Pular para o conteúdo principal

Reflexões entre colegas: o doce e o maduro

Ensolarado final da manhã em que minha colega e eu nos dispusemos os pés para fora da escola e, enfim, conversar algo somente nosso... Aos passos da rua, ora reta, ora escorrida, ora íngreme e escalada para o céu da fadiga, as velocidades dos mobilizados partiam sem dó os nossos assuntos. Falar alto, dar licença, desviar dos esperados e estar sobre as regras da faixa soavam o antissocial íntimo de nós duas. No rabiscado trajeto dos temas comuns e alheios, minha colega comenta sobre uma conhecida:
- Ela tem o hábito de jogar frutas maduras no lixo... Desperdício estúpido! A fruta madura está no seu estágio maior de doçura e deleite amolecido...
- A natureza frutífera e nós, humanos, na sua magnitude senil... Percebe, somos a elas idênticos.
- Verdade. Meu Deus, nem no meio do fervor transeunte tu deixas de ser filósofa, Lari...
- Quando jovens e adultos, temos a rispidez a favor. Temos a intolerância da razão, o ganho da subserviência sobre a sobrevivência de si. Somos verdes, belos por fora, antes sustentados por finas ramificações paternais com toda generosa gravidade que nos mantém na soberania e na soberba da bela conquista. Não obstante, somos rijos por dentro. A boca emocionada que experimenta tal fruto novo e verde se enojará com tamanho azedume de tempo para isso, salário para aquilo, mais os planos à saliva gasta com o melhor argumento para o trabalho e reprodução familiar...
- Continua me adoçando, por favor... – Exigiu a nobre colega.
- A companhia de pessoas maduras, com mais de 50, é a melhor paz. Logo, sente-te convencida! Apraz-me muito estar contigo. – Enrubesci este elogio inocente e sem-vergonha a sua maturidade...
- Minha paciência já não é mais provada. Estamos aptos e prontos a tudo. Cada tamanho de vida é viver novamente nesta fase. Experiência para mulher é mania.
- Então o fruto maduro, que a tudo já acompanhou, terá de si a própria rigidez vencida e a paciência mole agirá com sorriso... Um sorriso como o teu.
- Ainda mordo. – Riu copiosamente esta linda!
- Mas tua mordida fecha os olhos e sorri as bochechas. As linhas expressas ao redor da boca ilham todo conteúdo gostoso de satisfação. Ao contrario da testa que se rasgou com a juventude pensante e aspiradora de surpresas... Voltando a fruta, querida colega, a casca madura pode ter sua fealdade, mas o fruto dentro é o costume do bem sentir. A nostalgia, na maturidade é uma saudosa alegria de fruto! Tudo passou e se tornou cantiga de roda...
- Tu és saudosa, Larissa. Isto é um traço do Romantismo, não é?
- Sim, o romântico é saudoso. Pelo menos, particularmente falando, a pessoa se ilude com minhas histórias, não com minhas promessas.
- Que teoria bacana, minha amiga. Desenvolve-a. Ainda mais que a tua casca está e é linda... Tu és um conjunto completo. Vivida e linda.
- A velhice é um clássico pela alegria. Recordo-me de um trabalho apresentado pelos alunos, no ano passado. Tratava-se de relatar opiniões experientes sobre os modismos regentes. Um grupo entrevistou alguns idosos no Calçadão, perguntou sobre a dança funk, e eles responderam que achavam legal... Isto causou a comoção geral da pesquisa, que os alunos contestaram durante a apresentação.
 - Imagino, no que tange ao possível feio e ao grupo...
- Pois é. Disse-lhes que o “achar legal” é totalmente compreensível no momento em que a senilidade se encontra. A juventude destes entrevistados, - continuei – se expandiu para conhecer o mundo, se aborreceu, julgou, brigou, argumentou, ferrou-se, levantou, venceu e cansou... Agora, para eles, até cuidar da própria doença é um motivo de alegria... Pois o cuidado os mantém comprometidos, sentindo-se úteis a si mesmo... Tudo, a partir de todos os momentos do hoje, para eles, é maravilhoso.
- Teu comprometimento com os alunos é fascinante. A sensatez é um dos quesitos da reflexão, e a dúvida instaurada antes com a pesquisa dos alunos, fomentou a sabedoria, orientada por ti.
- Ah, são os seus olhos...
- E posso-te dizer que deito à sombra da melhor árvore que já conheci: tu.
- Bom saber que te sentes acolhida, nobre colega. Fascina-me muito que estejas ao meu cuidado... Pelo meu tamanho, com certeza tua imaginação viu em mim uma figueira... – Sorri ao brilho infantil da sua pareidolia...
- Ah, Larissa! Tão querida e espirituosa. – E se envolveu em mim, porque nada mais na cidade nos importava...
Até que eu encostei meus olhos numa cantina de açaí durante o seu abraço dela... 

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre o…