente no mesmo lampejo selvagem que se descontrolava nos seus olhos ardentes e astutos vindos durante minha lembrança... Abotoada a camisa xadrez, deixando a mostra os volumes dos seios, descarada, alegre e solta de café-com-vinho, mascarada a Dolokhov, mas camuflada a Varenka! Ah, ela gosta de mim, e a aprecio desde sua voz soprana, no conjunto de olhar direto, flecha-negra atravessando meu intelecto, boca graciosa de sorriso pequeno e amontoado.
Paixão por ela, minha companheira de partitura: suas mãos finas, pianista, alongadas como a agilidade que ela leva suas claves e suas chaves para encerrar a porta, a sós comigo! Alongadas como seu nome sufixado em –ise; hoje, no meu gozo, a matriz... Ela adora ópera russa! Tudo em mim se organiza para opor-se aos desejos... Não! A vida é o único intervalo que estou livre! Que seja apenas Oblomov a prender-se na inação e no fatalismo. Minha maneira feminina de sofrer é na culpa nua da outra, na sofrível irradiação hepática do humor, num eu cínica e desiludida a Petchorin de um tempo anti-herói.
Aclive de poder a que se conhece um pensamento. Cita-me a paciência vermifuga de Lermontov, esta cigana emprestada à castidade russa... Continua sussurrando em mim: roeu-me a alma e a incendiou.