sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Reflexões entre colegas: o doce e o maduro

Ensolarado final da manhã em que minha colega e eu nos dispusemos os pés para fora da escola e, enfim, conversar algo somente nosso... Aos passos da rua, ora reta, ora escorrida, ora íngreme e escalada para o céu da fadiga, as velocidades dos mobilizados partiam sem dó os nossos assuntos. Falar alto, dar licença, desviar dos esperados e estar sobre as regras da faixa soavam o antissocial íntimo de nós duas. No rabiscado trajeto dos temas comuns e alheios, minha colega comenta sobre uma conhecida:
- Ela tem o hábito de jogar frutas maduras no lixo... Desperdício estúpido! A fruta madura está no seu estágio maior de doçura e deleite amolecido...
- A natureza frutífera e nós, humanos, na sua magnitude senil... Percebe, somos a elas idênticos.
- Verdade. Meu Deus, nem no meio do fervor transeunte tu deixas de ser filósofa, Lari...
- Quando jovens e adultos, temos a rispidez a favor. Temos a intolerância da razão, o ganho da subserviência sobre a sobrevivência de si. Somos verdes, belos por fora, antes sustentados por finas ramificações paternais com toda generosa gravidade que nos mantém na soberania e na soberba da bela conquista. Não obstante, somos rijos por dentro. A boca emocionada que experimenta tal fruto novo e verde se enojará com tamanho azedume de tempo para isso, salário para aquilo, mais os planos à saliva gasta com o melhor argumento para o trabalho e reprodução familiar...
- Continua me adoçando, por favor... – Exigiu a nobre colega.
- A companhia de pessoas maduras, com mais de 50, é a melhor paz. Logo, sente-te convencida! Apraz-me muito estar contigo. – Enrubesci este elogio inocente e sem-vergonha a sua maturidade...
- Minha paciência já não é mais provada. Estamos aptos e prontos a tudo. Cada tamanho de vida é viver novamente nesta fase. Experiência para mulher é mania.
- Então o fruto maduro, que a tudo já acompanhou, terá de si a própria rigidez vencida e a paciência mole agirá com sorriso... Um sorriso como o teu.
- Ainda mordo. – Riu copiosamente esta linda!
- Mas tua mordida fecha os olhos e sorri as bochechas. As linhas expressas ao redor da boca ilham todo conteúdo gostoso de satisfação. Ao contrario da testa que se rasgou com a juventude pensante e aspiradora de surpresas... Voltando a fruta, querida colega, a casca madura pode ter sua fealdade, mas o fruto dentro é o costume do bem sentir. A nostalgia, na maturidade é uma saudosa alegria de fruto! Tudo passou e se tornou cantiga de roda...
- Tu és saudosa, Larissa. Isto é um traço do Romantismo, não é?
- Sim, o romântico é saudoso. Pelo menos, particularmente falando, a pessoa se ilude com minhas histórias, não com minhas promessas.
- Que teoria bacana, minha amiga. Desenvolve-a. Ainda mais que a tua casca está e é linda... Tu és um conjunto completo. Vivida e linda.
- A velhice é um clássico pela alegria. Recordo-me de um trabalho apresentado pelos alunos, no ano passado. Tratava-se de relatar opiniões experientes sobre os modismos regentes. Um grupo entrevistou alguns idosos no Calçadão, perguntou sobre a dança funk, e eles responderam que achavam legal... Isto causou a comoção geral da pesquisa, que os alunos contestaram durante a apresentação.
 - Imagino, no que tange ao possível feio e ao grupo...
- Pois é. Disse-lhes que o “achar legal” é totalmente compreensível no momento em que a senilidade se encontra. A juventude destes entrevistados, - continuei – se expandiu para conhecer o mundo, se aborreceu, julgou, brigou, argumentou, ferrou-se, levantou, venceu e cansou... Agora, para eles, até cuidar da própria doença é um motivo de alegria... Pois o cuidado os mantém comprometidos, sentindo-se úteis a si mesmo... Tudo, a partir de todos os momentos do hoje, para eles, é maravilhoso.
- Teu comprometimento com os alunos é fascinante. A sensatez é um dos quesitos da reflexão, e a dúvida instaurada antes com a pesquisa dos alunos, fomentou a sabedoria, orientada por ti.
- Ah, são os seus olhos...
- E posso-te dizer que deito à sombra da melhor árvore que já conheci: tu.
- Bom saber que te sentes acolhida, nobre colega. Fascina-me muito que estejas ao meu cuidado... Pelo meu tamanho, com certeza tua imaginação viu em mim uma figueira... – Sorri ao brilho infantil da sua pareidolia...
- Ah, Larissa! Tão querida e espirituosa. – E se envolveu em mim, porque nada mais na cidade nos importava...
Até que eu encostei meus olhos numa cantina de açaí durante o seu abraço dela...