sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Tão inesperada quanto intensa...

 Esta noite tive um sonho
Um sonho muito atrevido...
Apalpei na minha cama
A forma do teu vestido
(Mário de Andrade)

A sua chegada comporta uma erótica. Com breve vestido, Rhode é tão inesperada quanto intensa! Intensa na sua certeza, inesperada na audácia de sua guisa brincalhona do tempo. Rastrear a obra de Rhode, do seu sorriso transitivo ao poema fragrante, observa a tensão da matéria erótica... Namoro-a desde sua medicina à sua sensualidade. Talvez a sinta dispersa e realmente intensa por tais fragmentos desorganizados de ímpeto e deleite que coleto à ordem do erotismo.
Corpo miúdo de uma “pornografia desorganizada”. Cultura popular de sua beleza – tesouro exemplo na feminina compreensão de vida. Ela elenca o meu eu-lírico que a desenha apalpando-a na ordem estética, com sua forma vestida do proibido. Meu Eros típico de sonho atrevido, que antes desperto convence o domínio do proibido na minha vontade de dar forma ao escondido, derivando o desejo...
Maria atravessou o regato
Molhou a barra do vestido
Na água deixou o retrato
De tudo o que estava escondido
Quero avançar a questão com o outro rosto – escondido sob o vestido – de Rhode. Deste outro rosto clandestino figura-se o retrato sutil daquilo que imagino nela! Sou peça no jogo do que é proibido e do que é representado, cuja artimanha da palavra de Rhode vence o calado. Sua desbocada argumentação se repete gozada naquela risada aberta de grande preenchimento e elaborado buraco – ao qual enfio a minha linguística sequestrada, aparecida sob vários disfarces para se referir ao seu outro rosto, oculto. Faço a evocação dela com inúmeras observações que a retiram do tabu (e do trato de ser minha colega!). O que se redime nela é a falta pelo excesso, isto é, as substituições que ampliam o desejo deste proibido indefinidamente e que marcam a erótica praticada por Rhode na mulher. Uma particularidade sugestiva e provocante, de vestes decentes, mas muito maliciosas.
Engenho magistral de hermética ancestralidade com eclipse. Regrada lira de grave verbo à face animal do que ficou escondido no celeste retorno do proibido. Desastre natural e devastador de Eros no que a ama lado a lado com o preconceito.
Digo o verso objeto da censura: dizer mais que o original. A mulher em Rhode é alusiva e afirmativa. Ela contorna e toca no centro! Vence o proibido com essa criatividade de corpo e palavra. Na vida, o meu Eros a ela é silenciado: hoje falo o que a reduz ao proibido, e o que me preenche ao buraco desta mulher, que é (muito) mais embaixo...