sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quando eu te der segredo

Tão longos os seus serpenteares frente a mim, querendo a audácia da música que sorria ao me mirar cantarolando ao vazio. Assim estava ela, tão breve ao meu corpo que teimava não obedecê-la, teimava a escravidão das luzes sobre si, rodando e rodando como a barra do seu vestido sobre as coxas.
Resolvi fitá-la nos olhos, e ainda aquele sorriso de laço encarnado cometia a mensagem dual feminina. Ela gosta do mesmo, ela é igual, prefere as rosas à exatidão, é delicada e quer a si mesma... Descobri que o fino salto do seu salto agulha me liberava a disciplinada nudez de uma fuga. Disse-me ela, então, que me conhecia de algum lugar... Tratei-a, primeiramente, como senhora. E ela me riu informalidade dizendo-me que conta com apenas quarenta e quatro... Ah, tão linda que me fez saber que a educação também comete gafes! Pois tinha eu a plena certeza de que nunca a havia visto... Mas logo emendei umas ilusórias situações de lá e cá do talvez que fizeram nossos encontros do passado, para ela, se encaixarem na realidade e na nossa intimidade.
Mais musicas saudosas! Festa nostálgica! Homens a nossa volta tentando aproximação. Ela esquivava, eu esquivava procurando as mãos e a cintura uma da outra na chamada da posse... As pessoas “em conserva” já nos passavam seus olhares inquisidores, aos quais fazíamos questão de queimá-los com as nossas próprias chamas aprazidas em nós mesmas. Riamos copiosamente dos “em conserva”; debochávamos daqueles que, com agressividade, nos puxavam os braços na frustrada tentativa de nos separar para escolhermos a eles... Bebíamos no mesmo lacre da latinha ou no mesmo lugar do copo em que nossas bocas encostavam...
Sua plena desinibição! Ah, entre mulheres não existe pudor: sabíamos até ali os nossos endereços, nossos telefones, nossas profissões, nosso tamanho do sutiã, os tipos preferidos de calcinha. Entendíamos de música, suspirávamos as épocas e este presente encontro. Gostávamos do bobo e da verdade, do curioso e das frases brincadas. Sobre o céu, sobre o nós, “sobre magia e meditação”. Valeu muito ela achar que me conhecia, passei a amá-la.
Numa mesa próxima decidi que descansaria meus saltos. Ela seguiu na pista com toda sua aurora de festa e imensidão. Ali, era ela só espírito... Recuperada, ao seu lado me pus exasperada para arrebentar essa linha tênue cosida com as diagonais de suas unhas. No entanto How deep is your love, dos Bee Gees, fincou mais as pontas daquelas agulhas. O abraço dela, tão forte, tão procurado, tão lento quanto queria. Pendíamos os pés: eram um, dois, um, dois... num balanço monótono que o enlace revela o que há de confiança e ternura. Os seus cabelos curtos e louros foram o ninho do meu olfato. O seu aperto, a vida no meu silêncio...
Ao término da música, pediu-me ela que a acompanhasse ao toalete. Estaria passando mal? – incuti-me esse pensamento tal qual fora seu rompante de ir àquele lugar. Lá, único local velho de necessidades e vaidade, ela se ajeitou, se aperfeiçoou, urinou. Ações completas frente aos meus olhos que a observavam temerosos num canto daquele toalete de paredes manchadas, chão áspero e luz sem graça. Retraí-me toda para não ofendê-la, mas... sua mão secando o íntimo respeitava minha obscenidade! Virei o rosto! Então ouvi a lixeira recebendo aquele bolo de papel higiênico lá no fundo, em que meu fundo regaço contraído já transbordava o gozo... Ela se refez das vestes. Mirou-se novamente no espelho. Refiz meu comportamento e engajei um parecer romântico-filosófico enquanto ela ficava frente ao espelho: que este era a única boa guarida dos segredos. Imperfeições, máscaras, choros e realeza. Nada nos escapa do espelho. Nunca seríamos na frente do outro o que somos na frente do espelho. E ele retém tudo consigo... “Até nós duas” – Permitiu-me ela. “Sim” – Confirmei ao seu lado direito. Ela me ofereceu o seu batom. Aceitei e tentei apanhá-lo na sua mão esquerda, escorrida ao longo do seu tronco. A favor da sua lógica, meu corpo declinou ao seu avanço. A cor do batom foi-me imposta pelos seus lábios, pela dor que seus dentes me apraziam. Refleti no espelho aquela sua maquiagem de língua, na alvura diáfana dos seus seios graciosos.
Amei-a de vestidos a camadas de sombra. Do gosto do uísque ao olor de cio. De mulher a mulher. Ela, magra e pequena, que eu a carregava sobre as coxas, sobre os ombros, sobre o ventre, sobre a cara... Pela mão ao retornar. Contemos a presença, sofisticamos a permanência. O porquê de demorarmos... Ah, a maquiagem, a vaidade... a desculpa feminina mais coerente... A dança novamente nos completou diversos assuntos e carinhos. A comunhão prosseguiu na melodia da pele...
Eis que a provedora da carona me chama para irmos. Não, eu... Eu tentei argumentar, resvalar mais uma música para que esta ficasse mais um pouco. E ela, a minha linda, percebeu minha despedida quando a olhei desconsolada. Abracei-a toda com ímpeto do consolo sonhador do retorno. Vamos! – Insistiu a dona do carro.  Ei! – Arquejou ela para mim. Ela me apertou com suas mãos o pulso e o antebraço, revelando e entregando a mim seu substantivo próprio, o ramalhete da confidência que, meu D’us!, esquecêsramos de dizer uma a outra durante a noite:
- Eu me chamo S... S. Mara...    

E no carro musicava... O segredo que ela me deu...