sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um causo daqui (para os anais da escola)

Passada mais da metade da manhã, tudo na escola se conduzia para o primeiro desfecho. Os professores, já esclarecidos das reuniões, cruzavam o portão se despedindo. Alguns continuavam no refeitório a esperar o próximo turno, outros resolviam pendências na Direção, outros ainda não haviam descido do terceiro piso...
Lá se encontrava o quarteto vice-diretora, supervisora, secretária e coordenadora, anotando, repassando, ajustando pedagogicamente as sobras da manhã conforme a rapidez frouxa da fome que se apertava...
No emaranhado da concentração e da discussão, todas ouviram um estouro. O primeiro estouro (ou estampido, logo três delas assim o definiram)! Silenciaram-se atônitas e ouviram o próximo “estampido”.
- Meu Deus! Um atirador! – apavorou-se a secretária decidindo-se por fechar a porta da saleta na qual elas estavam...
Enquanto isso, a coordenadora seguiu sentada com cara de paisagem, a supervisora conseguia se aninhar embaixo da escrivaninha, e a vice-diretora buscava escapar ora tentando calcular os metros que pularia da janela ao chão lá fora, ora tentando se encaixar dentro da geladeira que ali tem... Mais três estouros num espaço de três segundos!
- Quietas! – ordenou a que tinha voz mais baixa – se não o atirador vê que estamos aqui e sai atirando a esmo!
- Shiuuu! – completou a supervisora.
(a colega que estava sentada com cara de paisagem continuou assim assistindo à cena)
Os passos se aproximaram da sala onde o quarteto estava. Chegou à porta uma respiração arfante que lá dentro, ao contrário, todas ouviam respirando o menos possível para não serem descobertas. Eis que a voz procura:
- Senhora vice-diretora! A senhora está aí?
- É a Marieta. – disse a secretária.
- Não abras! – ordenou a vice-diretora.
- Vou abrir sim! – esbravejou desobedecendo-a – Se o atirador a encontra ali, sozinha, já era! – E abriu a porta puxando Julieta com um safanão para dentro da sala.
Marieta, assustada, perguntou que havia. A secretária correu a dizer “É o atirador! É o atirador!”
- Silêncio! – soprou a supervisora, ainda embaixo da mesinha.
- Ouvimos cinco disparos. – continuou a vice-diretora.
- Cinco estouros, na verdade. – completou a coordenadora ainda com a cara de paisagem. Marieta então abriu o rosto com expressão de remorso...
- Ai, senhora vice-diretora, me desculpa! Eu não queria causar esse transtorno pra vocês!
- Ahn?! – uníssonas.
- É que eu estava limpando uma das salas do segundo ano e, como os alunos fizeram uma festinha, resolvi tirar tudo e estourar os balões... – justificou Marieta.
Até o desfecho da trama (e o fechamento daquela sala), os disparos de gargalhada matavam-nas com tamanha graça.