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Seu risco pelo livro

“Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o sonho na sua órbita.” (Saramago)

Escondia o meu tempo entre as linhas de Saramago, um livro que me foi dado com apreço por uma amiga, quando entrei nas páginas em que riscos oblíquos e vermelhos faziam pequenas retas abstratas cortando a leitura. Suas mãozinhas inconfundíveis entre os papéis não ficarão esquecidas! Continuarei a leitura com a memória que ali estava, sustentando aquelas tantas situações que presenciei apenas num convento.
No entanto, voltei e percorri os parágrafos que aquela cor sanguínea cuidadosamente se revelara. Ela estava na ordem da loucura, ora da pressa de se poder voar. As duas retas no final da página tinham a pressão cortada do receio e da expansão colorífera da mulher que conseguiu vencer o enredo e atender o filho pedinte. Essas retas formavam um ilusório “L” desajeitado, mas recreativo, ficando no canto do enredo.
Na próxima página, uma direta continuação com ondulada precipitação cortava o diálogo. Por um dado inquietante, fui obrigada a concordar com tal semiótica. Tornou Bartolomeu Lourenço mais animado e mais confiante para se personificar em situações como aquela. Entre as paredes que me cercavam, as manchas dela na única coisa que eu podia fazer – ler – eram o aconchego. Afora, o mundo é uma constante desilusão de páginas amareladas pelo tempo. Assim os personagens adquiriram exatidão mais que as pessoas, expeliam sangue por sonho. Sustentavam sua própria história enquanto eu mal conseguia sustentar a concentração, porque dependia daquelas marcas vermelhas, feito amante que sou.
Enfim distraio-me nas cavalares soluções da rainha que até me esqueço das passagens encarnadas. Esqueci-me por quanto tempo estava ali entre aquelas duas páginas, tentando voar com o padre, mas com os riscos ofuscando sob o encosto do meu polegar direito, encarnava na queda do corpo à realidade. Eu sabia que se o descobrisse, eu voltaria a reler aquelas marcas abstraídas do mesmo caso que estava acontecendo... Foi o trabalho que ela teve: passar a compreensão de uma maneira controversa às obtusas palavras que não revelava. Talvez eu tenha encontrado o tesouro antes mesmo da chegada de Blimunda, após a “grande caminhada”. Por isso me sentia a realidade do poder ao desfrutar do livro enquanto marca raspada pessoal de quem mo deu!
Embora reflita: são apenas riscos absurdos que ela deixou, seja com esmalte, ou com lápis, ou tirando o excesso do batom, me ajudo com tal promessa de derrubar o muro entre nós duas. O fato de ela se entristecer sozinha, sem dizer tudo que lhe é sagrado e escuro, escondia-se também entre as linhas das páginas, que translúcidas influíam o seu (o nosso) mundo.
Minha leitura concluiu o capítulo. Calada, permaneci no seu vermelho. Aquela cor lenta estaria ali marcando as páginas como um bar que posteriormente eu voltaria a encontrá-la. Ela, por fim, não mais partiria...
Realmente era incrível como se vivia o triângulo entre Saramago, o resto vermelho dela e mim. Entendi que apesar daquelas inúmeras leituras no convento, não seria eu, devido à timidez, capaz de proferir os poderes da mulher fantástica. Ela, porém, conseguiu.

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