sexta-feira, 24 de abril de 2015

A sua ventura

Seu ninho é um bocado grato que tenho. Ali haveria eu de derramar meu pesar, socorrer-me no conselho de seu coração, mas a alegria de permanecer tem o que fazer comigo. A roupa se desajusta envolvente ao seu amor... Eis que subo o pensamento intrincado e a sua atenta vigília carinhosa repousa em quem se diz... Eu, moça, gozo deste regalo de cor caramelo no qual tão doce intrometo meu suspiro.
Eu sou, em seu ninho, o mundo entre as infindas constelações. Minha estrela está em seu elemento. Logo, ela suave surge envaidecendo minha pele com suas asas expressivas de toque elevado... Os pelos eretos a reverenciam sobre a derme que surde, quiçá, para liberar um tremor inopinado e, da ponta do corpo, um gemido desafinando um sustenido de mulher...
Emaranhadas entre braços e pernas, ponho-me a deslizar uma madeixa pela sua curvada cintura marchando o deleite do melhor compasso que teria o hino de sua feminitude. A felicidade na conversa sobre objetivos inocentes movem as sinestesias e gracejos apreciáveis. De tão ataviada namorada, as finezas se dirigem às plantas dos pés e se soltam pelos olhos. O ninho, aliás, a sua ilha preenche desalentos vencidos pelo encanto e pela gentileza, borbulhando prazer no arfar que sobrepuja sua geniosa habilidade de não cuidar do futuro. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Parede aberta

Em cada solidão, uma vanguarda. Foto: Larissa Pujol.

Num prego suspendeu a decoração de outra vida observada. Permitiu nesse meio do nada o ponto perfurante do limite dos olhos, a se manter nos cantos agudos e concluídos.
O branco longe. Longe esquadro que dos fracos se vê vulnerável; mais de posse a cada sobejo dado, embora a graça perdoe o infinito. Foi assim que sua veste bonita de escura transmitiu ficar ali: carregada de fardo na alforria dos montes! A casca versa mísera a concessão do pano. Outro pedaço adorna os parasitas que se camuflam no deslize belo à face do maior encanto.
De tudo, o passado emprega o seu vão momento. Espalha no outono do pensamento as manifestações senis de entusiasmo ou nuvem... Criou estimada observação quem se outorgou ser peça cativa deste pedaço. Haveria o dia, para o esmero do artista, de olhar-nos à passagem estática de si. O furo condiz à provocada batalha com louvor... O pó derramado esqueceu-se do espaço e se considerou liberto junto ao ar e aos polens soltos da figura.
Logo, as pestanas cedem à contemplação a vista taciturna e infantil do conforto. Terna cavidade fecundante, cujo corpo antes se subjetiva durando a ultravida.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pequenininhas

Protesto meu amor por ti
                     [na calada ilusão à toa
A saber que me console
O beijo que nossa amizade perdoa.

Tu és uma felicidade toda... toda...

Tens a melodia do nome
                    [e a harmonia do sorriso.
Completa és num todo desejo-mor...
Ao fim de tua letra,
A mulher tem a sorte de ser tu.

Minha pequena: se eu te tirar da solidão, tu vens morar na minha? Foto: Larissa Pujol.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

No risco suave dos vultos

Aos teus pés... Entre tuas mãos. (Foto: Larissa Pujol)
Lembro-me, querida, quando entrelaçamos os dedos pela primeira vez... Aquecíamos na macia caixinha formada por nossas palmas as últimas consequências da subliminar confissão. Do nadir da dor, emergiu a delicada lava rumo ao zênite de um corpo-mor amoroso. Miragem entre nossos olhos, querida, para a qual as pernas paralisam hibernadas na serenidade da nossa rendição...
Querida, que maremotora de pele! Água-viva ardente do meu segredo. Os assuntos de amigo cingem códigos na palpável linguagem alugada da luz. Isolamo-nos duas no meio da cinza redoma torpe dos outros. Somos, no entanto, o cerne absolvido: amamo-nos! Deixemos as pessoas irem, pois nos usam as palavras por todo fluxo das línguas que dispomos. Tão doce, minha querida. Doce ainda maior e triste na despedida. Meu amanhã que te encontra me impede de desistir – declaro-te – enquanto minha casa ali vazia preenche em mim o outro silêncio do torpor.
Tétrico fingimento a cair da pele, derretido, por todo caminho das estrofes a combinar contigo. Mítica querida! Comprovas na canção tua impregnada memória. O tempo seríamos nós – dia e noite – metades impossibilitadas de parar... Até os sonhos, o nude dos teus lábios vai se dissolvendo no destino que confia na vastidão de nossa lenda. Secou a estação. O manso vento permite às florezinhas o repouso no breu deserto do chão. Elas resistem e se decompõem.