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Isolada pudícia

Hoje eu amargo contigo a saudade que ela deixou...
 Tão logo o entusiasmo salvou a aquarela. Reencontrada no estúdio de ensombradas palavras, a distância ao fundo daquele cerne correu vazia, então a fechadura procurou tranqüilidade... Seu rosto escondia-se de álbum em álbum para não enrubescer-se... Mas de tempo eu lhe conseguia um sorriso registrado de memória e sua fala melíflua logo organizava as atenções para seu fantástico Hoffmann com Offenbach.
Pedir-lhe-ia a amante cigana que me cantasse “Minha lareira...” e que seu piano estirasse as oitavas. Contudo, o lume do meu olhar abobalhado desconversou meu corpo com a argúcia dela imersa em Bernard Shaw! São bonitos os seus dedos, mas é sem rosto, como título de Teleshov, a sua concentração! – Que eu acabe com esta, se não me acabar antes. – Naquela hora, o espelho a nossa frente sobrevinha à culpa juíza da sensação de prazer... Agrada-lhe interromper e deixar de ser lamento!  Sortilégio de amiga conversando coincidências para melhor se divertir, proporcionando a sua terminada declaração, como figurada em Tchapaev.
A tola última vez que a minha resposta a viu foi num doce entristecer de um blues que ela tocou... Uma atmosfera instagnante atormentou minha íntima cara fiel quando ela desistira: “Gosto-te, mas como gostar de ti, Lari, uma mulher que gosta de outra?” Representaram-me, naquele momento, as insatisfações de Ivanov e Treplev. Inútil ser da existência ideal, com a fidelidade que lhe faz sombra. Galhofa sentimento em indiferença e postura. A felicidade depois não teria nada de triste... Mas tornei à minha atração de análise moral nos anseios tolstonianos de Nikolenka Irtenev... 

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Troca

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A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …