Pular para o conteúdo principal

Tão inesperada quanto intensa...

 Esta noite tive um sonho
Um sonho muito atrevido...
Apalpei na minha cama
A forma do teu vestido
(Mário de Andrade)

A sua chegada comporta uma erótica. Com breve vestido, Rhode é tão inesperada quanto intensa! Intensa na sua certeza, inesperada na audácia de sua guisa brincalhona do tempo. Rastrear a obra de Rhode, do seu sorriso transitivo ao poema fragrante, observa a tensão da matéria erótica... Namoro-a desde sua medicina à sua sensualidade. Talvez a sinta dispersa e realmente intensa por tais fragmentos desorganizados de ímpeto e deleite que coleto à ordem do erotismo.
Corpo miúdo de uma “pornografia desorganizada”. Cultura popular de sua beleza – tesouro exemplo na feminina compreensão de vida. Ela elenca o meu eu-lírico que a desenha apalpando-a na ordem estética, com sua forma vestida do proibido. Meu Eros típico de sonho atrevido, que antes desperto convence o domínio do proibido na minha vontade de dar forma ao escondido, derivando o desejo...
Maria atravessou o regato
Molhou a barra do vestido
Na água deixou o retrato
De tudo o que estava escondido
Quero avançar a questão com o outro rosto – escondido sob o vestido – de Rhode. Deste outro rosto clandestino figura-se o retrato sutil daquilo que imagino nela! Sou peça no jogo do que é proibido e do que é representado, cuja artimanha da palavra de Rhode vence o calado. Sua desbocada argumentação se repete gozada naquela risada aberta de grande preenchimento e elaborado buraco – ao qual enfio a minha linguística sequestrada, aparecida sob vários disfarces para se referir ao seu outro rosto, oculto. Faço a evocação dela com inúmeras observações que a retiram do tabu (e do trato de ser minha colega!). O que se redime nela é a falta pelo excesso, isto é, as substituições que ampliam o desejo deste proibido indefinidamente e que marcam a erótica praticada por Rhode na mulher. Uma particularidade sugestiva e provocante, de vestes decentes, mas muito maliciosas.
Engenho magistral de hermética ancestralidade com eclipse. Regrada lira de grave verbo à face animal do que ficou escondido no celeste retorno do proibido. Desastre natural e devastador de Eros no que a ama lado a lado com o preconceito.
Digo o verso objeto da censura: dizer mais que o original. A mulher em Rhode é alusiva e afirmativa. Ela contorna e toca no centro! Vence o proibido com essa criatividade de corpo e palavra. Na vida, o meu Eros a ela é silenciado: hoje falo o que a reduz ao proibido, e o que me preenche ao buraco desta mulher, que é (muito) mais embaixo...

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …