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Palco servido

Dia nublado pede o sangue decantado e generoso em todos os corpos... (Foto: Larissa Pujol)
O tapa da porta, fraterno encosto de amigo a confraternizar o costume escuro do fim. Boas prosopopéias naturam na selva lúdicas de cores elétricas seus gemidos tempestuosos de embriaguez e afago. Entre mulheres, as caras camuflam pássaros às suas penas hostis e laborais.
Dia nublado pede o sangue decantado e generoso em todos os corpos... Sangue correndo graça em partituras de riso, e sugerindo no imo a dança sublime, espremida no centro da alegria: a força num vai-vem duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos como voos angelicais, mas virilmente, contra o chão... Vórtice racional que docemente meus olhos começam a flamar seu preceito de conquista. Ao encosto do torpor, a sequência de mulher comanda os ímpetos de música e da saúde embebida em gélidos agitos no esôfago.



Ao meu jeito eu vou fazer um samba sobre o infinito...
A ciência feminina, cedendo-se num intróito extremoso de orgia religiosa, descomplica as suas curvas entrelaçadas por tabu. Às vezes o verbo possui uma saliva corrosiva e loucamente preenche a boca para inundar as fantasias desesperadas... O tempo empresta aos lábios a polpa mais exasperada, exequíveis em folhas da maquiagem sob coloridos rastros de luz. Eu a espreitava e a guardava na imaginação deformada de homogeneidade, impressa, ora em seus avanços pelos pés macios de dança, ora na viagem do seu vento rodado que chacoalhavam amuletos dourados em relevo sob o conluio clandestino que repreendia a libido mais escura. Enquanto incidia-nos o pequeno lume, entregamos nossos narizes obscenos a carregar uma da outra os nossos cheiros primitivos, vivendo em mórbido e viscoso apetite que se explora no rebento dos códigos proibidos. Paixão pressentida é um aço espicaçante de brado petalado...

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A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
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Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
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