sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pessoalmente a Clarice: um poema de conversa

As conversas se trocam entre beijos compartilhados indiretamente...

Pessoalmente a Clarice: um poema de conversa...
(De Larissa Pujol, vencedora do Concurso Literário Felippe D'Oliveira, na categoria melhor autor)

Distorcidas páginas manuscritas
A bege maquiagem e os olhos turvos
Misturam-se o álcool perfume
O álcool remédio
O álcool transição

Nossas vestes femininas
Tua boca traçada e poema
Meu sentimento esquema
O espelho contrário das roupas íntimas

Pensar é teu ódio
Sei e te procuro porque sabes
As conquistas em contramão observamo-nos,
- O testemunho litígio dos nossos dissabores -
A face esculpida por antônimos
A feição entendida por sinônimos

Alento e olor são tuas palavras
Sussurradas e surradas de sentimentos...
O tripé contingente em ambas
Defeito perigoso destruído em nossa planta
Perpetuam-se os platônicos enredos
Nas figuras sépias dos nossos álbuns viris

Sem cerne, nosso dístico ainda planeja o furor feminil
Pela falta desta dureza em nosso regaço
Impossível encontrá-los, homens, na virtude do nosso pó

As tuas celeumas narrativas conselheiras
Infortúnio traço divisório da coragem
                              [entre o grito e o maligno silêncio]
Oblitera-se a mão amiga nos desvios da incessante busca...
Reformula-se a página semelhante
Entre as riscas do descrito atavio e as espirais perguntas sem respostas...

Uma carta, amiga poeta;
Sei e te procuro porque me ajudarás a saber;
Retiro os olhos do instinto sonolento de pensar
                            [vistas a atuar nas emoções eternas]
Diferente do corpo-matéria que me instrui o medo
Admiradas, esperamos o edificado fátuo dos nossos homens,
- Ironicamente dedicadas - mas são estes que desejamos!...

Circular solidão do anel de saturno
Dar a volta por cima,
Em cima da esteira giratória dos erros taciturnos
Perigo que me indicas tu, poeta,
A ânsia de acertar,
                                    [a correção das minhas verdades]
Nesse obediente papel de ser,
Confesso-te, eu só posso sentir
E pior, sentir sem coragem...

Quiçá neste sucumbo contato eu o toque...
Entre os corpos antônimos, os sinônimos...
Tu gritas e pedes para eu gritar novamente
A vogal primeira do surto sabor amargo do impossível
Zênite encontrado em nossa verve!

Encontrar-nos em vezo nesta dissimulação mutante
Os caleidoscópios a nos criarem figuras indeléveis
Múltiplas vozes confundem o apreciado modo de viver

Solilóquio; as palavras dissolvidas neste meu curto espaço
E são muitas dentro de mim, poeta...
São as tintas jorradas em telas registradas antigamente
Conversas para os ouvidos destas paredes
Certamente, não sou eu. É o meu ambiente...  

Nas palavras, o teu domínio sobre o mundo, caríssima poeta!
Resumo-me na cala desse sôfrego entendimento
Obrigas-me a respeitar-me e a não perturbar minha infinidade
Sei que sou menor que este vórtice descoberto em mim
- Planos derrocados para me alcançar...

Esses teus olhos no peso da lembrança...
Desconhecemos os próprios mistérios
Encobrimos nossos segredos nos mistérios alheios
Semelhamo-nos aos seus enigmas
Por mor de complicar a solução de si mesma...

Rendo-me às tuas palavras, estimada poeta,
Sem procurar entender, apenas viver o novo
                                                       [ou o novamente]
Criou-se um impossível, logo sou...
Das faces maquiladas ou amanhecidas,
O “quase tudo” nas procelas do corpo feminino
Toque de fina textura em nossas sedas
As palavras alinhavadas nas agulhas das semelhanças...
Para ti, cosemos as perguntas sem buscar sê-las
A sina rudimentar de conseguirmos viver, sempre, apesar de.

Despeço-me.