Pular para o conteúdo principal

Um causo daqui (para os anais da escola)

Passada mais da metade da manhã, tudo na escola se conduzia para o primeiro desfecho. Os professores, já esclarecidos das reuniões, cruzavam o portão se despedindo. Alguns continuavam no refeitório a esperar o próximo turno, outros resolviam pendências na Direção, outros ainda não haviam descido do terceiro piso...
Lá se encontrava o quarteto vice-diretora, supervisora, secretária e coordenadora, anotando, repassando, ajustando pedagogicamente as sobras da manhã conforme a rapidez frouxa da fome que se apertava...
No emaranhado da concentração e da discussão, todas ouviram um estouro. O primeiro estouro (ou estampido, logo três delas assim o definiram)! Silenciaram-se atônitas e ouviram o próximo “estampido”.
- Meu Deus! Um atirador! – apavorou-se a secretária decidindo-se por fechar a porta da saleta na qual elas estavam...
Enquanto isso, a coordenadora seguiu sentada com cara de paisagem, a supervisora conseguia se aninhar embaixo da escrivaninha, e a vice-diretora buscava escapar ora tentando calcular os metros que pularia da janela ao chão lá fora, ora tentando se encaixar dentro da geladeira que ali tem... Mais três estouros num espaço de três segundos!
- Quietas! – ordenou a que tinha voz mais baixa – se não o atirador vê que estamos aqui e sai atirando a esmo!
- Shiuuu! – completou a supervisora.
(a colega que estava sentada com cara de paisagem continuou assim assistindo à cena)
Os passos se aproximaram da sala onde o quarteto estava. Chegou à porta uma respiração arfante que lá dentro, ao contrário, todas ouviam respirando o menos possível para não serem descobertas. Eis que a voz procura:
- Senhora vice-diretora! A senhora está aí?
- É a Marieta. – disse a secretária.
- Não abras! – ordenou a vice-diretora.
- Vou abrir sim! – esbravejou desobedecendo-a – Se o atirador a encontra ali, sozinha, já era! – E abriu a porta puxando Julieta com um safanão para dentro da sala.
Marieta, assustada, perguntou que havia. A secretária correu a dizer “É o atirador! É o atirador!”
- Silêncio! – soprou a supervisora, ainda embaixo da mesinha.
- Ouvimos cinco disparos. – continuou a vice-diretora.
- Cinco estouros, na verdade. – completou a coordenadora ainda com a cara de paisagem. Marieta então abriu o rosto com expressão de remorso...
- Ai, senhora vice-diretora, me desculpa! Eu não queria causar esse transtorno pra vocês!
- Ahn?! – uníssonas.
- É que eu estava limpando uma das salas do segundo ano e, como os alunos fizeram uma festinha, resolvi tirar tudo e estourar os balões... – justificou Marieta.
Até o desfecho da trama (e o fechamento daquela sala), os disparos de gargalhada matavam-nas com tamanha graça.

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…