Pular para o conteúdo principal

“Minha bela Marília”

Elegia. Desenho a lápis de cor e toque de caneta pinche.

Tomás ao seu nome agraciava com altivo vigor a calma da pétala no toque de sua pele. A beleza sua, Marília, usufruía o tamanho da paz, e as liras de pesar ainda lhe complementavam o encanto do meu pensamento.
O gosto em mim não faltou, Marília. A misteriosa flama criou de minha pequenez o corpo santo do meu fantasma adulto. Acreditei na memória implícita ao ter a consciência do depois. Agi automaticamente, Marília, ao lado que você não me via: era a benevolente capacidade da boneca que sua imagem me servia bela.
Não sabia, mas não parava. Melhor, tinha-lhe eu a mais rósea curiosidade. Ah! Aquela cara de Marília! Cara moldada na profundidade sanguínea dos diálogos de todas as gentes que dela nasciam... Cara de Marília, argumentada na melhor disposição da ventura de qualquer pessoa. E de tão minha pessoal, embora outro dia, ela ficava para sempre; pois não se despedia. Marília me era um ciclo.
Sua cara longilínea, com completo universo frequentado pelas projeções de anônimas vidas que ela se permitia nos espelhar. Marília tinha de nós o seu repertório. Dedicava-se a nós, aperfeiçoava-nos desde a fragilidade à polêmica – um rico recurso atribuído aos gênios...
A Marília foi uma das amadas platônicas que vivi, quiçá a primeira. Admirava a habilidade daquela larga risada que enjaulava dentro de sua boca a minha tenra idade de menina... Desde lá eu via na moldura daqueles lábios de Marília, como ela citou, o quadro inacabado do, por exemplo, meu apreço que lhe confiro até hoje. Não, "minha bela Marília", de você nada passa. Tudo vive! Tua verve.

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …